O nada plástico coração de Miley Cyrus

Seguindo a tendência da vez do mundo do pop, Miley Cyrus volta às décadas de 70 e 80 para construir Plastic Hearts, seu sétimo álbum que, numa direção diferente dos trabalhos nostálgicos mais bem-sucedidos de 2020, se aloca entre as muitas possibilidades do rock.

Fotografia em preto e branco da artista Miley Cyrus. Ela está de lado e a imagem capta apenas seu rosto, que está inclinado para o lado direto. Miley encara a câmera com uma expressão séria mas serena. Seus cabelos loiros são curtos, na altura no queixo, e ela também usa uma franja um pouco acima da sobrancelha. Miley usa maquiagem nos olhos e um batom escuro. A artista está deitada e apoia a cabeça nas costas de um divã.
Para compor a identidade visual da nova era, Miley foi fotografada pelas lentes mais famosas do mundo do rock, que também capturou a icônica capa do segundo disco do Queen e David Bowie na lendária fase Ziggy Stardust (Foto: Mike Rock)

Raquel Dutra

Ela finalmente veio. Depois de muito passear entre diversos gêneros e eventualmente se perder entre tentativas de expressar sua arte, Miley Cyrus está de volta aos nossos ouvidos com um trabalho que faz jus à artista que é. Prenunciada pelo single Midnight Sky e acompanhada pelo baixo determinado da primeira faixa de Plastic Hearts, Miley não só chega exatamente do jeito que prometeu por muito tempo como também do exato jeito que ansiamos por vê-la. Isto é, experimentando expressar sua catártica rebeldia com seus vocais roucos nas vestes potentes do rock.

Os solos de guitarra e os brados enérgicos de liberdade que nascem de WTF Do I Know e de boa parte das faixas tomadas pela aura punk e glam rock do álbum, entretanto, dividem espaço com letras que versam sobre a situação delicada de alguém que mesmo celebrando sua recuperação ainda processa o que viveu. Em escolhas estéticas que lembram o último mundo de Lady Gaga, a premissa central de Plastic Hearts ressuscita a profundidade emocional de Miley, que talvez pelas muitas tentativas e erros, era quase extinta de seus últimos trabalhos.

Claro que, falando de Miley Cyrus, esse caminho não seria óbvio e traria surpresas. Sem melancolia, já no início, ela está segura em cantar “Então me diga, amor, estou errada por seguir em frente?”, sacudindo a poeira e deixando o passado e as turbulências na vida pessoal que abalaram sua carreira nos últimos anos. Em novembro de 2018, a artista perdeu boa parte de um material que havia gravado para uma série de três EPs que “contariam sua história” e formariam um novo álbum num incêndio que também consumiu sua casa e boa parte do estado da Califórnia. 

Passado o trauma de 2018, no final de 2019 Miley vivenciou outro momento delicado e super midiático: o fim de seu relacionamento de dez anos com o ator Liam Hemsworth. Dessa vez, a artista que se vê nos tabloides desde criança parece ter sentido mais o baque dos caminhos nem sempre felizes da vida e do assédio da imprensa, e depois de se retrair por um tempo, afirmou ao anunciar o novo álbum que se encontrouem meio às cinzas.

Capa do álbum Plastic Hearts de Miley Cyrus. A capa é colorida em tons de rosa e preto e é traz uma fotografia de Miley alinhada à esquerda da imagem. Na foto, Miley é capturada da cintura para cima e está sentada em uma poltrona. Ela apoia o dedo indicador da mão esquerda nas têmporas e os outros dedos caem sobre seu queixo. O rosto de Miley é levemente inclinado para o lado direto da imagem (que na verdade é seu lado esquerdo) e ela encara a câmera com uma expressão séria, mas serena. Seus cabelos são curtos, na altura do queixo, e ela usa uma franja bagunçada um pouco acima das sobrancelhas. Miley usa maquiagem nos olhos, que fica mais escura à medida em que se aproxima do canto externo do olho, e um batom escuro. Ela também veste uma regata clara que é estampada com o escrito 'CENSORED' em caixa alta e em preto. Ela também usa muitos colares de corrente e um deles tem um pingente grande de cruz. Nas mãos, Miley usa luvas pretas e em cima delas muitos anéis e pulseiras, também de correntes. No lado direto da imagem, está o título do álbum, em caixa alta e num tom de rosa pink em cima de uma faixa preta. No canto inferior esquerdo, há o selo de aviso parental de conteúdo explícito.
Capa do álbum (Foto: Reprodução)

O caos foi transposto para o álbum: os tons fortes acompanham os sons marcantes que emanam a energia obscura mas festiva, consciente, responsável (sim, ainda estamos falando de Miley Cyrus) e confiante de Plastic Hearts. Combinando o fervor do pop-rock dos anos 70 e 80 e as dores e delícias de ser quem é, Miley se distancia do narcisismo barato característico e irritante de seus últimos trabalhos. Com uma segurança que a permite assumir também suas fragilidades, a artista se expressa em formatos que fizeram parte da sua formação musical e artística.

O acerto vem porque Cyrus conhece bem os anos, os movimentos, os gêneros e os artistas que celebra e referencia no álbum. Tanto é que além dos solos das cordas, o brilho das roupas de látex e vocais rasgados, os próprios ícones da cultura punk acompanham Miley em Plastic Hearts, dando concretude ao conhecimento e à identificação que ela tem com os estilos nas músicas.

Ao lado do icônico Billy Idol (com quem já performou no passado), ela dá vida à Night Crawling. Transpirando os melhores elementos que acompanham o ídolo punk, os dois transpiram conexão numa música que você com certeza pagaria para ouvir ao vivo num festival quarenta anos atrás, gritando o refrão com do fundo dos pulmões enquanto bate o coturno no ritmo da guitarra e dos sintetizadores. O mesmo é com Bad Karma, que traz a participação de ninguém mais, ninguém menos, que a Rainha do Rock e Madrinha do Punk Joan Jett, e a banda que a acompanha desde 1980, The Blackhearts. A veterana, que também já criou bons sons junto de Cyrus, traz sua experiência do rock para o quê do country de Miley na faixa mais sensual do disco. 

Fotografia de Miley Cyrus. A artista é capturada da coxa para cima, sob um fundo cinza claro e está posicionada mais à direita da imagem. Miley está de frente para a imagem, e passa as mãos pelos cabelos, atrás da orelha. Seus cabelos loiros são curtos e bagunçados, na altura do queixo, e ela usa uma franja um pouco acima das sobrancelhas. Ela usa uma maquiagem cinza e preta e um batom marrom médio. Miley veste um top branco que vai até a metade do peito e embaixo um sutiã preto, que é visível. Ela também veste uma meia arrastão preta, que aparece um pouco na cintura, que está embaixo de uma calça jeans azul clara. Miley usa muitos acessórios, dentre anéis, colares e pulseiras, todos pesados, de couro, fivelas e corentes. Muitas de suas tatuagens também são visíveis, nos braços, nas mãos e nas costelas.
“Você se atreve a me chamar de louca, você já olhou em volta deste lugar?” (Foto: Mike Rock)

Mas Cyrus ainda é uma artista do século XXI. E na sua volta às décadas de 70 e 80 ela não perde a chance de incluir na viagem a dona  do pop-anos-70-em-2020. Para refrescar um pouco a sonoridade do álbum, Miley canta Prisioner junto de Dua Lipa, que aproveita as façanhas da voz potente de Plastic Hearts para se soltar numa música menos emocionalmente densa (algo muito bem-vindo em meio às outras canções). A diversão da juventude rebelde cheia de ousadia pra desbravar a liberdade transforma a faixa numa versão 80’s do hino We Can’t Stop

E falando em pop, o gênero que Miley perseguiu por um bom tempo surge timidamente em Hate Me. A faixa agrada aos saudosistas com sua sonoridade parecida com a da época de ouro de Cyrus, celebrada onze anos atrás em Party In The U.S.A. Sobre isso, abro um parênteses porque comparações como o passado da artista precisam de ressalvas: não esqueçamos que a Miley de 2020 já viveu poucas e boas e não canta versos como Eu me pergunto o que aconteceria se eu morresse (…)/Seria muito difícil dizer adeus? (…)/Talvez nesse dia você não me odeie” à toa. 

No álbum que mais aproveita seu potencial vocal e sua vastidão emocional, as baladas são de uma preciosidade ímpar, possibilidade que alguns de nós já percebíamos na sua controversa era de 2013. A dor de insistir um relacionamento com alguém que é muito diferente rasga o coração e as cordas vocais de Miley junto dos instrumentos acústicos de Angels Like You. Com pesar, ela se contenta com o ônus do autoconhecimento: “Eu sou tudo o que eles disseram que eu seria”.

Como fruto do amadurecimento, Miley nos presenteia com uma canção que é quase ela mesma em ondas sonoras. Muito provavelmente a melhor de todo o álbum, High é Miley Cyrus da cabeça aos pés. Profunda, ousada, emotiva, surpreendente e verdadeira, a faixa tem um fundo country, mais elementos acústicos e a voz cheia de sentimento da artista que se combina à um coral, trazendo um sopro fantástico do gospel. Embora as divindades fiquem para o título da canção anteriormente mencionada – na qual ela afirma ser uma frequentadora do inferno -, aqui, em meio ao sofrimento, a artista parece alcançar os céus. E leva-nos junto dela.

O sucesso das baladas se repete de forma menos majestosa na nostálgica Never Be Me, que é a trilha perfeita para nos transportar para o balcão de um bar cheio de corações partidos na década de 80, e volta com louvor no encerramento do álbum. Finalizando Plastic Hearts com chave de ouro – quase literalmente -, a melancolia dos instrumentos de Golden G String se enlaça perfeitamente com os dilemas pessoais que Miley confessa na letra, construindo quase uma conversa melódica da artista consigo mesma. Ainda nas constatações nem sempre agradáveis da autoanálise, desta vez ela concluiu ao final do refrão que deveria ir embora”, mas acaba decidindo o contrário e informa: “acho que vou ficar”. Ainda bem.

Fotografia de Miley Cyrus. A artista está posicionada ao centro, da cintura pra cima, de frente para a câmera. Seu rosto está levemente inclinado para o lado esquerdo da imagem e suas mãos estão enganchadas na cintura. Seus cabelos loiros são curtos, na altura do ombro, e estão bagunçados, meio ondulados. Ela também usa uma franja na altura das sobrancelhas e um chapéu country preto de pelinhos. Miley usa uma maquiagem azul metálica e cinza escura e um batom marrom médio. Ela veste uma camiseta da banda Blondie, que mostra os membros e o logo da banda em cima, numa fonte cursiva e em amarelo. Ela também usa colares dourados finos e uma pulseira de corrente prateada na mão direita.
O álbum ainda abriga dois covers de Miley aclamados e virais nas redes sociais: uma versão de Zombie, da banda The Cranberries do ano de 1993, e outro de Heart Of Glass, interpretada originalmente pelo Blondie em 1978 (Foto: Reprodução)

Tamanha fidelidade que Plastic Hearts conserva pelas suas referências constrói na pele de Miley uma exímia diva do punk/pop-rock perdida em 2020. Ao não apresentar nada fora da zona de conforto dos gêneros que ela tanto admira, Cyrus constrói uma relação curiosa com suas referências, com o tempo e com a própria arte: não tem nada de presente ou futuro no trabalho da artista que por muito tempo carregou o título de ser um promessa do pop. Exceto a expectativa pelo que virá a seguir e da possibilidade promissora que ela construiu para si mesma.

Seja em um sinal de respeito aos estilos ou uma limitação criativa combinada ao desejo de finalmente acertar depois dos traumas das modas que inventou nos últimos anos, olhando sistematicamente de fora da trajetória de Miley e tendo em mente a ânsia da indústria por reinvenção – comportamento sentido especialmente por artistas mulheres –  Plastic Hearts e suas criações que são exatamente a música feita cinquenta anos atrás não é nada inovador. Mas seu valor não obedece às movimentações tradicionais do mundo da música.

Entretanto, quando todo o seu passado na indústria da música é contextualizado, fica fácil de entender o valor do álbum, que não obedece às movimentações tradicionais do mundo da música, e as escolhas que Cyrus inteligentemente fez. Agora, o momento era de aproveitar a segurança que caminhos já conhecidos permitem para assumir com segurança suas emoções mais profundas. De quebra, Miley conseguiu reconstituir com uma fidelidade surpreendente movimentos musicais com os quais sequer teve contato pessoalmente, mas que se encaixam muito bem na sua personalidade e com os quais ensaia se atrelar há muito tempo. Assim, Plastic Hearts é o ‘finalmente!’ de Miley, que fez o que fez com uma maestria que marca o álbum como um dos grandes acertos de sua carreira, que alcançando boas avaliações da crítica especializada – que dificilmente simpatiza com Cyrus – pode ser visto até mesmo como seu melhor trabalho até agora.

Fotografia de Miley Cyrus. A artista aparece do peito para cima, apoiada em uma parede de fundo cinza e muito grafitada em tons de preto, branco, amarelo, verde e azul. O rosto de Miley está levemente inclinado para a esquerda, e encara diretamente a câmera. Seus cabelos loiros são curtos, na altura dos ombros, bagunçados e molhados, assim como a franja, na altura das sobrancelhas. Ela usa uma maquiagem cinza nos olhos e um batom cor-de-boca. Ela veste um top branco que termina na metade do peito, um sutiã preto e muitos colares com desenhos de cruzes. O queixo de Miley está sujo de sangue, assim como o meio do pescoço e o centro do top branco, que apresenta uma mancha ainda maior e mais dispersa.
Dua Lipa já esclareceu as intenções de sua nostalgia futura cantando “Você quer uma música atemporal/Eu quero mudar o jogo”, e os mesmos versos podem ser usados para compreender o trabalho de Miley Cyrus (Foto: Reprodução)

Essa essência complexa da Miley Cyrus que fez Plastic Hearts é o que dá sustância ao disco e também cria o aspecto que o destaca dentre toda a sua diversa discografia. Aqui, ela não se contenta com estereótipos rasos nem restringe sua vastidão emocional à personagens pré-definidos. Longe da rebelde sem causa que conquistou corações e afastou muitos outros de Bangerz e da country jovial demais que não condizia com a artista experiente que criou Younger Now, em Plastic Hearts, pela primeira vez, sentimos Miley segura de si mesma em toda a sua complexidade, que ironicamente – e obviamente – também inclui assumir algumas inseguranças e reconhecer suas próprias limitações. 

O que solidifica tudo isso é a ausência de medo em bancar tudo o que se é, e depois de tanto erros e acertos, agora Cyrus parece ter compreendido a si mesma. “Corações de plástico estão sangrando” ela alerta rapidamente na música que nomeia o álbum. Que sangrem, respondemos, ansiosos pelas próximas criações de Miley. Sentimento bruto é o ponto de partida mais certeiro para fazer arte, e espremer seu coração até a última gota para cantar seus sentimentos e assim regenerar-se enquanto curte o caminho com muito estilo, ela mostrou que sabe fazer.

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