Nino de Sexta a Segunda: Estreia de Pauline Loquès observa juventude diante da fragilidade

Uma foto cinematográfica granulada de ângulo fechado do ator Théodore Pellerin no papel de Nino. Ele veste uma jaqueta verde oliva e está de perfil para a esquerda, olhando para baixo com uma expressão pensativa e contida. O primeiro plano e o fundo estão borrados por luzes de neon vermelhas e azuis e silhuetas desfocadas, emoldurando o rosto de Nino e criando uma sensação de isolamento e introspecção em um ambiente urbano noturno.
Théodore Pellerin, interpretando Nino, imerso no labirinto de confusões e no isolamento emocional de Paris (Foto: Filmes do Estação)

Arthur Caires

Sair de um consultório com um diagnóstico de câncer é o tipo de clichê que o cinema costuma transformar em um melodrama piegas. Em Nino de Sexta a Segunda, a diretora Pauline Loquès prefere focar na reação, e não na resolução. Nino (Théodore Pellerin) tem três dias para processar que seu corpo virou uma bomba-relógio antes que a quimioterapia comece na segunda-feira. 

A estrutura é a de um slice-of-life com um cronômetro invisível. O protagonista precisa cumprir duas missões mundanas, mas, ao mesmo tempo, enormes: congelar seu esperma e encontrar alguém que o acompanhe no primeiro dia de tratamento. Loquès filma Paris como um labirinto onde a multidão caminha invariavelmente na direção oposta à de Nino. Ele perde as chaves de casa, fica desabrigado e circula por jantares de família carregando um segredo que ninguém parece ter espaço emocional para ouvir.

Há uma sensibilidade específica na condução do roteiro, assinado pela própria Loquès, que evita o óbvio. Nota-se que o olhar por trás da câmera foge do exibicionismo técnico para focar no que é tátil. O filme se equilibra entre o riso nervoso e o desespero silencioso, especialmente na forma como Nino tenta, sem sucesso, deixar mensagens de voz para alguém. É o pior fim de semana da vida de um jovem, porém o sol insiste em brilhar e todo mundo continua mergulhado em seus próprios dramas. Essa falta de sincronia entre a tragédia interna e a indiferença do mundo é o que realmente dá forma ao longa.

Uma foto cinematográfica colorida e granulada, com profundidade de campo rasa, mostrando o ator Théodore Pellerin como Nino. Ele veste um suéter azul texturizado e sorri suavemente, com a mão na cabeça de outro homem de cabelo afro curto e barba, que está encostado nele em um abraço caloroso. O segundo homem, de jaqueta marrom, está de perfil para a direita. Eles estão em um ambiente de festa interno e difuso, com luzes bokeh quentes ao fundo e outras pessoas dançando, desfocadas e de costas para a câmera, criando uma atmosfera terna e íntima.
Em uma busca por conexão, Nino encontra um amigo em um momento de ternura, parte do mosaico de afetos imperfeitos, mas vitais, que o filme constroi (Foto: Filmes do Estação)

Théodore Pellerin é o motor de tudo isso. O ator entrega uma performance que justifica cada prêmio recebido em Cannes e no César sem precisar recorrer a transformações físicas radicais. Pellerin não interpreta uma vítima; ele vive um jovem tentando manter a dignidade enquanto lida com a burocracia do próprio corpo. A hesitação em seu rosto enquanto observa as pessoas ao seu redor diz mais sobre o medo do que qualquer monólogo choroso poderia expressar.

O elenco de apoio ajuda a construir esse mosaico de afetos imperfeitos. Da mãe (Jeanne Balibar) ao amigo nonchalant (William Lebghil), ninguém ali é um herói de filme de superação. A oncologista é empática, mas está com pressa. Os amigos são amáveis, mas distraídos. Essa honestidade sobre como as relações humanas funcionam sob pressão é o que tira a obra do lugar comum.

Assistir a Nino de Sexta a Segunda termina sendo uma experiência curiosa, um remédio para a solidão que deixa um gosto reconfortante na boca. Pauline Loquès não oferece curas milagrosas nem finais redondinhos. O que ela entrega é um recorte visceral de quatro dias que ressignificam o que é estar vivo. A obra não se preocupa em amarrar todas as pontas, até porque a vida real é justamente esse emaranhado de incertezas que tentamos, entre uma sexta e uma segunda, aprender a carregar.

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