Os mil tentáculos de A Criada

Cena do filme A Criada. Na imagem da esquerda para a direita, Sook-hee e Hideko, duas mulheres asiáticas de cabelos escuros. Sook-hee veste cinza e Hideko veste branco. Hideko segura Sook-hee pelos braços. Ao fundo, a mata verde com flores.
A Criada tem mil tentáculos que enlaçam o público e a história de suas duas protagonistas (Foto: CJ Entertainment)

Nathalia Tetzner

Oito longos tentáculos presos no aquário de um medonho porão: o polvo nunca foi uma figura tão imponente quanto em A Criada (2017), filme sul-coreano assinado por Park Chan-Wook. Inspirado no romance Na Ponta dos Dedos, da escritora Sarah Waters, o longa traz o protagonismo lésbico da Era Vitoriana britânica para o contexto da Coreia ocupada por japoneses. Erótico e poético, o espectador perde o fôlego com as cenas menos sensuais enquanto se esquiva das leituras fetichizadas, acompanhadas por xilogravuras lascivas como O Sonho da Mulher do Pescador, em que a forma feminina é sexualmente devorada por dois moluscos marinhos. 

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O otimismo inabalável de Belle

Cena do filme animado Belle. Belle (Kaho Nakamura) é vista de perfil, olhando para a esquerda enquanto sorri e leva as mãos ao peito. Belle é uma mulher magra, asiática, de longos cabelos rosa-claros e grandes olhos azuis. Ela possui uma linha de sardas vermelhas embaixo dos olhos e maquiagem rosa nas bochechas, entrecortada por padrões retos e brancos. Em seus cabelos, flores vermelhas estão presas acima das orelhas e seu vestido também é recheado delas. Ao fundo, vemos outras flores de várias cores e luzes amarelas cintilando contra um fundo escuro.
Apesar de não ter sido selecionado para concorrer ao Oscar, Belle é um testamento ao poder da animação como meio (Foto: Studio Chizu)

Gabriel Oliveira F. Arruda

Por mais que seja tentador reduzir o mais recente filme do cineasta Mamoru Hosoda à uma reinterpretação moderna de A Bela e a Fera, esse simples elevator pitch não faz jus à complexidade temática e emocional da nova animação do Studio Chizu. Belle (Ryû to sobakasu no hime, no original em japonês) passa bem longe de ser uma “versão anime” do clássico francês e, ao invés disso, se utiliza da familiaridade de suas dinâmicas para contar sua própria história de amor transformativo na era das redes sociais e realidades virtuais, num semi-musical de escopo glorioso e, ao mesmo tempo, íntimo.

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A Pior Pessoa do Mundo não é o que parece

Cena do filme A Pior Pessoa do Mundo. A imagem mostra a personagem principal, Julie, interpretada por Renate Reinsve. Ela é uma mulher branca, de olhos e cabelos castanhos, presos num rabo baixo e usa uma franja sob a testa. Julie ocupa o lado esquerdo da imagem e olha para o lado direito. Ela veste um blazer preto em cima de uma blusa preta. Julie tem lágrimas nos olhos. Ao fundo, existe um céu azul com nuvens, e é o final de uma tarde.
Depois de uma estreia premiada no Festival de Cannes 2021, A Pior Pessoa do Mundo chega em 2022 com duas indicações ao Oscar, nas categorias de Filme Internacional e Roteiro Original (Foto: MK2 Productions)

Raquel Dutra

Em julho de 2021, uma personagem singular chamou a atenção no meio das estreladas atuações da 74ª edição do Festival de Cannes. A seleção de atrizes consideradas para o prêmio de interpretação feminina do maior festival de Cinema do mundo era composta por nomes como o de Agathe Rousselle, a força motriz do grandioso vencedor da Palma de Ouro, Tilda Swinton, a detentora de boa parte do prestígio do Júri presidido por Spike Lee, e Marion Cotillard, a protagonista da direção favorita dos votantes do último ano. Mas quem terminou o dia 17/07/2021 premiada ante suas veteranas foi Renate Reinsve. Não era para menos, afinal. Ela é A Pior Pessoa do Mundo.

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A existência humana e a consciência da morte prevalecem nos 65 anos de O Sétimo Selo

Cena do filme O Sétimo Selo. Na imagem em preto e branco, vemos um homem jovem, loiro, de cabelos curtos, e magro. Ele está vestindo um tipo de armadura de cavaleiro, feita com anéis de metal e uma capa preta jogada nos ombros. Ele sorri enquanto olha para o indivíduo na frente dele, e segura uma peça de jogo de xadrez na mão direita. À sua frente está a figura personificada da morte, com pele pálida, luvas pretas de couro, e uma capa que cobre todo o seu corpo, inclusive a cabeça, deixando somente o rosto à mostra. Ela está pensativa, olhando para o tabuleiro de xadrez a sua frente, e tem o braço direito dobrado, com a mão próxima do rosto. No tabuleiro de xadrez, as peças do homem são brancas, e da morte, pretas. Tem uma manta na estrutura que mantém o tabuleiro em cima, e ambos estão sentados, um de frente para o outro. Eles estão no campo, ao ar livre, com uma carroça e um cavalo alguns metros atrás, e duas pessoas sentadas próximas a carroça. Está de dia.
A Morte onipresente espreita soberana em um país arruinado pela peste negra (Foto: MUBI)

Sabrina G. Ferreira

Um filme do qual podemos analisar os anseios, as dúvidas e os medos de uma sociedade passada para tentarmos aprender por meio deles: essa é a definição de O Sétimo Selo (no original, em suéco, Det sjunde inseglet; e no inglês, The Seventh Seal). Do diretor sueco Ingmar Bergman (Morangos Silvestres e Persona), o nome faz referência à passagem do livro bíblico Apocalipse em que Deus tem sete selos nas mãos, e a abertura de cada um deles representa um desastre para a humanidade, sendo o último o irreversível fim dos tempos. Trata-se de uma obra que incomoda o espectador desde seu lançamento em 1957, principalmente quando nos colocamos no lugar dos personagens e no meio caótico em que eles vivem. 

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Persona Entrevista: Anita Rocha da Silveira

Diretora de Medusa relembra o processo de produção do filme e comenta sobre a experiência no Festival de Cannes

Arte retangular horizontal de fundo vermelho. No lado esquerdo, foi adicionado o texto "PERSONA ENTREVISTA" na vertical, repetidas vezes. No centro, foi adicionada uma foto em preto e branco da diretora Anita Rocha da Silveira. No lado direito, foi adicionada uma imagem do poster de seu filme, Medusa, e acima, foi adicionado seu nome, "anita rocha da silveira".
Finalizando os trabalhos de cobertura da 45ª Mostra de Cinema em São Paulo, o Persona Entrevista recebe Anita Rocha da Silveira, diretora de Medusa (Foto: Reprodução/Arte: Jho Brunhara)

Caroline Campos e Vitor Evangelista

Em formato híbrido, a 45ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo possibilitou oportunidades de ouro para a equipe do Persona. Entre cabines de imprensa de filmes com sonho de reconhecimento no Oscar e um esperado encontro presencial dos membros da Editoria, tivemos a oportunidade de não apenas conferir a vibração descomunal de Medusa, como também de entrevistar sua realizadora, a majestosa diretora Anita Rocha da Silveira.

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Não tem como se blindar de Titane

Cena do filme Titane. Na imagem, vemos a protagonista, Alexia, uma mulher branca, de cabeça raspada, aparentando cerca de 30 anos, de ponta cabeça, com o corpo nu arqueado e com uma expressão de dor no rosto.
Comprado pela plataforma de streaming MUBI e com data de estreia marcada para 28/01/2022, Titane foi exibido no Brasil primeiro na 45ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, onde participa como Apresentação Especial (Foto: Kazak Productions)

Vitória Lopes Gomez

Opte por separar o artista da Arte ou não, Julia Ducournau já cravou seu nome em suas produções. Titane, a mais nova empreitada da cineasta francesa, estreou no Festival de Cannes, onde fez história ao levar a honraria máxima da premiação, a Palma de Ouro, e chegou ao Brasil na 45ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo. O segundo projeto veio antecipado depois do sucesso do polêmico Grave, mas a sangrenta e canibalesca estreia da diretora vira só a porta de entrada para os horrores que vem depois. E não adianta, nem Cannes conseguiu: não tem como se blindar de Titane.

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O movimento de Olga é cravado: o pessoal é político

Cena do filme Olga.
Antes de chegar à 45ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, o drama venceu o Prêmio SACD na Semana da Crítica do Festival de Cannes 2021 e foi escolhido para representar a Suíça no Oscar 2022 (Foto: Pulsar)

Raquel Dutra

Em novembro de 2013, a população civil da Ucrânia entrou em conflito direto com o governo de Víktor Yanukóvytch. Numa onda de protestos liderados por jornalistas e estudantes que se estendeu até fevereiro de 2014, o povo denunciava a corrupção, o abuso de poder e a violação dos direitos humanos cometidos pelo governo. O estopim, de maneira geral, foi a frustração de um pedido popular por maior integração com União Europeia, que aconteceu quando o bloco se recusou a firmar acordos com o país aliado da Rússia enquanto ele não resolvesse a sua “deterioração flagrante da democracia e do Estado de Direito”. No meio do movimento que ficou conhecido como Euromaidan – ou, mais significativamente, Revolução da Dignidade – está o drama de amadurecimento de Olga e a sua participação na Competição Novos Diretores da 45ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo.

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Só restam cinzas após A Noite do Fogo

Cena do filme A Noite do Fogo. Três meninas, de aparentemente 8 anos, estão do lado uma da outra, enquadradas do peito para cima e de frente para a câmera. A primeira tem a pele mais escura, cabelos escuros compridos e usa uma camiseta amarela. Ela está com o dedo nos lábios. A segunda tem a pele mais clara, tem os cabelos escuros presos e usa uma camisa branca com um coração e um colar. A última é mais alta que as outras duas, também tem a pele clara e os cabelos escuros presos. Ela usa uma blusa vermelha com o número 23 e mangas compridas, e olha em direção ao chão.
O trio de protagonistas mirins de A Noite do Fogo são um show à parte dentro da seção Perspectiva Internacional da Mostra de SP (Foto: Vitrine Filmes)

Caroline Campos

“Agora vamos deixar você feia, minha mãe disse”. As primeiras palavras do livro de Jennifer Clement, Reze pelas mulheres roubadas, são marcadas pela dor – e é exatamente nesse sentimento que a livre adaptação cinematográfica de Tatiana Huezo se pauta. A Noite do Fogo, presença fortíssima na 45ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, é um filme de muitas cicatrizes, todas elas compondo a grande ferida aberta e pulsante de cores e dores que é a América Latina.

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Por que buscamos a Memoria?

Cena do filme Memoria. A foto mostra Jessica, uma mulher branca, de cabelo ruivo-escuro, vestindo camisa clara e calça jeans.Ela está sentada em uma cama bagunçada, em um quarto com mobília e quadros antigos e paredes brancas. Uma luz branca forte emana da janela.
Memoria está sendo exibido na seção Perspectiva Internacional da 45ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo (Foto: MUBI)

João Batista Signorelli 

Todas as memórias são imperfeitas, incompletas, limitadas. Um som, um gesto, uma visão, tudo se dissolve passado o seu momento de existir, e sobrevivem apenas em uma reconstituição nebulosa registrada em nossa mente. Uma memória pode não traduzir com exatidão os eventos vivenciados por um indivíduo, o que não quer dizer em nenhuma hipótese que ela é sem significado. As lembranças representam ideias que, muitas vezes, não somos capazes de traduzir em linguagem, mas que, ainda assim, sentimos, e sentindo sabemos que aquilo é significativo. Do mesmo modo que uma memória paira em nossa mente, Memoria, exibido na 45ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, é uma obra enigmática e impossível de ser descrita com precisão, mas que, talvez por isso mesmo, está repleta de significados. 

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Compartment Nº 6 desliza nos trilhos da desesperança

Cena do filme Compartment Nº 6. Nela vemos um homem e uma mulher, ambos brancos, sentados em um banco de trem, se olhando. Ele é careca e usa blusa azul, enquanto ela tem cabelos castanhos claros na altura dos ombros e usa uma blusa verde.
Depois de vencer o Grande Prêmio do Júri em Cannes (em um empate com Um Herói), o longa finlandês chega à Mostra de SP pela Competição Novos Diretores [Foto: Sony]
Vitor Evangelista

Bem recebido e premiado com o Grand Prix em Cannes, o finlandês Compartment Nº 6 passa pela 45ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo provando que, às vezes, a jornada é mais importante que o destino. De fato, o filme de Juho Kuosmanen, parte da Competição Novos Diretores, esbanja um nível técnico invejável para um cineasta “iniciante”, repleto de discussões interessantes e do clássico trunfo de não dizer, e sim mostrar.

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