Memórias Póstumas, de Jão, mostra que o luto é uma nova lente para enxergar o mundo

Texto alternativo: Capa do álbum Memórias Póstumas, do artista Jão, com a participação da atriz Marisa Sabino dos Santos. Uma mulher idosa de cabelos longos e grisalhos conduz uma motocicleta branca enquanto inclina o corpo para a frente e sorri discretamente, olhando para o horizonte. Atrás dela, um homem jovem de cabelos escuros e bigode a abraça pela cintura para se equilibrar. Ele veste terno preto com camisa azul e gravata, segura um buquê de pequenas flores brancas e tem uma flor presa ao cabelo acima da orelha esquerda. O céu ao fundo está completamente nublado, em tons de cinza, destacando a dupla e transmitindo sensação de liberdade e cumplicidade durante o passeio.
A capa é assinada pelo fotógrafo Hugo Comte, conhecido por trabalhos com Dua Lipa e Caroline Polachek (Foto: U.F.O. Produções Artísticas)

Gabriel Diaz

Antes do lançamento, Jão disse que fez 14 músicas sobre a vida, nem sempre como ela é. A frase soa quase despretensiosa até se perceber que ela carrega, sem alarde, a chave de leitura de todo o álbum. Memórias Póstumas, quinto disco de estúdio e o primeiro após a quadrilogia de elementos do cantor, é sobre os acontecimentos como, de fato, foram e também sobre a forma como escolhemos lembrá-los depois que já não podem mais ser mudados.

O disco atravessa e impõe um tipo de silêncio interno que só a perda sabe provocar. É curioso notar como esse vazio contrasta com o próprio percurso vocal do artista, pois quem acompanha a carreira desde os tempos de uma voz mais leve e juvenil, muito notável em Imaturo (2018), quase ingênua, sabe que nunca tinha ouvido ele cantar com este peso no ar. Não é a voz de quem ainda está descobrindo o que sente, é a voz de quem já sentiu demais e precisou encontrar um jeito de continuar cantando mesmo assim. 

O estranhamento inicial diante dessa mudança é compreensível para qualquer um, mas talvez seja também a prova mais clara de que o disco cumpriu seu propósito: incomodar antes de consolar. Ao remeter ao romance de Machado de Assis, publicado em 1881, o artista empresta o prestígio literário a um álbum pop, estendendo uma camada lírica à própria estética visual e afetiva do projeto. Há um cuidado quase arqueológico em reconstruir através de gestos, costumes e imagens, a figura paterna como presença sugerida, quase reconstituída pela imaginação de quem ficou. 

Registro do cantor Jão, em sua audição realizada no Vale do Anhangabaú. Um homem jovem de cabelos escuros ondulados e bigode aparece sentado atrás de uma bancada coberta por vegetação e pequenas flores brancas e amarelas. Vestindo um blazer xadrez sobre camiseta branca, ele apoia a cabeça na mão direita e olha para cima com expressão contemplativa e levemente surpresa. Ao fundo, dezenas de lâmpadas acesas formam um grande painel luminoso dourado, criando um cenário quente e teatral que envolve o personagem em uma atmosfera acolhedora e nostálgica.
No dia do lançamento do álbum, o artista realizou uma audição gratuita com fãs no Vale do Anhangabaú, em São Paulo (Foto: Andy Santana/Brazil News)

Nele, entende-se que a memória não se restringe a registros antigos de família, existe uma reconstrução constante, e que todo exercício de lembrar é também, em alguma medida, um exercício de reescrever. Há algo de reconhecível nesse gesto para quem já precisou remontar a imagem de alguém a partir de fragmentos soltos, tal qual um quebra-cabeça.

Pensando sobre o disco, ele marca a maturidade que muitos esperavam desde ANTI-HERÓI (2019), só que, agora, sem a produção mais espetaculosa que caracterizou SUPER (2023). A prova disso é o hiato do cantor, quando voltou para sua cidade natal em Américo Brasiliense, depois de testar a grandiosidade das arenas e ter percebido que a canção, para funcionar de verdade, precisava apenas dele e do violão.

Ensaio fotográfico do artista Jão para o álbum Memórias Póstumas. Ao ar livre, um homem jovem de cabelos escuros ondulados e bigode está agachado, com a cabeça baixa e o olhar voltado para o chão. Ele veste um terno preto sobre camisa branca de gola alta e segura entre os lábios uma pequena flor branca presa pelo caule. O fundo é composto por árvores desfocadas em tons de verde, enquanto a iluminação suave e a postura curvada do personagem reforçam um momento silencioso de introspecção e melancolia.
O artista será o primeiro a fazer um show 360° em estádio, marcado para 25 de setembro, no Nubank Parque (Foto: U.F.O. Produções Artísticas)

Essa despretensão sonora foi a decisão mais corajosa da sua carreira até aqui, em um período em que o mercado da música premia excesso de produção e colaborações. A coerência do disco, no entanto, não é absoluta e é justamente nas variações que se percebe o quanto ela foi bem calibrada. Em Jabuticabeira, essa simplicidade ganha textura mais elétrica, aproximando-se do rock que atravessou a MPB nos anos 1980, nela há um quê de Lulu Santos até Cazuza, funcionando como respiro dentro do clima introspectivo do álbum sem romper sua unidade.

Já em Passeios Noturnos, o desvio soa menos justificado, quando a narrativa se volta mais para o movimento externo da cidade do que para o recolhimento que sustenta o restante do disco. É claro que nem todo álbum conceitual precisa de uniformidade absoluta, contudo quando a maior parte da obra se dedica tão profundamente a um mesmo estado emocional, os desvios tendem a ser sentidos com mais intensidade.

https://www.youtube.com/watch?v=ONj_ZUjD3Jg&list=RDONj_ZUjD3Jg&start_radio=1

Essa mesma lógica de variação dentro da coerência aparece também no plano temático, quando o álbum recupera sensações que já haviam surgido em outras fases da carreira de Jão e as desloca para dentro do luto. O que se ouve em Aurora, por exemplo, é o medo que antes vinha de fora, da rua, do mundo, e agora vem de dentro, do próprio processo de atravessar a dor. Manifesta-se um dos momentos mais inteligentes do disco, porque mostra que o artista não está apenas escrevendo sobre perda e está reorganizando sua própria discografia à luz dela, revisitando temas antigos como quem revisita fotografias à procura de um sentido que só agora se revela.

Boa parte da força emocional do disco está justamente nessa ideia de que a morte não esvazia após o fim, porque não há um fim. Ela convive, o tempo todo, com o que continua. Há algo de comovente em como o álbum sugere, logo em Catedral, que enquanto uma partida acontece, outra coisa nasce em algum lugar; que enquanto uma família se despede, a vida segue seu curso em outro canto, indiferente e ao mesmo tempo cúmplice da dor. 

https://www.youtube.com/watch?v=EO87ts218qg&list=RDEO87ts218qg&start_radio=1&pp=ygUMasOjbyBjYXRkcmFsoAcB 

Essa constatação simples, mas raramente dita com tanta clareza em canção pop, é o que torna o disco menos sobre morrer e mais sobre o que resta vivo em quem fica. A mesma ideia reaparece, sob outra forma, em Literatura, que trata a palavra escrita sem a tentativa de mudar o passado, dando ênfase em mudar a maneira como convivemos com ele. A Arte não devolve quem se foi, porém impede que essa presença desapareça de vez. 

Vale destacar a forma de como a memória é convertida em ritual a partir dos versos. “Eu acho horrível e bonito que o amor / Não escolhe pra onde vai”, presentes na canção O Amor expressa aquilo que insistimos em guardar e continua sendo repetido, mesmo depois que a razão de existir dele desaparece, tornando-se uma leitura apoteótica. A saudade do pai mora nesses refrões e nos detalhes triviais que só ganham peso depois que alguém não está mais lá para repeti-los.

Ainda assim, esse projeto não sustenta a mesma intensidade do início ao fim. Parece que, a partir de Coincidências, há um esvaziamento perceptível diante da emoção que as faixas anteriores conseguiram construir. É como se o álbum, depois de atingir seu ponto mais alto, precisasse de mais tempo para se recompor antes de seguir. São imperfeições que não comprometem o conjunto, entretanto ficam mais evidentes justamente porque o padrão estabelecido pelo próprio disco é alto.

Imagem retirada do trailer de lançamento do álbum Memórias Póstumas, do artista Jão. Vista lateral do interior de um automóvel mostra um homem jovem de cabelos escuros e bigode sentado ao volante, olhando fixamente para a frente com expressão séria e distante. Do lado de fora, uma mulher idosa de cabelos grisalhos observa o motorista através do vidro da janela quebrado, onde há um grande buraco cercado por estilhaços. Ela apoia uma das mãos na porta do carro e encara o homem com expressão firme e inquisitiva. Sobre o painel do veículo, um terço com contas de madeira e um crucifixo pendem do retrovisor, enquanto pequenos fragmentos de vidro permanecem espalhados sobre a porta e a moldura da janela, reforçando a tensão da cena.
Segundo o artista, a atriz Marisa Sabino dos Santos, presente no trailer de Memórias Póstumas, representava a morte em seu dia a dia (Foto: U.F.O. Produções Artísticas)

Há quem escute essas músicas e reconheçam como o trabalho mais consistente e maduro da carreira de Jão, um álbum que funciona justamente por nascer de sentimento genuíno, e não do desejo de repetir fórmulas que deram certo antes. Há também quem prefira dar mais tempo a algumas faixas antes de fechar uma opinião definitiva, o que talvez diga menos sobre falhas do disco e mais sobre a natureza do luto que ele retrata: nem tudo se resolve, se compreende ou se aceita na primeira escuta.

A produção é, sobretudo, um gesto de dedicação ao pai, construído com sentimentalismo e um cuidado particular em preservar cada lembrança. Não se encaixa uma leitura unânime, e tampouco precisa ser. Memórias Póstumas procura fugir de ensinar como se atravessa uma perda, e é exatamente por isso que soa honesto e tão particular. A luta por trás do luto não busca resoluções, oferece novas formas de conviver com o que ficou e com o que simplesmente nos é tirado sem aviso.

Jão entendeu isso ao transformar todas as faixas em mesmo gesto contínuo: olhar para trás para aceitar que ele, de algum jeito, continua presente em quem ficou – e tudo isso só foi possível graças à sua pausa. O álbum finaliza nos contando o que a ausência ensina a quem precisa seguir vivendo ao lado dela, tornando-o incompleto em alguns momentos, repetitivo em outros, e, ainda assim, impossível de ignorar.

https://open.spotify.com/intl-pt/album/37oi5fAM46AtRr3bXNj8M3?si=4bce837d2d5442c3

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