Nenhuma amnésia é o bastante para o Fruto da Memória

Cena do filme Fruto da Memória. A foto mostra um homem branco de cabelos grisalhos e sobretudo marrom no canto inferior esquerdo da imagem, de frente tirando uma foto com uma câmera polaroid antiga. No resto da imagem há uma vegetação verde-escuro desfocada.
Fruto da Memória foi exibido na seção Perspectiva Internacional da 45ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo (Foto: Synapse Distribution)

João Batista Signorelli

As memórias são fundamentais para a constituição da identidade humana. Se parte essencial de um indivíduo é construída a partir de suas experiências, o que acontece se ele perde o elo de sua mente com elas? Explorando as relações entre identidade e as lembranças, Fruto da Memória, coprodução entre a Grécia, Polônia e a Eslovênia exibida na 45ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, apresenta uma pandemia onde qualquer um pode contrair uma amnésia repentina permanente, expondo a vulnerabilidade da identidade humana protegida pelas próprias recordações. 

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Seremos sempre incapazes de ouvir os gritos de Listen?

Cena do filme Listen. Na imagem, há uma mulher e um homem sentados com uma cadeira separando os dois. Na esquerda, a mulher está sentada olhando para o lado com uma expressão de ligeira aflição; ela é branca de cabelos loiros e usa uma blusa lilás e segura um casaco roxo entre as mãos que estão entrelaçadas em cima das pernas. No canto direito, o homem também olha para o lado com atenção; ele é branco com cabelos castanhos e barba branca por fazer, usa uma camiseta azul com jaqueta verde muito desgastada por cima, uma calça cinza e segura um lápis e um papel para anotar em cima das pernas. A cadeira que os separa é em madeira clara e estofado bege. O fundo é uma parede com a metade de cima em papel de parede azul e folhagens claras, e a parte de baixo é de madeira listrada branca.
Uma família de imigrantes sofre silenciosamente na luta contra a Segurança Social britânica em Listen, filme exibido na seção Perspectiva Internacional da 45ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo (Foto: Bando à Parte)

Nathália Mendes

Limpe bem seus ouvidos para assistir o drama português Listen exibido na 45ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo. Nele, a surdez nada tem a ver com a falta de audição, mas com a racional ignorância daqueles que ouvem muito bem. No longa escrito e dirigido por Ana Rocha Sousa, um casal de imigrantes portugueses tenta criar três filhos, sendo a do meio uma menina surda, e sobrevivendo de subempregos em uma dura Londres, até que o Serviço Social britânico tira as crianças de casa. É por esse duro retrato familiar que o longa pauta a silenciosa adoção forçada na Inglaterra.

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Vire-se, seus sonhos serão frutificados no Deserto Particular

Cena do filme Deserto Particular, mostra uma mulher dentro do carro, escuro e com apenas seu nariz e cabelo iluminados pelo poste da rua.
Submissão do nosso país para o Oscar 2022, Deserto Particular estreou na seção Mostra Brasil da 45ª Mostra de SP (Foto: Pandora Filmes)

Vitor Evangelista

A tarefa de selecionar, entre uma vastidão de olhares e marcas, um único filme para representar o país mundo afora não é nada fácil. Afinal, qual a fórmula secreta para a submissão perfeita? Quais atributos um longa nacional deve possuir para, de fato, ser o “mais brasileiro” possível? Em 2022, a missão é de Deserto Particular, bela produção comandada por Aly Muritiba e presente na seção Mostra Brasil da 45ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo.

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Bárbara Paz: um olhar sensível perante o mundo

 Foto de Bárbara Paz, mulher branca de olhos verdes e cabelo castanho escuro, em um fundo branco. Cabelo com coque bagunçado, pouca luz escura avermelhando seu corpo, blusa preta e cinza. Luz clara na região dos olhos.
O olhar de Bárbara Paz (Foto: Mauricio Nahas)

Lucas Lima

Dona de um sorriso encantador e com um olhar lindo e marcante, Bárbara Paz sabe, como ninguém, como a vida pode ser amarga e doce ao mesmo tempo. Tendo perdido o pai com 6 anos de idade, a mãe com 17 e, meses depois, sofrido um acidente de carro que a deixou com uma cicatriz no rosto, a artista conseguiu atingir os seus objetivos e chegar ao sucesso. Estudou, trabalhou e, após muitos ‘nãos’, foi, de pouco em pouco, em um trabalho árduo, conseguindo seu espaço e destaque no meio artístico.

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Pieces of a Woman, a fragmentação do feminino e os paradoxos patriarcais

A atuação brutal de Vanessa Kirby foi o que fez o filme não passar em branco pelo Oscar 2021, alcançando apenas uma indicação na categoria de Melhor Atriz (Foto: Netflix)

Raquel Dutra

E se eu te pedisse para imaginar o seu maior pico de amor, seu maior pico de adrenalina e seu maior pico de dor? Numa generalização grosseira, digo que provavelmente sua mente reconstituiria três momentos diferentes da sua vida, com um intervalo de tempo considerável entre eles. Acertei? Agora fazendo um recorte mais atencioso, se você for uma mulher, é muito mais provável que eu tenha errado minha previsão invasiva e que esses três momentos emocionalmente distintos sejam dolorosamente próximos para você. Tem espaço para os dois casos aqui, mas se você se enquadrar no segundo, é especialmente bem-vinda a Pieces of a Woman. 

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O Homem que Vendeu Sua Pele e a mulher que não negocia sua visão

O Homem que Vendeu Sua Pele (The Man Who Sold His Skin) é a primeira indicação da Tunísia ao Oscar (Foto: Cinétéléfilms)

Raquel Dutra

O nome dele é Sam Ali e o nome dela é Kaouther Ben Hania, e a riqueza metafórica de O Homem que Vendeu Sua Pele (الرجل الذي باع ظهره) é o lugar perfeito para criatura e criador se aproximarem, ao mesmo tempo em que se distanciam completamente. É algo realmente complexo, porque o terceiro longa-metragem da cineasta tunisiana cresce em muitas direções enquanto suscita reflexões críticas sobre cultura, política, sociedade, ética e arte, traz visibilidade para o Cinema do eixo Oriente Médio – Norte da África e faz história no Oscar 2021.

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Notturno: as cicatrizes da guerra são profundas como a noite e nítidas como o dia

O documentário é parte da seção Perspectiva Internacional da 44ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo (Foto: Reprodução)

Raquel Dutra

Um jovem casal se encontrando enquanto tiros soam ao fundo, crianças desenhando seus traumas, pacientes psiquiátricos ensaiando uma peça de teatro como parte do tratamento. Num compilado de imagens cotidianas protagonizadas por quem viu e sentiu uma violência extrema, Notturno ressalta as marcas que os conflitos no Oriente Médio deixam em seus habitantes. Filmado durante os três últimos anos nas fronteiras do Iraque, Curdistão, Síria e Líbano, o documentário chega na 44ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo registrando a realidade material e psicológica de quem, inserido num cenário onde a guerra é uma companhia constante, tenta seguir em frente.

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Miss Marx: relacionamentos doentios podem ser tão destrutivos quanto o capitalismo

A cinebiografia da caçula de Karl Marx chega ao Brasil na seção Perspectiva Internacional da 44ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo (Foto: Reprodução)

Raquel Dutra

Quem nunca assistiu uma amiga incrível se metendo num relacionamento medíocre que flerta com características abusivas? E se essa amiga fosse filha de uma das figuras mais relevantes dos últimos séculos? Pois bem, nesse cenário primeiramente comum e segundamente impensável está a vida de Eleanor Marx, que ao mesmo tempo em que continuava o legado de seu pai, também era parte de uma relação problemática e desproporcional a toda potência revolucionária que ela era. Para ressaltar essas inconstâncias da vida da caçula de Karl Marx e humanizar sua pessoa com doses de elementos da cultura pop é que se constrói Miss Marx, drama biográfico que vem direto das principais premiações do Festival de Veneza para a 44ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

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As Crianças do Sol buscam o tesouro

O elenco infantil de As Crianças do Sol brilha em cada exibição na 44º Mostra Internacional de Cinema em São Paulo (Foto: Divulgação Imprensa)

Caroline Campos

As histórias de caça ao tesouro encantam histórias infantis e clássicos da literatura desde que a cobiça encontrou o desejo pela primeira vez. No entanto, quando se trata de Crianças do Sol, a aventura lúdica da busca por riquezas e paixões não é tão divertida assim. Exibido na 44ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, o longa iraniano do diretor indicado ao Oscar Majid Majidi se consolida como um manifesto contra o trabalho infantil, utilizando crianças extremamente talentosas e uma narrativa sinuosa para transmitir sua mensagem.

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