
Vitória Mendes
Uma das maiores críticas de telespectadores a respeito de adaptações literárias é a dificuldade em atingir as expectativas do público sem mudar drasticamente a narrativa ou torná-la incoerente. Construir o universo já consolidado no imaginário coletivo através da caracterização do elenco, dos figurinos e da montagem é um trabalho intricado e árduo. Nesse cenário, desde os anúncios iniciais, Sombra e Ossos não apenas correspondeu às expectativas, como se estabeleceu e agradou aos fãs. Ainda que tenha sido cancelada pela Netflix em um momento de muitas possibilidades na trama, a série se mantém amada mesmo após 5 anos.
A criação de Eric Heisserer é baseada na Trilogia Grisha (2012) de Leigh Bardugo, nome reconhecido no meio da literatura Young Adult (YA). Lançada em abril de 2021, a trama acompanha Alina Starkov (Jessie Mei Li), uma cartógrafa recrutada pelo Primeiro Exército do Czar para acompanhar os Grishas, praticantes da ‘pequena ciência’, na travessia pela Dobra, uma barreira que dividiu o Reino de Ravka há milênios. Com poderes recém-descobertos, a jovem passa a trabalhar com o General Kirigan (Ben Barnes) para aprender a controlá-los e destruir e escuridão e suas criaturas. Em um momento decisivo, Alina deve decidir se irá assumir seu destino como Sankta Alina, a Conjuradora do Sol, ou seguir seu coração que a leva a Malyen Oretsev (Archie Renaux), seu amigo de infância.
Em outro país, na cidade de Ketterdam, Kaz Brekker (Freddy Carter), Inej Ghafa (Amita Suman) e Jesper Fahey (Kit Young), um grupo de mercenários conhecido como os Corvos, recebem a missão de sequestrar a cartógrafa. Para garantir a recompensa e atravessar a Dobra em segurança, o grupo recruta a Sangradora Nina Zenik (Danielle Galligan), uma jovem que já pertenceu a corte e é assombrada por seu passado conturbado com Matthias Helvar (Calahan Skogman), um caçador de Grishas. O destino dos grupos parece cada vez mais interligado por um fio condutor prestes a incendiar o mundo. Em meio a planos audaciosos e traições, a impossibilidade de resolução é sintetizada na voz de Nikolai Lantsov (Patrick Gibson), que lembra o espectador que “quando as pessoas dizem impossível, elas geralmente querem dizer improvável”.

Ao adaptar os livros, a produção opta por uma mudança estrutural relevante: a unificação das linhas temporais da trilogia principal com o spin-off, a duologia Six of Crows (2015). Embora essa escolha pudesse gerar resistência do público, ela se mostrou funcional ao enriquecer a construção do mundo e ampliar as possibilidades de exploração. Além de permitir o crossover, torna o enredo mais dinâmico, garantindo que as reviravoltas se mantivessem estáveis e coerentes dentro da proposta, sem perder o encontro de narrativas, culturas e costumes, vitais para a obra.
Alina segue a clássica jornada do herói que reluta em assumir sua posição. Muitas vezes, a resistência da jovem é tão acentuada que até o espectador se questiona sobre seu papel decisivo. Assim, a luta interna sobre identidade passa a impulsionar a história, o que exemplifica a maestria dos produtores em usar a negação como recurso dramático. Durante o percurso, as figuras vilanescas amplificam a tensão por meio de abordagens distintas. Enquanto o adversário principal é envolto em mistério, no núcleo de Ketterdam os monstros são reais e, portanto, mais aterrorizantes. Ao transformar comportamentos e problemas sociais em críticas, Sombra e Ossos usa a fantasia como espelho e estabelece paralelos coesos com a realidade.
Contudo, a previsibilidade nas ações dos antagonistas revela uma oportunidade desperdiçada pelo roteiro que, embora não comprometa a experiência, não sustenta a atmosfera inquieta por muitos episódios. Apesar disso, o triunfo emocional da obra está nas conexões interpessoais. Embora os relacionamentos amorosos ocupem um papel relevante, são as amizades, na dinâmica found family, que determinam o andar da carruagem. A interação dos Corvos, composta por indivíduos de diferentes origens que se escolhem, deixa seu impacto como um dos maiores acertos dos roteiristas ao priorizar laços de amizade e amor fraternal sobre os vínculos de sangue.
Para além dos aspectos técnicos, a série se destaca pela representatividade por meio de diferentes nacionalidades, idiomas, raças e culturas pouco estampadas pela mídia. A inclusão de identidades LGBTQIAPN+ e a abordagem de temas relacionados à saúde mental, contribui para um retrato sincero, identificável e fidedigno à inspiração. A maneira como os aspectos psicológicos são retratados, em especial o Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT), hafefobia e a deficiência física, é um diferencial em relação a obras que ignoram discussões importantes em detrimento do entretenimento puro. A sensibilidade com que Bardugo traz as informações, apesar de não serem exaustivamente trabalhadas na primeira temporada, é admirável.
Nesse contexto, o elenco se consolida como um dos principais acertos. Em sua maior parte, foi composto por artistas em ascensão, com poucos nomes já reconhecidos. A escolha de Suzanne Smith e Sophie Holland, diretoras de elenco, permitiu que novos talentos fossem revelados em diversas áreas da arte, desde televisão até no teatro musical como Jack Wolfe. Para além disso, é inevitável analisar o impacto das entrevistas no fortalecimento dos papéis. A relação dos atores fora de cena influencia, muitas vezes, na maneira como o público enxerga cada interpretação. Elogiados como a alma da produção, cada ator se assemelha à idealização dos fãs e da própria autora ao longo dos anos.
O cuidado na caracterização depende não apenas da escolha narrativa e no que será mantido ou descartado, mas também nos trajes e maquiagens. Wendy Partridge, designer de figurinos, apresenta uma escolha estilística baseada na estética da Rússia czarista incorporada a elementos militares vitorianos. Além de visualmente marcantes, as peças auxiliam diretamente na ambientação, difusão das culturas e representam as divisões sociais e políticas dentro do Grishaverse. O estilo único com detalhes preciosos e cores simbólicas, além da moda nas diferentes cidades, que tornam o universo mais vivo, colorido e diverso.

Ambientar locais imaginários com alto nível de detalhamento é uma tarefa além de complexa, pois há apenas descrições, tornando o uso desenfreado de imagens geradas por computador (CGI) uma proposta tentadora. Contudo, na série, os cenários e folclores constroem uma atmosfera sombria e mágica na medida certa. Em um gênero frequentemente marcado por limitações técnicas ou excessos visuais, Sombra e Ossos se destaca pelo equilíbrio e naturalidade estética. No contexto geral, o conjunto técnico conseguiu criar a imersão desejada e reforçou a natureza fantástica e emblemática do universo.
A fotografia de David Higgs se destaca por valorizar os detalhes visuais e estabelecer uma relação equilibrada com os efeitos de Eddie Bonin, executivo de efeitos visuais, ao utilizar sombras profundas para dar textura e energia à Dobra, além de vitalidade aos poderes. A montagem, de nomes como Niven Howie e Lisa Bromwell, garantiram uma agradável fluidez à narrativa, especialmente diante da alternância entre os núcleos e linhas temporais. Em conjunto, a trilha sonora de Joseph Trapanese deixa sua marca ao unir instrumentos folclóricos com uma orquestra e partituras épicas.
Apesar dos acertos, o cancelamento evidenciou questões estruturais na indústria televisiva e contribuiu para o sentimento de revolta e frustração dos fãs. A decisão foi influenciada pela queda de audiência na segunda temporada, mesmo diante dos investimentos e avaliação alta do público. Além disso, a greve dos roteiristas e atores liderados pelo Sindicato dos Roteiristas dos Estados Unidos (WGA) e pela SAG-AFTRA fortaleceu a escolha da empresa. A luta teve como foco a remuneração mais justa e a regulamentação frente ao uso crescente de Inteligência Artificial (IA) nas produções. O cenário impactou diretamente o desenvolvimento de diversas obras do setor, muitas das quais encerraram por completo a produção.
5 anos após a estreia, ainda em um contexto de baixo investimento em trabalhos de ficção científica e fantasia, a série permanece como um exemplo relevante de adaptação literária. Além de contribuir para a expansão do interesse do público pela literatura, fortaleceu o gênero YA e as possibilidades de inovar sem perder a essência. Seu legado evidencia o vigor das narrativas fantásticas no audiovisual e, assim como obras como A Casa do Dragão (2022) e O Senhor dos Anéis: Os Anéis de Poder (2022), Sombra e Ossos supera as limitações da indústria e cria algo digno de aplausos.
