Aviso: Este texto contém spoilers

Guilherme Moraes
Ponto Sem Retorno, de Ridley Scott, se passa em um mundo pós-apocalíptico, em que uma doença matou milhares de pessoas e agora os sobreviventes precisam batalhar diariamente para continuar vivos. Seja contra outras doenças (afinal não há mais remédios e poucos médicos), luta por recursos ou contra o próprio ser humano. É uma história padrão no contexto das obras sobre distopias, o que não é algo ruim. Porém, o problema é que o filme sequer consegue parecer que está no fim do mundo.
A trama é protagonizada por Hig (Jacob Elordi), que era mecânico, pai e marido antes do fim do mundo e, agora, é um sobrevivente que não perdeu a esperança de encontrar algo melhor. Seu parceiro é o ex-militar Bangley (Josh Brolin), cuja vida se baseia na luta diária, sem aspirações. A narrativa contrapõe as duas figuras, como o otimista (Hig) e o pessimista (Bangley), ou talvez o progressista e o conservador, mas isso não fica claro, até pela má condução quanto ao personagem de Brolin, que não sai da superfície de carrancudo.
Como dito, o herói da obra não gosta da vida que leva, pensa em algo melhor, e assim ele decide sair em jornada. No meio do destino, seu avião caiu perto de uma fazenda e dessa forma ele conhece Pops (Guy Pearce) e Cima (Margaret Qualley) – relação de pai e filha –, com quem constrói uma amizade e uma relação de afeto, especialmente com Cima. Esse é o melhor momento do longa. A escassez e a carência os aproxima. Ter a família é ótimo, mas também é preciso ter amigos, e Hig era isso – para a personagem de Qualley, é até mais.

O que torna essa passagem a mais marcante é a forma como Scott desenvolve as relações. Sem soar apelativo, ele apenas filma as cenas de diálogo com plano e contraplano alternando entre close-ups com fundo desfocado e integra os atores no ambiente com planos médios e abertos. É o básico, não tem nada de arrojado, porém, funciona para criar algo natural e minimamente interessante entre os personagens – principalmente entre Qualley e Elordi.
Entretanto, mesmo com suas qualidades, essas cenas soam muito como se os personagens estivessem em um acampamento entre amigos. Não existe sentimento de que estamos no fim do mundo e o diretor tem dificuldades em fazer funcionar sua ambientação, afinal, a violência parece muito pontual e controlada, serve apenas como motor narrativo, mas não é parte da natureza humana. Precisa de um motivo para fazer com que Cima e Pops embarque com Hig na sua jornada? Jogue um bando de ‘caçadores’ para forçá-los a isso. Parece que mesmo Ridley Scott fazendo que os personagens se conectem, o próprio não crê na ligação entre eles.
Ver diretores históricos com uma filmografia abastada ainda em atividade, normalmente, é muito especial. É incrível poder ver os últimos filmes de Clint Eastwood, aguardar anualmente os novos filmes de Spielberg, Scorsese e Coppola, nomes históricos da New Hollywood e torcer para que Brian DePalma volte a filmar. Porém, o caso de Ridley Scott parece distinto. Seus novos longas são indiferentes, sequer lembram que é o mesmo diretor de Alien, o Oitavo Passageiro (1979), Blade Runner (1982) e Thelma e Louise (1991), não por causa da qualidade, mas pela unidade fílmica que nada se assemelha. A realidade é que a cada lançamento, sua habilidade e talento são cada vez mais questionados.
