
Ana Beatriz Zamai
Seja pela polêmica do cancelamento do show do dia 21, pelo ato de abertura divisor de opiniões, pelos passeios e corridas por São Paulo ou ‘apenas’ pelo espetáculo em si, a curta residência de Harry Styles no Brasil com a Together Together Tour deu o que falar. Ainda se fossem somente os shows, já teria muito a ser falado, visto que o cantor conseguiu transformar o estádio do MorumBis em uma noite de balada de Roma ou Berlim.
Harry escolheu a dupla Fcukers, de Nova Iorque, para ser a atração na abertura dos shows no Brasil. Apesar de não serem muito conhecidos pelos fãs do cantor, a escolha fez muito sentido para a turnê, visto que o novo álbum de Styles, Kiss All the Time, Disco Occasionally, ou KISSCO, abreviando, tem uma vibe – como o próprio nome diz – de disco, baladas, clubes noturnos, assim como a dupla. Entretanto, diferente do show principal, em que as músicas são diferentes entre si e mais de um álbum é apresentado, o duo parece animar o público nas duas, talvez três, primeiras músicas apenas. A sensação é que todas as faixas da setlist são iguais e repetitivas, deixando a plateia, que já estava cansada de ficar esperando, exausta. Talvez em uma balada o clima seja diferente e os dois sejam uma boa opção, mas no show não foi uma boa pedida. Além disso, os vídeos que passavam no telão durante a apresentação do dueto eram um tanto quanto estranhos e questionáveis.

Antes de falar sobre o show em si, vale um comentário sobre a playlist de músicas brasileiras escolhida para tocar entre os dois shows. De Evidências à Bum Bum Tam Tam, quem quer que tenha decidido as faixas acertou em cheio, visto que manteve o público animado durante a espera pelo cantor inglês, sem contar que a plateia, independente do estilo da canção, batia leques fervorosamente no ritmo escolhido.
Harry Styles começa a apresentação de sua nova turnê com Are You Listening Yet?, uma boa pedida, já que a música aproveita a ansiedade da espera pelo começo do show e combina com a energia cativante e dançante do álbum, como um resumo do que vem pela frente e do que os fãs podem esperar da noite. As várias interações do cantor já se iniciam durante a primeira música, com um “boa noitchi São Paulo” que fez a plateia ir à loucura. Styles segue com quatro músicas ‘repetidas’ de outras turnês: Golden, Adore You, Watermelon Sugar e Music For a Sushi Restaurant. Apesar de não serem do mesmo estilo dançante das mais recentes, as quatro também estão na ponta da língua dos fãs e animam o público tanto quanto as outras e fazem parte até de projetos de fãs, como em Watermelon Sugar quando todos levantam as lanternas do celular nos momentos que Harry canta “high”. Para finalizar a primeira parte mais animada do show, Harry Styles canta Taste Back com lindos e coloridos visuais no telão – que, por sinal, era enorme e com uma qualidade impecável. Já introduzindo a vibe das duas próximas músicas, Taste Back repete várias vezes a pergunta “Or do you just need a little love?” – “Ou você só precisa de um pouco de amor?”.
Trazendo a primeira música mais sentimental da noite, Styles traz Coming Up Roses, do novo álbum, ao som de uma orquestra brasileira, que inclusive, serviram como uma piada mal traduzida do cantor: em inglês, instrumentistas de corda seria string players, o que, na tradução direta, ficaria jogadores de corda. Harry tentou apresentar a orquestra como “jogadores de corda brasileiros”, mas não deu muito certo. A música tem dois momentos de aproximação com os fãs, uma quando canta “there’s only me and you” – “é só eu e você”, como se não existisse mais ninguém além do cantor e do fã, mesmo em meio a um estádio lotado; e quando os fãs cantam o “La-la-la-la” junto com a orquestra, sem a voz de Harry. Fechando o primeiro bloco emotivo, o britânico canta Fine Line, uma das fan-favorites, tanto pedida nas outras turnês e que Harry só performava em shows pontuais. Antes de cantar, Styles fez um discurso sobre como a vida pode ser frágil, como é especial dividir a vida e momentos bons – como o próprio show – com amigos, família ou até sozinhos e como ele tem esperança no futuro, afinal, como a música diz, “we’ll be alright” – “nós vamos ficar bem”. Não só neste discurso, mas em todas as pausas que faz para interagir com o público, Harry faz questão de agradecer todo o apoio do público, seja o que chegou com o último álbum ou o que já estava aqui 16 anos atrás, com a One Direction, constantemente se mostrando grato pelo carinho dos fãs.

Secando as lágrimas de todos, American Girls, mais uma de Kiss All the Time, Disco Occasionally, é cantada com pulos do próprio cantor pelo palco. Em um dos shows, Harry fez uma brincadeira com o título da música, cantando “my friends are in love with Brazilian Girls” – “meus amigos estão apaixonados por garotas brasileiras”. No intervalo entre as músicas do KISSCO, Keep Driving aparece com o fanchant na ponte da música, em que Styles nem se dá ao trabalho de cantar inteira, de tão alto que os fãs entoavam. Voltando às mais recentes, Ready, Steady, Go! e Dance No More mostram que, mesmo sendo muito boas no fone de ouvido, conseguem ser melhores ainda ao vivo. A primeira ainda conta com visuais incríveis no telão e edições de som que aperfeiçoaram a música, sem contar com os leques dos fãs batendo no ritmo, como se fosse tudo ensaiado anteriormente. Na segunda, Harry dança, coreografado, na introdução da música, algo que nunca acontecia em seus shows de turnês anteriores. Styles dançava – e ainda dança – nos shows, mas de forma espontânea, sem coreografia, diferente deste momento, que conta inclusive com dois dançarinos. O momento passa a sensação de que o cantor de fato se importa em demonstrar aos fãs a vibe do álbum novo.
É durante Dance No More que Harry introduz a banda e podemos perceber que a grande maioria do público não é fã só do cantor Harry Styles, e sim de todos que fazem parte dessa grande produção. A animação dos fãs enquanto cada integrante é apresentado é contagiante, e o estádio vai a loucura quando Sarah Jones, a baterista, aparece. Além das inúmeras interações durante as músicas, seja com beijinhos, acenos, respostas à cartazes ou risadas, o britânico separa um momento do show, logo após American Girls, para interagir com calma e ler cartazes. Styles aprendeu a cantar parabéns em português para a fã Laleska, parabenizou fãs grávidas, e, talvez o mais marcante, aprendeu a bater leque. No último show, Styles apareceu com seu próprio leque, já sabendo fazer o movimento sem precisar copiar de ninguém – tudo isso enquanto cantava Magalenha de Sérgio Mendes. Toda essa interação faz cada show se tornar único e demonstra carinho e atenção com os fãs, além de ser perceptível o quanto o cantor se diverte com os cartazes e as respostas dos fãs, deixando o momento mais leve e gostoso.
Passando por Treat People With Kindness, que já se tornou um clássico nos shows do cantor, inclusive com uma dança criada pelas fãs, Harry Styles inicia uma sequência de Kiss All The Time, com Pop, Season 2 Weight Loss e Carla’s Song, que contam com visuais no telão que combinam muito com Pop e um jogo de luzes digno de baladas e clubes. Já Carla’s Song, mais uma das ‘sensíveis’ do show, é misturada com Satellite, música do álbum Harry’s House, uma ideia brilhante que Harry manteve em todos os shows da turnê, já que as duas, apesar de serem mais sentimentais, tem uma batida mais agitada, diferente de Fine Line, por exemplo. Antes deste mashup, Styles, em mais uma interação com o público, fez um discurso sobre amizades, como devemos amar nossos amigos e a importância deles em momentos difíceis nas nossas vidas – assim como ele fez em Carla’s Song que foi escrita para uma grande amiga do cantor.

Para fechar a apresentação do novo álbum, o britânico canta Aperture, primeiro single do KISSCO, e até brinca de ser DJ no palco antes do início da música. A canção não foi tão bem recebida pelos fãs no começo da nova era, talvez por ser tão diferente de tudo que ele já tinha lançado antes, mas definitivamente foi um dos pontos altos do show. A música foi feita para ser escutada ao vivo, pulando e gritando “we belong together” – “nós pertencemos juntos”; é ela que nomeia a turnê.
Faltando apenas três músicas para o fim, Harry Styles faz uma pausa, momento em que a orquestra toca Night Changes e History, duas canções da One Direction, banda que o cantor fez parte de 2010 a 2016. É uma situação que demonstra gratidão aos fãs que estão com o inglês desde o começo e continuam apoiando, além de valorizar a época da One Direction. Em seguida, uma música surpresa diferente é cantada em cada noite. Nos shows no Brasil, Harry cantou Matilda dia 17, The Waiting Game no dia 18, e Little Freak, uma das mais pedidas, e Love of My Life no último show, talvez como um pedido de desculpas pelo cancelamento do show que aconteceria no dia 21. Finalizando, Harry Styles canta sua primeira música da carreira solo, Sign Of the Times, com direito a fogos de artifício e muitas lágrimas de qualquer um que estivesse no estádio. Para não se despedir com lágrimas, Styles canta o hit As It Was e faz uma corrida em volta de todo o seu longo palco, pegando bandeira do Brasil e mandando beijos para os fãs.
Em quase duas horas de show, Styles fez todo mundo chorar e dançar, provando que sabe o que faz ao montar um show tão bem organizado e contagiante, com destaque para as músicas do novo álbum, Kiss All The Time, Disco Occasionally. Com a Together Together Tour, Harry Styles prova que, assim como diz em Dance No More, não existe diferença entre as lágrimas e o suor.
