
Catarina Pereira e Jhenifer Oliveira
Há 20 anos, O Diabo Veste Prada marcou uma geração traduzindo os bastidores da moda de luxo ao mundo e trazendo curiosidades sobre a produção editorial. O longa se tornou icônico, atingindo uma bilheteria de enorme sucesso – 326,6 milhões de dólares – e conquistando um Globo de Ouro e inúmeras outras premiações, como BMI Film Award e Satellite Awards, além de contar com as atuações brilhantes de Anne Hathaway e Meryl Streep. Em 2026, a obra ganha uma sequência que chega aos cinemas com muita antecipação do público.
O Diabo Veste Prada 2 é uma continuação satisfatória que vai contra o movimento de sequências decepcionantes lançadas nos últimos tempos, como Meninas Malvadas (2024). O filme ainda se baseia na história de Anna Wintour, ex-editora-chefe da Vogue americana, trazendo conflitos e crises da transição do jornalismo impresso para o digital e da corporativização do jornalismo editorial. Tudo isso sem perder o viés pessoal da evolução das memoráveis personagens Miranda Priestly (Meryl Streep) e Andrea Sachs (Anne Hathaway).
A direção de David Frankel traz novamente um olhar sensível às relações interpessoais das personagens, como a conexão entre a Miranda e Andy, que, mesmo após anos, segue sendo complexa e interessante. O filme cria uma conexão com o público transmitindo uma intimidade maior com as protagonistas, que são retratadas em suas múltiplas faces. A direção de arte assinada por Jess Gonchor é excepcional para a sequência conversar com a obra anterior, já que segue trazendo as marcas do primeiro filme, mas sendo adaptadas para o momento atual.

Outro ponto essencial ao falar sobre O Diabo Veste Prada é o renomado figurino. O novo longa traz para as telas uma elegância minimalista, com peças-chave de grandes marcas, como Chanel e Dior, sem necessitar de muito para criar looks icônicos. A responsável pelo visual é Molly Rogers – parceira de Patrícia Field, figurinista do primeiro filme – que captou muito bem a sutileza necessária para ser extremamente sofisticado.
É de se esperar que, em uma sequência, a dicotomia entre o velho e novo exista, mas em O Diabo Veste Prada 2 esses antônimos convivem entre si dentro da narrativa sem necessitar explicitamente recorrer ao anterior. A grande problemática do enredo se apoia em conciliar as mudanças sofridas através do tempo pelas relações entre os personagens e seu amadurecimento, além das formas de se compreender jornalismo e arte.

O roteiro feito por Aline Brosh McKenna tem enfoque crítico, abordando as mudanças do atual mercado através da ficção. A trama é surpreendente, apresentando uma não obviedade aos acontecimentos e mantendo o espectador cativado durante o filme inteiro. Os personagens são bem desenvolvidos, dando um maior espaço à novos enredos, como Nigel (Stanley Tucci) e Emily (Emily Blunt), que ganham um certo protagonismo na obra, esse teor emocional trás à produção uma nova visão da narrativa, que ganha discussões que abordam além do que foi apresentado originalmente no primeiro filme. Por outro lado, a história se perde ao propor um romance à Andy, que fica em último plano e não conversa com os outros eventos. A impressão que fica é que foi algo necessário para completar a vida da protagonista, sendo que sua carreira sempre foi o enfoque principal.
O Diabo Veste Prada 2 não decepciona ao prometer uma sequência icônica com novos cenários e propostas, porém com fidelidade ao sentimento de nostalgia e apego ao antigo filme. Assim, o longa não procura apenas continuar a proposta da primeira obra, mas sim reinventá-la, e tem sucesso ao fazê-lo. Mesmo com novos enredos, os pontos de conexão entre o primeiro e o segundo exemplar de O Diabo Veste Prada mantém o espectador instigado e satisfeito com a continuação de uma história que lhe é tão íntima e adorada, não decepcionando quem vai aos cinemas buscando sentir o mesmo que sentiu há 20 anos.
