
Isabela Nascimento
Em 2016, depois do pop-punk de Sucker (2015), Charli XCX aprofundou sua aproximação com a música eletrônica experimental em Vroom Vroom (2016). Produzido por SOPHIE, o EP seria posteriormente reconhecido como um dos trabalhos fundamentais para a popularização do hyperpop. Com esse feito, a britânica fortaleceu sua condição de artista cultuada por um público mais específico, explorando ritmos, sons e estéticas diferentes. Após dez anos deste lançamento, os seus fãs veem ela em uma mudança semelhante, aventurando-se em um novo lugar com Music, Fashion, Film.
Depois de The Moment (2026), meta-sátira que funcionou como uma espécie de despedida da era BRAT, e da trilha sonora de Wuthering Heights (2026), os fãs da artista imaginaram que ela sumiria por um tempo. Em abril de 2026, porém, Charli começou a sinalizar uma nova direção musical. No mês seguinte, lançou Rock Music, primeiro single do seu oitavo álbum de estúdio.
Produzida por Charli, A. G. Cook e Finn Keane, a música cria uma dúvida na mente de quem ouve, que se questiona da possibilidade da letra ser irônica ou não. Essa incógnita vem acompanhada de uma mistura de instrumentos comumente usados no rock, porém com uma base eletrônica. A declaração de que “a pista de dança está morta” não condena a música eletrônica, mas demarca o esgotamento pessoal que ela sentiu em relação ao disco anterior.

O álbum segue essa linha: o flerte do eletrônico com o rock, similar ao que Julian Casablancas e Daft Punk já fizeram, mas com um toque XCX. Letras com duplo sentido que causam uma confusão sobre a mensagem da cantora, ao mesmo tempo que deixa claro seus medos e anseios e como essa fama repentina afetou a vida pessoal dela.
O quarto single, Camera, é um ótimo exemplo. A batida mecanizada acompanha a britânica desabafando sobre o cansaço de estar na indústria, mas como estar no holofote é o melhor jeito de ela se sentir como ela mesma. É visível que ela está comentando sobre a sua nova aventura de atriz de cinema, mas é difícil não se questionar se não é uma referência à Música também. “Porque me sinto diferente na marcação. Algo novo, ainda não descoberto”.
Persona faz o mesmo, mas de uma forma ainda mais interessante se destacando entre as produções do álbum. O principal motivo é por parecer ter uma letra confusa que não dá para entender se é uma diss track para uma artista que se esconde por trás de seu ego ou se é para ela mesma. A música soa como se ela não pudesse criticar a outra pessoa porque ela é igual. Nos versos ela diz “Vejo você em um filme e isso me faz querer chorar. Adoro as histórias que você conta, mas sei quando você mente”.
O efeito da voz e da guitarra mais mecanizada presentes leva o ouvinte para uma viagem espetacular. Principalmente, quando assistimos o filme que ela lançou junto com o disco no Youtube. Apesar de simples e com uma pegada caseira, o vídeo conta um segredo de cada composição, transformando Music, Fashion, Film em uma experiência cinematográfica feita por ela e seus amigos.
A parceria é outro foco desta era de Charli. Os produtores são colaboradores antigos, Finn Keane e A. G.Cook, que é homenageado em Magic Metal Montana pelos dez anos de amizade e pela conexão que é transformada em música nas discografias de ambos. Além da produção, o diretor dos clipes, Aidan Zamiri também é um grande amigo dela, seu último trabalho foi o filme lançado por ela em Fevereiro, The Moment.
Segundo Charli XCX para a Rolling Stone, cada álbum dela se contrasta com o outro, e isso é o motivo deles se conectarem. O sucessor do aclamado BRAT é de fato algo diferente de tudo que ela já fez. Depois do sucesso em 2024, a cantora percebeu que a fama não era para sempre e nem tão saborosa assim, então ela resolveu explorar isso de um jeito diferente.

Music, Fashion, Film explora a frustração, os anseios e as consequências do Brat Summer, enquanto mostra para Charlotte Aitchison a necessidade de se arriscar musicalmente e a necessidade de aceitar o final de tudo – como é visto na fala do diretor David Cronenberg no final do álbum: “esquecimento é liberdade, nada dura para sempre”.
Apesar de desabafar em I’m Afraid, sobre ser insegura e o medo que a persegue, neste disco vemos o contrário. O álbum nasceu do amor de Charli pela arte, música, moda e filmes e como isso influenciou em sua vida e carreira. Há uma inspiração no conceito básico desses âmbitos: a subjetividade. A cantora não está preocupada se os fãs amaram, se odiaram, se é raso ou experimental demais para eles. Como o conceito inicial da produção, ela quer levar os ouvintes em uma experiência crua, honesta, e temporária.
