Edifício Gagarine: as máquinas de demolição não destroem sonhos

Cena do filme Edifício Gagarine. Ao centro da foto está Youri, um jovem negro vestindo um macacão de astronauta. Ele é visto de cima, flutuando ao centro de uma escada quadrada em caracol. Ele olha para cima.
O drama francês é um dos 15 filmes da programação da Edição Especial do Festival do Rio 2021 (Foto: Haut et Court)

João Batista Signorelli

Em 1963, o astronauta soviético Yuri Gagarin, primeiro homem a realizar uma viagem espacial, foi à França com uma missão: participar da inauguração de um moderno conjunto habitacional que levava o seu nome, erguido pelo Partido Comunista Francês. Décadas depois, acompanhando o declínio do partido, o enorme edifício sem manutenção entrou em decadência, até vir a ser demolido entre 2019 e 2020, em um longo processo que durou cerca de 16 meses. Em meio à destruição, a dupla Fanny Liatard e Jérémy Trouilh encontrou a delicadeza, que tomou a forma de filme em Edifício Gagarine, filme francês exibido no quinto dia do Festival do Rio 2021

Continue lendo “Edifício Gagarine: as máquinas de demolição não destroem sonhos”

O Mauritano: essa é uma história real

Cena do filme O Mauritano. Da esquerda para a direita na imagem, sentados frente a frente à mesa de uma sala de interrogatórios de uma prisão, vemos Mohamedou, interpretado por Tahar Rahim, um homem de ascendência muçulmana, de cabelos e barba castanhos curtos, aparentando ter cerca de 30 anos, vestindo um uniforme bege de prisioneiro, e Nancy, interpretada por Jodie Foster, uma mulher branca, de cabelos grisalhos lisos na altura do ombro, aparentando ter cerca de 60 anos, vestindo uma camisa social preta e com um envelope em sua frente.
Presente na seleção do Festival do Rio 2021, O Mauritano escancara os abusos e violações que o governo estadunidense tenta esconder em Guantánamo (Foto: Topic Studios)

Vitória Lopes Gomez

“Essa é uma história real” é a frase que ocupa a tela enquanto Mohamedou Ould Slahi, interpretado por Tahar Rahim, caminha em uma praia no que seriam seus últimos momentos de liberdade por 14 anos. O quarto longa exibido no Festival do Rio 2021, O Mauritano traz à tona a história de Slahi, que, suspeito de recrutar terroristas para o atentado às Torres Gêmeas, foi capturado e enviado à Prisão de Guantánamo, onde permaneceu por anos sem nenhuma prova apresentada contra ele.

Continue lendo “O Mauritano: essa é uma história real”

Rua do Medo: 1666 se lambuza nas entranhas do horror

Cena do filme Rua do Medo: 1666 - Parte 3. Na cena, vemos Deena e Sam se beijando. À direita, Deena é negra de pele clara, tem cabelos cacheados e usa uma regata amarela com detalhes listrado em azul, vermelho e amarelo. À esquerda, está Sam, branca e loira, usando jaqueta jeans. Elas estão em uma floresta com flores vermelhas ao redor.
Surfando na onda do horror queer, a retumbante trilogia Rua do Medo chega ao fim (Foto: Netflix)

Vitor Evangelista

A tarefa de finalizar uma franquia é um tanto quanto ingrata. A trilogia-relâmpago Rua do Medo, lançada em doses homeopáticas na Netflix, chega ao ápice revisitando o passado da maldita Sarah Fier, bruxa, áspera, pecadora. Para isso, a diretora Leigh Janiak retorna ao século dezessete, lar do paganismo, da culpa católica e do núcleo base do terror psicológico: o medo do diabo. Entre a prosa arcaica e o ato de revisitar grandes filmes do gênero, a máquina do tempo de Rua do Medo: 1666 funciona à perfeição. O ontem é vital, mas é no hoje que a porrada come. 

Continue lendo “Rua do Medo: 1666 se lambuza nas entranhas do horror”

Esquiando por temas frios, Slalom sobe ao pódio

Cena do filme Slalom. No canto direito temos Lyz. Uma garota branca de cabelos lisos e pretos. Ela está de lado e veste um uniforme azul. Ela está segurando duas pranchas de esqui. O fundo é uma montanha com neve branca.
Presente na seleção do Festival do Rio 2021, Slalom – Até o Limite retrata o abuso sexual no Esporte (Foto: Jour2fête)

Ana Júlia Trevisan

Estamos cada dia mais imersos nas Olimpíadas de Tóquio. A última vez que assistimos aos jogos, eles aconteciam em solo brasileiro, na Cidade Maravilhosa. Um dos grandes destaques do Rio 2016 foi a ginasta Simone Biles, que conquistou quatro medalhas de ouro, batendo recordes. Em 2018, ela revelou ter ser uma das mais de 100 vítimas de abuso sexual cometido pelo ex-médico da Federação de Ginástica dos Estados Unidos, Larry Nassar. É nesse pavoroso mundo onde a realidade se torna o pior pesadelo que é ambientando Slalom – Até o Limite.

Terceiro filme a ser exibido no Festival do Rio 2021, o longa integrou a Seleção Oficial do Festival de Cannes 2020, e marca com dor e talento a estreia da roteirista e diretora francesa Charlène Favier. A história da promissora esquiadora que sonha em chegar com seu esporte às Olimpíadas é, em partes, inspirada na própria biografia de sua criadora, que molda a garota com suas experiências pessoais. A atuação de Noée Abita merece, também, todo o destaque, pela coragem e força em encarnar essa personagem e defender seus anseios.

Continue lendo “Esquiando por temas frios, Slalom sobe ao pódio”

Caros Camaradas!: o silenciamento das massas fala mais alto do que a injustiça

imagem em branco e preto de uma mulher loira com os cabelos presos, de perfil, com olhar triste, vestindo uma jaqueta. No plano mais a direita está escrito Caros Camaradas! Trabalhadores em Luta em preto. O fundo exibe imagens borradas e sombras de protestos.
Presente na seleção do Festival do Rio 2021, Caros Camaradas! traz em sua narrativa um dualismo documental (Foto: Production Center of Andrei Konchalovsky)

Gabriel Gatti

A Revolução Russa de 1917 ocorreu em dois levantes, sendo o primeiro em fevereiro, no qual os revolucionários lutaram contra a monarquia do czar Nicolau II. O segundo, que aconteceu em outubro, começou a implantar os ideais socialistas. Porém, o sonho da igualdade foi muito mais conturbado do que as massas russas poderiam imaginar. O aumento do preço dos produtos do dia a dia e a redução do salário fez com que milhares de trabalhadores fossem às ruas de Novocherkassk, no dia 2 de junho de 1962. É justamente a história desse protesto que Andrei Konchalovsky conta no filme Caros Camaradas!, presente no Festival do Rio 2021.

Continue lendo “Caros Camaradas!: o silenciamento das massas fala mais alto do que a injustiça”

Macabro e memorável, A Bruxa completa 5 anos

Fotografia do filme A Bruxa. A foto é retangular e retrata uma floresta escura. No meio da imagem existem três silhuetas de costas. A central pertence a uma mulher e as outras duas pertencem a dois bodes. De frente para essas figuras, há uma fogueira. Sobre essa fogueira, existem sete corpos de mulheres que flutuam formando um arco. A fogueira é a única fonte de luz da imagem e ilumina fracamente algumas árvores ao fundo, dando uma aparência amarelada para o todo.
A Bruxa, ainda que tenha dividido opiniões do público quando lançado, é “tenso” e “instigante”, como definiu o Rei do Terror Stephen King em suas redes sociais (Foto: A24)

Mariana Nicastro

Plena Idade Média. Um casal de camponeses e suas crianças curiosas. Um lenhador. Uma casinha ao lado de um bosque e uma bruxa que o habita. Parece mais um conto de fadas dos Irmãos Grimm, certo? Bom, na verdade trata-se de A Bruxa, lançado no Brasil em março de 2016. Inventivo, misterioso e incômodo, o filme de terror utiliza da temática das bruxas para compor uma trama bem elaborada e assustadora. Com isso, ele tornou-se capaz de se destacar notoriamente no gênero e ainda ser alvo de discussões e elogios 5 anos após sua estreia.

Continue lendo “Macabro e memorável, A Bruxa completa 5 anos”

10 anos depois do fim, Harry Potter envelheceu avinagrado

Entre polêmicas de transfobia e discurso de ódio, J. K. Rowling se revela mais nefasta que as figuras vilanescas que escreveu

Cena do filme Harry Potter e as Relíquias da Morte: Parte 2. Na cena, vemos Harry, personagem de Daniel Radcliffe, um homem branco que usa óculos redondos, sujo de terra, olhando Voldemort, personagem de Ralph Fiennes, que está de costas. Eles estão à beira de um precipício.
Uma década depois de As Relíquias da Morte – Parte 2, o legado de Harry Potter definhou como as Horcruxes de Voldemort (Foto: Warner Bros)

Vitor Evangelista

Em 15 de julho de 2011, a cultura pop mudou para sempre. Era o fim da saga do bruxinho mais famoso do pedaço, a conclusão épica, que levou uma década desde o primeiro vestígio da magia de Hogwarts até o adeus choroso na Estação King’s Cross. 10 anos depois da exibição de Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 2, o mundo não enxerga a aura juvenil da história da mesma maneira que o fazia. E isso se deve a um vilão que os livros de fantasia não deram conta de desmascarar: sua própria autora.

Continue lendo “10 anos depois do fim, Harry Potter envelheceu avinagrado”

A Mulher na Janela nos convida a revisitar um clássico, mas se perde nele

Vemos cinco pessoas olhando para a câmera, em uma cena de A Mulher na Janela. A primeira, ao centro e à frente dos outros, é a atriz Amy Adams, que interpreta Anna Fox, uma mulher branca de cabelo ruivo preso, roupão rosa e camisola verde. Logo atrás, à esquerda vemos a atriz Jennifer Jason Leigh, que interpreta Jane Russell. Ela é uma mulher branca, de cabelo loiro e usa uma roupa social preta. Atrás dela, vemos o ator Brian Tyree Henry, que interpreta o Detetive Little, um homem negro, de cabelo curto, barba e sobretudo marrom. À direita, vemos mais dois atores. Wyatt Russell, que interpreta David, um homem branco, alto, de cabelo comprido loiro, barba, um blazer marrom escuro e calça jeans. Em seguida, Gary Oldman, ator que faz Alistair, outro homem branco, de cabelos grisalhos e um sobretudo preto.
O longa se passa predominantemente em uma locação, a casa de Anna (Foto: Netflix)

Gabriel Fonseca

Filmes são feitos de outros filmes. De músicas, pinturas, e livros também. Como linguagem e expressão artística, o Cinema está constantemente influenciando e sendo influenciado por outras obras. Algumas são referências diretas, como as centenas de easter eggs em Jogador Nº 1. Outras, são fontes de inspiração e resultam em um trabalho único, como a pintura de Edward Hopper que inspirou a casa horripilante de Psicose, um clássico de Alfred Hitchcock. 

Por sua vez, Hitchcock foi uma fonte de referências e inspirações para Joe Wright, que é conhecido por dirigir dramas como Orgulho e Preconceito e O Destino de uma Nação. Wright se aventurou no suspense com A Mulher na Janela, uma adaptação tediosa do romance homônimo de A.J. Finn. Lançado na Netflix em maio, o filme é pura reverência às obras do passado – especialmente às de Hitchcock – e as utiliza como fórmula, sem propor uma experiência própria, ou alcançar o mesmo nível de tais obras.

Continue lendo “A Mulher na Janela nos convida a revisitar um clássico, mas se perde nele”

O sertão deságua nos conflitos de Acqua Movie

Cena de Acqua Movie. Alessandra Negrini e Antonio Haddad estão dentros de um carro, ela está no volante e ele no passageiro. Alessandra é uma mulher branca, de cabelos castanhos na altura dos ombros. Ela usa uma regata, pulseiras de miçanga no braço esquerdo e possui uma tatuagem de âncora no braço direito. Ela sorri. Antonio a observa. Ele é um menino de 13 anos, branco, de cabelos loiros e lisos. Ele usa uma regata branca. Pela janela do carro, vemos uma paisagem seca, com árvores bem ao fundo.
Lírio Ferreira é diretor de Baile Perfumado, um dos filmes pioneiros na Retomada do Cinema pernambucano (Foto: Chá Cinematográfico)

Caroline Campos

Em 2005, Árido Movie viajou pelas estradas sertanejas com muita maconha, pouca água e informação em excesso. Com Guilherme Weber, Giulia Gam e Selton Mello, o longa do cineasta pernambucano Lírio Ferreira traçou seu caminho até Veneza e ficou marcado com muito afeto na filmografia do diretor. 16 anos depois, chega aos cinemas Acqua Movie, uma espécie de continuação espiritual da história, mas, desta vez, ambientada na liquidez das obras de transposição do Rio São Francisco.

Continue lendo “O sertão deságua nos conflitos de Acqua Movie”

Cineclube Persona – Junho de 2021

Destaques de Junho de 2021: 2ª temporada de Legendary, o fim de Pose, Luca e Manhãs de Setembro (Foto: Reprodução/Arte: Ana Júlia Trevisan/Texto de Abertura: Caroline Campos e Vitor Evangelista)

Já estamos cansados de reclamar da situação do país em meio a esse turbilhão de confusões, esquemas e agressões vindas da politicagem brasileira. Será que a Arte ainda é capaz de nos fazer esquecer de toda essa bagunça no mundo exterior? Ou é ela que nos mantém sãos? Bem, não há resposta certa para isso. Junho chegou, Junho foi embora e a leva de filmes e séries que marcaram a metade do ano não poderia ter sido mais diferente uma da outra.

No mundo cinematográfico, onde alguns poucos irresponsáveis arriscam ir aos cinemas, as produções foram escassas e não muito chamativas. Os apaixonados pelo medo e pelo horror ganharam de presente duas bombas: Invocação do Mal 3: A Ordem do Demônio não é um fracasso completo, mas abala o ânimo dos fãs da franquia com uma trama fraca e pouco impressionante. Por outro lado, para quem pensava que não poderia ser pior, Espiral: O Legado de Jogos Mortais se esforçou para entregar um dos piores filmes da saga de Jigsaw. Não foi dessa vez que o deus da carga dramática te abençoou, Chris Rock.

Os streamings, pelo menos, nos garantiram um pouco mais de diversão. A nova animação do Disney+ pode ter uma narrativa marcada pela simplicidade, mas não falha em emocionar o espectador com a sua fofura. Estamos falando de Luca, que conta com os dois monstros marinhos mais carismáticos desde o peixão apaixonado de A Forma da Água, lá em 2017. Pelas mãos da dona Netlfix, Carnaval foi lançado e conseguiu o feito de nos fazer fechar a cara só de ouvir o nome da melhor festa do ano. Mesmo assim, nessa altura do campeonato, dá vontade de pular um bloquinho, não é?

Lin-Manuel Miranda emplacou mais um hit e trouxe os musicais de volta ao cinemas com Em um Bairro de Nova York, que encantou a crítica com suas coreografias e o protagonismo de Anthony Ramos – não, não é o ator da Globo. No entanto, faltou tato por parte da produção do filme, que foi duramente criticada pela falta de representação entre o elenco principal de afro-latinos no bairro de Washington Heights. Apesar de Miranda se pronunciar “verdadeiramente arrependido”, o resto dos envolvidos protagonizou um show de horrores ao comentar a polêmica. Complicado, Rita Moreno.

Na parte da TV, o cenário foi mais positivo. No Brasil, O Caso Evandro chocou tanto que até ganhou episódios extras, com informações importantíssimas que só foram descobertas pela repercussão do documentário. Colônia, original do Canal Brasil, ganhou casa no Globoplay, dando voz e rostos aos temas do livro Holocausto Brasileiro, de Daniela Arbex.

O Amazon Prime Video finalmente investiu nas produções nacionais, entregando DOM e Manhãs de Setembro. A primeira leva a periferia e o tráfico em discussões que perpassam temas sociais, enquanto a segunda finalmente dá a Liniker um papel de atuação. A artista canta e encanta, se firmando como um símbolo de poder e resistência nesse Mês do Orgulho.

Fora do radar nacional, We Are Lady Parts inovou as típicas narrativas musicais que estamos acostumados, Grey’s Anatomy finalizou seu 17º ano na união da ficção de Meredith com a pandemia do mundo real e RuPaul’s Drag Race Down Under se provou a pior temporada do reality de competição de drag queens. Original do Hulu, mas com exibição do Paramount+ no Brasil, The Handmaid’s Tale finalmente entregou um ótimo capítulo neste livro de sofrimentos que é a vida de June.

A Netflix continuou Lupin e nos deu uma overdose de Elite. Além da estreia do quarto ano da sacanagem espanhola do Ensino Médio, fomos agraciados com curtas especiais, que não agregaram muito, mas foram agradáveis de acompanhar. O HBO Max aterrissou por aqui e duas de suas melhores produções acabaram em Junho: Hacks coroa o talento inestimável de Jean Smart na comédia e Legendary continua na construção de seu maravilhoso império. É sério, vejam Legendary.

O Mês do Orgulho coloriu a arte desse Cineclube de Junho, com o azul-claro da bandeira trans se prostrando como resistência. Uma das melhores séries da história, Pose, deu um tristonho tchau, através de uma terceira temporada cautelosa, calorosa e cheia de paixão. Para além de ser ‘apenas’ a produção com o maior elenco trans da história da TV, a obra-prima do FX se livrou das amarras narrativas que uma história LGBT pode se colocar, dando suficiente material para que MJ Rodriguez, Dominique Jackson, Indya Moore, Billy Porter e cia cravem seus nomes para a eternidade.

O Persona fecha o primeiro semestre com um Cineclube mais modesto que o habitual (é que o frio de Junho congelou até a gente). A conclusão do Mês do Orgulho não deixa dúvidas: o nosso papel, como espectadores e divulgadores de conteúdo, é o de prestigiar, aclamar, indicar e celebrar essas joias raras. Agora, é só chegar junto da Editoria e dos Colaboradores para conferir tudo o que falamos sobre o Cinema e a TV no sexto mês de 2021.

Continue lendo “Cineclube Persona – Junho de 2021”