
Eduardo Dragoneti
Sete anos separam Star Wars: A Ascensão Skywalker (2019) de O Mandaloriano e Grogu (2026). Nesse intervalo, a Lucasfilm abandonou os cinemas para investir nas produções do Disney+, onde O Mandaloriano (2019) nasceu como a aposta mais bem-sucedida da franquia desde a trilogia original de George Lucas. A série transformou Din Djarin (Pedro Pascal) e Grogu numa dupla amada globalmente, e o anúncio do longa foi recebido com uma expectativa alta, já que Star Wars não passava nas telonas desde as sequels, que deixaram um gosto amargo na boca dos fãs.
O problema central de O Mandaloriano e Grogu está na sua própria existência, e não na execução. A terceira temporada de O Mandaloriano encerrou o arco de Mando e Grogu com satisfação e as poucas pontas soltas sobre o tão misterioso planeta Mandalore foram ignoradas nesse filme. Bo-Katan e outros personagens interessantes que foram aclamados pelo público na série, também não retornam para o longa. O fanservice de inserir Zeb Orrelios, figura que até então só tinha aparecido nas animações desse universo, também não funciona por falta de aprofundamento na história do personagem. Poderia ser qualquer outro piloto da galáxia ajudando Mando, e o enredo continuaria o mesmo.
O roteiro assinado por Jon Favreau, Dave Filoni e Noah Kloor divide a história em blocos que se surtem como capítulos soltos de uma quarta temporada descartada. A missão de explodir uma base remanescente do Império, a busca por um Hutt desaparecido, ou estar fugindo de outro caçador de recompensas são aventuras que se assemelham com as da série. Uma Nova Esperança (1977), em tempo semelhante de projeção, construía um universo inteiro e apresentava personagens inesquecíveis. A comparação com os sucessos da franquia é inevitável quando se fala no retorno de Star Wars aos cinemas.

A impressão que fica ao fim do primeiro ato é de que o filme acabou, já que a missão que abre a história é resolvida com competência e ritmo. Quando a trama recomeça numa nova direção, já com quase uma hora, fica evidente que o roteiro (Jon Favreau e Dave Filoni) não tinha material suficiente para sustentar um longa-metragem. As cenas que preenchem esse segundo bloco existem para ocupar o espaço entre uma aventura e outra, sem agregar nada ao arco dos personagens nem ao universo de Star Wars, e o longa é autoconsciente disso. As cenas estão ali simplesmente para preencher tempo de tela.
Grogu continua sendo um acerto inegável, e Favreau usa o personagem como uma segurança. O ‘baby Yoda’, construído digitalmente pela equipe da ILM, ganha uma expressividade que o streaming não permitia fazer, e o diretor o usa com generosidade numa sequência central do segundo ato que remete aos clássicos de aventura como Gremlins (1984) e Willow: Na Terra da Magia (1988). A trilha sonora (Ludwig Göransson) sustenta os furos do roteiro e repete a fórmula: músicas icônicas da franquia e de O Mandaloriano, que preservam a identidade sonora de Star Wars.
Pedro Pascal entrega exatamente o que sempre entregou como Mando, nem mais nem menos. O personagem não desenvolve nada além do que já havia sido construído nas três temporadas anteriores, e o roteiro não lhe oferece nenhuma cena que exija algo diferente do que o ator já demonstrou saber fazer. A produção técnica, por outro lado, é impecável. Para as cenas com armaduras, perseguições e combates, Favreau contratou dublês e pilotos profissionais para evitar o excesso de CGI, e o resultado aparece na tela com fisicalidade, que as produções da Disney+ raramente são capazes de replicar.

Rotta, o Hutt, dublado por Jeremy Allen White (O Urso, 2022), é o caso mais sintomático do filme. O personagem tem uma trajetória com potencial, um jovem tentando escapar da sombra do pai, Jabba, para construir uma identidade própria, e Allen White entrega o que pode sob todo o CGI. O problema é que ele explica o posicionamento do personagem pelo menos três vezes em menos de 30 minutos, retirando qualquer espaço para o espectador descobrir por conta própria. A Coronel Ward, interpretada por Sigourney Weaver (Alien, 1979), também poderia se tornar uma nova grande peça para a Nova República, mas a trama rasa simplifica o trabalho da renomada atriz.
O Mandaloriano e Grogu funciona como convite para a série, mas peca em ser uma porta para o universo Star Wars. Uma Nova Esperança e O Império Contra-Ataca (1980), continuam sendo portais de entrada para qualquer espectador, independente de bagagem prévia. O novo longa exige três temporadas de investimento emocional para funcionar, e mesmo quem às assistiu sai sem nada novo e se quer se emociona. Alguém sem conhecimento da franquia provavelmente sairá com curiosidade sobre a série, porém dificilmente com vontade de mergulhar no universo que George Lucas constrói desde 1977.
A decisão de transformar O Mandaloriano em franquia cinematográfica diz menos sobre a história de Din Djarin e Grogu do que sobre o estado atual de Star Wars como propriedade intelectual. O sucesso da franquia é eterno, com boas produções saindo, como Andor (2022). Porém, após o fracasso de Han Solo: Uma história Star Wars (2018) e o fim da trilogia sequel em 2019, a Disney precisava de uma aposta segura para recolocar a saga nas telas. Mando e Grogu eram essa aposta, mas filmes feitos para não errar raramente acertam de verdade.

Star Wars ficou sete anos longe dos cinemas. Os fãs que suportam os episódios VII, VIII e IX, que acompanharam a série semana a semana e se encantaram com Grogu desde seu primeiro aparecimento no streaming, mereciam um retorno à altura dessa espera. O Mandaloriano e Grogu não é ruim, é confortável, competente e, em vários momentos, genuinamente divertido. No entanto, isso não é suficiente quando a franquia mais amada da ficção científica volta aos cinemas pela primeira vez em anos. Jon Favreau tinha os melhores ingredientes possíveis, mas optou por fazer um misto quente com achocolatado.
