A Sombra do Meu Pai: quando o luto vira poesia

Homem negro adulto, vestindo camisa roxa listrada e um relógio no pulso direito, está sentado entre dois meninos, olha à frente com expressão séria. O garoto do lado esquerdo veste uma blusa clara de botões e carrega uma mochila nas costas; tem pele negra e cabelos crespos e curtos e apoia a mão no ombro do homem mais velho. Já o outro menino, também de pele negra e cabelo curto, descansa o rosto na mão. Ao fundo, há uma parede repleta de sapatos enfileirados.
“Isso quer dizer que pessoas que nos amam muito, nós não vemos elas com frequência?” pergunta Remi ao pai, se referindo a ele e a Deus (Foto: Filmes da Mostra)

Mariana Bezerra
A sombra do meu pai é resultado da união criativa entre os irmãos Akinola Davies Jr (diretor e co-roteirista) e Wale Davies (co-roteirista) e do mergulho de ambos em um passado íntimo em relação às interações de ambos com o falecido pai, que morreu quando os cineastas tinham apenas 2 e 4 anos, respectivamente. O que começou com uma carta de amor a um ente querido, feita por Wale durante uma aula de escrita criativa, se tornou um filme que marcou presença em grandes festivais, como o Festival Internacional de Cinema de Toronto e o Festival de Cannes onde ganhou menção especial da Caméra d’Or – além da 49ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, na qual ganhou o prêmio da crítica. O longa também foi reconhecido no BAFTA, levando o prêmio de Melhor Estreia de Roteirista, Diretor ou Produtor britânico.


O filme articula o drama familiar ao contexto político ao retratar o cenário da Nigéria em 1993 – não apenas como um plano de fundo, mas como um elemento que atravessa profundamente a jornada do trio formado pelo pai, Folarin (Ṣọpẹ́ Dìrísù), e seus dois filhos, Akin (Godwin Egbo) e Remi (Chibuike Marvellous Egbo). O roteiro acompanha um único dia na vida desses personagens, que saem de uma cidade rural rumo à capital Lagos para que Folarin pudesse obter o pagamento por serviços prestados na cidade. Assim, a narrativa íntima e afetiva contrasta com as tensões visíveis na capital durante o dia das primeiras eleições presidenciais do país após o golpe de estado de 1983, permeado, no filme, pelo recente e ficcional massacre da base militar Bonny Camp, em que civis foram assassinados por militares.

A narrativa constrói personagens complexos, intensos, cujas nuances se revelam a partir das performances deslumbrantes e cativantes trazidas pelos protagonistas. Nesse caso, o brilho avassalador dos três atores se revela na simplicidade e, muitas vezes, no silêncio. Essa é uma história que surge diante da tentativa dos roteiristas de preencher uma ausência; uma lacuna permeada por memórias quase oníricas e por relatos de familiares acumulados ao longo da vida. Assim, a dramatização contida, a representação da inocência dos meninos e o esforço do pai em preservá-la – em confronto com as suas tormentas financeiras e pessoais – são entregues sem qualquer necessidade de espetacularização, mesmo diante do contexto intensamente dramático.
Nesse sentido, a dinâmica familiar e a ingenuidade infantil se tornam uma terna mensagem sobre amor em seu sentido mais amplo. A figura de Folarin, que exala uma imagem forte e quase irredutível em um primeiro momento, em grande parte pelas responsabilidades que carrega, revela-se, aos poucos, na de um homem preocupado, acima de tudo, com o caráter e a união entre os filhos. Algumas cenas ilustram bem esse cenário, como quando o mais velho, Remi, diz que comprará um sorvete apenas para si, recusando-se a dividir com o irmão por afirmar que o dinheiro lhe pertence. A atitude é prontamente repreendida pelo pai, que não tolera essa postura individualista. Até mesmo pela sua ausência constante em função do trabalho, o homem busca fortalecer a presença de amor e parceria entre os meninos; uma relação que, de fato, se consolidou na história real por trás do filme.

O pefil de Folarin, um homem negro contra a luz do sol, e carregando dois meninos, um nos ombros e o outro nas mãos. Ao fundo, aparece o céu em um tom claro acinzentado.
“Tudo o que podemos esperar é que você seja uma boa pessoa” diz Folarin a um dos filhos (Fonte: Filmes da Mostra)

O retrato dessa intimidade é quase imersivo; elaborado a partir de uma parceria precisa entre direção, roteiro, fotografia e som (Pius Olamilekan Fatoke e CJ Mirra). No filme, tudo o que é necessário para composição da narrativa recebe a devida atenção dessa combinação de elementos: a intensidade do drama familiar, os conflitos políticos e até mesmo o otimismo da população diante da eleição histórica – que foi anulada pelos militares – são atravessados por escolhas técnicas que potencializam essas camadas.
Nesse sentido, há um caráter documental na fotografia de Jermaine Edwards, uma proximidade da câmera com o lugar, que conecta os cenários à história e ao contexto. Esse aspecto parece valioso para Aknola em sua proposta de resgatar as próprias raízes e a sua herança diaspórica. De um lado, enquadramentos fechados, que conectam o espectador aos personagens; de outro, planos mais abertos que permitem uma observação ampliada do cenário e das tensões ao redor, o que vem acompanhado de efeitos sonoros densos e provocantes, completando de forma harmônica a atmosfera de estresse social e político e econômico, os quais também são enfatizados pelo transmissão de rádio, televisão e manchetes de jornais que aparecem no longa.

Folarin, homem negro, vestindo camisa roxa e calça escura, caminha por uma estrada de terra segurando a mão de dois menino, enquanto outro o da esquerda usa uma camiseta amarela com listras azuis e o da direita usa uma camisa clara de tom alaranjado. Ao redor, a vegetação e o céu claro compõem a paisagem.
Os jovens atores que contracenam em A sombra de meu pai são irmãos na vida real (Fonte: Filmes da Mostra)

Para além da química entre os personagens principais e o cenário que os envolve, os nomes secundários da trama também desenvolvem um papel que é valorizado pelo roteiro. Nessa perspectiva, a mãe dos meninos e esposa de Folarin, é apresentada através de uma imagem alegre e gentil; especialmente se tratando da mulher que construiu, anos antes, juntamente com o atual esposo, as lembranças ternas que ele possui da cidade de Lagos – memórias que são passadas para os filhos enquanto percorrem o local. Aqui, há também discussões que surgem quanto à distância do pai da família e sofrimento dessa que parece ser uma grande mulher em relação a sua ausência. Nesse sentido, A sombra de meu pai se coloca como um drama capaz de mergulhar em nuances múltiplas e profundas dentro de um contexto familiar, mas sem cair no vitimismo.
Ao fim, o filme aprofunda o ar melancólico, quando as frustrações coletivas ecoam diretamente na tragédia pessoal da família: o assassinato de Folarin. Nesse contexto, a anulação das eleições converte o otimismo da população em uma série de revoltas. Assim, a efemeridade e impotência diante da vida, abordadas ao longo do longa como um todo, se tornam ainda mais latentes com a morte do pai e diante da frustração da população nigeriana. Nesse momento, o ar denso e contemplativo tomam conta da tela; não há necessidade de investigar a fundo o assassinato de Fola; aqui, os irmãos por trás da câmera voltaram seus olhares para o luto, justamente o sentimento que foi a matéria prima da obra, e optaram por retratar uma comunidade devastada, seja a familiar ou a nacional, em face da perda de um futuro que nunca se concretizou.

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