O Diabo Veste Prada 2 se veste de passado para se reinventar no novo

Duas mulheres estão lado a lado, encarando a câmera com expressão confiante. Ambas usam óculos escuros pretos e roupas em tons escuros. À esquerda, uma mulher mais velha, de cabelo curto grisalho, veste um blazer preto e brincos discretos. À direita, uma mulher mais jovem, com cabelo longo castanho ondulado, usa um colete preto com listras finas e um colar de pérolas.
A produção de O Diabo Veste Prada 2 mantém a essência e os principais criativos do original, incluindo o diretor David Frankel (Foto: Wendy Finerman Productions)

Catarina Pereira e Jhenifer Oliveira


Há 20 anos, O Diabo Veste Prada marcou uma geração traduzindo os bastidores da moda de luxo ao mundo e trazendo curiosidades sobre a produção editorial. O longa se tornou icônico, atingindo uma bilheteria de enorme sucesso – 326,6 milhões de dólares – e conquistando um Globo de Ouro e inúmeras outras premiações, como BMI Film Award e Satellite Awards, além de contar com as atuações brilhantes de Anne Hathaway e Meryl Streep. Em 2026, a obra ganha uma sequência que chega aos cinemas com muita antecipação do público.


O Diabo Veste Prada 2 é uma continuação satisfatória que vai contra o movimento de sequências decepcionantes lançadas nos últimos tempos, como Meninas Malvadas (2024). O filme ainda se baseia na história de Anna Wintour, ex-editora-chefe da Vogue americana, trazendo conflitos e crises da transição do jornalismo impresso para o digital e da corporativização do jornalismo editorial. Tudo isso sem perder o viés pessoal da evolução das memoráveis personagens Miranda Priestly (Meryl Streep) e Andrea Sachs (Anne Hathaway).

A direção de David Frankel traz novamente um olhar sensível às relações interpessoais das personagens, como a conexão entre a Miranda e Andy, que, mesmo após anos, segue sendo complexa e interessante. O filme cria uma conexão com o público transmitindo uma intimidade maior com as protagonistas, que são retratadas em suas múltiplas faces. A direção de arte assinada por Jess Gonchor é excepcional para a sequência conversar com a obra anterior, já que segue trazendo as marcas do primeiro filme, mas sendo adaptadas para o momento atual.

Quatro pessoas posam em uma escadaria branca, uma mulher com um vestido preto, outra mais velha com um vestido vermelho, ao seu lado direito um homem de terno preto e ao lado dele uma mulher com uma roupa social branca.
A première mundial de O Diabo Veste Prada 2 ocorreu em 20 de abril de 2026, em Nova York. (Foto: Wendy Finerman Productions)

Outro ponto essencial ao falar sobre O Diabo Veste Prada é o renomado figurino. O novo longa traz para as telas uma elegância minimalista, com peças-chave de grandes marcas, como Chanel e Dior, sem necessitar de muito para criar looks icônicos. A responsável pelo visual é Molly Rogers – parceira de Patrícia Field, figurinista do primeiro filme – que captou muito bem a sutileza necessária para ser extremamente sofisticado.


É de se esperar que, em uma sequência, a dicotomia entre o velho e novo exista, mas em O Diabo Veste Prada 2 esses antônimos convivem entre si dentro da narrativa sem necessitar explicitamente recorrer ao anterior. A grande problemática do enredo se apoia em conciliar as mudanças sofridas através do tempo pelas relações entre os personagens e seu amadurecimento, além das formas de se compreender jornalismo e arte.

 Mulher de cabelos longos e castanhos caminha ao ar livre enquanto fala ao celular. Ela usa óculos escuros, um colete preto de alfaiataria sem mangas e acessórios como colar e anéis. Sua expressão é atenta, com os lábios levemente entreabertos.
A estreia de O Diabo Veste Prada 2 teve grande sucesso e vendeu aproximadamente US$ 233 milhões no mundo inteiro (Foto: Wendy Finerman Productions)

O roteiro feito por Aline Brosh McKenna tem enfoque crítico, abordando as mudanças do atual mercado através da ficção. A trama é surpreendente, apresentando uma não obviedade aos acontecimentos e mantendo o espectador cativado durante o filme inteiro. Os personagens são bem desenvolvidos, dando um maior espaço à novos enredos, como Nigel (Stanley Tucci) e Emily (Emily Blunt), que ganham um certo protagonismo na obra, esse teor emocional trás à produção uma nova visão da narrativa, que ganha discussões que abordam além do que foi apresentado originalmente no primeiro filme. Por outro lado, a história se perde ao propor um romance à Andy, que fica em último plano e não conversa com os outros eventos. A impressão que fica é que foi algo necessário para completar a vida da protagonista, sendo que sua carreira sempre foi o enfoque principal.

O Diabo Veste Prada 2 não decepciona ao prometer uma sequência icônica com novos cenários e propostas, porém com fidelidade ao sentimento de nostalgia e apego ao antigo filme. Assim, o longa não procura apenas continuar a proposta da primeira obra, mas sim reinventá-la, e tem sucesso ao fazê-lo. Mesmo com novos enredos, os pontos de conexão entre o primeiro e o segundo exemplar de O Diabo Veste Prada mantém o espectador instigado e satisfeito com a continuação de uma história que lhe é tão íntima e adorada, não decepcionando quem vai aos cinemas buscando sentir o mesmo que sentiu há 20 anos.

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