
Guilherme Machado Leal
Julie (Renate Reinsve) é aquele tipo de jovem que representa a geração à qual pertence: na fase dos 20 e poucos anos, a mulher é obcecada pela sensação que as mais variadas experiências podem garantir a ela. Desde testar vários cursos em universidades para aplicar suas habilidades até dormir com quem quiser, a personagem-título traz aspectos conflitantes relacionados às suas escolhas. Para alguns, ela é um modelo a ser seguido. Já outros, a definem como o grande ‘problema’ da história, e é isso que torna A Pior Pessoa do Mundo, de Joachim Trier, um marcador temporal da juventude da década de 2020.
Assim como nos outros filmes do diretor norueguês, o início do mundo estabelecido apresenta uma narração marcada por um compilado de cenas, encabeçada por Ine F. Jansen, com a edição de Olivier Bugge Coutté, que transmite a dinamicidade dos eventos que ocorrem com a moça interpretada por Renate Reinsve. A pressão de ser financeiramente estável, a ideia de ter filhos e o medo de se sentir comum ao aceitar um pedido de casamento são algumas das batalhas que a protagonista trava. Temas como esses não são novos, tampouco deixados de lado em narrativas cinematográficas. No entanto, o triunfo dessa história é justamente a particularidade dada aos devaneios de sua figura central por meio do texto, escrito pelo cineasta e Eskil Vogt, parceiros de longa data.

Dividido em 12 capítulos, a história é uma faca de dois gumes para aqueles que se veem nela. É como se a protagonista fosse atravessada por todas as questões pelas quais um ser humano passa em um período tão curto de tempo. Quando conhece Aksel (Anders Danielsen Lie), esses dilemas são postos à mesa após os primeiros meses recheados de amor. No início da relação, iniciada a partir do interesse de Julie na figura polêmica do rapaz – que criou uma história em quadrinho polêmica entre os leitores de Oslo, cidade onde a produção é ambientada. O que torna o desejo dela por ele tão latente é o sentimento de novidade. Além do envolvimento com o escritor, o que a guia é o novo. Aqui, sentir algo pela primeira vez é o objetivo.
Conforme conhece o mundo do namorado, a personagem é engolida pelas convenções sociais desse tipo de dinâmica. Em conversas com outros casais, cai a ficha de que ela não pertence a esse mundo. Uma mãe? Talvez nos próximos anos. Uma boa namorada? Depende do que ela sente no momento. Uma boa pessoa? Essa última é a pergunta que Trier procura se afastar ao máximo de responder. A Pior Pessoa do Mundo funciona porque você odeia amar a Julie. Em algumas cenas, ela te descreve como ninguém nunca o fez. Em outras, aquilo que assusta no nosso interior, é o que mais pulsa naquelas veias, desejando sair por aí.

“Perdi tanto tempo me preocupando com o que podia dar errado. Mas o que de fato deu errado nunca foram as coisas com as quais eu me preocupava”, frase dita por Aksel em seus últimos dias, dialoga com uma cena especial da produção. Marcada pela quietude, o mundo para por alguns minutos, nos quais vemos a mulher correr e sorrir. A personagem principal nunca se sentiu tão conectada com aquilo que a cerca: a paisagem, as pessoas e os espaços da Noruega. Justamente por ser lúdico, não é real, e pelo recorte que temos de Julie nos 12 capítulos, a personagem sempre pulará de galho em galho a procura do pertencimento.
Os caminhos percorridos pela protagonista carregam provocações relacionadas à infidelidade. Será mesmo que é tão ruim trair? Uma relação extraconjugal define o seu caráter? Ser horrível com alguém que te ama é um defeito? Aqui, é como ver um quadro sendo pintado: as ideias surgem, Trier e Vogt pintam os desenhos, Renate é retratada igual uma musa estática para ser retratada em tela e nós somos impactados – ou não – por essa obra de ‘arte’. No entanto, longe da estabilidade, o que dá força a narrativa é o desprendimento de tudo aquilo que não a impressiona, algo que é almejado por muitos.
Quantas vezes não engolimos seco em prol da suposta paz? Ou fomos a algum lugar e interpretamos um personagem específico para nos encaixarmos? The Worst Person In The World (título em inglês) se destaca pelo talento natural de Julie em ser um constante erro. É satisfatório ver alguém sendo aquilo que você sempre desejou ser. É igualmente interessante perceber que para muitos ela é uma representação limitada de tudo que a consiste.

Em dado momento, Julie diz que se sente espectadora da própria vida, mas tudo que é visto nas poucas mais de 2 horas é alguém que vive 100% confortável com a inquietude da própria alma. Ela não precisa que o mundo pare para que seja entendida. Na verdade, a norueguesa quer entender o que tem de tão especial em tudo que está ao redor, especialmente se o único é feio, moralmente questionável e marcado por contradições. Após 5 (e muitos) anos, A Pior Pessoa do Mundo ressoa em qualquer um que ainda busca entender o que é ser um corpo vivo no primeiro quarto do século XXI.
