Só por Uma Noite é divertido e entretém mas só será relevante pelas 12 horas em que se desenrola sua trama

Duas pessoas estão em pé dentro de um vagão de metrô, diante das portas. Um homem de camisa polo azul olha sorrindo para uma mulher de cabelos longos e castanhos, que retribui o olhar enquanto segura uma barra de apoio. Ela veste um top preto brilhante de paetês, e ambos parecem estar se divertindo durante a viagem.
Só por uma Noite foi aos cinemas no dia 20 de agosto (Foto: Olive Bridge Entertainment)

Catarina Pereira

O longa Só por Uma Noite chega aos cinemas em 2026 com uma aposta na fidelidade do público às comédias românticas. A obra não foge dos padrões de roteiro do gênero, mantendo a tradicional estrutura de dividir o filme em três terços: no primeiro os personagens principais se encontram, no segundo ocorre algum desencontro e no terceiro há um desfecho.

A história se passa em Nova York, em uma realidade distópica em que o sexo para pessoas solteiras é proibido por lei, e apenas uma vez ao ano é permitido que as relações sexuais extraconjugais aconteçam. O controle desse mandato é realizado por bio chips implantados na pele, que identificam o estado civil. A realidade fictícia conservadora americana explora questões políticas atuais, mas o diretor Will Gluck não se aprofundou no universo, ele deixou apenas como pretexto para o romance se desenrolar. 

A superficialidade na criação do universo em que se passa Só por Uma Noite não incomoda pois é estratégia para não ofuscar o enredo principal, no entanto surgem inúmeras questões no espectador quanto ao funcionamento da realidade que não são sanadas na narrativa. A questão do casamento como uma forma de driblar o mandato, por exemplo, é mencionada, mas não se é explicado quais os termos e os valores para se casar em uma sociedade onde as relações sexuais só podem ocorrer entre esses indivíduos.

À noite, duas pessoas conversam entre dois carros estacionados, com uma cidade iluminada ao fundo. Uma mulher de vestido preto brilhante gesticula enquanto fala com um homem de camisa polo cinza, que está inclinado sobre a lateral de um dos carros. Ao fundo, prédios iluminados destacam-se contra o céu escuro.
A estreia doméstica do longa arrecadou mais de U$5,7 milhões no primeiro final de semana (Foto: Olive Bridge Entertainment)

Em meio a esse contexto os personagens principais Allie (Monica Barbaro) e Owen (Callum Turner) passam a trama se desencontrando em meio à outras complicações românticas. Allie é uma cantora solteira que busca encontrar conexões reais em meio a uma noite em que a atração carnal comanda de forma desenfreada. Owen, um jovem dono de uma pizzaria, é dispensado pela namorada no dia que era para ser o mais romântico do ano e decide se aventurar com outras pessoas para explorar seus próprios sentimentos. 

O enredo é previsível, um encontro constrangedor apresenta os personagens principais, a estranheza típica de uma comédia romântica não surpreende, mas também não desagrada um público confortado pelo previsível. Allie e Owen arranjam diferentes pares românticos que resultam em situações embaraçosas que sempre levam os dois ao mesmo lugar, gerando a expectativa de que em algum momento os personagens entenderão que estão ‘destinados’ a ficarem juntos. No terceiro e último ato o casal consegue se entender, tornando satisfatório o final e fazendo jus às expectativas criadas.

A construção dos personagens é simples, sem muita exploração das verdadeiras raízes das dificuldades emocionais de cada um, empobrecendo a trama de romance, que acaba por ficar rasa e previsível. O clássico jogo em que a parte masculina é apaixonada e devota enquanto a parte feminina apresenta resistência, mas acaba percebendo que o ama no conflito final da obra. Isso se mostra claro no momento em que Owen e Allie estão indo para uma festa como a última tentativa da noite e ele começa a questioná-la do porquê ela não gostaria de dormir com ele, e Allie, resistente, torna o momento uma piada, diminuindo as esperanças de Owen.

Duas pessoas posam lado a lado em um evento, diante de um painel iluminado com letras grandes e uma imagem de fundo. A mulher usa um vestido preto longo e elegante, com detalhes de franjas e acessórios dourados, enquanto o homem veste um terno azul-marinho, camisa clara e gravata listrada. Ambos sorriem para a câmera.
A premiére ocorreu em Nova York e contou com a presença de celebridades como Dua Lipa, esposa de Callum Turner (Foto: Efren Landaos/Sipa USA)

O longa busca trazer o sentido da história dos personagens ao diferenciá-los dos outros indivíduos que não procuram conexões reais em meio à uma noite de exacerbação do carnal. Esse gênero de filme conforta uma geração de jovens adultos frustrados que cresceram assistindo comédias românticas, inclusive muitas produzidas por Will Gluck, como Amizade Colorida (2011). Assim, o enredo que se baseia em uma história romântica que se diferencia das relações fúteis e baseadas em sexo, gera esperança e identificação de um público que se desilude ao entender que a realidade de Só Por uma Noite não se torna tão distópica em meio a uma sociedade que preza pela produtização das relações.

A intensa busca para encontrar um parceiro que é exibida no filme não diz respeito apenas às necessidades emocionais dos personagens mas também de uma pressão externa de uma sociedade que cobra o afeto, porque amar na atualidade vende e gera lucro. A constante propaganda de camisinhas no longa, o consumo de inúmeros bens apenas para agradar ao outro e outras questões levantadas na obra, como a reclamação de Owen quanto ao valor gasto em um jantar com sua namorada, realmente questiona o quão genuíno é esse amor que é vendido como um produto e pautado pelo consumismo.

Cena noturna em um ambiente de festa, com quatro adultos conversando e sorrindo. À esquerda, um homem de cabelos castanhos cacheados veste uma jaqueta escura; ao centro, uma mulher ruiva usa um vestido preto brilhante ao lado de um homem de cabelo curto, que veste uma camisa verde. À direita, uma mulher de cabelos longos e castanhos, também com roupa escura e brilhante, participa da conversa.
O diretor Will Gluck revelou que cortou quase todas as cenas de nudez do longa após perceber que elas funcionavam como uma distração para o público. (Foto: Olive Bridge Entertainment)

A parte de comédia é bem construída e diverte ao trazer a ironia e inteligência em diferentes piadas e situações, misturando assuntos atuais e piadas clássicas para entreter o público e tornar leve a história. Um dos momentos de ápice do sarcasmo e da comicidade é quando Owen resolve utilizar de aplicativos de namoro para encontrar uma parceira para a noite e acaba por levar um golpe, resultando na mais cômica das situações na delegacia.

Ao todo, o longa não surpreende e inova, porém aposta na receita do que funciona. No entanto, criar mais uma comédia romântica que segue uma fórmula previsível e agradável não torna o filme bom, e com um elenco que conta com Callum Turner, Monica Barbaro e uma direção de Will Gluck a obra poderia ter ido além, mas Gluck não ousou sair de sua zona de conforto. Só por Uma Noite é divertido mas não é um filme a ser lembrado.

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