
Guilherme Machado Leal
[Essa crítica foi feita após a exibição do filme Totally F***ed Up, do Cineclube Faac em parceria com o Persona, durante as atividades da greve da Unesp]
Se tem algo sobre na juventude que movimenta os ‘anos dourados’ é o exagero. Quando crescemos, um coração partido, o término de uma amizade e uma primeira experiência – seja ela com drogas, um hobby ou trabalho – são elevados à décima potência. A efemeridade ganha um aspecto alarmante se você se identifica como queer, principalmente nos anos 90, contexto marcado pela LGBTfobia e associação da AIDS a pessoas não heterossexuais em que o diretor Gregg Araki centraliza a Trilogia do Apocalipse Adolescente.
No mundo do diretor estadunidense, o novo é quem dá gás à história. Há algo tragicamente belo em suas narrativas, caracterizadas pelo domínio juvenil de questões que demoram uma vida para serem compreendidas. Em Totally F***ed Up (1993), o primeiro da tríade, os personagens conhecem o próprio corpo e se sentem vividos dentro dele, questionam a discriminação e, acima de tudo, possuem um abrigo sentimental uns nos outros (algo que é inerente a qualquer um que está dentro da sigla e passa pela experiência coletiva de se descobrir, sofrer e se amar).
Em Los Angeles, Andy (James Duval), Tommy (Roko Belic), Michele (Susan Behshid), Patricia (Jenee Gill), Steven (Gilbert Luna) e Deric (Lance May) vivem suas respectivas sexualidades de maneira individual e coletiva. Enquanto alguns testam relacionamentos monogâmicos, outros experimentam rolos casuais, ambos retratados com a devida importância e seriedade, próprias dessa época – próximo à chegada dos 20 e poucos anos.

Filmado como se fosse um documentário, o contato dos jovens com a câmera traz uma intimidade para a conversa, que é universal. Sexo, infidelidade, amor e revolta fazem parte do dia a dia daquelas pessoas, e no momento em que as ouvimos opinar sobre a realidade, entendemos o peso das nossas ações, bem como o significado da existência de uma pessoa LGBT enquanto um corpo político, não importa o país, década e grupo do qual ela fizer parte.
No campo da Sociologia, alteridade é o exercício de se colocar no outro. Já nos filmes de Gregg Araki, é se ver em tela, ora mais corajoso, ora mais retraído. O fato é: o olhar do estadunidense sobre os queers é pautado pela atemporalidade: o ato sexual é importante para os seus personagens, pois os tornam vivos e amados e a discriminação se agarra à tentativa de viver uma trajetória menos dolorida e violenta – temas esses que são discutidos e experienciados dentro e fora da Arte por tais grupos sociais. Em uma determinada cena, por exemplo, os personagens falam sobre as respectivas relações que possuem com a masturbação, o que, durante a transição da adolescência aos primeiros anos da vida adulta (especialmente nos anos 90), dá força ao discurso do diretor e o mantém relevante até o cenário atual.
Longe de qualquer tipo de moralismo, Totally F***ed Up é uma carta aberta à angústia adolescente, sobretudo os devaneios que passam por nossas mentes e que muitas vezes são negligenciados em detrimento do preconceito vivido. Alguns de nós querem casar e ter filhos. Outros têm medo do cotidiano e desejam pular de galho em galho no mundo da excentricidade. Na óptica do cineasta de 66 anos, há lugar para qualquer um dos dois tipos, já que o importante é se sentir no controle do seu próprio corpo.

Aliás, o físico aqui é necessário. Na juventude, o medo do envelhecimento e as incertezas sobre nossas escolhas caminham concomitantemente. A anatomia corporal dos personagens dos três longas e a maneira como eles a utilizam nos anos 90 são um belo exemplo do que é se entender enquanto um ser político, com tesão e muito, muito ódio do lugar em que somos colocados. A narrativa episódica do longa de 93 ganhará um tom muito mais lúdico e criativo nas próximas produções, mas é na primeira história que a ideia de Araki é posta em prática: destacar aqueles jovens, considerados pervertidos e desalinhados com a política discriminatória estadunidense como anjos quebrados e falhos.
Não é que exista algo fundamentalmente singular quando se é LGBTQIAPN+. Na verdade, compreendemos o que significamos ao outro – para o bem ou mal – antes mesmo de identificarmos nossas sexualidades. É como se nós dessem um caminho a ser seguido sem ao menos sabermos se vale a pena percorrê-lo. No entanto, como é de praxe para qualquer indivíduo queer e visto nas obras do diretor, o dia em que nos apossamos de tudo que é trazido com o título de nossas siglas é semelhante a um renascimento, um reencontro com a própria alma.
