
Talita Mutti
A ideia de uma cinebiografia é apresentar a vida de alguém que marcou a história, buscando compreender suas contradições, contextos e motivações de forma mais profunda ao longo de sua trajetória. Mais do que um simples retrato, esse tipo de obra deveria aproximar uma figura muitas vezes vista como inalcançável ao público que a acompanhou à distância, seja por notícias, rumores ou breves aparições que marcaram gerações. Michael falha justamente nesse ponto: não consegue respeitar nem humanizar um dos maiores nomes da música pop, optando por uma abordagem superficial e pouco envolvente.
Ousar contar a história de figuras importantes na indústria musical e, no caso, de alguém que ajudou diretamente a moldá-la, exige sensibilidade, precisão e responsabilidade narrativa em cada escolha criativa. Graham King, produtor de Michael, já havia se aventurado no gênero com Bohemian Rhapsody (2018), narrando a trajetória da banda Queen e seus conflitos internos. Mesmo com um roteiro irregular, o filme encontrou sustentação na performance de Rami Malek, que trouxe alguma força dramática ao projeto. Aqui, no entanto, a tentativa de repetir esse sucesso resulta em uma obra ainda mais frágil, incapaz de equilibrar espetáculo e profundidade.
Ao pensar em Michael Jackson, é inevitável reconhecer a complexidade de sua jornada artística e pessoal, marcada por transformações constantes e momentos decisivos em diferentes fases da carreira. São camadas que envolvem não apenas música, mas também inovação estética e a linguagem audiovisual. Um artista multifacetado que revolucionou a indústria e expandiu os limites criativos de sua época. No entanto, Jaafar Jackson não consegue traduzir essa dimensão de forma convincente. O problema vai além da atuação e está diretamente ligado a um texto que reduz a personagem a frases motivacionais repetitivas, esvaziando qualquer tentativa de construção dramática consistente.

Com um orçamento estimado em 150 milhões, Michael escolhe simplificar seus conflitos ao transformar Joe Jackson, vivido por Colman Domingo, em um antagonista central, deixando de explorar nuances importantes dessa relação. Enquanto isso, aspectos essenciais da genialidade do artista são deixados de lado ao longo da trama. O processo criativo aparece de forma superficial e apressada, como no tratamento dado ao álbum Off the Wall (1979), que foi um divisor de águas em sua carreira. Em vez de aprofundar esse momento, o filme prefere recorrer a soluções fáceis e pouco inspiradas.
Além disso, a abordagem dos videoclipes, uma das maiores contribuições de Michael para a cultura pop e para a linguagem audiovisual, é limitada em sua execução dentro da produção. A criação de Thriller (1982) surge sem impacto ou construção dramática, como se fosse apenas mais uma obrigação narrativa a ser cumprida. Em vez de explorar sua inovação estética e cultural, o enredo se limita a reproduções mecânicas que esvaziam o significado original da obra. A sensação é de que momentos históricos são tratados como simples ilustrações.
O excesso de recriações de shows reforça ainda mais a sensação de superficialidade e falta de propósito narrativo, tornando-o repetitivo. Muitas dessas apresentações já são amplamente conhecidas e aqui aparecem como cópias que não acrescentam novas perspectivas. Ao invés de reinterpretar esses momentos, a produção apenas os replica sem criatividade. O uso de CGI em cenas de grande público contribui para uma artificialidade constante, dificultando a imersão e enfraquecendo o impacto emocional que essas sequências poderiam ter.

Em mais de duas horas de duração, o longa evita mergulhar em aspectos complexos e controversos da vida do artista, optando por uma visão excessivamente segura e pouco reveladora. Não há aprofundamento em polêmicas, saúde ou relações fora do núcleo familiar, o que limita drasticamente a compreensão da personagem. A participação de Quincy Jones, interpretado por Kendrick Sampson, é mínima e pouco significativa, ignorando uma das parcerias mais importantes da história da música. Essa ausência de desenvolvimento enfraquece ainda mais a história.
Elementos técnicos também comprometem a experiência de forma visível, principalmente quando deveriam contribuir para a imersão na obra como um todo. A maquiagem, sob o comando de Bill Corso, é exagerada e artificial, aproximando o resultado de uma estética teatral que destoa do restante do filme. Em contrapartida, o figurino de Marci Rodgers se destaca positivamente ao recriar com fidelidade os visuais icônicos do artista. Esse cuidado traz um raro momento de autenticidade em meio a tantas escolhas questionáveis.
No fim, Michael se limita a compilar momentos conhecidos sem oferecer novas perspectivas ou aprofundamentos sobre a vida e a carreira de Michael Jackson. A narrativa carece de sensibilidade, pesquisa e coragem para explorar as complexidades do artista, reduzindo tudo a curiosidades superficiais e facilmente reconhecíveis. A possibilidade de expandir a história em continuações parece precipitada diante de um primeiro filme que não cumpre o básico. Em alguns casos, talvez seja mais honesto não contar uma história do que fazê-la sem o cuidado necessário.
