A harmonia da vida em Armugan

Cena do filme Armugan, em preto e branco. Vemos um homem baixinho, careca e barbudo sentado em uma cama. À esquerda, vemos um homem com cabelo comprido, barba grande e alto também sentado na cama. Ambos são brancos e estão na meia idade. Vestem roupas adequadas para o clima da região montanhosa.
Duas pessoas vivem isoladas no filme que integra a seção Perspectiva Internacional da 45ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo (Foto: Shaktimetta, La Bendita Produce)

Caio Machado

Vivemos a vida à sombra do grande mistério da morte. Por mais que as religiões tentem explicar o que acontece conosco depois que o coração para de bater, só saberemos a verdade quando chegar a hora. Armugan, filme exibido na 45ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, utiliza a sutileza visual para elaborar um conto impactante sobre como o ser humano se apoia em lendas para conseguir lidar com a finitude da existência. 

Continue lendo “A harmonia da vida em Armugan”

Com uma direção que dá medo, A Bruxa de Blair é um clássico que nunca perde a essência

A imagem mostra Heather Donahue com uma touca cinza. O foco da imagem é o rosto de Heather, uma mulher branca, de olhos azuis que aparenta estar assustada. Ela está chorando com a câmera focada em seu olho direito (esquerdo para quem lê a imagem). Heather está com as sobrancelhas arregaladas. O fundo da imagem é preto.
Uma fita VHS gravada com uma câmera amadora, um grupo seleto de atores desconhecidos, edição com cortes básicos, cenários reais, 81 minutos de imagens de péssima qualidade e assim nasceu um dos melhores filmes de terror de todos os tempos (Foto: Haxan Films)

Gabriel Gomes Santana

Há exatos 22 anos, uma relíquia cinematográfica colocava pânico em todos os amantes de Cinema. A Bruxa de Blair, icônico filme de terror em formato de documentário ficcional, aterrorizava o público pelo seu conteúdo macabro e tão simples que, de fato, brincava com o “real”. Se hoje em dia as pessoas reconhecem a grandeza de franquias como Atividade Paranormal e REC, elas certamente devem agradecer à produção de A Bruxa de Blair por ter inspirado este modelo de gravação.

Continue lendo “Com uma direção que dá medo, A Bruxa de Blair é um clássico que nunca perde a essência”

A Taça Partida desmascara o ego ferido de um homem

Cena do filme A Taça Quebrada. Na imagem, em um quintal de uma casa, vemos, no canto inferior esquerdo, um menino de cabelos pretos curtos sentado de costas para a câmera. Ao centro, sentada atrás de uma mesa posta, vemos uma mulher branca, de cabelos pretos abaixo do ombro, aparentando cerca de trinta anos, com a mão apoiada no rosto, cobrindo parte de sua bochecha direita. No canto direito, na ponta da mesa, vemos um homem de barba e cabelos pretos curtos, aparentando cerca de trinta anos, servindo um suco de uma jarra de vidro para um copo.
A Taça Partida é parte da Competição Novos Diretores na 45° Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, que acontece de 21 de outubro à 3 de novembro (Foto: Juntos Films)

Vitória Lopes Gomez

Chegando à 45ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo antes mesmo da abertura oficial, A Taça Partida é desconfortável do início ao fim. Na edição que “faz um apanhado do cinema contemporâneo mundial produzido e exibido sob o impacto da pandemia”, o longa chileno dirigido por Esteban Cabezas integra o festival como parte da Competição Novos Diretores. O estreante também participa como produtor e co-roteirista junto de Álvaro Ortega e só precisa de um dia para explorar a incômoda “jornada de teimosia, ego e mágoa de um homem”. 

Continue lendo “A Taça Partida desmascara o ego ferido de um homem”

Não há salvação para o homem problemático em Higiene Social

Cena do filme Higiene Social exibe um homem e uma mulher, brancos, parados no meio de uma grama alta. O homem, à esquerda, veste um terno preto e tem cabelo loiro curto. A mulher à direita, mais velha, tem cabelo ruivo comprido e veste um terno rosa. Carrega uma bolsa da mesma cor nas mãos.
O artista em crise no longa que integra a seção Perspectiva Internacional da 45ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo (Foto: Inspiratrice & Commandant)

Caio Machado 

Um homem e uma mulher estão parados em um campo. A grama verde reluz ao sol. Pela distância, não conseguimos ver direito o rosto de nenhum dos dois. Parecem estátuas paradas em um palco e conversam, imóveis. Esses são os minutos iniciais de Higiene Social, filme francês exibido pela 45ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo. 

Continue lendo “Não há salvação para o homem problemático em Higiene Social”

Má Sorte no Sexo ou Pornô Acidental sacaneia os caretas

Cena do filme Má Sorte no Sexo, mostra uma mulher branca atendendo o telefone. Ela usa máscara azul e uma blusa preta.
Exibido após a coletiva de abertura da 45ª Mostra de São Paulo, Má Sorte no Sexo ou Pornô Acidental foi o grande vencedor do Festival de Berlim 2021, levando para casa o Urso de Ouro (Foto: Imovision)

Vitor Evangelista

Com um título desse, é esperado que Má Sorte no Sexo ou Pornô Acidental tenha prazer em chocar, mas ninguém está preparado para o que vem logo que as luzes se apagam. Uma fita de sexo abre a produção romena, que se centra na ruína de uma professora de Ensino Fundamental, a estrela do vídeo adulto, sofrendo as consequências quando a gravação cai na internet e a escola em que trabalha a encontra.

E não havia filme mais propício para abrir os trabalhos da 45ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, que em 2021 adota um formato híbrido após sobreviver a um 2020 completamente virtual. Na coletiva de imprensa de abertura, realizada de maneira on-line em nove de outubro, a diretora do evento Renata de Almeida revelou que Pornô Acidental reflete muito como a população enxerga a pandemia e, embora seja rodado na Romênia, assistiríamos por quase duas horas ecos fortes do Brasil. Ela não mentiu.

Continue lendo “Má Sorte no Sexo ou Pornô Acidental sacaneia os caretas”

Bárbara Paz: um olhar sensível perante o mundo

 Foto de Bárbara Paz, mulher branca de olhos verdes e cabelo castanho escuro, em um fundo branco. Cabelo com coque bagunçado, pouca luz escura avermelhando seu corpo, blusa preta e cinza. Luz clara na região dos olhos.
O olhar de Bárbara Paz (Foto: Mauricio Nahas)

Lucas Lima

Dona de um sorriso encantador e com um olhar lindo e marcante, Bárbara Paz sabe, como ninguém, como a vida pode ser amarga e doce ao mesmo tempo. Tendo perdido o pai com 6 anos de idade, a mãe com 17 e, meses depois, sofrido um acidente de carro que a deixou com uma cicatriz no rosto, a artista conseguiu atingir os seus objetivos e chegar ao sucesso. Estudou, trabalhou e, após muitos ‘nãos’, foi, de pouco em pouco, em um trabalho árduo, conseguindo seu espaço e destaque no meio artístico.

Continue lendo “Bárbara Paz: um olhar sensível perante o mundo”

A quem pertence O Babadook?

Imagem de divulgação do filme “O Babadook”, de 2014. Foto preto-e-branco de uma página acinzentada. No centro, vemos o desenho de Babadook, feito com lápis preto. Trata-se de uma silhueta alongada, com os braços colados sobre o tronco e os longos dedos de suas mãos abertos. Ele tem olhos esbugalhados, um nariz triangular, e uma grande boca cheia de dentes que se abre em um sorriso perturbador. Além disso, ele veste na cabeça uma cartola. Sua sombra se projeta do lado esquerdo até o desenho de um armário com a porta aberta. E, do lado direito, em paralelo com o armário, vê-se o desenho de uma porta semi-aberta.
O nome “Babadook” trata-se de um neologismo que reproduz a pronúncia de “a bad book”, “um livro mau” em inglês (Foto: Causeway Films)

Enrico Souto

Filme australiano independente lançado em 2014, O Babadook é um dos longas mais marcantes da história recente do Terror e, a despeito de sua pouca visibilidade, foi um sucesso de crítica, sendo considerado hoje um clássico moderno. Seus méritos narrativos e cinematográficos são incontestáveis, porém, o que realmente o marcou como um ícone da cultura pop foi sua apropriação feita pela comunidade LGBTQIA+. Embora visto por muitos como uma grande piada, esse paralelo com a experiência queer evoca camadas da narrativa que jamais seriam alcançadas em uma leitura mais superficial. E, visto que parte do público médio repudia essa relação, é necessário questionar: a quem pertence uma obra como O Babadook?

Continue lendo “A quem pertence O Babadook?”

Um, dois, Freddy vem te pegar

Em A Hora do Pesadelo, nem mesmo as canções infantis são inofensivos frutos da imaginação: tudo aparenta estar no domínio de Freddy Krueger.  

Texto alternativo: Cena do filme A Hora do Pesadelo. Fotografia retangular. Ao fundo, vemos um quarto com as luzes apagadas. Na parte superior, um vulto empurra a parede como se ela fosse um lençol. Na parte inferior, a personagem Nancy aparece dormindo.
Todas as fotos parecem clichês para representar um clássico que inovou o subgênero slasher (Foto: New Line Cinema)

Eduardo Rota Hilário

O ano é 1984, e os filmes de terror slasher estão a todo vapor. Eis que surge, brilhantemente, no meio de fórmulas para o sucesso, o então inédito A Hora do Pesadelo (A Nightmare on Elm Street). Dirigido por Wes Craven, mesmo diretor de Pânico, o longa-metragem baseado em histórias reais fortaleceu, por meio da inovação, o subgênero de horror em alta naquele momento. Diferente dos assassinos silenciosos e minuciosamente estrategistas até então conhecidos, como Jason Voorhees e Michael Myers, o público agora é convidado a mergulhar no estranho mundo de Freddy Krueger. Psicopata igualmente imprevisível e poderoso, foi ele quem trouxe um respiro necessário aos filmes da época, fugindo da mesmice.

Continue lendo “Um, dois, Freddy vem te pegar”

The Loud House: O Filme esbanja realeza mas não é digno de soberania

Cena retirada do filme The Loud House, com os pais Rita Loud e Lynn e as crianças Lori, Leni, Luna, Luan, Lynn, Lucy, Lana, Lola, Lisa, Lily e Lincoln, todos vestem roupas da realeza em frente a um castelo.
A frase da trilha sonora “Um menino, dez meninas” nasceu antes dos Louds que conhecemos (Foto: Netflix)

Thuani Barbosa

Diversão, momentos família, intrigas de uma vilã descontrolada e até criaturas místicas. Tudo isso é o que você vai encontrar em The Loud House: O Filme, tão digno da realeza que, se The Crown fosse uma animação, seria essa. Por mais que seja uma narrativa infantil recheada de bom humor, boas amizades e todas as grandes lições que se espera desse tipo de produção, a história conta com reflexões de ‘gente grande’, como insegurança e a importância do apoio familiar. A família barulhenta vai conquistar espaço no seu sofá!

Continue lendo “The Loud House: O Filme esbanja realeza mas não é digno de soberania”

Doutor Sono demonstra na pele a tortura que é lidar com os demônios do passado

Cena do filme Doutor Sono. Fundo predominante azul escuro. Um homem branco com cabelos castanhos está de costas e veste uma blusa acinzentada. A sua frente está uma parede azul escura com aspecto de vidro quebrado escrito Who Murder em letras bagunçadas e iluminadas por uma luz branca.
Dan Torrance tenta superar seus traumas passados, mas sua paz está com os dias contados quando começa a ter comunicações telepáticas com a pequena e especial Abra (Foto: Warner Bros.)

Leticia Stradiotto

Não é novidade que o memorável O Iluminado seja peça-chave nas principais produções cinematográficas do Terror. Apesar da rejeição de Stephen King – escritor da obra literária – o filme é um trabalho espetacular e extremamente agonizante de Stanley Kubrick, que trouxe à realidade a insanidade e as perturbações mundanas. A fim de realizar uma adaptação correspondente aos livros, King apostou suas obras em mais uma produção fílmica: Doutor Sono (2019), que oferece não só uma continuação, mas, também, explicações deixadas para trás no filme de 1980.

Continue lendo “Doutor Sono demonstra na pele a tortura que é lidar com os demônios do passado”