Dario Argento teve Alfred Hitchcock como grande inspiração, tendo até sua versão de Janela Indiscreta denominada Do You Like Hitchcock? (Foto: Seda Spettacoli)
Mariana Nicastro
O quão obscuro o meio artístico pode ser? Se as paredes de uma renomada e elitizada academia de dança pudessem falar, o que diriam? Cores vibrantes, trilha sonora inquieta, fotografia teatral, atuações expressivas e uma referência intensa a sonhos, somada a crimes e mistérios. Todas essas são características de uma história contada há 45 anos, responsável por marcar a trajetória do Terror e inspirar o gênero até os dias atuais. Afinal, se o edifício de Suspiriapudesse falar, ele gritaria em meio a luzes coloridas, rituais antigos e um rock psicodélico.
O carinho do público foi o motivo principal para a gravação do projeto (Foto: Marcos Hermes)
Ana Júlia Trevisan
Agosto de 2012, Citibank Hall, São Paulo. Luzes apagadas, músicos subindo ao palco, plateia extasiada. Em seguida vem ela, Maria Rita, grávida de 7 meses, usando roupa branca e carregando a missão de eternizar a memória de sua mãe. A caminhada da coxia até o palco é silenciosa. Não há holofotes ou um grande tapete vermelho para a cantora. Peça essencial do espetáculo, a artista interage de maneira íntima com o mecanismo da banda, deixando explícito que a verdadeira estrela da noite é a única e onipotente Elis Regina. A chegada ao microfone é marcada por uma respiração funda, um frio na espinha e os acordes de um potente piano. Nesse momento a sensação é uniforme, podemos sentir um caloroso abraço: mãe e filha se reencontram.
Logo em sua estreia, House of the Dragon bateu o recorde de maior estreia de um produto televisivo na América Latina, com aproximadamente 10 milhões de telespectadores (Foto: HBO Max)
Guilherme Veiga
Se tem uma coisa que George R.R. Martin, DB Weiss, David Benioff e a HBO souberam criar, além de um mundo fantástico, foi uma tradição. Nos anos finais de Game of Thrones, uma religião praticamente nasceu em torno da série, na qual dominicalmente entoávamos o rito de sentar à frente das telas para passar a próxima hora imersos naquele mundo. Não é à toa que GoT se tornou um produto de seu tempo que influenciou e ainda influencia a cultura pop.
Graças ao seu final extremamente duvidável e a procrastinação do autor para finalizar os livros, é natural que a série deixasse alguns órfãos para além Westeros. O que não se esperava era que o próprio HBO Max fosse um desses abandonados. A emissora, dona de obras primas como TheSopranose The Wire, não viu nenhuma produção ascender como a história dos 7 reinos, logo, estar vivendo seu ápice aos poucos coloca na produtora o medo de “como superar isso?”, o que ocasionou uma sombra gigantesca em suas produções. Para espantar essa dúvida, eclodiu do ovo de dragão a primeira série de spin-offs ambientados em Westeros: contando a história dos adorados Targaryen no início do que seria sua derrocada no trono, A Casa do Dragão alçou seu primeiro voo em 2022.
Assim como Nova Iorque, Gossip Girl nunca dorme e está sempre pronta para novas intrigas (Foto: Mark Seliger)
Gabrielli Natividade
Há pouco mais de 15 anos, Gossip Girl ia ao ar pela primeira vez. A série, que tinha como meta colocar os luxos da elite de Manhattan em foco e explorar todos os pecados de um grupo de adolescentes levando a vida como adultos, comemora sua década e meia de existência mantendo uma consolidada base de fãs nostálgicos e o gosto de ter influenciado uma geração e muitas produções posteriores. Claro que nem tudo envelheceu como vinho: apesar de diversas pautas importantes serem tratadas ao longo das seis temporadas, é possível perceber que nem todos os temas foram abordados com a sensibilidade necessária, reflexo da mentalidade da época.
Quinto longa-metragem da diretora Júlia Murat foi exibido na seção Mostra Brasil da Mostra de São Paulo (Foto: Imovision)
Vitória Gomez
Uma máxima da internet, a Regra 34 pressupõe que tudo existente na web tem sua versão pornográfica. Seja desenhos animados ou cenas cotidianas, qualquer elemento pode virar ponto de partida para o prazer. Em Regra 34, longa-metragem da carioca Júlia Murat presente no Festival do Rio e na 46ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, as contradições entre a liberdade do prazer e a sua raíz na sociedade borram as linhas entre consentimento e abuso. Na obra, uma coprodução Brasil e França, a violência é o combustível que incendeia a vida de Simone, confrontada com os frágeis limites que impõe ao próprio corpo.
Livro recebido através da parceria do Persona com a Companhia das Letras, Vinco é o primeiro romance da autora a ser publicado pela editora (Foto: Companhia das Letras)
Enzo Caramori
‘‘(…) para lugar algum meu filho, tu podes
ir e ainda que se mova o trem
tu não te moves de ti.’’
– Hilda Hilst
O celebrado livro Orlando,de Virginia Woolf, que de tudo tem um pouco — biografia, romance histórico e carta de amor — afirma-se na Literatura enquanto um marco zero. Mesmo às lentes críticas do filósofo Paul B. Preciado, que, ao ler os diários de Woolf, destaca o caráter classicista da escritora, reside um deslumbramento acerca do afeto em suas palavras à transitoriedade materializada no corpo do texto. A história de personagens em estado de trânsito, seja entre diferentes espaços ou no limiar de construções como nacionalidade e gênero, são temas costurados à escritura de si. Para narrativas como as de Orlando, Muriel — alter-ego da cartunista Laerte que enquadra sua transição social — e Manu, protagonista de Vinco(2022),o terceiro romance da escritora gaúcha Manoela Sawitzki, Preciado possui um questionamento chave: ‘‘O que acontece com o relato de uma vida quando é possível modificar o sexo do personagem principal?’’
Com Take Me Home, a One Direction foi a primeira boyband a colocar dois álbuns seguidos em #1 na Billboard 200 (Foto: SYCO Entertainment)
Amábile Zioli
O The X-Factor UK de 2011 foi o fator determinante na caminhada de Harry Styles, Liam Payne,Louis Tomlinson, Niall Horan e Zayn Malik. Se os cinco jovens tinham pretensões de seguir carreira solo no mundo da música, Simon Cowell foi o responsável por não deixar isso acontecer, pelo menos não naquele momento. Assim nasce aOne Direction, que, meses após conquistar o pódio em terceiro lugar, estreou no mercado cultural com Up All Night.
Quase um ano depois,a boyband britânica estava prestes a descobrir se seu sucesso expoente perduraria ou se cairiam no esquecimento no ano seguinte: será que ainda poderia contar com a legião de fãs que os acompanhou desde sua formação? É sob essa pressão que o quinteto lança Take Me Home, seu segundo álbum de estúdio, em 9 de novembro de 2012.
O som do festival ibérico ecoou pelo Atlântico e chegou em São Paulo (Foto: Vinicius Favorito)
Guilherme Veiga
Lançar uma moda não é das tarefas mais fáceis e premeditadas. Ela simplesmente acontece, como uma aurora boreal ou a formação de um tornado. Repetir esse sucesso e criar uma tendência, então? É extremamente mais difícil e inúmeros são os fatores, como originalidade, proposta, apelo e mercado já estabelecido. Na música, podemos colocar os festivais nesse balaio. Encabeçados pelo pai dos megaeventos musicais, Woodstock, passando pelo rural e flamulado Glastonbury, o apocalíptico Burning Man, o descolado Coachella, o psicodélico Tomorrowland e o desastroso Fyre Festival; os festivais hoje são uma realidade na indústria do entretenimento.
Em terras brasileiras, que tinham uma experiência próxima com o Festival de Música da Record – de festival não tinha nada, pois era um concurso -, foi o apoteótico Rock in Rio de 85 que iniciou os trabalhos. Isso, além de dar margem para outras vertentes nacionais surgirem nos anos seguintes, colocou o Brasil no mapa dos eventos. Foi somente em 2013 que o reinado do festival carioca foi ameaçado com a chegada do já estabelecido Lollapalooza, criado em 92. Com um cenário extremamente polarizado, parecia difícil adentrar esse público – o próprio Tomorrowland arriscou algumas edições, sem sucesso. Porém, em novembro de 2022, uma brisa de primavera trouxe novos ares para esse cenário, com a primeira edição do Primavera Sound.
Aniversariante do mês de outubro, Pajubá é o primeiro álbum de estúdio da cantora, rapper, atriz e agitadora cultural Linn da Quebrada (Foto: Linn da Quebrada)
Enrico Souto
“Não adianta pedir, que eu não vou te chupar escondida no banheiro”. É com este primeiro verso, na faixa (+ Muito) Talento, que Linn da Quebrada abre as cortinas de Pajubá, instituindo desde o princípio o tema central que perdura por todo o projeto: ela não será mais escusa. Rejeitando um posicionamento conciliador e desafiando o conservadorismo, é declarado que, não interessa o incômodo e constrangimento que lhe cause, a sociedade será obrigada a enxergá-la. Lançado em 6 de outubro de 2017, o primeiro álbum de estúdio da artista completa cinco anos em 2022 e, depois de fazer seu nome na Música, reivindicando espaços que corpos trans nunca ocuparam, se ressignifica no próprio tempo.
Carreiras fracassadas e uma estrutura familiar abalada são o pivô do caos de O Que Terá Acontecido a Baby Jane? (Foto: Warner Bros.)
Gabriel Gatti
O confronto pelo papel de destaque em obras cinematográficas não é novidade. Porém, a inveja por sua irmã ter se destacado no cinema enquanto sua carreira declina pode contribuir para desavenças familiares profundas, como é o caso da trama de O Que Terá Acontecido a Baby Jane?. Dirigido e produzido por Robert Aldrich, o filme contou com Bette Davis e Joan Crawford no elenco, duas atrizes largadas às traças por Hollywood, que retornavam às telonas para um thriller audacioso para seu ano de lançamento e icônico para a história do Cinema após 60 anos de sua estreia.