Bruno Mars espremeu completamente o suco de suas referências em The Romantic, e o gosto é familiar, mas azedo

Capa do álbum The Romantic. A imagem apresenta uma gravura do rosto de Bruno Mars, que veste uma faixa na cabeça e um casaco, inserida em uma moldura ornamentada com flores. O título do álbum aparece no canto superior esquerdo, na diagonal, e o nome do artista no canto inferior direito, alinhado na horizontal, ambos escritos com uma fonte de caligrafia urbana.
Bruno Mars assina a produção de The Romantic junto a D’Mile, conhecido por colaborar em projetos de Ariana Grande, H.E.R, Drake e Victoria Monét. (Foto: Atlantic Records)

André Aguiar

O que acontece quando fazer o que ninguém está fazendo te torna mais entediante do que original? Após um intervalo de 10 anos desde que lançou seu último projeto solo, Bruno Mars retorna com The Romantic, um trabalho em que o charme do Bruninho não é tão convincente como um dia já foi. Sua posição na indústria musical permite que ele não retroceda mesmo com críticas negativas e uma recepção agridoce do público. Entretanto, quem está aqui apenas pela boa música ainda se questiona se as decisões criativas do artista partem de um lugar de influência ou de conforto. 

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Há 15 anos, Taylor Swift falava sobre amor, maturidade e vingança em Speak Now

Capa do álbum Speak Now de Taylor Swift é uma imagem impactante e elegante, centrada na figura da cantora em uma pose que sugere movimento e graça. Taylor Swift, com seu cabelo loiro encaracolado e lábios vermelhos, veste um chamativo vestido roxo sem alças, cujo tecido esvoaçante é o elemento visual mais dinâmico da cena. Ela está virada ligeiramente para a direita com o braço estendido, e sua expressão é confiante e cativante. O fundo da imagem é predominantemente branco e minimalista, servindo para acentuar o contraste vibrante do vestido roxo. A arte visual mistura elementos de fotografia e ilustração, com respingos de tinta roxa e caligrafia elegante adicionando um toque de fantasia e individualidade. Essa combinação de cores vibrantes com um cenário simples e uma iluminação suave cria uma atmosfera limpa, elegante e expressiva, reforçando o estilo romântico e criativo do álbum.
Speak Now é o terceiro álbum da cantora (Foto: Big Machine Records)

Marcela Jardim

Quando Speak Now chegou ao mundo, em 25 de outubro de 2010, Taylor Swift tinha apenas 20 anos, mas já parecia compreender com precisão o peso da própria voz. Em meio ao sucesso meteórico de Fearless (2008) e à transição entre o country e o pop, ela decidiu fazer um movimento arriscado: escrever todas as faixas sozinha. O resultado foi um álbum que soa íntimo e grandioso, misturando a doçura juvenil com a consciência dolorosa de quem já se feriu pela exposição. Speak Now apresenta a resposta de Swift à crítica que duvidava de sua autoria e maturidade artística, tornando-se uma prova de controle criativo e vulnerabilidade, marcada por arranjos orquestrais, confissões e metáforas cintilantes.

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The Buccaneers entrega vestidos lindos, romances arrastados e menos alma feminina em sua 2º temporada

 Imagem promocional da série The Buccaneers. Cinco mulheres estão deitadas de costas em um campo verde cheio de pequenas flores brancas. Elas usam vestidos de cores suaves e românticas, com flores presas no cabelo. Elas estão dispostas em círculo com as cabeças próximas e olhando para cima
A amizade e irmandade feminina – que era pra ser o foco da série – acabou sendo deixado para segundo plano na nova temporada (Foto: Apple TV+)

Stephanie Cardoso

A segunda temporada de The Buccaneers, série original da Apple TV+, chega tentando manter o charme, mas tropeça justamente onde era mais potente: a amizade entre mulheres. O que na estreia parecia um manifesto delicado sobre juventude feminina, pertencimento e afeto – aquele calor de girlhood, para usar o termo consagrado nos círculos culturais – agora vira pano de fundo para intrigas românticas e melodramas em câmera lenta. Visualmente, continua um deslumbre, porém, narrativamente é como trocar um diário íntimo por uma coluna social de revista de época.

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O Espaço Mais Profundo em Nós permanece à superfície

O rosto de uma jovem é parcialmente iluminado por uma luz verde-azulada que incide lateralmente, criando um contraste suave entre brilho e sombra. Seus cabelos longos caem sobre o rosto, e o olhar baixo sugere introspecção ou melancolia. O fundo é escuro, reforçando a atmosfera etérea e contemplativa da cena.
O filme está entre os indicados ao Prêmio NETPAC no Festival Internacional de Cinema de Calcutá (Foto: MUBI)

Gabriel Diaz

O Espaço Mais Profundo em Nós confirma o olhar de Yasutomo Chikuma para o invisível. Seu cinema se volta ao que não se pode tocar, às zonas de silêncio entre o amor e o luto. Nesta história, apresentada na seção Perspectiva Internacional da 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, Kaori (Momoko Fukuchi), uma mulher arromântica e assexual, compartilha uma vida com Takeru (Kanichiro), um homem em conflito com o próprio corpo e sua permanência no mundo. A relação dos dois é feita de gestos e pausas – uma convivência que não se consome, apenas se sustenta. Quando Takeru morre, o que resta a Kaori é caminhar entre a lembrança e o vazio, acompanhada por Nakano (Ryutaro Nakagawa), o amigo que talvez também tenha amado o mesmo homem.

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Em Bugonia, Yorgos Lanthimos explora o limite entre a morte e a criação

Imagem de Bugonia, filme de Yorgos Lanthimos. Na foto vemos a personagem Michelle, uma mulher branca com a cabeça raspada, olhando para cima. Na região de cima da imagem escorrem dois líquidos sobrepostos, um na cor vermelha e outro na cor amarela.
Bugonia pode figurar entre os indicados no Oscar de Melhor Filme (Foto: Universal Pictures)

Vitória Borges

Exibida no Festival de Veneza de 2025, Bugonia, nova produção de Yorgos Lanthimos, faz parte da seção Perspectiva Internacional na 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo. O longa, que acompanha a história de dois jovens primos obcecados por teorias da conspiração, busca trazer uma sátira um pouco grotesca sobre os pensamentos políticos da esquerda e da direita.

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Nova ’78 chega como eco distante do grito que um dia moveu William S. Burroughs

 Cena do documentário Nova ’78. William S. Burroughs, um homem branco, idoso, de sobretudo claro e óculos, caminha por uma rua de Nova York na década de 1970, cercado por carros antigos e placas de postos de gasolina.
O documentário foi exibido no 78º Festival de Cinema de Locarno (Foto: Pinball London)

Eduardo Dragoneti

Assistido na 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, Nova ’78 é uma viagem fragmentada ao coração da contracultura dos anos 1970. Dirigido por Aaron Brookner e Rodrigo Areias, o documentário parte de imagens até então inéditas, gravadas pelo tio de Aaron, Howard Brookner, da Nova Convention (1978), evento que celebrou o retorno do multiartista William S. Burroughs (1914-1997) aos Estados Unidos e reuniu nomes de diferentes vertentes da Arte, como Patti Smith, Frank Zappa, Laurie Anderson, Allen Ginsberg e Philip Glass. O resultado é uma cápsula de tempo que tenta reconstituir um encontro histórico, mas que – ao emergir mais de quarenta anos depois – carrega o peso de chegar tarde demais.

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50 anos de Wish You Were Here e a presença remanescente de Syd Barrett no lirismo do Pink Floyd

 

Capa do álbum Wish You Were Here do Pink Floyd. Na capa, ambientada no estacionamento dos estúdios da Warner Bros, um pátio de cimento com galpões bege nas laterais, dois homens de terno apertam as mãos enquanto um deles está em chamas.
A capa, criada pela Hipgnosis, simboliza a sensação de ‘ser queimado’ nos negócios, refletindo a visão da banda sobre a indústria musical da época (Foto: Hipgnosis)

Eduardo Dragoneti

Lançado em 12 de setembro de 1975, o álbum Wish You Were Here do Pink Floyd se tornou um marco, não só em sua discografia, mas na história do post-rock e da música conceitual. Surgido em um contexto de esgotamento criativo e crescente desilusão com a indústria fonográfica, o disco é, antes de tudo, uma homenagem profunda dos integrantes da banda (David Gilmour, Roger Waters, Richard Wright e Nick Mason) ao ex-membro Syd Barrett (1946-2006), cuja a ausência pairava sobre eles de forma incômoda após o artista sair do grupo.

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Há 25 anos, Radiohead desconstruía um século inteiro para o nascimento de um novo paradigma musical com Kid A

Capa do álbum musical da banda Radiohead. A arte apresenta uma paisagem montanhosa digitalizada em tons de branco e azul, com céu nebuloso nos tons quentes de vermelho e preto, e um ambiente que remete a uma atmosfera futurista e enigmática. O título “Kid A” aparece em letras brancas na parte superior, enquanto o nome da banda está destacado acima em letras maiores.
De forma revolucionária, Kid A foi o processo de recuperação da Radiohead (Foto: Stanley Donwood)

Gabriel Diaz

Em 2 de outubro de 2000, o Radiohead lançou um álbum que declarou guerra às certezas da música convencional. Kid A emergiu no alvorecer do século XXI como um manifesto involuntário contra a estagnação do rock, no qual a tecnologia e alienação se colidiam. Thom Yorke, à beira do colapso criativo após a turnê de OK Computer, transformou sua crise em ambientes dissonantes e letras fragmentadas – um afastamento radical das guitarras e estruturas previsíveis. Se o término do século XX foi marcado pela nostalgia, o disco foi o primeiro grito do novo milênio: caótico, digital e profundamente humano.

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Ver nunca foi tão político em Uma Batalha Após a Outra

Aviso: O texto contém alguns spoilers

Cena do filme Uma Batalha Após a OutraNa imagem, da esquerda para a direita, estão Perfidia, Willa e Bob, eles são uma família. Os três estão deitados em uma cama, sem roupas, Willa, um bebê, está no meio de Bob e Perfidia, chorando. Ela está deitada em uma coberta grossa. Os pais estão com a mão apoiada no corpo dela, em sinal de calma. Raios de sol atingem o peito e ombros de Perfidia, iluminando a cena. Perfidia é uma mulher negra na faixa dos 35 anos, usa cabelo curto. Bob é um homem branco, na faixa dos 50 anos, de cabelos lisos e claros.
O filme já está entre os cotados para disputar o Oscar 2026 (Foto: Ghoulardi Film Company)

Davi Marcelgo

A relevância e a qualidade de uma obra costumam ser medidas pelos temas abordados. Durante a temporada do Oscar 2025, a vitória de Anora sobre Ainda Estou Aqui e A Substância fez com que algumas esferas de cinéfilos e de fervorosos com a presença do Brasil na cerimônia, menosprezassem, em redes sociais, a conquista por considerarem os filmes de Salles e Fargeat dotados de tópicos mais importantes — um julgamento sem argumentos sólidos, centrado no olhar de quem falava. Entre o campo de guerra do que é mais ou menos significativo, se esqueceu de que Arte não é um produto feito para agradar o consumidor, tampouco deve ser considerado posicionamento político como a principal forma de se relacionar com ela. Uma Batalha Após a Outra, de Paul Thomas Anderson, surge como um trabalho artístico politizado, mas que preserva aspectos do fazer Cinema.  Continue lendo “Ver nunca foi tão político em Uma Batalha Após a Outra”

Juntos viola o body horror em metáfora covarde

Aviso: este texto contém spoilers

Cena do filme JuntosNa imagem, os personagens Tim e Millie estão de pé, abraçados. Ela, à esquerda, está com o braço direito apoiado atrás do pescoço dele, parte do punho está enfaixado. Ambos os rostos estão próximos. Enquanto ela fala, Tim a encara com ternura. Ambos vestem camiseta branca e possuem pele clara. Tim é um homem na faixa dos 40 anos, de cabelos claros e corte que parece um mullet. Sua roupa e rosto estão manchados de sangue. Já Millie é uma mulher na faixa dos 40 anos, de cabelos escuros e longos. Ela usa franja na testa.
O filme enfrenta acusações de plágio, pois sua premissa é semelhante a de outros roteiros (Foto: Diamond)

Davi Marcelgo 

É querer estar preso por vontade; é servir a quem vence, o vencedor; é ter com quem nos mata, lealdade”, Luís Vaz de Camões já tinha cantado a bola sobre o amor ainda no século XVI com seu mais célebre soneto. É um sentimento intenso, conflitante, de oposição, que o Cinema normalmente representa como uma experiência melancólica e que leva às nuvens. Contrariando outros gêneros, não é nenhuma novidade que o Terror vai se apoderar de pessoas e núcleos da realidade que não são assustadores, exceto se os deturpar — crianças, cachorros e, no caso de Juntos (2025), um casal.  Continue lendo “Juntos viola o body horror em metáfora covarde”