Tremembé: quando o crime vira espetáculo

[Texto alternativo: Elenco principal de Tremembé reunido atrás das grades. Homens e mulheres aparecem lado a lado, vestindo roupas de presidiários em tons terrosos. A fotografia em amarelo e sépia reforça a sensação de aprisionamento e vigilância, representando o ambiente opressor da penitenciária.]
Tremembé é baseada no livro homônimo de Ulisses Campbell (Foto: Prime Video)
Nathalia Helen

Lançada em Outubro de 2025 pelo Prime Video, Tremembé chegou como uma das produções brasileiras mais comentadas do ano. A série mergulha no universo de crimes reais e na rotina da Penitenciária Doutor José Augusto César Salgado – mais conhecida como a ‘prisão das celebridades’ – para revisitar histórias que marcaram a memória coletiva do país. Sob a direção de Vera Egito, a minissérie propõe um olhar instigante sobre o cotidiano de detentos famosos, transformando casos trágicos e violentos em uma trama envolvente e provocadora.

Com apenas cinco episódios, Tremembé recria o convívio entre figuras conhecidas como Suzane von Richthofen, Anna Carolina Jatobá, Elize Matsunaga, os irmãos Cravinhos, Alexandre Nardoni e Sandrão. Baseada nos livros do jornalista Ulisses Campbell – Elize Matsunaga: a mulher que esquartejou o marido (2021) e Suzane: assassina e manipuladora (2020) – a minissérie combina pesquisa jornalística rigorosa e licença artística, resultando em uma narrativa que mistura fatos e imaginação.

O enredo se desenrola dentro dos muros da penitenciária, alternando cenas da rotina prisional com flashbacks dos crimes que levaram cada um até ali. Apesar de revisitar atos brutais, a direção evita o gore gratuito, preferindo sugerir o horror em vez de exibi-lo. A estética é marcada por tons acinzentados e iluminação fria, reforçando a atmosfera sufocante do cárcere. A montagem acelerada e o ritmo pulsante mantêm o espectador em constante alerta, ainda que por vezes essa velocidade sacrifique a profundidade emocional.

[Texto alternativo: Cena promocional de Tremembé. Três personagens posam para fotos de ficha criminal, segurando placas com seus nomes e penas: Daniel Cravinhos, Suzane von Richthofen e Cristian Cravinhos. O fundo branco com marcações de altura remete ao registro policial, evidenciando o aspecto realista e documental da série.]
Tremembé possui elenco de peso com Carol Garcia, Felipe Simas, Kelner Macêdo e Marina Ruy Barbosa (Foto: Prime Video)
Há algo fascinante e incômodo na maneira como Tremembé transforma criminosos reais em personagens quase mitológicos. As protagonistas femininas surgem com letreiros de introdução dignos de vilãs de quadrinhos, em um jogo visual que ironiza e ao mesmo tempo reforça o fascínio midiático que o público cultiva por essas figuras. O resultado é um true crime que flerta com o absurdo, oscilando entre drama carcerário e a sátira do espetáculo.

Essa abordagem, embora criativa, levanta dilemas éticos. Ao priorizar o entretenimento, a série acaba negligenciando o peso das vítimas e o impacto social dos crimes retratados. O que poderia ser uma reflexão sobre a espetacularização da violência se torna, em certos momentos, um exercício de voyeurismo polido – agradável de assistir, mas desconfortavelmente superficial. O julgamento moral é deixado para a audiência, como se a produção se eximisse da responsabilidade de propor uma leitura crítica mais consistente.

Mesmo assim, a obra acerta em alguns aspectos. A atuação de Marina Ruy Barbosa merece destaque: seus olhares precisos e postura calculada recriam a frieza da personagem real sem cair na caricatura. O elenco coadjuvante, porém, nem sempre acompanha o mesmo nível – alguns papéis soam como figuras decorativas, criadas apenas para preencher o espaço da prisão. Ainda assim, as caracterizações físicas e visuais são notavelmente fiéis, o que contribui para o realismo da obra.

[Texto alternativo: Foto da série Tremembé, do Prime Video. Quatro detentas estão em uma cela de paredes verde-água, com camas de alvenaria e ambiente desgastado. Todas usam uniformes em tons de bege e marrom. O clima é tenso e introspectivo, destacando a rotina e o confinamento dentro da penitenciária feminina.]
Tremembé transforma a penitenciária em palco psicológico (Foto: Prime Video)
Outro acerto está na trilha sonora, que traz escolhas ousadas como a versão de Ana Canãs de Perigosa. A canção embala cenas de manipulação e rivalidade com um toque de ironia pop, misturando leveza e tensão em doses precisas. Essa combinação reforça o tom ácido e às vezes cômico que permeia a série, em especial nas interações entre as detentas, repletas de rivalidades e segredos velados.

É impossível não traçar paralelos entre Tremembé e a premiada Orange Is the New Black (2021), seriado norte-americano que também explorou o universo prisional feminino. Enquanto a produção da Netflix apostava na diversidade e na crítica social como eixos centrais, Tremembé opta por um caminho mais estético e espetacularizado, focando nas tensões pessoais e nas relações de poder entre mulheres marcadas pela fama. Essa diferença torna a série brasileira mais teatral e menos sociológica, porém também mais ousada em sua mistura de humor afiado e tragédia.

Apesar da força estética, Tremembé tropeça quando tenta equilibrar suas duas frentes narrativas: o presídio feminino, intenso e cheio de conflitos, e o masculino, – que soa quase como uma reunião de bar –, sem o mesmo peso dramático. A divisão de foco dilui o impacto do conjunto e prejudica o desenvolvimento de personagens que poderiam render mais. Essa escolha narrativa reforça a ideia de que o interesse do público – e da direção – recai sobre as figuras femininas, transformadas em ícones midiáticos.

[Texto alternativo: Cena de Tremembé mostrando Elize Matsunaga e Sandra Ruiz posando para fichas criminais. Ambas seguram placas com seus nomes e penas. O olhar firme das personagens reforça a tensão entre arrependimento e frieza, um dos temas centrais da narrativa.]
Dirigida por Vera Egito, a série mistura tensão e energia em cada cena (Foto: Prime Video)
Ao escolher não justificar os crimes, e também evitar um debate mais profundo sobre o sistema prisional, a série se mantém em um terreno confortável. Questões como superlotação, tratamento desigual e o papel da mídia na criação de ‘celebridades do crime’ aparecem apenas de forma tangencial. Assim, o potencial de crítica social se perde entre as intrigas pessoais, e o espetáculo se sobrepõe à análise.

No fim, Tremembé é uma produção esteticamente refinada e instigante, contudo, moralmente ambígua. É fácil de maratonar – seu formato enxuto e ritmo dinâmico prendem a atenção –, no entanto deixa um eco de frustração em quem busca profundidade. Ao transformar o confinamento físico em metáfora para prisões psicológicas e sociais, a produção revela que o verdadeiro cárcere talvez não esteja apenas entre as grades, mas sim na maneira como a sociedade consome e glamouriza a tragédia alheia.

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