
Catarina Pereira
O longa Só por Uma Noite chega aos cinemas em 2026 com uma aposta na fidelidade do público às comédias românticas. A obra não foge dos padrões de roteiro do gênero, mantendo a tradicional estrutura de dividir o filme em três terços: no primeiro os personagens principais se encontram, no segundo ocorre algum desencontro e no terceiro há um desfecho.
A história se passa em Nova York, em uma realidade distópica em que o sexo para pessoas solteiras é proibido por lei, e apenas uma vez ao ano é permitido que as relações sexuais extraconjugais aconteçam. O controle desse mandato é realizado por bio chips implantados na pele, que identificam o estado civil. A realidade fictícia conservadora americana explora questões políticas atuais, mas o diretor Will Gluck não se aprofundou no universo, ele deixou apenas como pretexto para o romance se desenrolar.
A superficialidade na criação do universo em que se passa Só por Uma Noite não incomoda pois é estratégia para não ofuscar o enredo principal, no entanto surgem inúmeras questões no espectador quanto ao funcionamento da realidade que não são sanadas na narrativa. A questão do casamento como uma forma de driblar o mandato, por exemplo, é mencionada, mas não se é explicado quais os termos e os valores para se casar em uma sociedade onde as relações sexuais só podem ocorrer entre esses indivíduos.

Em meio a esse contexto os personagens principais Allie (Monica Barbaro) e Owen (Callum Turner) passam a trama se desencontrando em meio à outras complicações românticas. Allie é uma cantora solteira que busca encontrar conexões reais em meio a uma noite em que a atração carnal comanda de forma desenfreada. Owen, um jovem dono de uma pizzaria, é dispensado pela namorada no dia que era para ser o mais romântico do ano e decide se aventurar com outras pessoas para explorar seus próprios sentimentos.
O enredo é previsível, um encontro constrangedor apresenta os personagens principais, a estranheza típica de uma comédia romântica não surpreende, mas também não desagrada um público confortado pelo previsível. Allie e Owen arranjam diferentes pares românticos que resultam em situações embaraçosas que sempre levam os dois ao mesmo lugar, gerando a expectativa de que em algum momento os personagens entenderão que estão ‘destinados’ a ficarem juntos. No terceiro e último ato o casal consegue se entender, tornando satisfatório o final e fazendo jus às expectativas criadas.
A construção dos personagens é simples, sem muita exploração das verdadeiras raízes das dificuldades emocionais de cada um, empobrecendo a trama de romance, que acaba por ficar rasa e previsível. O clássico jogo em que a parte masculina é apaixonada e devota enquanto a parte feminina apresenta resistência, mas acaba percebendo que o ama no conflito final da obra. Isso se mostra claro no momento em que Owen e Allie estão indo para uma festa como a última tentativa da noite e ele começa a questioná-la do porquê ela não gostaria de dormir com ele, e Allie, resistente, torna o momento uma piada, diminuindo as esperanças de Owen.

O longa busca trazer o sentido da história dos personagens ao diferenciá-los dos outros indivíduos que não procuram conexões reais em meio à uma noite de exacerbação do carnal. Esse gênero de filme conforta uma geração de jovens adultos frustrados que cresceram assistindo comédias românticas, inclusive muitas produzidas por Will Gluck, como Amizade Colorida (2011). Assim, o enredo que se baseia em uma história romântica que se diferencia das relações fúteis e baseadas em sexo, gera esperança e identificação de um público que se desilude ao entender que a realidade de Só Por uma Noite não se torna tão distópica em meio a uma sociedade que preza pela produtização das relações.
A intensa busca para encontrar um parceiro que é exibida no filme não diz respeito apenas às necessidades emocionais dos personagens mas também de uma pressão externa de uma sociedade que cobra o afeto, porque amar na atualidade vende e gera lucro. A constante propaganda de camisinhas no longa, o consumo de inúmeros bens apenas para agradar ao outro e outras questões levantadas na obra, como a reclamação de Owen quanto ao valor gasto em um jantar com sua namorada, realmente questiona o quão genuíno é esse amor que é vendido como um produto e pautado pelo consumismo.

A parte de comédia é bem construída e diverte ao trazer a ironia e inteligência em diferentes piadas e situações, misturando assuntos atuais e piadas clássicas para entreter o público e tornar leve a história. Um dos momentos de ápice do sarcasmo e da comicidade é quando Owen resolve utilizar de aplicativos de namoro para encontrar uma parceira para a noite e acaba por levar um golpe, resultando na mais cômica das situações na delegacia.
Ao todo, o longa não surpreende e inova, porém aposta na receita do que funciona. No entanto, criar mais uma comédia romântica que segue uma fórmula previsível e agradável não torna o filme bom, e com um elenco que conta com Callum Turner, Monica Barbaro e uma direção de Will Gluck a obra poderia ter ido além, mas Gluck não ousou sair de sua zona de conforto. Só por Uma Noite é divertido mas não é um filme a ser lembrado.
