Aviso: O texto contém alguns spoilers

Mariana Bezerra
O filme brasileiro Velhos Bandidos, dirigido por Cláudio Torres, chega às telonas com um elenco de peso, a começar por Fernanda Montenegro, que diz esse ser o seu último filme. Inclusive, em uma de suas apresentações de Fernanda Montenegro lê Simone de Beauvoir, a atriz deixou claro que a obra não se tratava de um drama social, mas de uma comédia. Além dela, apenas para começar a citar o restante do elenco, estão em cena Ary Fontoura, Lázaro Ramos, Bruna Marquezine e Vladimir Brichta. Apesar dos estigmas existentes sobre as comédias nacionais – alguns verdadeiros, outros nem tanto – havia uma expectativa natural em relação a esse lançamento diante da força dos nomes envolvidos.
De fato, o elenco se dá muito bem com a trama. Marta (Fernanda Montenegro) e Rodolfo (Ary Fontoura) são um casal de nonagenários que sofrem uma tentativa de assalto arquitetada por Nancy (Bruna Marquezine) e Syd (Vladimir Brichta). O plano do jovem casal parecia perfeito: invadir a casa de idosos que estavam em uma viagem de cruzeiro organizada pela própria personagem de Marquezine. No entanto, o esquema logo se revela um tiro no próprio pé. Inesperadamente, Marta e Rodolfo retornam a casa por causa de um passaporte esquecido, surpreendendo os invasores e – pasmem – sequestrando-os. A partir desse momento, a narrativa revela o seu diferencial: por trás da aparência frágil, os dois idosos subvertem as expectativas e assumem o controle da situação.
O casal mais jovem é forçado a se tornar uma engrenagem essencial em um plano mirabolante dos velhinhos: o roubo de um banco. Aqui, a trama constrói uma dimensão social com a ideia do ‘bom bandido’, quase um justiceiro à la Robin Hood. Isso porque a motivação do assalto nasce de uma injustiça sofrida pelo casal décadas antes: Rodolfo foi demitido sem receber os seus direitos trabalhistas após denunciar a corrupção dentro da construtora responsável pela obra do banco. Além disso, para completar esse arquétipo, há a figura do Osvaldo (Lázaro Ramos), um investigador da polícia, cuja filha se encontra em estado de saúde crítico e que depende de um medicamento de alto custo que demora a ser disponibilizado devido aos trâmites e burocracias do plano de saúde.

Embora o tecido narrativo seja construído com alguns clichês, a história ainda consegue ser envolvente. Por um lado, o roteiro (Cláudio Torres, Fabio Mendes e Renan Flumian) traz uma justificativa para o plano ardiloso de Marta e Rodolfo, por outro, Fontoura e Montenegro garantem que a sagacidade e a química marquem presença graças às suas performances, como sempre, brilhantes. Nesse sentido, Velhos Bandidos contribui para uma onda ainda jovem de uma nova perspectiva sobre a velhice. Enquanto esses dois personagens se mostram fortes e independentes uma série de estigmas e preconceitos é colocada à prova, haja vista a representação em tela da sexualidade dos nonagenários e a forma como são capazes de desbancar os invasores utilizando as habilidades certas, ainda que estivessem em desvantagem no que tange a força física.
Para além do núcleo do casal, o filme traz outros grandes nomes brasileiros que compõem uma equipe da terceira idade dotada das mais inusitadas habilidades, como a produção de gás sonífero e um laser extremamente poderoso, que se tornam essenciais na execução do roubo. Em oposição desse frescor trazido para o público, há o casal mais jovem, que carrega clichês em excesso, ultrapassando o limite confortável e beirando uma caricatura nada relevante – a exemplo de Nancy executando o roubo em um traje de mulher gato.
Apesar desse retrato desinteressante, os dois casais principais desenvolvem uma química agradável e reconfortante de se assistir enquanto planejam o grande crime. Os comparsas desenvolvem uma amizade natural e acabam compartilhando entre si questões íntimas, como o câncer raro e praticamente intratável do personagem de Fontoura, que precisa do dinheiro do roubo para custear um tratamento experimental no exterior. Esse fator, definitivamente, traz mais uma camada de calor humano à trama e intensifica a torcida pelos personagens.

O desenrolar do enredo é cercado de reviravoltas e culmina em um plot twist sensacional: o casal de velhos bandidos se uniu a seus amigos de longa data e ao policial Oswaldo para darem uma lição em Nancy e Syd. Os aliados forjaram desde intrigas entre si até a morte de Rodolfo, que envolveu tiro e sangue falsos. Assim, os jovens fogem pensando ter deixado os pobres velhinhos para trás, sendo obrigados a carregar todo o ouro consigo – o que, na verdade, já planejavam fazer – apenas para descobrirem que a mala que os tornaria milionários estava preenchida com chumbo.
Esse final não é necessariamente cativante pela sua imprevisibilidade, mas pela carga irônica e sagaz que acrescenta, novamente, às figuras de Marta e Rodolfo. Esse aspecto reforça que o maior mérito de Velhos Bandidos está nos retratos desses personagens e nas interações entre eles. Isso porque o planejamento do crime em si não faz muito sentido e recorre a todo momento às conveniências do roteiro, além de ser apresentado como simplificado demais para ser credível. Assim, o longa passa a depender inteiramente dos conflitos dramáticos, quando deveria haver um equilíbrio entre as temáticas abordadas, especialmente se tratando de um filme de assalto.

Infelizmente, nem mesmo a grande e revigorante surpresa narrativa é sustentada, já que é seguida de um outro plot twist moralmente correto – pelo menos a partir de uma perspectiva clichê e romantizada – e consideravelmente mais sem graça; após o tratamento bem sucedido do personagem de Fontoura, Marta e Rodolfo retornam ao Brasil para se reconciliarem com o casal que os enganaram e que agora espera a chegada de um bebê. Nesse sentido, há uma grande quebra de expectativas ao final. Infelizmente, Marta e Rodolfo, que mereciam um final controverso, engraçado e ambíguo, ganham um desfecho convencional e arrependido nas posições de ‘vovó’ e ‘vovô’, enquanto poderiam ter tido um ‘quê’ vilanesco mais coerente com a construção narrativa. E, claro, isso não é um demérito a essas posições familiares tão prestigiadas, mas uma ressalva as decisões contraditórias e pouco elaboradas adotadas em um momento decisivo da trama.
Apesar dessas questões, o filme não deixa de ser agradável – pelo menos até que o clímax seja interrompido – e há espaço para o riso e a emoção diante uma obra para toda a família. Infelizmente, Velhos Bandidos cai na tediosa posição de uma produção que não é reconhecida pela primazia, mas que, com o manejo da expectativa, pode se tornar uma boa experiência. De qualquer forma, mais uma vez, os louvores aos protagonistas veteranos são mais do que necessários devido à responsabilidade que carregam consigo. “Nunca subestime os velhos” é o que Marta diz no fim do longa. Aqui, eles – personagens e elenco – não apenas não devem ser subestimados como merecem todos os aplausos por fazerem a ida ao cinema valer a pena.
