A 2ª temporada de X-Men ’97 escreve seu próprio apocalipse

Aviso: Este texto contém spoilers

Cena da série X-Men ‘97Na imagem, o personagem Noturno, de pele azul escura e olhos amarelos, está com uma expressão de preocupação. Ele veste um uniforme preto com linhas amarelas nos braços e ombros por cima de uma roupa de padre, com o colarinho aparente. Noturno tem cabelo em topete na cor preta.
Nove episódios, lançados semanalmente, compõem o segundo ano da série (Foto: Disney+)

Davi Marcelgo

Em 2024, o showrunner de X-Men ‘97, Beau DeMayo, foi demitido da Marvel Studios, acusado de má conduta sexual. Ao mesmo tempo, ele fez algumas alegações de que a Disney havia pedido ao funcionário que deixasse a série “menos gay”. A segunda temporada estreou em 2026, com oito episódios assinados por DeMayo, em coautoria com outros roteiristas, inclusive de Brian Ford Sullivan, responsável pelo último sem o comando do principal nome por trás do primeiro ano. O resultado disso é um enredo picotado e acelerado, que parece fugir do plot principal.

Apocalipse (Ross Marquand) foi prometido como a grande ameaça da história nos últimos minutos da primeira temporada, e os dois iniciais episódios desta nova (Dias de um Futuro Passado e Uma Força a Ser Reconhecida) dedicam-se a apresentá-lo e posicionar o vilão no pódio de ‘maior inimigo dos X-Men’. Ali, Magneto (Matthew Waterson) morre na frente de seu principal parceiro, professor X (Ross Marquand), e o destino de personagens como Vampira (Lenore Zann) e Cable (Chris Potter) é desenhado. No entanto, as subtramas e o arco do antagonista – que decide, na estreia do show, viajar no tempo e ir para os anos 1990, momento mais frágil da equipe (uma viagem no tempo nunca demorou tanto) – são colocados de lado e só retornam ao final. 

Os núcleos são sufocados ou acelerados; às vezes, X-Men ‘97 decide que seu público conhece conceitos criados nos quadrinhos e só os embola em uma tentativa de finalizar de uma vez o que foi decidido em 2024. Assim, parece que a produção se arrependeu das escolhas – ou quer se livrar do caminho escrito por DeMayo – e as resolve abruptamente, mas sem apresentar uma nova trama capaz de se conectar por todos os capítulos, fazendo do espetáculo uma vitrine para o MCU.

Cena de X-Men ‘97Na imagem, o personagem Apocalipse, na juventude, está com expressão de raiva, de testa franzida e dentes apertados. Ele possui pele branca, olhos vermelhos, cabelos escuros e longos e uma marca azul que desenha sua boca e seu queijo. Ele usa um colar egipcío na cor dourada.
Em 2016, o Apocalipse ganhou sua primeira adaptação para os cinemas, interpretada por Oscar Isaac (Foto: Disney+)

Talvez esta seja a maior diferença em comparação à série idealizada por Beau DeMayo, que não dependia de conexões com outras obras do estúdio. Aqui, vemos o Kang (John de Lancie), em um claro resquício do que seria o MCU antes da saída de Jonathan Majors; os Celestiais, fazendo ponte com Eternos (2021), o Vigia, de What If… ? (2021-) e a constante transformação de Morfo (JP Karliak) em outros heróis da Marvel, mais precisamente personagens que estão no Cinema, como Capitão América, Homem-Aranha e o Coisa. É curioso que o mutante prefira ser qualquer um que não alguém de seu cotidiano… X-Men ‘97 sofreu uma mutação e agora se assemelha ao que a Marvel é: um produto. 

Porém, sortudos como os X-Men são, ‘97 garante uma boa experiência graças ao poder de persuasão de seus mocinhos e suas interações em pares. Sobretudo o roteiro consegue discursar sobre aquilo que talvez a Disney tenha tentado tornar ‘menos gay’. Em determinado momento, um dos heróis lamenta que todo o esforço para tornar o mundo um ambiente digno para a vida de humanos e mutantes foi em vão – o que é interessante diante da onda conservadora e de extrema direita que está engolindo as nações apesar dos esforços dos movimentos sociais na última década – e, ainda que a série não explore tanto essa temática diretamente, com exceção do episódio Terra Selvagem, Coração Selvagem, existe uma guinada que muda, de forma positiva para a narrativa, o papel dos personagens neste universo.

Cena de X-Men ‘97Na imagem, Apocalipse segura Magneto pela cabeça enquanto aponta uma arma embutida na mão direita. O vilão é forte e grande, na cor roxa e azul, ele possui cabos e peças de máquina pelo corpo. Ele sorri de forma sádica. Já Magneto, é um homem branco que usa um capacete roxo na cabeça. Também veste capa e calças da cor roxa. Ele está gritando em agonia e tem peito e braços machucados. No horizonte, a luz do sol, laranja, está bem forte e cobre todo o cenário.
Pela lei da ausência de corpo em cena, há chances de Magneto retornar (Foto: Disney+)

As histórias da equipe podem – e devem – ser lidas como uma alegoria para grupos minoritários que enfrentam a opressão. Nem é subtexto, e X-Men ‘97 nunca escondeu tal intenção. Diante de tudo que enfrentam nesta temporada, de um déspota implacável a uma equipe financiada pelo governo, a X-Factor, que prende jovens mutantes vulneráveis, e com a percepção de que toda luta foi em vão, seja no presente, passado ou futuro, a série expele os momentos banais da família – frequentes no primeiro ano – e faz um processo de utilitarismo aos seus sujeitos. 

Jubileu (Holly Chou) era uma adolescente que amava jogar videogame, mas sem seus protetores, entra para um time extremista (X-Force) e precisa amadurecer, tomando escolhas adultas. Magneto sacrifica seu retorno à época que pertence para salvá-la; Cable atravessa a infância, a juventude e a fase adulta com o destino de ser útil ao futuro dos X-Men, e Wolverine (Cal Dodd) retorna ao projeto Arma-X para violar seu corpo e se transformar naquilo que acha ser o melhor: um assassino. De um lado, o governo americano se prepara para a luta, de outro, o Apocalipse abandona sua natureza para ser uma máquina de guerra. A condição opressora obriga que os X-Men sejam armas – e abandonem o caráter educativo para ser uma corporação – e não mais seres que amam, conversam, brincam, enfim, vivem.  

Essa ideia é condensada com o melhor personagem da temporada (infelizmente o ruivinho favorito foi deixado de lado): Noturno (Adrian Hough). O azul sacrifica sua vida para que um igual a ele possa viver um amor interrompido por um atentado terrorista contra sua existência. O mutante católico é quem paga pelos pecados. O segundo ano de X-Men ‘97 é banhado por morte e renúncia a uma vida normal. Para que um viva, é necessário que outro pereça; é a experiência de ser diferente: fugir e sobreviver é o único meio. O texto sobre a primeira temporada da série foi escrito por mim e o finalizo com uma dúvida: a qualidade seria mantida sem DeMayo? Há um declínio, sim, mas como os episódios ainda são assinados por ele, teremos que adiar esta questão para a próxima e continuar aguardando, assim como os X-Men esperam conquistar a sonhada paz. 

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