Sou feliz porque sei, com certeza, que ela me ama: 90 anos de Senhoritas em Uniforme

Cena do filme Senhoritas em Uniforme de Leontine Sagan. Nela está Fräulein von Bernburg, interpretada por Dorothea Wieck, e Manuela, interpretada por Hertha Thiele. Ambas são mulheres brancas e se encaram. Fräulein von Bernburg segura o rosto de Manuela com as mãos, inclinando-o para cima. A fotografia é em preto e branco com filtro granulado. Os tons escuros se esfumam junto do branco que parece brilhar. A proporção da tela é de 1.20:1.
Precursor do Cinema queer, Mädchen in Uniform (título original de Senhoritas em Uniforme) foi a estreia da curta filmografia de Leontine Sagan [Foto: Deutsche Film-Gemeinschaft]
Ayra Mori

1931, dentro de um internato, se deu o primeiro beijo lésbico reconhecido pela história da Sétima Arte. O título é honra, não dos tímidos beijos trocados por um casal de mulheres arlequinamente dançantes em Le départ d’Arlequin et de Pierrette (1900), da pioneira mãe do Cinema, Alice Guy-Blaché, ou do sex appeal de um beijo sáfico roubado por uma Marlene Dietrich andrógina em Marrocos (1930), mas sim, por direito, de Senhoritas em Uniforme (1931). Marco do audiovisual LGBTQIA+, a produção alemã determinou os destinos da ficção queer ao longo de seus 90 anos, revelando com sensibilidade o florescer do desejo lésbico. E realizado por uma equipe de mulheres, na desobediência, é alcançada a libertação.

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A mordida de Teen Wolf comemora uma década

Cena da série Teen Wolf. Nela está Scott, homem branco de cabelo preto, com feições mais animalescas. Sua boca está aberta, mostrando dentes de lobo. Seus olhos tem a cor avermelhada. No fundo é possível ver a entrada de um túnel, e o ambiente está escuro.
Tyler Posey é quem viveu o protagonista Scott McCall há uma década, e foi o primeiro a comemorar os 10 anos com a novidade de que seu bando voltaria para mais uma aventura em um filme (Foto: MTV)

Mariana Chagas e Nathália Mendes

Se a adolescência por si só é um caos, imagine para Scott McCall (Tyler Posey) ter garras, dentes afiados e pelos por todo o rosto crescendo durante um jogo de lacrosse. Teen Wolf pareceu ingênuo por surfar na onda de Crepúsculo e Diários de um Vampiro lá em 2011, aproveitando as lendas de lobisomens e vampiros que se tornaram uma febre. No entanto, o criador Jeff Davis conseguiu mergulhar um lobo adolescente na complexidade da mitologia e, ao mesmo tempo, lidar com problemas profundos da passagem para a vida adulta.

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5 anos de Remonta: só Liniker e os Caramelows sabem o quanto dói

Em 2015, Liniker e os Caramelows lançaram o EP Cru com as faixas Zero, Louise de Brésil e Caeu (Foto: Let’s GIG)

Ana Júlia Trevisan

“Eu não quero mais saber de desamor”: Liniker abre Remonta, seu primeiro disco, lançado em 2016, sendo categórica e exteriorizando seu pedido de ‘basta!’. A cantora araraquarense de, na época, apenas 21 anos, não estava sozinha nessa viagem imersiva e sentimentalista. É ao lado da banda Caramelows, que contava com a voz de Renata Éssis, o contrabaixo elétrico de Rafael Barone, a guitarra de William Zaharanszki, a bateria de Péricles Zuanon, o trompete Márcio Bortoloti, as teclas de Fernando Travassos, as percussões acústicas de Marja Lenski e (ufa!) o saxofone de Éder Araújo; que Liniker dá luz às suas composições. O amor visceral é usado como a substância vital na construção do trabalho que transformou a artista numa das maiores representantes da dita Nova MPB.

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Se você não pode parar a chuva, dance com ela ao som de Equals

Capa do álbum Equals, de Ed Sheeran. O fundo é vermelho, com jatos de tintas preta, amarelo e rosa. Ao centro, está pintado em preto um sinal de igual. Em torno do sinal, estão desenhos de borboletas em movimento. Na parte inferior uma amarela e, no sentido anti-horário, estão uma azul, uma verde claro, uma bege claro, uma verde e uma azul piscina.
O aguardado quinto álbum solo de Ed Sheeran saiu no final do mês de outubro (Foto: Asylum Records UK/Warner Music UK)

Heloísa Ançanello e Júlia Paes de Arruda 

Amadurecer pode trazer consigo um sentimento de nostalgia. Relembrar, de bom agrado, os velhos tempos e se deliciar com os novos caminhos que tem pela frente. É nessa atmosfera que Ed Sheeran apresenta = (Equals), com um doce sabor que não víamos desde seu último lançamento solo, em 2017. Ainda que o britânico permaneça na sua zona de conforto com o pop comercial, o álbum se destaca por sua qualidade em cada nota e ritmo, tornando-o um dos melhores e mais vulneráveis trabalhos que o cantor já nos apresentou. 

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Belo Mundo, Onde Você Está: as frustrações do mundo jovem adulto

 Capa do livro Belo Mundo, Onde Você Está. Na imagem, há uma capa azul, com o logo da editora Companhia das Letras na parte inferior esquerda da foto. O nome da autora, Sally Rooney, está escrito em letras maiúsculas pretas na parte central superior da página. Embaixo do nome da autora, está localizado o título da obra também em letras pretas e maiúsculas. Na foto, estão localizados quatro personagens cortados ao meio por faixas amarelas.
Belo Mundo, Onde Você Está é o terceiro romance da escritora inglesa, que lançou também os livros Pessoas Normais e Conversas Entre Amigos (Foto: Editora Companhia das Letras)

Isabella Siqueira

Lançado em setembro de 2021, Belo Mundo, Onde Você Está (Beautiful World, Where Are You) é o terceiro romance de Sally Rooney, célebre escritora conhecida pelo sucesso Pessoas Normais. Lançado simultaneamente no Brasil, o livro discorre sobre as incertezas e inseguranças do mundo jovem adulto, assunto já consolidado na literatura da autora inglesa. 

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A Roda do Destino é feita de acasos

Cena do filme Roda do Destino exibe duas mulheres japonesas paradas em frente a uma porta de vidro. A mulher à direita veste uma camiseta azul larga e tem cabelo curto. A mulher à esquerda tem cabelo preto de tamanho médio e veste uma blusa branca.
As mulheres são surpreendidas por coincidências no longa que faz parte da Perspectiva Internacional da 45ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo (Foto: Neopa)

Caio Machado

A vida é imprevisível demais para ser controlada, por mais que tentemos dar ordená-la através da rotina. Com o passar dos dias, nos deparamos com surpresas que podem ser boas ou ruins, como reencontrar uma velha amiga da época da escola ou descobrir que um conhecido está melhor de vida do que você. Roda do Destino, filme exibido na 45ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, se aproveita da imprevisibilidade da vida para proporcionar belíssimos diálogos, carregados de uma intensidade que expõe os sentimentos de seus personagens com uma sinceridade encantadora. 

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Mothering Sunday vive para os últimos

Cena do filme Mothering Sunday. Na imagem, vemos a protagonista Jane, uma mulher branca, de cabelos loiros, lisos e longos, aparentando cerca de 25 anos, deitada sem camiseta em um lençol branco. Ela está deitada de perfil e o lado direito do seu rosto está virado para cima. Com a mão direita, ela segura um colar preso em seu pescoço. Uma faixa de luz ilumina somente o seu olho direito.
A atenção aos mínimos detalhes é o charme e a sina de Mothering Sunday, produção do Reino Unido presente na seção Perspectiva Internacional da 45ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo (Foto: Number 9 Films)

Vitória Lopes Gomez

Em uma linda e ensolarada tarde de folga, um jovem casal se encontra às escondidas para seu último dia juntos. Cortinas esvoaçantes, uma paisagem verde, corpos nus e histórias contadas pela metade. Confissões ao pé do travesseiro, sentimentos à flor da pele, um passado trágico que ninguém ousa mencionar. Mothering Sunday poderia ter saído de um poema – e bom, bateu na trave. Dirigido por Eva Husson e roteirizado por Alice Birch, o longa britânico foi adaptado do romance homônimo de Graham Swift e, depois de passar pelos Festivais de Cannes e Toronto, estreou no Brasil integrando a 45ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo.

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Vire-se, seus sonhos serão frutificados no Deserto Particular

Cena do filme Deserto Particular, mostra uma mulher dentro do carro, escuro e com apenas seu nariz e cabelo iluminados pelo poste da rua.
Submissão do nosso país para o Oscar 2022, Deserto Particular estreou na seção Mostra Brasil da 45ª Mostra de SP (Foto: Pandora Filmes)

Vitor Evangelista

A tarefa de selecionar, entre uma vastidão de olhares e marcas, um único filme para representar o país mundo afora não é nada fácil. Afinal, qual a fórmula secreta para a submissão perfeita? Quais atributos um longa nacional deve possuir para, de fato, ser o “mais brasileiro” possível? Em 2022, a missão é de Deserto Particular, bela produção comandada por Aly Muritiba e presente na seção Mostra Brasil da 45ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo.

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Enquanto eu não te encontro: uma narrativa de acaso com o amor e encontro com a representatividade

Fotografia da capa e contracapa do livro Enquanto eu não te encontro, fundo roxo e amarelo com nuvens, título do livro e um desenho de um casal com braços abertos na capa, e na contracapa desenho de personagens na boate.
A capa e contracapa do livro contam com ilustrações dos ambientes e personagens que fazem parte da história, e também exalta pessoas nordestinas, já que foi ilustrada por Renata Nolasco, uma artista LGBT e potiguar (Foto: Editora Seguinte)

Monique Marquesini 

Uma mudança para a cidade grande, encontros e desencontros, cultura nordestina, amizades, música pop, autoconhecimento e protagonistas LGBTQIA+: essas são algumas características do livro de estreia de Pedro Rhuas. Lançado em julho de 2021 pela Editora Seguinte, o título curioso Enquanto eu não te encontro guarda a simplicidade de um romance adolescente junto da amplitude de novas descobertas para um garoto gay, nordestino e calouro na universidade.

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The Underground Railroad circunscreve o cruzamento entre o bruto e o sensível

Cena da minissérie The Underground Railroad. A cena mostra dois jovens negros agachados e encostados um no outro. Cora é uma mulher, de cabelo preso num coque e Caesar é um homem de olhos claros, barba e cabelos pretos e veste roupas marrons.
Disputando em 2 importantes categorias na noite principal do Emmy 2021, The Underground Railroad merecia muito mais (Foto: Amazon Prime Video)

Vitor Evangelista

Quando um premiado cineasta decide migrar para as telinhas, é sinal de que sua Arte está em expansão. Não apenas no escopo narrativo, já que a TV abre espaço para histórias volumosas e intrincadas, mas também no campo da linguagem, considerando também que o formato seriado testa limites, que vão desde a criação de personagens e ritmo até sua inevitável conclusão. Por isso, o deleite de assistir Barry Jenkins anunciar seu envolvimento em The Underground Railroad apenas premeditou aquele que seria o trabalho mais coerente, sufocante e crucial de 2021.

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