
Gabriel Diaz
Antes do lançamento, Jão disse que fez 14 músicas sobre a vida, nem sempre como ela é. A frase soa quase despretensiosa até se perceber que ela carrega, sem alarde, a chave de leitura de todo o álbum. Memórias Póstumas, quinto disco de estúdio e o primeiro após a quadrilogia de elementos do cantor, é sobre os acontecimentos como, de fato, foram e também sobre a forma como escolhemos lembrá-los depois que já não podem mais ser mudados.
O disco atravessa e impõe um tipo de silêncio interno que só a perda sabe provocar. É curioso notar como esse vazio contrasta com o próprio percurso vocal do artista, pois quem acompanha a carreira desde os tempos de uma voz mais leve e juvenil, muito notável em Imaturo (2018), quase ingênua, sabe que nunca tinha ouvido ele cantar com este peso no ar. Não é a voz de quem ainda está descobrindo o que sente, é a voz de quem já sentiu demais e precisou encontrar um jeito de continuar cantando mesmo assim.
O estranhamento inicial diante dessa mudança é compreensível para qualquer um, mas talvez seja também a prova mais clara de que o disco cumpriu seu propósito: incomodar antes de consolar. Ao remeter ao romance de Machado de Assis, publicado em 1881, o artista empresta o prestígio literário a um álbum pop, estendendo uma camada lírica à própria estética visual e afetiva do projeto. Há um cuidado quase arqueológico em reconstruir através de gestos, costumes e imagens, a figura paterna como presença sugerida, quase reconstituída pela imaginação de quem ficou.

Nele, entende-se que a memória não se restringe a registros antigos de família, existe uma reconstrução constante, e que todo exercício de lembrar é também, em alguma medida, um exercício de reescrever. Há algo de reconhecível nesse gesto para quem já precisou remontar a imagem de alguém a partir de fragmentos soltos, tal qual um quebra-cabeça.
Pensando sobre o disco, ele marca a maturidade que muitos esperavam desde ANTI-HERÓI (2019), só que, agora, sem a produção mais espetaculosa que caracterizou SUPER (2023). A prova disso é o hiato do cantor, quando voltou para sua cidade natal em Américo Brasiliense, depois de testar a grandiosidade das arenas e ter percebido que a canção, para funcionar de verdade, precisava apenas dele e do violão.

Essa despretensão sonora foi a decisão mais corajosa da sua carreira até aqui, em um período em que o mercado da música premia excesso de produção e colaborações. A coerência do disco, no entanto, não é absoluta e é justamente nas variações que se percebe o quanto ela foi bem calibrada. Em Jabuticabeira, essa simplicidade ganha textura mais elétrica, aproximando-se do rock que atravessou a MPB nos anos 1980, nela há um quê de Lulu Santos até Cazuza, funcionando como respiro dentro do clima introspectivo do álbum sem romper sua unidade.
Já em Passeios Noturnos, o desvio soa menos justificado, quando a narrativa se volta mais para o movimento externo da cidade do que para o recolhimento que sustenta o restante do disco. É claro que nem todo álbum conceitual precisa de uniformidade absoluta, contudo quando a maior parte da obra se dedica tão profundamente a um mesmo estado emocional, os desvios tendem a ser sentidos com mais intensidade.
https://www.youtube.com/watch?v=ONj_ZUjD3Jg&list=RDONj_ZUjD3Jg&start_radio=1
Essa mesma lógica de variação dentro da coerência aparece também no plano temático, quando o álbum recupera sensações que já haviam surgido em outras fases da carreira de Jão e as desloca para dentro do luto. O que se ouve em Aurora, por exemplo, é o medo que antes vinha de fora, da rua, do mundo, e agora vem de dentro, do próprio processo de atravessar a dor. Manifesta-se um dos momentos mais inteligentes do disco, porque mostra que o artista não está apenas escrevendo sobre perda e está reorganizando sua própria discografia à luz dela, revisitando temas antigos como quem revisita fotografias à procura de um sentido que só agora se revela.
Boa parte da força emocional do disco está justamente nessa ideia de que a morte não esvazia após o fim, porque não há um fim. Ela convive, o tempo todo, com o que continua. Há algo de comovente em como o álbum sugere, logo em Catedral, que enquanto uma partida acontece, outra coisa nasce em algum lugar; que enquanto uma família se despede, a vida segue seu curso em outro canto, indiferente e ao mesmo tempo cúmplice da dor.
Essa constatação simples, mas raramente dita com tanta clareza em canção pop, é o que torna o disco menos sobre morrer e mais sobre o que resta vivo em quem fica. A mesma ideia reaparece, sob outra forma, em Literatura, que trata a palavra escrita sem a tentativa de mudar o passado, dando ênfase em mudar a maneira como convivemos com ele. A Arte não devolve quem se foi, porém impede que essa presença desapareça de vez.
Vale destacar a forma de como a memória é convertida em ritual a partir dos versos. “Eu acho horrível e bonito que o amor / Não escolhe pra onde vai”, presentes na canção O Amor expressa aquilo que insistimos em guardar e continua sendo repetido, mesmo depois que a razão de existir dele desaparece, tornando-se uma leitura apoteótica. A saudade do pai mora nesses refrões e nos detalhes triviais que só ganham peso depois que alguém não está mais lá para repeti-los.
Ainda assim, esse projeto não sustenta a mesma intensidade do início ao fim. Parece que, a partir de Coincidências, há um esvaziamento perceptível diante da emoção que as faixas anteriores conseguiram construir. É como se o álbum, depois de atingir seu ponto mais alto, precisasse de mais tempo para se recompor antes de seguir. São imperfeições que não comprometem o conjunto, entretanto ficam mais evidentes justamente porque o padrão estabelecido pelo próprio disco é alto.

Há quem escute essas músicas e reconheçam como o trabalho mais consistente e maduro da carreira de Jão, um álbum que funciona justamente por nascer de sentimento genuíno, e não do desejo de repetir fórmulas que deram certo antes. Há também quem prefira dar mais tempo a algumas faixas antes de fechar uma opinião definitiva, o que talvez diga menos sobre falhas do disco e mais sobre a natureza do luto que ele retrata: nem tudo se resolve, se compreende ou se aceita na primeira escuta.
A produção é, sobretudo, um gesto de dedicação ao pai, construído com sentimentalismo e um cuidado particular em preservar cada lembrança. Não se encaixa uma leitura unânime, e tampouco precisa ser. Memórias Póstumas procura fugir de ensinar como se atravessa uma perda, e é exatamente por isso que soa honesto e tão particular. A luta por trás do luto não busca resoluções, oferece novas formas de conviver com o que ficou e com o que simplesmente nos é tirado sem aviso.
Jão entendeu isso ao transformar todas as faixas em mesmo gesto contínuo: olhar para trás para aceitar que ele, de algum jeito, continua presente em quem ficou – e tudo isso só foi possível graças à sua pausa. O álbum finaliza nos contando o que a ausência ensina a quem precisa seguir vivendo ao lado dela, tornando-o incompleto em alguns momentos, repetitivo em outros, e, ainda assim, impossível de ignorar.
https://open.spotify.com/intl-pt/album/37oi5fAM46AtRr3bXNj8M3?si=4bce837d2d5442c3
