The Boys, a contraditória paródia que se tornou aquilo que debochava

Cena de The Boys. Plano médio de cinco personagens reunidos em um laboratório ou instalação industrial de tom azulado. À esquerda, Frenchie aponta para frente com o braço estendido; ao seu lado, Kimiko observa com expressão de raiva. No centro, está Leitinho com uma blusa preta e outra de cor vinho por baixo. Também ao centro está Luz-Estrela, vestindo uma jaqueta de couro cinza. Os dois olham na mesma direção com semblantes preocupados. À direita, Hughie Campbell aparece com o braço estendido para o lado oposto, parecendo alertar o grupo. Ao fundo, há grandes maquinários brancos com portas e escotilhas.
The Boys começou como uma paródia aos filmes de super-heróis (Foto: Prime Video)

Guilherme Moraes

O movimento natural de um gênero cinematográfico é o revisionismo e a paródia após o ápice para matar a maneira antiga de se fazer certo tipo de filmes e criar algo novo. O exemplo mais claro disso são os faroestes, que atingiram o seu ponto mais alto nas décadas de 1940 e 1950; passaram a ser refletidos no final dos anos 1950 e 1960 e parodiados a partir do decênio de 1970. A série The Boys apareceu em 2019 junto com Watchmen como parte desse processo de parodiar o gênero de super-herói que havia encontrado seu ponto mais alto, mercadologicamente e narrativamente, naquele mesmo ano com Vingadores: Ultimato.

Continue lendo “The Boys, a contraditória paródia que se tornou aquilo que debochava”

A 2ª temporada de X-Men ’97 escreve seu próprio apocalipse

Aviso: Este texto contém spoilers

Cena da série X-Men ‘97Na imagem, o personagem Noturno, de pele azul escura e olhos amarelos, está com uma expressão de preocupação. Ele veste um uniforme preto com linhas amarelas nos braços e ombros por cima de uma roupa de padre, com o colarinho aparente. Noturno tem cabelo em topete na cor preta.
Nove episódios, lançados semanalmente, compõem o segundo ano da série (Foto: Disney+)

Davi Marcelgo

Em 2024, o showrunner de X-Men ‘97, Beau DeMayo, foi demitido da Marvel Studios, acusado de má conduta sexual. Ao mesmo tempo, ele fez algumas alegações de que a Disney havia pedido ao funcionário que deixasse a série “menos gay”. A segunda temporada estreou em 2026, com oito episódios assinados por DeMayo, em coautoria com outros roteiristas, inclusive de Brian Ford Sullivan, responsável pelo último sem o comando do principal nome por trás do primeiro ano. O resultado disso é um enredo picotado e acelerado, que parece fugir do plot principal. Continue lendo “A 2ª temporada de X-Men ’97 escreve seu próprio apocalipse”

Quando seguir em frente dói em quem fica: o ressentimento de Noah Kahan em The Great Divide

Um homem está em pé atrás de uma porta branca de madeira com uma tela quadriculada em formato de um rosto. O homem é branco, tem cabelos castanhos lisos na altura do ombro e bigode. Ele veste uma jaqueta bege, uma calça vinho e um boné azul escuro. Ele tem a expressão séria e o rosto encara levemente o lado direito da imagem. A fachada possui tons desgastados de branco, vermelho e laranja. Há uma luminária antiga na parede e um pedaço de uma estrutura de madeira no chão.
O artista documentou seu processo criativo, vulnerabilidades e saúde mental no documentário Noah Kahan: Out of Body, gravado após o sucesso de Stick Season (Foto: Pooneh Ghana)

Vitória Mendes

Ao crescer e encarar os próprios conflitos internos, as despedidas deixam de ser eventos isolados e se tornam parte do processo. Surge então aquela sensação contraditória de sentir falta e odiar a pessoa antes mesmo que ela parta, um ressentimento que se esconde sob camadas de palavras encorajadoras. Como uma mãe vendo os filhos deixarem a cidadezinha na qual cresceram em busca de uma vida maior, o retrato que fica é do luto por alguém que ainda está vivo, mas ausente. Há uma dolorosa ironia em desejar que o ser amado vá embora e, depois, precisar lidar com o vazio deixado por ele. Esse é o sentimento que ancora The Great Divide, obra que, em meio às frustrações e expectativas, reflete a complexa jornada de seguir em frente, mesmo quando tudo que se quer é desistir ou descontar a raiva em alguém.

Continue lendo “Quando seguir em frente dói em quem fica: o ressentimento de Noah Kahan em The Great Divide”

Em Ponto Sem Retorno, Ridley Scott transforma uma distopia em um acampamento

Aviso: Este texto contém spoilers

Cena de Ponto Sem Retorno. Plano médio de um homem e uma mulher sentados no chão em torno de uma fogueira acesa ao ar livre. À esquerda, o homem veste camiseta cinza, calça jeans e botas de couro marrom, olhando em direção à mulher. À direita, a mulher tem cabelo preso, usa um moletom cinza folgado, calça verde-oliva e botas de cano alto, segurando uma caneca vermelha com as duas mãos. Entre eles, a fogueira solta fumaça azulada e aquece uma chaleira escura. Ao fundo, vê-se a cauda de um pequeno avião amarelo pousado em um campo com vegetação rasteira e árvores.
Ridley Scott é o diretor de clássicos como Alien, o Oitavo Passageiro e Blade Runner – O Caçador de Andróides (Foto: 20th Century Studios)

Guilherme Moraes

Ponto Sem Retorno, de Ridley Scott, se passa em um mundo pós-apocalíptico, em que uma doença matou milhares de pessoas e agora os sobreviventes precisam batalhar diariamente para continuar vivos. Seja contra outras doenças (afinal não há mais remédios e poucos médicos), luta por recursos ou contra o próprio ser humano. É uma história padrão no contexto das obras sobre distopias, o que não é algo ruim. Porém, o problema é que o filme sequer consegue parecer que está no fim do mundo.

Continue lendo “Em Ponto Sem Retorno, Ridley Scott transforma uma distopia em um acampamento”

Memórias Póstumas, de Jão, mostra que o luto é uma nova lente para enxergar o mundo

Texto alternativo: Capa do álbum Memórias Póstumas, do artista Jão, com a participação da atriz Marisa Sabino dos Santos. Uma mulher idosa de cabelos longos e grisalhos conduz uma motocicleta branca enquanto inclina o corpo para a frente e sorri discretamente, olhando para o horizonte. Atrás dela, um homem jovem de cabelos escuros e bigode a abraça pela cintura para se equilibrar. Ele veste terno preto com camisa azul e gravata, segura um buquê de pequenas flores brancas e tem uma flor presa ao cabelo acima da orelha esquerda. O céu ao fundo está completamente nublado, em tons de cinza, destacando a dupla e transmitindo sensação de liberdade e cumplicidade durante o passeio.
A capa é assinada pelo fotógrafo Hugo Comte, conhecido por trabalhos com Dua Lipa e Caroline Polachek (Foto: U.F.O. Produções Artísticas)

Gabriel Diaz

Antes do lançamento, Jão disse que fez 14 músicas sobre a vida, nem sempre como ela é. A frase soa quase despretensiosa até se perceber que ela carrega, sem alarde, a chave de leitura de todo o álbum. Memórias Póstumas, quinto disco de estúdio e o primeiro após a quadrilogia de elementos do cantor, é sobre os acontecimentos como, de fato, foram e também sobre a forma como escolhemos lembrá-los depois que já não podem mais ser mudados.

Continue lendo “Memórias Póstumas, de Jão, mostra que o luto é uma nova lente para enxergar o mundo”

Vale a pena aceitar O Convite

Aviso: Esse texto contém spoilers

 Cena de O Convite. Os quatro personagens estão reunidos na sala do apartamento. À esquerda, Joe, interpretado por Seth Rogen, e Angela, vivida por Olivia Wilde, sorriem enquanto conversam com Hawk, interpretado por Edward Norton, e Pína, vivida por Penélope Cruz, sentados à direita. Entre eles há uma mesa de centro com taças, garrafas, pratos e outros utensílios. Ao fundo, um abajur aceso ilumina a sala, decorada com quadros, sofás, poltronas e cortinas em tons neutros.
Antes de chegar às telas, O Convite provocou uma disputa sobre sua distribuição entre grandes estúdios e streamings, que terminou com a A24 adquirindo os direitos (Foto: A24)

Eduardo Dragoneti

Com uma trama limitada a um único cenário, o apartamento aconchegante de Joe (Seth Rogen) e Angela (Olivia Wilde) – que estrela e dirige o longa –, O Convite usa o sexo como plano de fundo para destrichar as relações humanas e os limites de um relacionamento. Em um jogo de diálogos que evoca uma peça teatral, o enredo coloca em xeque a percepção dos protagonistas sobre suas formas de demonstrar afeto. Enquanto o casal principal enfrenta um hiato dos seus prazeres, Hawk (Edward Norton) e Pína (Penélope Cruz) – os vizinhos de cima – se divertem diariamente, interrompendo o sono de Joe. Na noite em que o filme todo se passa, o frustrado professor de música é surpreendido por sua esposa, que revela ter convidado os animados moradores do prédio para jantar. Continue lendo “Vale a pena aceitar O Convite”

Só por Uma Noite é divertido e entretém mas só será relevante pelas 12 horas em que se desenrola sua trama

Duas pessoas estão em pé dentro de um vagão de metrô, diante das portas. Um homem de camisa polo azul olha sorrindo para uma mulher de cabelos longos e castanhos, que retribui o olhar enquanto segura uma barra de apoio. Ela veste um top preto brilhante de paetês, e ambos parecem estar se divertindo durante a viagem.
Só por uma Noite foi aos cinemas no dia 20 de agosto (Foto: Olive Bridge Entertainment)

Catarina Pereira

O longa Só por Uma Noite chega aos cinemas em 2026 com uma aposta na fidelidade do público às comédias românticas. A obra não foge dos padrões de roteiro do gênero, mantendo a tradicional estrutura de dividir o filme em três terços: no primeiro os personagens principais se encontram, no segundo ocorre algum desencontro e no terceiro há um desfecho.

Continue lendo “Só por Uma Noite é divertido e entretém mas só será relevante pelas 12 horas em que se desenrola sua trama”

Dependência emocional e ansiedade são as correntes de locket, de Madison Beer

Capa do álbum locket de Madison Beer. A imagem mostra a cantora Madison Beer, uma mulher de pele branca e jovem. Ela aparece de perfil, com os olhos baixos e uma expressão melancólica. Seu cabelo escuro está preso em um penteado meio-preso, com mechas soltas emoldurando o rosto. Ela segura delicadamente um medalhão dourado em formato de coração contra o peito. O fundo apresenta uma parede azul clara e o topo de um sofá vintage bege.
locket é o quarto disco da cantora (Foto: Epic Records)

Marcela Jardim

Madison Beer passou boa parte da última década ocupando um lugar ingrato no pop: visível o suficiente para gerar expectativas, mas sempre à sombra de um ‘potencial ainda não realizado’. Desde o início viral, ainda adolescente, sua trajetória foi marcada por tentativas de se desvincular da imagem de fenômeno da internet e se afirmar como artista completa. Silence Between Songs (2023) já indicava uma virada mais autoral e confessional; entretanto, ainda soava como um álbum de transição. Com locket, Beer finalmente parece entender que maturidade artística não é apenas cantar sobre dor, é organizá-la em uma narrativa coesa. O disco surge como um ponto de consolidação, em que a vulnerabilidade é uma forma de linguagem.

Continue lendo “Dependência emocional e ansiedade são as correntes de locket, de Madison Beer”

A Morte do Robin Hood e a culpa que assola o cinema hollywoodiano

Aviso: Este texto contém spoilers

Cena do filme A Morte do Robin Hood. Plano médio de um cômodo rústico com paredes de pedra e arcos. Uma mulher de cabelo curto e vestido longo bege está de pé, segurando e observando atentamente a mão de um homem mais velho que está sentado na beira de uma cama de madeira. O homem tem longos cabelos grisalhos e barba, veste uma túnica branca e calças escuras, e olha para baixo. Uma luz azulada suave entra por uma abertura no alto da parede, criando uma atmosfera melancólica e de cuidado. Há um banco de madeira pequeno perto da cama.
Em 2021, o diretor Michael Sarnoski fez sucesso com o filme Pig (Foto: A24)

Guilherme Moraes

Há poucas semanas, Christopher Nolan fazia sucesso com A Odisseia (2026), uma adaptação da obra de Homero focada na culpa de Odisseu. Anos atrás, o próprio diretor lançou Oppenheimer (2023), uma história também de remorso, dessa vez pela criação da bomba atômica. Apesar das diferentes abordagens, A Morte do Robin Hood de Michael Sarnoski também percorre o caminho da culpa, porém, neste caso, focando em uma escala individual.

Continue lendo “A Morte do Robin Hood e a culpa que assola o cinema hollywoodiano”

A Sessão da Tarde mal pode esperar para passar O fim da rua em alguns anos

Aviso: Este texto contém spoilers

A imagem mostra quatro pessoas dentro de um carro antigo de cor verde-clara. No banco dianteiro, um homem dirige enquanto uma mulher está ao volante; entre eles, no banco traseiro, estão dois jovens. Os quatro observam atentamente o que acontece ao redor, com expressões de preocupação e tensão. A cena é registrada de frente, através do para-brisa do veículo, com uma paisagem residencial ao fundo.
Anne Hathaway e Ewan McGregor vivem casal em mundo apocalíptico em O fim da rua (Foto: Bad Robot e Jackson Pictures)

Ana Beatriz Zamai

O fim da rua segue uma família dos anos 80 que é transportada para a era pré-histórica junto com todo seu bairro. Enquanto se defendem dos animais do período jurássico, eles tentam entender o que está acontecendo e como voltar para suas vidas comuns. Parece apenas mais um filme de ficção científica com dinossauros, seguindo o padrão de algum dos Jurassic Park, por exemplo, mas não é. Diferente da famosa franquia, o longa vai além de ser apenas uma perseguição entre monstros e humanos e coloca os personagens para explorar as relações familiares enquanto lutam pela própria vida.

Continue lendo “A Sessão da Tarde mal pode esperar para passar O fim da rua em alguns anos”