![[Texto alternativo: Elenco principal de Tremembé reunido atrás das grades. Homens e mulheres aparecem lado a lado, vestindo roupas de presidiários em tons terrosos. A fotografia em amarelo e sépia reforça a sensação de aprisionamento e vigilância, representando o ambiente opressor da penitenciária.]](http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/05/image4-800x450.jpg)
Lançada em Outubro de 2025 pelo Prime Video, Tremembé chegou como uma das produções brasileiras mais comentadas do ano. A série mergulha no universo de crimes reais e na rotina da Penitenciária Doutor José Augusto César Salgado – mais conhecida como a ‘prisão das celebridades’ – para revisitar histórias que marcaram a memória coletiva do país. Sob a direção de Vera Egito, a minissérie propõe um olhar instigante sobre o cotidiano de detentos famosos, transformando casos trágicos e violentos em uma trama envolvente e provocadora.
Com apenas cinco episódios, Tremembé recria o convívio entre figuras conhecidas como Suzane von Richthofen, Anna Carolina Jatobá, Elize Matsunaga, os irmãos Cravinhos, Alexandre Nardoni e Sandrão. Baseada nos livros do jornalista Ulisses Campbell – Elize Matsunaga: a mulher que esquartejou o marido (2021) e Suzane: assassina e manipuladora (2020) – a minissérie combina pesquisa jornalística rigorosa e licença artística, resultando em uma narrativa que mistura fatos e imaginação.
O enredo se desenrola dentro dos muros da penitenciária, alternando cenas da rotina prisional com flashbacks dos crimes que levaram cada um até ali. Apesar de revisitar atos brutais, a direção evita o gore gratuito, preferindo sugerir o horror em vez de exibi-lo. A estética é marcada por tons acinzentados e iluminação fria, reforçando a atmosfera sufocante do cárcere. A montagem acelerada e o ritmo pulsante mantêm o espectador em constante alerta, ainda que por vezes essa velocidade sacrifique a profundidade emocional.
![[Texto alternativo: Cena promocional de Tremembé. Três personagens posam para fotos de ficha criminal, segurando placas com seus nomes e penas: Daniel Cravinhos, Suzane von Richthofen e Cristian Cravinhos. O fundo branco com marcações de altura remete ao registro policial, evidenciando o aspecto realista e documental da série.]](http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/05/image1-1-800x450.jpg)
Essa abordagem, embora criativa, levanta dilemas éticos. Ao priorizar o entretenimento, a série acaba negligenciando o peso das vítimas e o impacto social dos crimes retratados. O que poderia ser uma reflexão sobre a espetacularização da violência se torna, em certos momentos, um exercício de voyeurismo polido – agradável de assistir, mas desconfortavelmente superficial. O julgamento moral é deixado para a audiência, como se a produção se eximisse da responsabilidade de propor uma leitura crítica mais consistente.
Mesmo assim, a obra acerta em alguns aspectos. A atuação de Marina Ruy Barbosa merece destaque: seus olhares precisos e postura calculada recriam a frieza da personagem real sem cair na caricatura. O elenco coadjuvante, porém, nem sempre acompanha o mesmo nível – alguns papéis soam como figuras decorativas, criadas apenas para preencher o espaço da prisão. Ainda assim, as caracterizações físicas e visuais são notavelmente fiéis, o que contribui para o realismo da obra.
![[Texto alternativo: Foto da série Tremembé, do Prime Video. Quatro detentas estão em uma cela de paredes verde-água, com camas de alvenaria e ambiente desgastado. Todas usam uniformes em tons de bege e marrom. O clima é tenso e introspectivo, destacando a rotina e o confinamento dentro da penitenciária feminina.]](http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/05/image2-800x450.jpg)
É impossível não traçar paralelos entre Tremembé e a premiada Orange Is the New Black (2021), seriado norte-americano que também explorou o universo prisional feminino. Enquanto a produção da Netflix apostava na diversidade e na crítica social como eixos centrais, Tremembé opta por um caminho mais estético e espetacularizado, focando nas tensões pessoais e nas relações de poder entre mulheres marcadas pela fama. Essa diferença torna a série brasileira mais teatral e menos sociológica, porém também mais ousada em sua mistura de humor afiado e tragédia.
Apesar da força estética, Tremembé tropeça quando tenta equilibrar suas duas frentes narrativas: o presídio feminino, intenso e cheio de conflitos, e o masculino, – que soa quase como uma reunião de bar –, sem o mesmo peso dramático. A divisão de foco dilui o impacto do conjunto e prejudica o desenvolvimento de personagens que poderiam render mais. Essa escolha narrativa reforça a ideia de que o interesse do público – e da direção – recai sobre as figuras femininas, transformadas em ícones midiáticos.
![[Texto alternativo: Cena de Tremembé mostrando Elize Matsunaga e Sandra Ruiz posando para fichas criminais. Ambas seguram placas com seus nomes e penas. O olhar firme das personagens reforça a tensão entre arrependimento e frieza, um dos temas centrais da narrativa.]](http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/05/image3-1-800x450.jpg)
No fim, Tremembé é uma produção esteticamente refinada e instigante, contudo, moralmente ambígua. É fácil de maratonar – seu formato enxuto e ritmo dinâmico prendem a atenção –, no entanto deixa um eco de frustração em quem busca profundidade. Ao transformar o confinamento físico em metáfora para prisões psicológicas e sociais, a produção revela que o verdadeiro cárcere talvez não esteja apenas entre as grades, mas sim na maneira como a sociedade consome e glamouriza a tragédia alheia.
