Maldição da Múmia…quem é ela?

Cena do filme Maldição da Múmia Na imagem, a personagem Katie encara sua frente com um olhar penetrante. Ela é uma garota na faixa dos 17 anos, de pele clara, com textura seca e cicatrizada. Seus cabelos são claros, longos e finos. A mão direita segura uma corda. O fundo é seu quarto, de paredes vermelhas.
Lee Cronin retorna ao lar da família disfuncional após três anos de A Morte do Demônio: A Ascensão (Foto: New Line Cinema)

Davi Marcelgo 

O romeno Radu Jude, em 2025, com seu Drácula, teceu críticas a Hollywood por retirar a aura da lenda particular da Romênia, Vlad, o Empalador, e transformá-la em versões deturpadas. Desse movimento, há experiências interessantes, de A Hora do Espanto (1985) a Crepúsculo (2008), algumas obras se distanciaram do mito original e criaram algo próprio: ícones e personalidade. Essa afirmação não se aplica à Múmia, que desde a virada do século não recebe uma versão de louros. O que significa que Maldição da Múmia, de Lee Cronin, traça o mesmo caminho.

Afinal, o que é a Múmia? O monstro clássico, embutido em nossas cabeças, tem origem em histórias vitorianas e subitamente, do filme da década de 1930. A figura egípcia não é uma única pessoa, mas sim uma cerimônia para conservar corpos. Portanto, diferente do Frankenstein e do Drácula, ela é um caso que qualquer nova adaptação tem passe livre para deitar e rolar. O cineasta irlandês quase faz isso, quase porque há uma diferença discrepante entre a narrativa estrelada por Karloff (1932), a trilogia protagonizada por Brendan Fraser (1999-2008) e, graças a Deus, à primeira e última pá de terra ao Universo Sombrio, A Múmia, de 2017, com Tom Cruise, quando comparados ao longa de Cronin. No entanto, esse contraste não representa a autenticidade que alguns monstros receberam outrora. 

A história de Katie (Natalia Grace) e sua família soa como uma refilmagem de O Exorcista (1973) e qualquer outro título poderia ser imputado ao longa. A Múmia, o Egito e o sarcófago são elementos pontuais e não o centro da história. A forma como se dá a ‘possessão’ – que inclusive já foi vista tantas vezes – pode ser aplicada a outras entidades hollywoodianas. Há momentos bons, uma e outra cena com um gore bacana e os enquadramentos com personagens em primeiro e segundo plano e as bordas distorcidas são adições que conseguem surtir efeito na promoção da atmosfera assustadora e usar o espaço para o Horror – Cronin já havia utilizado a técnica em Evil Dead Rise (2023) – porém, tem um nome na produção que limita a inovação da criatura mumificada. 

Cena do filme Maldição da Múmia Na imagem, a personagem Larissa Cannon está em primeiro plano, com expressão assustada: olhos arregalados e lábios abertos. O fundo está escuro. Ela é uma mulher espanhola, na faixa dos 40 anos, de pele clara e cabelos curtos escuros.
Laia Costa interpreta a mãe de Katie (Foto: New Line Cinema)

Antes de revelar o nome – como um bom Terror, quanto menos o espectador souber, melhor –, voltamos ao ano de 2017, quando a falecida 20th Century Fox desenhou seu western de super-herói, Logan. Apesar de ser um bom filme, o enredo criou uma ideia preguiçosa para contar o passado de Laura (Dafne Keen): a mulher responsável por ela gravou todas as experiências com a mutante e entregou ao protagonista. A origem da heroína, o backstory dos vilões, o que posiciona quem assiste naquele deserto americano é uma gravação. Quando Maldição da Múmia toma a mesma decisão, a viagem não é apenas para o ano de 2017, mas para outros longas de Terror que precisam explicar a possessão, o surgimento do mal a partir de um recurso narrativo raso. E, sinceramente, precisamos desta explicação? Sabemos que o mal é mais temido quando desconhecido.

Este DeLorean também pode lhe transportar para Maligno (2021), onde a irmã da protagonista viaja até um local abandonado e acessa um VHS com toda a informação que precisa. Quem produz, escreve e dirige é o James Wan. Ao final de Maldição da Múmia, os créditos revelam que esse sujeito é um dos produtores. É claro que ele não está sozinho e a explicação oriunda de um dispositivo pode ter vindo de qualquer outro profissional, inclusive de Lee Cronin, que assina roteiro e direção, entretanto, não deixa de ser irônico e engraçado a coincidência, ainda mais quando lembramos que Wan está em uma busca incessante por um novo ícone de Terror: Maligno, M3gan (2022), O Macaco (2025)… e agora uma fantasia de Múmia. 

Para concluir, Cronin só prossegue com as pragas de Hollywood, regurgitando remakes, tropos e recursos de maneira tediosa. Daqui a pouco tempo, quem vai lembrar de uma figura forjada do genérico e desplugada de seu território? A televisão perdeu o poder de fixar os mesmos rostos e histórias com suas eternas reprises, como fez com Imhotep, este que nunca dependeu de uma grade de programação que o privilegiasse, afinal, seus filmes esbanjam carisma e personalidade. 

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