
Mariana Bezerra
A sombra do meu pai é resultado da união criativa entre os irmãos Akinola Davies Jr (diretor e co-roteirista) e Wale Davies (co-roteirista) e do mergulho de ambos em um passado íntimo em relação às interações de ambos com o falecido pai, que morreu quando os cineastas tinham apenas 2 e 4 anos, respectivamente. O que começou com uma carta de amor a um ente querido, feita por Wale durante uma aula de escrita criativa, se tornou um filme que marcou presença em grandes festivais, como o Festival Internacional de Cinema de Toronto e o Festival de Cannes – onde ganhou menção especial da Caméra d’Or – além da 49ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, na qual ganhou o prêmio da crítica. O longa também foi reconhecido no BAFTA, levando o prêmio de Melhor Estreia de Roteirista, Diretor ou Produtor britânico.
O filme articula o drama familiar ao contexto político ao retratar o cenário da Nigéria em 1993 – não apenas como um plano de fundo, mas como um elemento que atravessa profundamente a jornada do trio formado pelo pai, Folarin (Ṣọpẹ́ Dìrísù), e seus dois filhos, Akin (Godwin Egbo) e Remi (Chibuike Marvellous Egbo). O roteiro acompanha um único dia na vida desses personagens, que saem de uma cidade rural rumo à capital Lagos para que Folarin pudesse obter o pagamento por serviços prestados na cidade. Assim, a narrativa íntima e afetiva contrasta com as tensões visíveis na capital durante o dia das primeiras eleições presidenciais do país após o golpe de estado de 1983, permeado, no filme, pelo recente e ficcional massacre da base militar Bonny Camp, em que civis foram assassinados por militares.
A narrativa constrói personagens complexos, intensos, cujas nuances se revelam a partir das performances deslumbrantes e cativantes trazidas pelos protagonistas. Nesse caso, o brilho avassalador dos três atores se revela na simplicidade e, muitas vezes, no silêncio. Essa é uma história que surge diante da tentativa dos roteiristas de preencher uma ausência; uma lacuna permeada por memórias quase oníricas e por relatos de familiares acumulados ao longo da vida. Assim, a dramatização contida, a representação da inocência dos meninos e o esforço do pai em preservá-la – em confronto com as suas tormentas financeiras e pessoais – são entregues sem qualquer necessidade de espetacularização, mesmo diante do contexto intensamente dramático.
Nesse sentido, a dinâmica familiar e a ingenuidade infantil se tornam uma terna mensagem sobre amor em seu sentido mais amplo. A figura de Folarin, que exala uma imagem forte e quase irredutível em um primeiro momento, em grande parte pelas responsabilidades que carrega, revela-se, aos poucos, na de um homem preocupado, acima de tudo, com o caráter e a união entre os filhos. Algumas cenas ilustram bem esse cenário, como quando o mais velho, Remi, diz que comprará um sorvete apenas para si, recusando-se a dividir com o irmão por afirmar que o dinheiro lhe pertence. A atitude é prontamente repreendida pelo pai, que não tolera essa postura individualista. Até mesmo pela sua ausência constante em função do trabalho, o homem busca fortalecer a presença de amor e parceria entre os meninos; uma relação que, de fato, se consolidou na história real por trás do filme.

O retrato dessa intimidade é quase imersivo; elaborado a partir de uma parceria precisa entre direção, roteiro, fotografia e som (Pius Olamilekan Fatoke e CJ Mirra). No filme, tudo o que é necessário para composição da narrativa recebe a devida atenção dessa combinação de elementos: a intensidade do drama familiar, os conflitos políticos e até mesmo o otimismo da população diante da eleição histórica – que foi anulada pelos militares – são atravessados por escolhas técnicas que potencializam essas camadas.
Nesse sentido, há um caráter documental na fotografia de Jermaine Edwards, uma proximidade da câmera com o lugar, que conecta os cenários à história e ao contexto. Esse aspecto parece valioso para Aknola em sua proposta de resgatar as próprias raízes e a sua herança diaspórica. De um lado, enquadramentos fechados, que conectam o espectador aos personagens; de outro, planos mais abertos que permitem uma observação ampliada do cenário e das tensões ao redor, o que vem acompanhado de efeitos sonoros densos e provocantes, completando de forma harmônica a atmosfera de estresse social e político e econômico, os quais também são enfatizados pelo transmissão de rádio, televisão e manchetes de jornais que aparecem no longa.

Para além da química entre os personagens principais e o cenário que os envolve, os nomes secundários da trama também desenvolvem um papel que é valorizado pelo roteiro. Nessa perspectiva, a mãe dos meninos e esposa de Folarin, é apresentada através de uma imagem alegre e gentil; especialmente se tratando da mulher que construiu, anos antes, juntamente com o atual esposo, as lembranças ternas que ele possui da cidade de Lagos – memórias que são passadas para os filhos enquanto percorrem o local. Aqui, há também discussões que surgem quanto à distância do pai da família e sofrimento dessa que parece ser uma grande mulher em relação a sua ausência. Nesse sentido, A sombra de meu pai se coloca como um drama capaz de mergulhar em nuances múltiplas e profundas dentro de um contexto familiar, mas sem cair no vitimismo.
Ao fim, o filme aprofunda o ar melancólico, quando as frustrações coletivas ecoam diretamente na tragédia pessoal da família: o assassinato de Folarin. Nesse contexto, a anulação das eleições converte o otimismo da população em uma série de revoltas. Assim, a efemeridade e impotência diante da vida, abordadas ao longo do longa como um todo, se tornam ainda mais latentes com a morte do pai e diante da frustração da população nigeriana. Nesse momento, o ar denso e contemplativo tomam conta da tela; não há necessidade de investigar a fundo o assassinato de Fola; aqui, os irmãos por trás da câmera voltaram seus olhares para o luto, justamente o sentimento que foi a matéria prima da obra, e optaram por retratar uma comunidade devastada, seja a familiar ou a nacional, em face da perda de um futuro que nunca se concretizou.
