O Outro Lado das Redes é corrupto e o homem por trás da câmera é inapto

Esse foi o primeiro filme exibido na 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, mas apenas para a imprensa (Foto: Sony Pictures)

Guilherme Moraes

O Outro Lado das Redes foi exibido em uma cabine de imprensa da 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo e fará parte da programação do evento na seção Perspectiva Internacional. Antes de mais nada, é preciso dizer que o longa não é uma continuação de A Rede Social (2010) de David Fincher; são apenas duas obras que adaptam passagens da vida de Mark Zuckerberg e do Facebook/Instagram/Meta. Primeiro porque os personagens não são os mesmos, ou têm qualquer relação; segundo porque o Aaron Sorkin é tão ineficiente em articular os elementos cinematográficos que mal é um filme.

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Verity tenta surpreender, mas se perde na falsa complexidade

Aviso: Este texto contém spoilers

Uma mulher branca de cabelo escuro e liso está sentada à mesa com as mãos sobre o teclado de um computador. Ela veste um casaco vermelho no mesmo tom de seu batom, enquanto olha fixamente para a câmera. Na mesa e no móvel ao fundo, há objetos de escritório e vasos com flores. A cena é iluminada pela luz de uma lâmpada alaranjada e pelo brilho azulado da tela do computador
“Esse é o seu aviso final. Apenas escuridão à frente” (Foto: Sony Pictures)

Vitória Mendes

Corromper a realidade e distorcer dilemas éticos é a especialidade de autores, em especial ao criarem um universo pelos olhos do vilão. Quando um escritor mergulha na mente e nos sentimentos mais sombrios de suas criações, o quanto disso é parte dele mesmo e o quanto é apenas ficção? Esse é o questionamento que permeia Verity. Baseado no thriller psicológico de sucesso de Colleen Hoover, o filme acompanha a trajetória de Lowen Ashleigh (Dakota Johnson), uma autora com pouco reconhecimento que recebe uma proposta milionária para terminar os últimos livros da famosa série de Verity Crawford (Anne Hathaway), que está debilitada. Tendo acabado de perder a mãe e sendo despejada de seu apartamento, a protagonista aceita a proposta e se muda para a casa da família. 

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Quando a carapuça serve: Watchmen (1986) e a adaptação de Zack Snyder

Arte do quadrinho Watchmen Na imagem, cinco heróis estão reunidos, quatros estão um ao lado do outro e o Dr. Manhattan está atrás, no meio. Da esquerda para a direita, está Ozymandias, um homem branco e de cabelos loiros. Ele veste uma túnica roxa com um ornamento egipcício no pescoço e peito com o desenho de um olho no centro. Na testa, há uma argola encaixada que contorna a cabeça. Espectral é uma mulher branca de cabelos castanhos. Ela veste uma roupa amarela com detalhes em preto. Nas orelhas, um brinco em forma de “S”. O Dr. Manhattan, um ser com aparência humana, mas de pele em tom azul e sem vestimentas vem logo em seguida, ao fundo. Ele possui uma mira desenhada na testa. Coruja vem logo depois, o personagem veste um uniforme que lembra o animal: capuz no formato das orelhas e bico, uma capa que se estende para os lados do corpo e deixa o peito aberto, como um pássaro. A roupa é na cor marrom. Ele é um homem branco e usa óculos redondos e amarelos de lentes escuras. Por último, no canto direito, está Rorschach, vestindo um chapéu marrom com uma faixa roxa. Ele usa um sobretudo também no marrom e cachecol branco. Sua máscara remete aos desenhos abstratos do teste Rorschach, daí vem seu nome. Ao fundo, há uma parede azul com um círculo amarelo.
Encontrar uma imagem que não ovacione os heróis de Watchmen é uma tarefa difícil (Foto: DC Comics)

Davi Marcelgo

Este texto contém um vídeo que amplia a discussão sobre o papel político dos heróis, assista aqui: https://www.instagram.com/p/Dd9zR8LhU6p/

A primeira edição de Watchmen, de Alan Moore e Dave Gibbons, chegou às bancas em 1986 e a adaptação cinematográfica, dirigida por Zack Snyder, veio às telonas em 2009. O cineasta já era grandinho à época da revista, tinha 20 anos. Ele teve, pelo menos, 23 anos para compreender a obra original até ser capaz de adaptá-la. O problema é que o americano é um fã de quadrinhos – como ele mesmo diz em uma entrevista para o Direto de Hollywood à época da produção – adaptando uma obra que rejeita tanto os fãs quanto a mídia de HQs. Zack Snyder é o tipo de pessoa que Alan Moore critica: o homem branco devoto à violência. Continue lendo “Quando a carapuça serve: Watchmen (1986) e a adaptação de Zack Snyder”

Há 10 anos, Solange ocupa a cabeceira da mesa com A Seat at the Table

Retrato aproximado de Solange, de frente para a câmera. Ela tem os cabelos soltos e volumosos, presos por diversos grampos coloridos, principalmente rosas e prateados. Usa maquiagem discreta e expressão serena. O fundo é claro e desfocado.
O álbum parte da experiência da dor para construir um espaço de cura (Foto: Carlota Guerrero)

Victor Hugo Aguila 

Com uma carreira artística consolidada, Solange é a prova de que a maturidade é uma raiz protuberante do sucesso. Através das objeções delicadas presentes no processo de crescimento pessoal, é desabrochado o trabalho mais emblemático e auspicioso da caçula da família Knowles, visto seu contato direto e familiar com a indústria fonográfica. A Seat at the Table, que completa 10 anos em 2026, rompe com a temporalidade, uma vez que as questões abordadas e o talento que o permeia são acrônicos. 

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Algumas coisas só existem quando o sol se põe, e BUDAH nos apresenta a complexidade do universo noturno em FREQUÊNCIA LUNAR

Capa do álbum Frequência Lunar, de Budah. A artista aparece em um retrato em close, centralizada na composição, olhando diretamente para a câmera com expressão intensa e confiante. A imagem em preto e branco destaca seu rosto e os acessórios metálicos que utiliza, incluindo um grande aro circular posicionado diante do centro do rosto, piercings no nariz, brincos e colares em camadas. Seus cabelos longos e ondulados caem sobre os ombros, com mechas claras contrastando com os tons escuros da fotografia, enquanto um véu translúcido emoldura sua cabeça. O fundo escuro e a iluminação dramática reforçam a atmosfera mística, sensual e futurista que caracteriza a identidade visual do álbum.
Em uma fase mais intensa e livre, BUDAH mostra toda sua potência noturna e múltipla (Foto: Mateus Aguiar/Universal Music Brasil)

Sofia Ferreira Santos

Brendha Rangel, cantora capixaba que atende pelo nome artístico BUDAH, iniciou sua trajetória nas batalhas de rap de seu estado. Após marcar presença no line-up do festival The Town em 2025 e diversos outros festivais pelo Brasil, ela retorna em 2026 com seu segundo álbum, em que, logo na faixa de abertura, já faz questão de se apresentar ao novo ouvinte: “Muito prazer, minha vida, eu sou sua nova favorita”.

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O controle de Resident Evil pertence a Zach Cregger

Aviso: Este texto contém spoilers

Cena do filme Resident EvilNa imagem, o personagem Bryan, de costas, corre por uma rua com carros abandonados e cobertos de neve enquanto pessoas se atiram do prédio, explodindo em sangue no chão e nos automóveis. O cenário é noturno, há edifícios e iluminação oriunda dos postes. Há neve por toda parte e Bryan veste calça e jaqueta escura.
O último live action da franquia foi em 2021 com Resident Evil: Bem-vindo a Raccoon City
(Foto: Sony Pictures)

Davi Marcelgo

Temer e rir são sentimentos conflitantes, mas Zach Cregger, que despontou no Terror com o excelente Noites Brutais (2022) e fundou, antes disso, o grupo comediante The Whitest Kids U’ (2007-2011), consegue tirar do público ambas sensações em Resident Evil, a mais nova tentativa de levar para o Cinema a adaptação do jogo homônimo. A franquia não é a única que ousou transpor para outra linguagem, mas esta pode ser uma das melhores experiências – não somente pelo sarrafo baixo – porque o cineasta reproduz elementos dos games sem esquecer que isto se trata da Sétima Arte.  Continue lendo “O controle de Resident Evil pertence a Zach Cregger”

The Boys, a contraditória paródia que se tornou aquilo que debochava

Cena de The Boys. Plano médio de cinco personagens reunidos em um laboratório ou instalação industrial de tom azulado. À esquerda, Frenchie aponta para frente com o braço estendido; ao seu lado, Kimiko observa com expressão de raiva. No centro, está Leitinho com uma blusa preta e outra de cor vinho por baixo. Também ao centro está Luz-Estrela, vestindo uma jaqueta de couro cinza. Os dois olham na mesma direção com semblantes preocupados. À direita, Hughie Campbell aparece com o braço estendido para o lado oposto, parecendo alertar o grupo. Ao fundo, há grandes maquinários brancos com portas e escotilhas.
The Boys começou como uma paródia aos filmes de super-heróis (Foto: Prime Video)

Guilherme Moraes

O movimento natural de um gênero cinematográfico é o revisionismo e a paródia após o ápice para matar a maneira antiga de se fazer certo tipo de filmes e criar algo novo. O exemplo mais claro disso são os faroestes, que atingiram o seu ponto mais alto nas décadas de 1940 e 1950; passaram a ser refletidos no final dos anos 1950 e 1960 e parodiados a partir do decênio de 1970. A série The Boys apareceu em 2019 junto com Watchmen como parte desse processo de parodiar o gênero de super-herói que havia encontrado seu ponto mais alto, mercadologicamente e narrativamente, naquele mesmo ano com Vingadores: Ultimato.

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A 2ª temporada de X-Men ’97 escreve seu próprio apocalipse

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Cena da série X-Men ‘97Na imagem, o personagem Noturno, de pele azul escura e olhos amarelos, está com uma expressão de preocupação. Ele veste um uniforme preto com linhas amarelas nos braços e ombros por cima de uma roupa de padre, com o colarinho aparente. Noturno tem cabelo em topete na cor preta.
Nove episódios, lançados semanalmente, compõem o segundo ano da série (Foto: Disney+)

Davi Marcelgo

Em 2024, o showrunner de X-Men ‘97, Beau DeMayo, foi demitido da Marvel Studios, acusado de má conduta sexual. Ao mesmo tempo, ele fez algumas alegações de que a Disney havia pedido ao funcionário que deixasse a série “menos gay”. A segunda temporada estreou em 2026, com oito episódios assinados por DeMayo, em coautoria com outros roteiristas, inclusive de Brian Ford Sullivan, responsável pelo último sem o comando do principal nome por trás do primeiro ano. O resultado disso é um enredo picotado e acelerado, que parece fugir do plot principal. Continue lendo “A 2ª temporada de X-Men ’97 escreve seu próprio apocalipse”

Quando seguir em frente dói em quem fica: o ressentimento de Noah Kahan em The Great Divide

Um homem está em pé atrás de uma porta branca de madeira com uma tela quadriculada em formato de um rosto. O homem é branco, tem cabelos castanhos lisos na altura do ombro e bigode. Ele veste uma jaqueta bege, uma calça vinho e um boné azul escuro. Ele tem a expressão séria e o rosto encara levemente o lado direito da imagem. A fachada possui tons desgastados de branco, vermelho e laranja. Há uma luminária antiga na parede e um pedaço de uma estrutura de madeira no chão.
O artista documentou seu processo criativo, vulnerabilidades e saúde mental no documentário Noah Kahan: Out of Body, gravado após o sucesso de Stick Season (Foto: Pooneh Ghana)

Vitória Mendes

Ao crescer e encarar os próprios conflitos internos, as despedidas deixam de ser eventos isolados e se tornam parte do processo. Surge então aquela sensação contraditória de sentir falta e odiar a pessoa antes mesmo que ela parta, um ressentimento que se esconde sob camadas de palavras encorajadoras. Como uma mãe vendo os filhos deixarem a cidadezinha na qual cresceram em busca de uma vida maior, o retrato que fica é do luto por alguém que ainda está vivo, mas ausente. Há uma dolorosa ironia em desejar que o ser amado vá embora e, depois, precisar lidar com o vazio deixado por ele. Esse é o sentimento que ancora The Great Divide, obra que, em meio às frustrações e expectativas, reflete a complexa jornada de seguir em frente, mesmo quando tudo que se quer é desistir ou descontar a raiva em alguém.

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Após 5 anos, continua satisfatório ser A Pior Pessoa do Mundo

Cena de A Pior Pessoa do Mundo. Na imagem, há um homem branco de cabelos castanhos tragando a fumaça que sai da boca de uma mulher branca de cabelos castanhos. Os dois vestem roupas pretas.
Em 12 capítulos, Julie (Renate Reinsve) experimenta infidelidade, solidão e completude em Oslo (Foto: MK2 Productions)

Guilherme Machado Leal

Julie (Renate Reinsve) é aquele tipo de jovem que representa a geração à qual pertence: na fase dos 20 e poucos anos, a mulher é obcecada pela sensação que as mais variadas experiências podem garantir a ela. Desde testar vários cursos em universidades para aplicar suas habilidades até  dormir com quem quiser, a personagem-título traz aspectos conflitantes relacionados às suas escolhas. Para alguns, ela é um modelo a ser seguido. Já outros, a definem como o grande ‘problema’ da história, e é isso que torna A Pior Pessoa do Mundo, de Joachim Trier, um marcador temporal da juventude da década de 2020.

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