Estante do Persona – Novembro de 2021

Na segunda edição da Estante do Persona, o Clube do Livro discutiu a obra Jamais o fogo nunca, da escritora chilena Diamela Eltit (Foto: Reprodução/Arte: Vitória Vulcano/Texto de Abertura: Bruno Andrade)

“Imaginava o Paraíso tendo uma biblioteca por modelo.”

– Jorge Luis Borges

Mais um mês de 2021 chega ao fim, e, como de costume, junto dele as coberturas mensais do Persona. Para iniciar os nossos registros de novembro,  damos sequência a uma novidade que nasceu quase nos últimos momentos do ano: o Estante do Persona

Em outubro, criamos o nosso Clube do Livro, formado por membros da Editoria, que tem o intuito de promover a leitura compartilhada e encontros para discussão de obras escolhidas através de sugestões. Ao final do mês, o Clube reúne-se para montar uma lista de indicações literárias e preencher a sua Estante aqui no site, além de criar uma playlist com canções que remetem à obra em questão. 

Assim, em novembro realizamos a segunda leitura do Clube do Livro: Jamais o fogo nunca (2007), da chilena Diamela Eltit, que, no fim do mês, recebeu o prêmio da Feira Internacional do Livro de Guadalajara (FIL). O livro é narrado por uma mulher, cujo principal dado biográfico é ter sido sobrevivente da Ditadura chilena, vivendo, mesmo após o fim do regime, sob o aspecto claustrofóbico da clandestinidade. 

Os últimos dias ainda marcaram a entrega do Prêmio Jabuti, o mais importante da Literatura brasileira. No mês que traz o Dia da Consciência Negra, a premiação consagrou Jeferson Tenório, concedendo a ele o troféu na categoria Romance Literário — um dos mais prestigiosos da premiação — pelo excelente O Avesso da Pele. A obra, publicada pela Companhia das Letras, aborda questões de racismo através dos olhos de um jovem negro ao reimaginar a vida do pai, um professor morto devido à violência policial. O romance desbancou Solução de Dois Estados, de Michel Laub, visto como um dos favoritos ao prêmio.

Na categoria Livro do Ano, quem ficou com o Jabuti foi Sagatrissuinorana, livro infantojuvenil de João Luiz Guimarães e Nelson Cruz, publicado pela editora independente ÔZé. O enredo adapta a história clássica dos Três Porquinhos em uma linguagem que lembra Grande Sertão: Veredas, do mineiro João Guimarães Rosa, e gera um conto para falar sobre as tragédias que ocorreram em Mariana e Brumadinho, ambos desastres ocasionados pelo rompimento de Barragens em Minas Gerais.

Em Não Ficção, o livro-reportagem A República das Milícias, do jornalista Bruno Paes Manso, foi laureado na categoria Biografia, Documentário e Reportagem. A obra traça um paralelo entre a ascensão das milícias no Rio de Janeiro e a consolidação da família Bolsonaro na política, fazendo um recorte temporal que vai dos anos 1960 — com o surgimento dos esquadrões da morte no Rio — até o assassinato da vereadora carioca Marielle Franco, em 2018. 

Na categoria Ciências, a bióloga Natalia Pasternak e o jornalista Carlos Orsi saíram vitoriosos com o livro Ciência no cotidiano: Viva a razão. Abaixo a ignorância!, obra de divulgação científica que, entre outros temas, aborda e desmistifica a falácia de que vacinas causam autismo. A Personalidade Literária de 2021 — honraria entregue desde a criação da premiação — foi Ignácio de Loyola Brandão, escritor araraquarense cinco vezes vencedor do Prêmio Jabuti, e autor de obras de destaque, como Zero (1974) e Não Verás País Nenhum (1981). Em janeiro deste ano, Brandão recebeu o título de Doutor Honoris Causa pela Unesp

E se você procura por mais indicações literárias está no lugar certo. Além de acompanhar o ambiente literário neste mês de novembro, a Editoria do Persona também selecionou algumas outras obras para acompanhar Diamela Eltit e Jamais o fogo nunca na segunda edição do Estante do Persona. Tudo isso você pode conferir logo abaixo.  

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Persona Entrevista: Aline Bei

A autora comenta sobre as inspirações para seu livro mais recente, Pequena Coreografia do Adeus, parte da parceria do Persona com a Cia das Letras

Arte retangular com fundo vermelho. No canto esquerdo foi adicionado 4 faixas com as palavras "persona entrevista" nas cores pretas e brancas, posicionadas na vertical. No topo foi adicionado o texto "aline bei" em letras pretas, e mais abaixo há a foto da autora de mesmo nome em preto e branco. Ela é uma mulher branca jovem. Ela veste uma camisa preta e usa cabelo em coque no topo da cabeça. Seu cabelos são castanho escuro. Atrás dela foi adicionada a capa de seu livro Pequena coreografia do adeus.
O Persona entrevista, pela primeira vez, um nome da Literatura depois de diversas conversas com cineastas do Brasil e do mundo (Foto: Companhia das Letras/Arte: Jho Brunhara)

Caroline Campos

Fiz essa entrevista ainda em julho, há longos cinco meses – que mais parecem cinco anos. Cercada pelos horrores da pandemia e a esperança da vacina, encontrei na leitura de Pequena coreografia do adeus uma forma de desabrochar velhos traumas e olhar para dentro de mim com o mesmo carinho que era capaz de olhar para Júlia, protagonista dessa criação de Aline Bei. Não esperava encontrar o que encontrei – palavras flutuando pelas páginas como pensamentos perdidos, te convidando a preencher esses espaços com sua própria e pesada bagagem. 

E quem diria que a artista por trás de um dos maiores lançamentos literários de 2021 não só elogiaria minha emocionada resenha como também toparia fazer parte de mais uma edição do Persona Entrevista. Em uma conversa no fim da tarde de uma terça-feira, Aline me contou sobre a infância com a leitura, a rotina movimentada pós-lançamento e as várias faces de suas protagonistas femininas. Com alguns meses angustiantes de atraso (2021 não foi fácil para ninguém), você pode conferir esse bate-papo especial para conhecer melhor a figura por trás dessa dança tão (des)amorosa.

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As cores da The Wanted queimam brilhantes em um álbum de memórias

Foto da capa do álbum Most Wanted - The Greatest Hits. Na imagem os 5 integrantes da The Wanted estão sentados à frente de uma parede de tijolos cinzas. No topo da imagem está escrito “The Wanted” em letras brancas, e na parte inferior da imagem “Most Wanted” seguido de “The Greatest Hits” também em letras brancas. Ao centro e à esquerda, Max está sentado no chão e encostado em um sofá marrom, ele é um homem branco de cabeça raspada e veste jaqueta jeans com estampas vermelhas, calça preta e tênis brancos. No encosto do sofá acima de Max está sentado Jay, um homem branco de cabelos claros cacheados que veste um conjunto de terno azul. No meio do sofá está Siva, um homem de pele escura que veste jaqueta estampada bege, calça social azul e tênis branco. À sua direita está Nathan, um homem branco de cabelos cacheados na altura dos ombros que veste um conjunto de terno cinza escuro e sapatos brancos. No braço direito do sofá está sentado Tom, um homem branco de jaqueta dourada e calças com tênis pretos.
A volta da banda após 7 anos separados é uma carta de amor à memória de Tom Parker, que segue tratando seu câncer cerebral inoperável (Foto: Universal Group Music)

Nathália Mendes

Você se lembra do exato momento em que ouviu a primeira música do artista que mais amou em toda a sua vida? Eu tinha 11 anos quando isso aconteceu ao conhecer Glad You Came. Por todos esses anos meu coração esteve quentinho por ter a The Wanted comigo, até mesmo após os anos de hiato da banda, e pude, enfim, presenciar o retorno com o lançamento do Most Wanted: The Greatest Hits.

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60 anos depois, a grande celebração de Dalva de Oliveira merece sobrevivência

Capa do álbum Dalva de Oliveira. Fotografia quadrada, com fundo azul claro. No canto superior esquerdo, observamos o clássico símbolo da gravadora Odeon, formado por um retângulo vertical preto, duas figuras circulares, uma branca e uma vermelha, além da própria palavra Odeon. No canto superior direito, em um retângulo horizontal igualmente preto, lemos Integral Sound em letras brancas. Abaixo do símbolo da Odeon, lemos os nomes das 12 faixas do disco, todos em letras pretas. Sob essa lista, lemos Dalva de Oliveira em letras roxas. Ao lado desses escritos, observamos a cantora Dalva de Oliveira. Ela é uma mulher de sorriso marcante, com a boca aberta, usa batom avermelhado, brincos e colar dourados, está de cabelo castanho e vestido estampado.
Há 60 anos, Dalva de Oliveira lançava um de seus álbuns mais conhecidos de todos os tempos (Foto: Francisco Pereira/Odeon/EMI Records Brasil)

Eduardo Rota Hilário

Escrever sobre Dalva de Oliveira é sempre um desafio. Seja pela dificuldade de encontrar, na internet, documentos e dados referentes à Rainha da Voz que de fato enriqueçam um texto, seja pelo medo de ser insuficientemente qualificado para esmiuçar os trabalhos de uma das maiores cantoras que o Brasil já teve, quando o assunto é este, as palavras costumam fugir de modo impiedoso – e até mesmo covarde. Mas a necessidade de memória grita mais alto, e embarcamos agora num desafio que pode ou não dar certo. Independentemente do resultado, entra em cena o reavivamento das lembranças, prelúdio básico para qualquer imortalidade.

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Marília Mendonça e o eterno legado das Patroas

Maiara, Marília e Maraisa, três mulheres brancas, estão de olhos fechados e chorando lágrimas douradas. Na parte superior, está escrito “Patroas 35%” em dourado, com um fundo preto. Elas também utilizam brinco e anel dourado.
As precursoras do feminejo das patroas em seu último trabalho juntas (Foto: Som Livre)

Giovana Guarizo

Na tarde do dia 5 de novembro, o Brasil foi surpreendido por um plantão da Globo, o qual anunciava um acidente aéreo envolvendo a cantora Marília Mendonça. Até então, foi informado pela emissora, através de informações dadas pela assessoria da artista, que ela e outras quatro pessoas estariam bem. Entretanto, era tudo incerto, pois não haviam informações confiáveis que comprovassem tal afirmação. Após algumas horas de muito trabalho por parte da equipe de bombeiros, veio a notícia que ninguém queria receber: o falecimento da cantora Marília Mendonça, aos 26 anos de idade.

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A Paixão segundo G.H. é um passeio por nós mesmos

A imagem é uma arte com fundo vermelho com a capa do livro A Paixão segundo G.H. ao centro e um selo escrito Clube do Livro Persona no canto direito inferior e o logo do Persona no canto esquerdo superior. A capa tem um fundo na cor creme com linhas de distorção, é possível ver no canto superior direito dunas de areia e edifícios que remetem à arquitetura árabe. Abaixo, está escrito Clarice Lispector em letra cursiva e na cor vermelha e o título do livro em caixa alta e na cor bege. No canto inferior esquerdo, abaixo do título, há o desenho de uma moça branca, com cabelos castanhos longos presos em um rabo de cavalo baixo; ela veste uma blusa azul clara de mangas compridas.
Com 165 páginas, A Paixão segundo G.H. foi a primeira leitura do Clube do Livro do Persona (Foto: Reprodução/Arte: Jho Brunhara)

Vitória Silva

Nascida em 1920, Clarice Lispector é um dos nomes intocáveis da nossa Literatura. A ucraniana, batizada como Haya Pinkhasovna Lispector, chegou ao Brasil aos dois meses de idade, com seus pais de origem judaica que fugiram do país devido à perseguição durante a Guerra Civil Russa. Inicialmente residente em Maceió, em sua infância e pré-adolescência, a autora passou por Recife e pelo Rio de Janeiro, e, por onde trilhava seu caminho, carregava consigo sua paixão pelos livros. 

Após ingressar na Faculdade Nacional de Direito, em 1941, trabalhou como redatora da Agência Nacional e, posteriormente, do jornal A Noite, dando seus primeiros passos no universo da escrita. Não demorou muito para que mergulhasse de vez nele, e publicou seu primeiro romance em 1944, com o título Perto do Coração Selvagem. A obra estreante retrata uma perspectiva sobre o período da adolescência e, logo de cara, fez com que Clarice abrisse novos horizontes na Literatura nacional. 

Quebrando todo e qualquer paradigma literário da época, Lispector abandona noções de ordem cronológica e funde um lirismo único a sua forma de representar ações e emoções humanas, traços que se tornaram mais do que característicos de toda a sua carreira. Não à toa, a produção foi agraciada pelo Prêmio Graça Aranha, e, mais tarde, a autora colecionaria outros títulos de referência, como Laços de Família (1960) e A Hora da Estrela (1977), em que este último ainda ganhou uma adaptação para as telonas, em 1985.

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Se você não pode parar a chuva, dance com ela ao som de Equals

Capa do álbum Equals, de Ed Sheeran. O fundo é vermelho, com jatos de tintas preta, amarelo e rosa. Ao centro, está pintado em preto um sinal de igual. Em torno do sinal, estão desenhos de borboletas em movimento. Na parte inferior uma amarela e, no sentido anti-horário, estão uma azul, uma verde claro, uma bege claro, uma verde e uma azul piscina.
O aguardado quinto álbum solo de Ed Sheeran saiu no final do mês de outubro (Foto: Asylum Records UK/Warner Music UK)

Heloísa Ançanello e Júlia Paes de Arruda 

Amadurecer pode trazer consigo um sentimento de nostalgia. Relembrar, de bom agrado, os velhos tempos e se deliciar com os novos caminhos que tem pela frente. É nessa atmosfera que Ed Sheeran apresenta = (Equals), com um doce sabor que não víamos desde seu último lançamento solo, em 2017. Ainda que o britânico permaneça na sua zona de conforto com o pop comercial, o álbum se destaca por sua qualidade em cada nota e ritmo, tornando-o um dos melhores e mais vulneráveis trabalhos que o cantor já nos apresentou. 

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A segunda temporada de Drag Race Holland é gloriosa até em suas falhas

Cena de Drag Race Holland, mostra a drag Vanessa Van Cartier com a Coroa e o Cetro nos braços. Ela é uma mulher branca, que usa tinta dourada no couro da cabeça, além de um visual de gladiadora na mesma cor.
Vanessa Van Cartier é a vencedora da segunda temporada de Drag Race Holland (Foto: Videoland)

Vitor Evangelista

RuPaul, por favor, está demais! Sem folga, a máquina Drag Race mastigou e nos entregou mais uma edição de sua infinita coleção de franquias. Dessa vez, é hora de analisar a segunda temporada de Drag Race Holland, uma das primas europeias do show. Setembro de 2021, mês de encerramento desse ciclo, foi histórico para a comunidade trans, que assistiu a duas mulheres serem coroadas como as Próximas Super Estrelas Drags. Kylie bradou vitória na América, enquanto a Holanda foi o lugar do triunfo de Vanessa Van Cartier.

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Um bilhão de hits traçam os 10 anos de Austin & Ally

Cena do seriado Austin & Ally. Da esquerda para a direita, estão os atores Calum Worthy, Ross Lynch, Laura Marano e Raini Rodriguez. Eles estão dentro de um escritório, com três quadros pendurados ao fundo. Uma porta cinza escuro com vidro e persiana. Calum é um homem ruivo. Ele veste uma camisa branca estampada e uma jaqueta azul clara. Ele está de lado, olhando para Ross, e passando a mão do amigo com a mão direita. Ross é um homem de cabelo loiro claro liso. Ele veste uma camisa verde militar e uma calça estampada estilo militar, com cinto preto. Ele está sorrindo, olhando para Calum, o abraçando com a mão direita. Ao seu lado, mais abaixo, está Laura. Ela é uma mulher de cabelos ondulados castanhos com luzes loiras. Ela veste uma blusa vermelha com bolinhas esverdeadas na parte superior e 3 pulseiras de fitas pretas. Ela sorri de olhos fechados e está abraçando Ross, com os braços ao redor do pescoço dele. Atrás de Ally, está Raini. Ela é uma mulher de cabelos pretos cacheados compridos. Ela veste uma regata azul e, por baixo, uma regata verde e usa pulseiras coloridas no braço esquerdo. Ela está sorrindo de olhos fechados e engloba Austin e Ally em um abraço. 
“Esse amor nunca vai desaparecer/Nós somos infinitos” (Foto: Disney)

Júlia Paes de Arruda

São seis horas da tarde. O Zapping Zone começa com aquele gosto de comida de vó no jantar. Os olhos estão compenetrados na TV, aguardando o primeiro episódio da nova série do Disney Channel. A sinestesia é tão grande que quase posso me imaginar no sofá, com o olhar vidrado na vinheta promocional. Infelizmente, já não é 2011 e não tenho mais 11 anos. Porém, a lembrança permanece tão fresca na memória que nem parece que uma década se passou desde a estreia de Austin & Ally.

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Ataque dos Cães adestra caubói na marra

Cena do filme Ataque dos Cães, mostra o caubói Phil com a mão no pescoço do jovem Peter. Phil é um homem branco, com barba escura e chapéu marrom, ele tem a pele suja. Peter, de costas, tem pele branca e cabelos pretos, e usa uma camisa branca.
Ataque dos Cães é um faroeste psicológico (Foto: Netflix)

Vitor Evangelista

Vinte e um anos atrás, Bronco Henry morreu. Estamos em 1925 e Phil (Benedict Cumberbatch), seu aprendiz, amigo e muito provavelmente amante, ainda não superou essa perda. Sua maneira de lidar com o luto é se tornando um completo babaca, abusivo com o irmão mais jovem e tóxico com seus funcionários do rancho em Montana. Sob a direção sempre alerta e nada ociosa de Jane Campion, a Netflix constrói no íntegro Ataque dos Cães um drama acrônico, atemporal.

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