The Boys, a contraditória paródia que se tornou aquilo que debochava

Cena de The Boys. Plano médio de cinco personagens reunidos em um laboratório ou instalação industrial de tom azulado. À esquerda, Frenchie aponta para frente com o braço estendido; ao seu lado, Kimiko observa com expressão de raiva. No centro, está Leitinho com uma blusa preta e outra de cor vinho por baixo. Também ao centro está Luz-Estrela, vestindo uma jaqueta de couro cinza. Os dois olham na mesma direção com semblantes preocupados. À direita, Hughie Campbell aparece com o braço estendido para o lado oposto, parecendo alertar o grupo. Ao fundo, há grandes maquinários brancos com portas e escotilhas.
The Boys começou como uma paródia aos filmes de super-heróis (Foto: Prime Video)

Guilherme Moraes

O movimento natural de um gênero cinematográfico é o revisionismo e a paródia após o ápice para matar a maneira antiga de se fazer certo tipo de filmes e criar algo novo. O exemplo mais claro disso são os faroestes, que atingiram o seu ponto mais alto nas décadas de 1940 e 1950; passaram a ser refletidos no final dos anos 1950 e 1960 e parodiados a partir do decênio de 1970. A série The Boys apareceu em 2019 junto com Watchmen como parte desse processo de parodiar o gênero de super-herói que havia encontrado seu ponto mais alto, mercadologicamente e narrativamente, naquele mesmo ano com Vingadores: Ultimato.

Parte da graça do show está na banalidade da violência em um mundo repleto de supers. A obra de Eric Kripke não parece fazer uma paródia ao gênero inteiro de super-herói – que já vinha se fortalecendo desde o Batman do Tim Burton, ou até mesmo o Superman de Richard Donner –, mas ao predomínio da Marvel e do cinema de Zack Snyder, ou seja, à filmes com heróis perfeitos, mitológicos, militarizados e estéreis. The Boys é preciso ao ligar a existência desses seres ao capitalismo e submetê-los ao sistema. Assim, a série nunca foi sobre ‘como seriam heróis na vida real’, de maneira simplista, e sim como seriam apenas um produto mais destrutivo dentro da organização vigente.

Cena de The Boys. O Capitão Pátria sentado de forma imponente e relaxada na cadeira presidencial do Salão Oval, atrás de uma grande mesa de madeira. Ele está com os pés calçados com suas botas vermelhas apoiados sobre a mesa, cruzando as pernas. Seu semblante é sério, frio e desafiador, olhando diretamente para a câmera. Ao fundo, janelas iluminadas estão emolduradas por cortinas pesadas com padrões geométricos, ladeadas pela bandeira americana à esquerda e pela bandeira presidencial azul à direita.
Durante as cinco temporadas, Antony Starr se tornou uma máquina de memes com seu Homelander (Foto: Prime Video)

Desse modo, o show não apenas parodiava o UCM e o DCU, mas também, de certa forma, se aproximava de uma análise sobre a ligação entre os filmes do gênero com ascensão do fascismo e do conservadorismo no ocidente. Afinal, a valorização dos corpos e o trabalho mitológico de Snyder não se difere tanto da exaltação da fisicalidade e dos corpos ‘saudáveis’ e ‘viris’ na Grécia antiga – que serviram de inspiração para o fascismo italiano –; assim como a desumanização dos personagens da Marvel e o acinzentamento das imagens trazem um certo apelo mais militar, ainda que as produções sejam cínicas. Para além da estética, esses longas também foram importantes na consolidação do monopólio cinematográfico dos Estado Unidos, fortalecendo o imperialismo. 

Entretanto, apesar do texto muito direto e de fácil compreensão, The Boys distrai os espectadores a partir da sua forma; violência, sangue, memes, etc, se tornam o que há de mais atrativo para o público, de tal maneira que a crítica perde o sentido. Grande parte da audiência é formada pelos mesmos consumidores de filmes da Marvel e que enxergam a violência e os palavrões na produção como algo disruptivo, quando na verdade é bem infantil – como os filmes do Deadpool. Chega a ser cômico quanto essas produções se vendem como ‘feito para adultos’, por causa da linguagem e violência, mas tem medo de fazer cenas de sexo mais explícitas. A nudez na série é utilizada apenas como besteirol, nunca como desejo. Nesse sentido, o seriado só fortalece um certo conservadorismo. A consequência da má execução, aliada a um público infantilizado, é uma série acrítica, que mesmo com discurso fácil, não consegue arranhar a profundidade que pretende atingir.

Cena de The Boys. Plano médio de dois super-heróis lado a lado. À esquerda, Soldier Boy exibe uma expressão séria e imponente, olhando ligeiramente para cima; ele tem barba cheia e veste um traje tático verde-escuro texturizado com detalhes em metal e uma estrela dourada no peito. À direita, o Capitão Pátria o observa de soslaio com um sorriso cínico e superior. O fundo apresenta uma parede dourada com um relevo que remete à bandeira dos Estados Unidos.
A dupla de Supernatural, Jared Padalecki e Jensen Ackles participaram da 5° temporada de The Boys (Foto: Prime Video)

Antes de falar propriamente sobre a 5ª temporada, é preciso lembrar das anteriores. Se a 1ª e a 2ª eram um divisor de águas e se sustentavam na paródia, o que acontece quando a paródia já não é mais suficiente? A 3ª não precisou lidar com isso, pois foi esperta o suficiente para pegar a Marvel no auge da cultura do hype, com os recentes lançamentos de Homem-Aranha: Sem Volta para Casa (2021) e Doutor Estranho no Multiverso da Loucura (2022) e inovar seus deboches, não exatamente críticas.

Então, a 4ª teve que lidar com todo o peso sobre seus ombros. Sem a paródia para se salvar e com a crise da Marvel, só restou revisar o gênero e a si mesma. Talvez seja por isso que foi, até então, a temporada mais criticada. A penúltima season abandona o humor, e o absurdo deixou de ser algo cômico para se tornar real, sombrio e triste, com a invasão ao capitólio e o atentado no 8 de Janeiro. Os poderes, que se revelaram inoperantes, eram capazes de destruir pessoas, mas não de mudar o sistema. A 4ª assumia de vez o cinismo e a desesperança, não havia mais graça, deixamos o mundo enlouquecer e agora não parece ter volta.

No geral, a 5ª e última temporada foi marcada por uma sucessão de ‘nadas’. A série repetiu as mesmas ironias e piadas, porém, de diferentes formas, com zero senso de urgência pelo final. Em Teenage Kix, o show mostra como o TikTok tem se tornado uma ferramenta da extrema direita para alienar a população, ao colocar algumas supers influencers para fazerem propagandas e espalhar desinformação. No entanto, isso já não tinha sido feito antes? A própria personagem da Firecracker (Valorie Curry) se encarregou dessa função na temporada anterior por meio de programas de TV. Essas especificidades, sem qualquer tipo de análise, foram desgastando a obra a cada ano.

Cena de The Boys. Plano médio em ângulo contra plongée mostrando cinco integrantes do grupo 'The Boys' de pé em uma área aberta e arborizada, sob um céu nublado. Da esquerda para a direita estão: Frenchie, de jaqueta de couro e camiseta amarela; Leitinho, com jaqueta de couro marrom e mochila; Billy Bruto, centralizado, vestindo seu característico sobretudo preto longo; Hughie Campbell, de jaqueta escura sobre um moletom cinza; e Kimiko, com uma jaqueta preta de material sintético. Todos olham fixamente e com expressões sérias para algo fora de campo, em direção ao chão.
A série é inspirada em uma HQ de mesmo nome (Foto: Prime Video)

A season finale da 4° temporada talvez tenha sido a mais interessante e realmente deixou uma tensão no ar para o encerramento. Contudo, se tem algo que a série faz com maestria é jogar toda a construção pelo ralo em poucos minutos – vide o episódio O Deserto Quente Instantâneo da terceira temporada. Logo no capítulo de abertura, Quarenta Centímetros de Pura Dinamite, todas as questões foram abordadas e solucionadas. Isso não é um defeito por si só, o problema é a maneira insossa com que lidam com certos aspectos, como a Kimiko (Karen Fukuhara) voltando a falar, ou como a prisão do Leitinho (Laz Alonso), Hughie (Jack Quaid) e Francês (Tomer Capone). Parece que a season finale foi apenas mais um evento que não afeta de fato os personagens.

Nessa nova safra de oito episódios, o primeiro buscou resolver as pontas que foram deixadas. Isso foi feito com muita pressa, afinal, os outros sete capítulos repetiam o mesmo roteiro com os garotos tentando matar o Capitão Pátria, falhando, vendo- o ficar mais poderoso e repetindo o processo. Foi com toda certeza a escrita menos criativa de todas as temporadas, o que pode ser explicado pelos spin-offs como Gen-V (2023) e Vought Rising, que deve ser lançado nos próximos anos. The Boys ficou a mercê de propagandear a segunda série, inserindo personagens e narrativas que serão explorados nesta nova obra. No caso de Gen-V, ainda que tenha sido pouco influente, foi possível ver uma necessidade de inserir as protagonistas do seriado na reta final. Pelo menos houve uma cena bem pensada na series finale entre a Annie (Erin Moriarty) e Marie (Jaz Sinclair).

Esse problema apresentado por The Boys, não é algo exclusivo do show, mas sim do próprio funcionamento das séries dentro do sistema capitalista e no contexto de streaming e da cultura do hype. Os spin-offs são uma estratégia de buscar um público já consolidado para fazer a manutenção da  audiência por mais tempo, e que pouco tem relação com alguma ideia artística. Nos últimos anos, essa estratégia vem se fortalecendo ainda mais, desde The Originals (2013) até The Handmaid’s Tale (2017), o problema é que com os seriados recentes, as últimas temporadas parecem serem ‘sacrificadas’ para continuidade do universo, culminando em finais pouco arriscados.

Cena de The Boys. Plano médio do Capitão Pátria ajoelhado no chão de carpete azul do Salão Oval. Ele veste seu traje de super-herói azul com detalhes dourados e capa vermelha. Seu rosto e cabelo estão visivelmente sujos de sangue, e ele está com a cabeça erguida e os olhos semicerrados, com as mãos erguidas em um gesto de desespero ou prece. Ao fundo, à esquerda, há um retrato emoldurado de Abraham Lincoln na parede e, à direita, parte de uma mesa de madeira escura e a bandeira dos Estados Unidos.
“É mais poderoso que a Vought ou o Capitão Pátria… É lucro e prejuízo, oferta e demanda, o complexo fluxo de dinheiro pelo mundo” (Foto: Prime Video)

Voltando para The Boys, o 5° ano tinha uma tarefa bem clara do que deveria fazer: finalizar a história do Homelander. A grande questão mesmo é qual seria a abordagem de encerramento. Seria algo desesperançoso como a 4ª temporada? Mais conformista? Ou será que iriam buscar uma luz no fim do túnel? Independente do protagonismo dos garotos, a escolha do que aconteceria com o vilão definiria o tom e a crítica final da série. Infelizmente eles respondem isso no 3° episódio, Cada Um de Vocês Filhos da Puta, em uma conversa entre Stan Edgar (Giancarlo Esposito) e o Leitinho, o que deixou o final bem previsível.

Além de todas as escolhas questionáveis, o que tornou a season mais frágil foi o distanciamento dos personagens com o povo. Eric Kripke e a produção aceitaram a população apenas como alienados que engolem qualquer propaganda feita pelas grandes empresas e difundidas online, como se fossem todos iguais. Tratou a massa de forma superficial, sem olhar as individualidades, sem pensar nas questões que levam as pessoas para esse caminho. A temporada se torna então inconsequente, afinal, não há questionamento para as ações da Pátria, algo que eles tinham explorado bem na 3° temporada com Todd (Matthew Gorman).

Cena de The Boys. Primeiro plano dramático focado no rosto de Frenchie com os olhos fechados e inconsciente, exibindo pequenos ferimentos na lateral da testa. Kimiko é vista de costas em primeiro plano. Ela o abraça, com a cabeça apoiada próxima ao pescoço dele. O ambiente ao fundo é escuro e tem iluminação fria.
“Olhe para você. Aposto que você nunca foi feliz um dia sequer na sua vida” (Foto: Prime Video)

No entanto, nem tudo são defeitos. Se tem algo que a temporada fez bem, foi encerrar os arcos de alguns personagens. Os contraditórios Francês e Trêm-Bala (Jessie Usher) finalizaram suas jornadas com um sacrifício, mas de formas diferentes. Frenchie encontra sua salvação no amor de Kimiko, e sacrifica sua vida pela dela; A-Train, por outro lado, acha sua redenção no heroísmo, e parte do ser herói é o sacrifício. Ambos são assassinados por Homelander, porém, o grande destaque fica por conta dos diálogos antes da morte. Eles riem do vilão e deixam claro o quanto é infeliz e patético. Mesmo na morte eles vencem ao expor que não têm medo de seu algoz, pois morrerão com orgulho de quem se tornaram.

Os arcos do Profundo (Chace Crawford) e Firecracker também tiveram um desfecho bem pensado. Em contraste com os dois anteriormente citados, os antagonistas morreram de maneira indigna. A dupla ficou marcada nessa temporada por vender seus valores e crenças em devoção ao Capitão Pátria, não por lealdade, e sim por medo. A dupla foi morta de maneira simbólica, enquanto Firecracker é silenciada pelo próprio Pátria; Profundo é assassinado pelos próprios animais marinhos. 

Para finalizar, a morte final de Homelander pelas mãos de Billy Bruto (Karl Urban) é uma das grandes cenas da série. Ao perder seus poderes, em Blood and Bones, o grande vilão finalmente revela quem é de verdade por baixo daquele uniforme: uma criancinha, mesquinha, fraca e triste, assim como disseram A-Train e Francês. O Capitão Pátria funciona bem como representação dessas figuras poderosas e ‘masculinas’ que se tornam deploráveis quando perdem o poder – Hitler que se suicida sozinho em casa, por exemplo. A interpretação de Antony Starr é mais uma vez preciosa para reforçar isso com gestos e expressões. A conexão entre Karl e Antony talvez tenha atingido seu ápice neste momento. Quando se torna frágil, o antagonista se revela muito mais patético do que até o Bruto esperava.

Por que tive tanto medo? Você é um nada… Você é só esse traje, tirando esses poderes, o que você é? Patético, fraco, um perdedor” – A-Train

Apesar da tenebrosa season finale e dos problemas do show como um todo, The Boys teve um series finale ok, que funciona com toda a obra. A perda de qualidade e popularidade não pode apagar o respiro que a série deu na época em que foi lançada sua primeira temporada. Talvez a sua grande qualidade, que foi ser o contraponto aos filmes de heróis, nunca tenha sido explorada para além da superfície, porém, entre erros e acertos, o seriado teve bons momentos e não foi isento em nenhum momento, sempre se posicionou e gerou debates – ainda que sua representação não tenha sido das melhores. Em homenagem a Hughie Campbell, encerro esse texto com as palavras de Billy Joel, que melhor definem os ‘boys’: “We didn’t start the fire, it was always burning since the worlds be turning” (“Nós não começamos o incêndio, esteve sempre queimando desde que o mundo tem girado”).

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