“Minha história é como a felicidade se torna mais fácil de achar ao percebermos que não temos a eternidade para encontrá-la”, Andrea Gibson (Foto:Apple TV)
Lara Fagundes
Como é amar alguém sabendo que essa pessoa vai partir antes do planejado? E como continuar vivendo com os dias contados? Embaixo da Luz de Neon, indicado na categoria de Melhor Documentário do Oscare dirigido por Ryan White, acompanha os poetas: Andrea Gibson, artista não binário com diagnóstico de câncer terminal no ovário, e Megan Falley, sua esposa e companheira. Muito mais do que uma história sobre lidar com mortalidade, o longa fala da importância de colocar sentimentos em palavras e celebrar a vida com leveza enquanto ainda a tem.
Cary Christopher, que interpreta Alex, único aluno que não desaparece, foi indicado ao Critics Choice Awards (2026) de Melhor Jovem Ator (Foto: Warner Bros)
Lara Fagundes
Um desaparecimento em massa assombra uma vizinhança fictícia na Pensilvânia: 17 crianças da mesma sala de aula saem de suas próprias casas no meio da madrugada, todas no mesmo horário, e não voltam mais. Uma voz infantil, como uma menina contando uma história em volta da fogueira, é o que inicia a trama. Com uma ambientação comparável aIt: A coisa(2017), inspirado na obra de Stephen King, ouTelefone Preto (2021), do diretor Scott Derrickson, em uma típica cidade pequena do interior, A Hora do Mal, dirigido por Zach Cregger, traz uma narrativa mais próxima dos contos de King, com visões fragmentadas de um único mistério que os entrelaça.
A estética de lenda urbana sustenta o ar de suspense na maior parte do tempo, sem assustar tanto, apenas criando uma atmosfera tensa baseada na violência entre moradores e pelo elemento sobrenatural que envolve o município. Nesse contexto, o nome original do longa, Weapons, traduzido de forma literal para ‘armas’, funciona como metáfora para abordar os personagens sendo usados como ferramenta para machucar uns aos outros. Porém, a tradução A Hora do Mal também é certeira, trazendo um formato parecido com títulos deconto, onde os alunos, que somem exatamente às 2:17 da manhã, são o estopim do enredo e, por isso, são o foco desde o nome.
As duas interpretações de título expressam a criatividade por trás de Zach Cregger, um diretor que iniciou sua carreira no cinema da comédia, sendo um dos criadores da série de comediantes The Whitest Kids U’ Know (2007), além de ter estrelado obras do gênero antes de se encontrar no horror. Esse seu histórico com o humor traz um toque especial para seus novos filmes desdeNoites Brutais (2022), conseguindo criar atmosferas únicas e histórias muito originais com uma suavidade que contrasta com as mortes mais grotescas.
O roteiro da produção foi disputado por vários estúdios, até ser comprado pela Warner Bros por U$38 milhões (Foto: Warner Bros)
Inspirado em Magnólia (1999), drama de Paul Thomas Anderson, Cregger dividiu o suspense em atos, desvendando os acontecimentos por meio da repetição de um dia por perspectivas diferentes. Ou seja, seis pessoas, com funções distintas, ajudam a formular o terror em passos lentos. Indo devagar, apenas com jumpscares pontuais, o filme não gera tanto medo, mas instiga uma curiosidade inquietante, e a escolha pelos cortes brutos e alguns momentos cômicos nas entrelinhas, escondem o verdadeiro mal por trás do desaparecimento e flertam com um humor que beira o absurdo, não permitindo trazer o horror absoluto até o último minuto. Assim, temos uma obra que traz uma sensação de estranheza até te levar a um ponto mais violento.
Além disso, os pontos de vista, apesar de tornarem a investigação mais lenta, expandem os personagens em ritmo de episódios, o que alavancou o elenco. A professora Gandy (Julia Garner) e o pai de um dos desaparecidos, Archer (Josh Brolin), são atores que se sobressaem, presentes como lados opostos da situação, na qual apresenta-se uma pessoa que se martiriza e outra que tenta encontrar um culpado o mais rápido possível. Porém, quem chamou mais atenção foi Amy Madigan; mesmo com pouco tempo de tela, foi reconhecida pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas e indicada ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante com sua interpretação de Gladys, tia de Alex, o único menino que não desapareceu.
Grande parte da equipe de Noite Brutais, primeiro terror do diretor, também esteve presente em A Hora do Mal (Foto: Warner Bros)
A vilã, introduzida apenas próxima ao fim do segredo, chega com uma atuação que desempenha um misto de emoções a cada aparição, usando do desconforto para trazer a dose de estranheza que o filme pedia. Porém, o impacto que ela causa com sua performance, não apaga que o desenvolvimento de sua personagem deixa a desejar, o que é amplificado por um final aberto, que responde perguntas enquanto outras surgem, esperando por mais detalhes sobre Gladys. Apenas o arquétipo de bruxa, mesmo que a torne enigmática, não é suficiente para explicar ao espectador o motivo dos desaparecimentos, gerando uma desfecho um pouco apressado.
Contudo, com o retorno da voz infantil; a menina que iniciou a lenda; a fecha dentro do mesmo aspecto e uma história que fica entre o real e a imaginação – uma assombração que permanece na cidade –, essa névoa gerada pelo tom simples da narração, justifica o encerramento, mas resume um incômodo, como se algo estivesse faltando. As mesmas crianças que iniciaram tudo, voltam ao foco para fecharem com a cena mais violenta, onde o mal se vira contra si mesmo e entrega uma finalização cheia de sequelas com a última frase: “Algumas [crianças] até começaram a falar de novo este ano”.
Apoiada em um mistério bem estabelecido e uma narrativa envolvente, A Hora do Mal se baseia na curiosidade típica de crianças narrando contos de terror umas para as outras. Zach Cregger soube usar o conceito de lenda para explorar sua criatividade e, apesar de não conseguir assustar tanto quanto poderia, compensou com uma tensão contínua e, como última pincelada, teve Amy Madigan roubando a cena. Assim, a união de um humor visceral com a violência de um horror sombrio, resulta em um filme de bruxaria que poderia ter contado mais, mas se manteve na segurança do imaginário de uma vizinhança perturbada.
“O coração dos nossos filhos bate. Eles sorriem, brincam. Nunca se esqueça por um instante que eles podem partir” (Foto: Universal Pictures)
Vitória Mendes
Lidar com o luto é uma tarefa inegavelmente complicada. A dor parece eterna e, mesmo quando diminui, deixa um rastro de sofrimento e memórias em cada vida que toca. Em muitos casos, recorrer à arte para expressar e aliviar o sentimento se mostra efetivo durante o processo de aceitação e vivência de cada fase. O pesar não tem a intenção de se encaixar. Ele chega como um fenômeno natural, sem previsão de fim. Ainda assim, o cotidiano não espera que a angústia passe ou que seja sentida para continuar. Hamnet: A Vida Antes de Hamlet retrata o luto como um personagem que predomina e avassala toda a narrativa.
A ausência do pai moldou a personalidade de Nora e a maneira como ela se envolve com todas as pessoas de sua vida (Foto: Kasper Tuxen)
Guilherme Machado Leal
Nos filmes de Joachim Trier, a cidade Oslo se torna parte da história que o cineasta gosta de contar. As ruas, estabelecimentos e arquiteturas da capital da Noruega registram por meio das lentes a sensação de como é viver no local. Em Valor Sentimental, o diretor Gustav Borg (Stellan Skarsgård) retorna à cidade natal para convencer a filha, Nora (Renate Reinsve), a gravar um filme baseado na vida de sua família após mais de uma década afastado das telas. No entanto, há um fator especial: a primogênita seria a protagonista da narrativa, que entra na ferida mais profunda de um filho: a ausência de um pai.
O filme já acumula mais de 60 indicações e 32 vitórias na temporada de premiações de 2025 (Créditos: A24)
Isabela Nascimento
A ‘histeria feminina’, ou melhor, os sentimentos incompreendidos de mulheres sempre foram abordados nas grandes telas. Por muito tempo, essas emoções eram demonstradas por um olhar masculino extremamente limitado. Porém, agora vemos essas produções lideradas por diretoras que exploram as complexidades e consequências das opressões que as mesmas sofrem ou já presenciaram.
Jessie Buckley interpreta três personagens totalmente distintas entre si (Foto: Warner Bros)
Ana Beatriz Zamai
Depois de nos entregar uma performance espetacular e merecedora do Oscar de melhor atriz por seu papel em Hamnet (2025), Jessie Buckley aparece irreconhecível e fenomenal em A Noiva!, interpretando três personagens: a autora Mary Shelley, Ida e a Noiva. O filme conta a história de Ida, uma mulher de Chicago dos anos 1930, que foi assassinada a mando de chefes da máfia, enquanto era possuída pelo espírito fantasmagórico e teatral de Shelley. Em uma mudança de cenários, Frank (Christian Bale), o monstro de dr. Frankenstein, implora pela ajuda da Dra. Euphronious (Annette Bening), cientista especializada em reanimação de organismos, para acabar com sua solidão que já dura um século. O monstro e a doutora desenterram Ida e a trazem de volta à vida, dando início à uma grande história de amor – ou de terror.
Publicado em 2005, O Ladrão de Raios deu início a uma das séries mais influentes da literatura juvenil do século XXI (Foto: Intrínseca)
Nathalia Helen
Os livros de Percy Jackson marcaram profundamente uma geração de leitores, e celebrar 20 anos do início da saga é também celebrar o impacto emocional que as histórias tiveram ao longo do tempo. Desde o lançamento de O Ladrão de Raios em 2005, o autor Rick Riordan abriu portas para um universo onde a mitologia grega deixou de ser algo distante, recorrente nos livros escolares e passou a fazer parte do cotidiano de jovens leitores ao redor do mundo. Para muitos, foi o primeiro contato com deuses, monstros e heróis – mediados por humor, aventura e identificação.
Capa do álbum Fleetwood Mac, lançado em 1975, o primeiro grande sucesso da banda (Foto: Herbert Worthington)
Bianca Costa
O ano era 1975, momento em que Fleetwood Mac estava à beira do desaparecimento. Assim, nasceu o décimo álbum da banda, o autointitulado Fleetwood Mac. Não era exagero, depois de quase dez anos mergulhados no blues britânico, trocando integrantes como quem tenta remendar uma embarcação furada, o grupo parecia ter perdido o próprio pulso. Formada em 1967 por Peter Green, Mick Fleetwood, John McVie e Jeremy Spencer, o grupo nasceu como um projeto sólido de blues, mas a instabilidade criativa, marcada por saídas, crises e problemas pessoais, fez eles se perderem no próprio labirinto sonoro.
G-Dragon caminha em meio a multidão durante a Übermensch Tour
Flávia Ferracini
Após oito anos longe dos palcos, G-DRAGON retorna com um projeto que é, ao mesmo tempo, espetáculo e manifesto existencial. Dirigido por Byun Jin Ho, G-DRAGON IN CINEMA: Übermensch acompanha a turnê mundial homônima de 2025, registrada em mais de dez países e lançada em mais de cinquenta – incluindo o Brasil, onde chega pelas mãos da Sato Company. O diretor, conhecido por outros trabalhos com G-DRAGON e BIGBANG, traz seu olhar que consegue equilibrar estética e introspecção, traduzindo a energia performática do artista em imagens que exploram o limite entre o humano e o sobre-humano – o que é ser ‘além do homem’ dentro de uma indústria que exige perfeição constante.
A amizade e irmandade feminina – que era pra ser o foco da série – acabou sendo deixado para segundo plano na nova temporada (Foto: Apple TV+)
Stephanie Cardoso
A segunda temporada de The Buccaneers, série original da Apple TV+, chega tentando manter o charme, mas tropeça justamente onde era mais potente: a amizade entre mulheres. O que na estreia parecia um manifesto delicado sobre juventude feminina, pertencimento e afeto – aquele calor de girlhood, para usar o termo consagrado nos círculos culturais – agora vira pano de fundo para intrigas românticas e melodramas em câmera lenta. Visualmente, continua um deslumbre, porém, narrativamente é como trocar um diário íntimo por uma coluna social de revista de época.