Há 5 anos, Olivia Rodrigo tirava a carta de motorista e dirigia pela própria angústia adolescente

Capa do álbum Sour, da cantora Olivia Rodrigo. Na imagem, há a artista utilizando um top rosa felpudo com uma saia com listras branca, azul e roxa. O fundo da imagem é roxo e ela está no centro da capa. Ela possui cabelos ondulados e está com os braços cruzados. Ela mostra a língua, que contém 4 papéis que juntos formam a palavra Sour. Em seu rosto, há diversas figurinhas. No canto inferior direito, há o selo “Parental Advisory Explicit Content”.
Após cinco anos do lançamento e com mais de 17 bilhões de streams, SOUR ainda é o álbum feminino mais reproduzido no Spotify (Foto: Heather Hazzan)

Guilherme Machado Leal

Era a primeira semana de 2021 no momento em que uma adolescente de 17 anos publicou os primeiros teasers sobre a música que daria início à sua carreira. Com uma divulgação modesta, a jovem era relativamente conhecida, pois atuava como protagonista em High School Musical: The Musical: The Series (2019), produção do Disney+. No dia 8 de janeiro, ela lançou a faixa drivers license, e a partir daquele momento, a vida da artista mudaria para sempre. Na segunda sexta-feira do ano, Olivia Rodrigo se apresentou ao mundo com uma canção sobre um relacionamento falho – algo comum no dia a dia da cultura pop. Mas o que tornou tudo diferente naquela vez?

Uma boa história por trás é sempre bem-vinda quando um compositor finaliza os versos. No caso dela, surgiram boatos de que a estreia teria sido uma mensagem daquelas para o ex, aparentemente Joshua Bassett, com quem ela dividia o protagonismo no spin-off de High School Musical (2006). Para melhorar a fofoca, o suposto término entre os dois ainda viria embalado com uma terceira figura: Sabrina Carpenter. A cantora teria se relacionado com o ator após o fim da relação dele com a colega de elenco. Na canção, a performer narra a dinâmica do affair. “E eu sei que não éramos perfeitos / Mas nunca me senti assim por ninguém”, inicia o refrão, que instantaneamente grudou na mente daqueles que estavam ansiosos para entender o porquê da tamanha tristeza de uma garota estava sendo tão comentada. 

De fato, as pessoas queriam saber os pormenores da faixa, que se tornou na época a música com mais streamings (6,14 milhões) em um dia no Spotify dos Estados Unidos. No dia 13 de janeiro, ela quebrou o recorde de Ariana Grande – que chegou a bater 4,19 milhões em 2019, com o hit thank u, next. Para melhorar, Olivia Rodrigo atingiu um feito realizado apenas por outros dois artistas: Zayn após a saída do One Direction e Lauryn Hill com o estrondoso The Miseducation of Lauryn Hill. Drivers License estreou diretamente em primeiro lugar na Billboard Hot 100, a maior parada de músicas dos Estados Unidos.

Taylor Swift, uma das maiores artistas do mundo e ídolo da popstar, havia reconhecido as técnicas de escrita da sucessora. Tudo parecia estar alinhado para a atriz, que possuía outras duas cartas na manga até o lançamento do SOUR, nome do primeiro álbum de estúdio. Entrevistas com os maiores veículos, aparições nos principais talk shows norte-americanos e aclamações de pessoas já estabelecidas no ramo musical fizeram parte do cenário vivido pela estrela da Disney. No primeiro semestre de 2021, ela provavelmente era a artista favorita do seu artista favorito. E, para quem alcança marcos com a primeira canção, a cobrança é ainda maior. Por isso, as 11 músicas que encabeçaram o projeto precisavam ser escolhidas a dedo.

Em brutal, faixa que abre o disco de estreia de Rodrigo, somos teletransportados para a vivência de uma adolescente comum. Poucos amigos, medo de beber e morrer, ansiedade e o desejo de ser amada são alguns dos pensamentos embaralhados e caóticos sobre os quais ela versa de maneira verdadeiramente dolorosa. Sob produção de Dan Nigro – que participou de todas as canções –, as guitarras utilizadas aqui funcionam como uma explosão do sentimento de angústia. 

Diferente dos clássicos hinos de superação a um término, em momento algum a popstar se coloca como moralmente correta na situação. Na verdade, a compositora reconhece seus defeitos: “Estúpida, emotiva, obsessiva pequena eu”, afirma ela em enough for you, e também abre o jogo sobre as próprias inseguranças quando pergunta sobre a própria aparência e personalidade na intimista 1 step forward, 3 steps back. Não é que o ator de High School Musical: The Musical: The Series tenha cometido um crime ou acabado com a vida da cantora, mas as coisas batem forte quando você tem 17 anos e se apaixona por alguém que te traz sentimentos ainda não experienciados.

 Foto da cantora Olivia Rodrigo, uma mulher amarela de cabelos ondulados. Na imagem, ela utiliza um penteado que prende seu cabelo. Ela usa um brinco de coração na orelha direita. Ela está com a boca aberta e com as mãos para frente.
O álbum aborda os conflitos de Olivia enquanto uma garota de 17 anos que tem o coração partido pela primeira vez (Foto: Heather Hazzan)

Outro momento especial do SOUR é o lançamento de deja vu: em abril, após quase três meses do sucesso de drivers license, o segundo single da era deu continuidade na história que a jovem queria contar. Aqui, ela opta por desacelerar a melodia e emular as palavras musicalmente ao invés de cantar em cursivo. O resultado é uma composição honesta e marcada por referências aos momentos da artista com o ex: por ele ter um padrão de comportamento, é como se as relações do rapaz fossem um déjà vu. O que teoricamente teria acontecido com Rodrigo, ocorreria também na dinâmica com Carpenter. 

Ter uma marca registrada é fundamental para a construção do público de uma popstar. No caso da ex-Disney, a produção de suas músicas se prepara ao momento de êxtase: as pontes confessionais – efeito popularizado no pop mainstream de 2010 por nomes como Lorde e Taylor Swift. Na segunda empreitada, ela prossegue a história que foi contada nos versos por meio do embalo mais acelerado da produção e pelos ecos proporcionados no momento em que a cantora diz “Eu sei que você tem um déjà vu”.

Em good 4 u, Olivia Rodrigo terminou de enterrar de vez todos os sentimentos que tinha por Joshua Bassett. Com referências às obras O Teste Decisivo (1999) e Garota Infernal (2009), a garota deixa claro que não tem mais volta. A jovem o fará se arrepender de cada minuto daquela relação e, principalmente, de ter partido o seu coração. Após a primeira semana do lançamento, a faixa estreou em primeiro lugar na Billboard Hot 100, garantindo mais uma marca para a artista, o que provavelmente sempre será a melhor diss track de sua carreira.

Além de brutal, Rodrigo retoma a angústia adolescente em jealousy, jealousy, uma boa representação da sonoridade pop que a compositora deseja seguir. Na faixa, as confissões moralmente incompreendidas se apresentam como verdades irrefutáveis. Somos levados ao imaginário de uma adolescente que se compara constantemente. Na cabeça dela, todos são melhores, e por isso ela os inveja. Pode ser chato dizer em voz alta, mas reconhecer esse sentimento e dividi-lo em seu álbum de estreia coloca a performer de igual para igual com quem a escuta.

Poucos artistas se dão o luxo de afirmarem que o primeiro álbum de suas carreiras foi um sucesso estrondoso, porém a dona do SOUR tem cacife o suficiente para dizer com todas as letras: “Eu marquei uma geração”. Em 2021: ela era o momento. Após cinco anos, as pessoas ainda querem saber o que Olivia Rodrigo tem a dizer. E os fãs estão ansiosos para ver as experiências coletadas pela jovem de 23 anos. É lindo acompanhar uma vida em desenvolvimento, principalmente se você estava no começo de tudo. Entrem no carro, estamos preparados para a próxima aventura!

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