
Jhenifer Oliveira e Livia Queiroz
A primeira segunda de maio é um dos momentos mais aguardados quando se trata de juntar moda, cinema e luxo: o Met Gala. Ela resguarda não só a audiência de quem tem sede pelo conhecimento têxtil, mas também aqueles que são apaixonados pelo corpo como uma forma de se expressar. O dress code escolhido por Anna Wintour este ano explora justamente este conceito, a moda como arte.
Apesar de amplo, esse direcionamento trouxe mais liberdade para os convidados transmitirem sua interpretação do que é essa forma de manifestação humana e como ela se encaixa em seu corpo e história. A exposição do teatro apresentada trouxe uma vertente semelhante, com o tema Costume Fashion (Arte do Figurino, em tradução literal). Charles Frederick Worth, uma das principais figuras responsáveis por ter consolidado a ideia que moda também é uma expressão artística, provavelmente estaria orgulhoso de ver aquilo que tanto defendia ser o tema central do Met Gala este ano.

Nomes como, Hudson Williams, Hunter Schafer, Emma Chamberlain, Sabrina Carpenter, Madonna e muitos outros se destacaram ao seguirem o dress code trazendo referências criativas às suas produções. O ator de Heated Rivalry (2025), apostou em um conjunto azul claro com detalhes pretos e uma cauda, assinado pela Balenciaga. O outfit é uma releitura de um bolero de 1947 do fundador da grife, que se inspirou no traje de toureiro espanhol – uma forma de arte performática conhecida na Espanha. Outro nome que trouxe a arte à tona foi a estrela de Euphoria (2019), vestida como a pintura Mäda Primavesi (1912) de Gustav Klimt. O visual desenvolvido pela Prada conta com um vestido de cauda longa, repleto de arranjos de flores e uma camada branca por cima, fazendo referência às características da obra.
A influencer Emma Chamberlain está cada vez mais inserida no mundo da moda e entregando looks estonteantes que a destacam na multidão de celebridades presentes. No Met Gala 2026, ela foi a estrela da noite, um holofote merecido para a obra de arte que revelou em forma de vestido. Ironicamente ou não, a referência de seu look vem da obra de Van Gogh, A Noite Estrelada (1889), e O Grito (1893), de Munch. Já a cantora de Espresso optou por revelar uma outra forma da criatividade: o cinema. Sua arte veio em forma de rolos de fita do filme Sabrina (1954), com um vestido Dior feito sob medida para a popstar, ele compõe uma saia assimétrica que já se tornou assinatura da cantora neste evento também revestido em fita.
Madonna chegou ao topo como rainha do pop por sua clara genialidade artística, e em um evento como este, ela não se faria passar despercebida. Sua composição de look não traz significado em si, mas da performance que ele compõe. Inspirado em um fragmento da obra de Leonora Carrington, A Tentação de Santo Antônio (1945), sua figura vestida em all black Saint Laurent e coberta por um véu representa, ao lado de sete mulheres em vestidos claros e blindadas com uma renda branca, o questionamento dos costumes da fé cristã, a luta contra o patriarcado e a busca por iluminação espiritual.
https://www.vogue.com/video/watch/the-run-through-inside-the-met-gala-with-chase-sui-wonders
Este ano, muitos homens também marcaram seu destaque, como Karan Johar e Jeremy Pope. O diretor apareceu com uma obra de arte em forma de vestimenta tradicional indiana completa em bordado dourado e imagens inspiradas em pinturas clássicas do seu país de origem, uma linda homenagem aos artesãos. Já o ator superou as expectativas, usando um item de arquivo de Vivienne Westwood, da coleção de outono de 1996, chamado Escravo do Amor, uma jaqueta-corset formada por centenas de pérolas em cores diferentes formando um peitoral e em suas costas pedras de rubi marcando feridas. Alguns dos destaques da noite mostram ao público que a handmade couture é a arte, a antiguidade mais fina da moda.
Após uma década sem comparecer ao evento, Beyoncé fez um retorno memorável ao Met Gala como co-anfitriã, dividindo o posto com Anna Wintour, Venus Williams e Nicole Kidman. Para marcar a ocasião, Bey e Nicole apostaram em duas produções diferentes ao longo da noite. No tapete vermelho, Queen B surgiu com um vestido repleto de pedrarias assinado por Olivier Rousteing. No encerramento do evento, a cantora trocou o visual por uma criação de Robert Wun, peça que chamou atenção por conter mais de um milhão de cristais.
Kidman também apostou em um visual marcante ao usar um modelo vermelho-rubi da Chanel, bordado com lantejoulas e penas por Matthieu Blazy. Mais tarde, a atriz apareceu com outro vestido da mesma grife, que transmitia um ar de conforto enquanto mantia a paleta de cores quentes. Já Williams vestiu uma peça personalizada de cristais Swarovski, que foi inspirada em sua própria obra de arte Venus Williams Double Portrait (2022), e para incrementar, um acessório metálico no pescoço, desenhado pela própria atleta.

Apesar da temática do evento ser de extrema importância e um critério geral de julgamento do público sobre cada look, é impossível negar presenças que acertaram em suas escolhas, afinal, a arte é moda e moda é arte independente do dress code. Doechii foi um dos destaques, com um look vinho assinado por Marc Jacobs, a cantora expõe seu corpo como arte ao complementá-lo com seu vestido e ornamento do cabelo. Hailey Bieber também fugiu do tema proposto, e mesmo assim, é inegável a beleza de sua apresentação, em um busto dourado que contrasta com o azul vivo, look que já foi visto nas passarelas da Balmain.
Mesmo que o tema Moda é Arte seja uma proposta flexível e dá liberdade para cada celebridade se expressar através de obras, nem todo mundo conseguiu traduzir suas ideias de acordo com o que foi proposto. Margot Robbie, por exemplo, usou uma peça da Chanel mais clássica e minimalista, o vestido de cor champagne e com uma cauda bordada de pétalas de flores não ofereceu a ousadia e a interpretação conceitual que a temática pedia. Kim Kardashian optou por usar uma produção de alta-costura que faz mais jus à sua identidade pessoal, do que ao dress code do bazar. O traje desenvolvido pelo designer Jean Paul Gaultier conta com um corset alaranjado bem acinturado e sensual, e uma saia da mesma cor.

Para além de uma tristeza por ver algumas celebridades não entendendo a temática, tem-se aquelas que decepcionaram por terem surpreendido em anos anteriores. Gigi Hadid, por exemplo, sempre apareceu ao evento com looks estonteantes, e muito conectados à temática, porém, este ano, com um vestido translúcido preto da Miu Miu e uma calcinha azul bebê, deixou a desejar com presença. Outro ponto negativo são as mesmas vestimentas all black de sempre, que, pelo bem da arte na moda, estão se mostrando cada vez menos numerosas.
Entre elogios e críticas, a edição de 2026 do Met Gala ficou sem grandes nomes da cena da moda. Segundo os rumores que circulam pelos corredores, o possível motivo estaria relacionado ao patrocínio de Jeff Bezos ao evento. As controvérsias políticas em torno do bilionário, principalmente seu apoio ao governo Trump, teriam influenciado a decisão de algumas celebridades a não aceitarem o convite. Zendaya, uma das figuras mais conhecidas por entregar looks extraordinários ao lado de seu fiel estilista, Law Roach, optou por não comparecer nesta edição. A ausência da modelo Bella Hadid também foi notada e gerou repercussão nas redes sociais, sendo interpretada como uma possível posição política e crítica à presença dos CEOs de grandes empresas de tecnologia.
Este pode ser considerado um Met Gala histórico em ausência e presença. Sempre é muito desafiador escolher um look para um evento tão grande como esse. Porém, este ano foi possível enxergar como a moda é arte em sua plena construção. E o recado que esta edição nos deixa está na handmade couture ao encontro com o conceito, e, quando os dois se juntam, a moda vive.
