Cineclube Persona – Os Vencedores do Oscar 2021

Arte retangular. Quatro imagens estão distribuídas pelo fundo azul claro: fotos de Chloé Zhao, Daniel Kaluuya, Yuh-Jung Youn e Frances McDormand. Todas estão com uma borda colorida ao redor, e possuem o fundo azul. No canto superior esquerdo, está escrito “cineclube persona” de branco. No centro, há o logo do persona. E no canto inferior direito, o logo o oscar com “os vencedores do oscar 2021” escrito em preto.
Os destaques do Oscar 2021: a histórica vitória de Yuh-Jung Youn; o recorde de Chloé Zhao, que lidera a trupe de Nomadland junto de Frances McDormand; e a genialidade e brilhantismo de Daniel Kaluuya (Foto: The Academy/Arte: Ana Júlia Trevisan)

Perante à situação de uma celebração do Oscar na pandemia, a equipe de produtores de 2021 prometeu que transformaria a experiência em um filme. Eles não mentiram. Começando pela triunfal entrada de Regina King, brilhante como os deuses e confiante como só ela pode ser, caminhando sem pressa pela Union Station, arejada, aberta, com raios solares implorando invadir essa quebra de padrões em formato de cerimônia.

Mas algo soava estranho. Não tinha orquestra, não tinha o filtro plastificado que abraçava as telas dos televisores sintonizados na TNT (ou no Globoplay, ou onde quer que seja) e as bordas pretas, clássicas das telonas, esgueiravam a imagem de uma King lendo no teleprompter um verdadeiro roteiro na hora de premiar, bem, as categorias de Roteiro. Colocando as tradições no bolso do paletó, o Oscar 2021 não nos agraciou com a presença de um de seus atuais Atores Coadjuvantes para premiar sua contraparte deste ano logo de cara.

Ao invés disso, inaugurando essa leva mais moderninha da Academia, subiu ao palco uma bufante e estonteante Emerald Fennell, feliz que sua dita Bela Vingança foi coroada com o prêmio de Roteiro Original. Ela não preparou um discurso, já adiantou a intérprete de Camilla Parker Bowles, previamente se desculpando com Soderbergh (Steven, diretor responsável pela produção de 2021, aquele que prometeu que essa seria uma experiência de Cinema, e não apenas simples TV).

Regina King continuou fazendo graça e esbanjando talento ao apresentar os nomeados em Roteiro Adaptado, prêmio esse que acabou nas mãos de Christopher Hampton e Florian Zeller, escritores de Meu Pai. Vale a menção de que tanto Fennell quanto Zeller acabaram de estrear no Cinema, e já garantiram a honraria que fez Aaron Sorkin sair de casa apenas para anunciar um relacionamento novo, já que seu Os 7 de Chicago foi o único dos grandes indicados da noite a sair sem Oscar nenhum (e olha que a 93ª edição dividiu muito bem seus 23 prêmios).

E foi sendo assim, dois carecas dourados eram entregues por vez, ocasionalmente misturando uma categoria ‘grande’ com uma ‘nem-tão-grande-assim’. O que, a princípio, é muito bem-vindo, considerando que independente da área de atuação, todo e qualquer Oscar distribuído em 25 de abril de 2021 é importante e merece tal reconhecimento. Mas, quando Chloé Zhao subiu ao palco para receber a estatueta de Direção, precedida pela categoria de Melhor Curta-Metragem em Live Action, o efeito não foi o mesmo.

Zhao se tornou a segunda diretora, a primeira não-branca e a primeira chinesa, a vencer a honraria, 11 anos depois de Kathryn Bigelow quebrar o paradigma masculino, por Guerra ao Terror. Mal posso esperar para o Oscar 2032, quando a terceira mulher diretora subir ao palco. Quem leu o envelope com o nome de Zhao foi um socialmente distante Bong Joon-Ho, campeão do ano passado, diretamente de Seul, falando em coreano num segmento que usou da intimidade dos próprios cineastas nomeados para o anúncio.

Os discursos de agradecimento se alongaram mais que o comum, grande acerto da produção de 2021, evitando a terrível orquestra de subir lentamente o tom dos instrumentos para que a pessoa pare de falar o mais rápido possível. Até mesmo o jogo de câmeras, alocadas em lugares não-convencionais, limpou a lente da premiação. Os discursos variaram entre o tocante (Thomas Vinterberg homenageando a jovem filha que morreu pouco antes de estrelar Druk, vencedor de Filme Internacional) e o cômico (Daniel Kaluuya feliz da vida, agradecendo aos pais por terem concebido-no, enquanto ganhava o prêmio de Ator Coadjuvante). 

Yuh-Jung Youn conseguiu fazer os dois. “Eu sou mais sortuda que vocês”, começou a vovó de Minari e a Melhor Atriz Coadjuvante do ano. A atriz, primeira sul-coreana e segunda asiática a vencer por atuação, agradeceu a Brad Pitt (produtor de Minari) e ficou feliz de finalmente tê-lo conhecido pessoalmente. De longe, a temporada de 2021 vai lembrar com carinho das aparições de Youn, desde a surpresa no SAG, o shade no BAFTA e o riso solto no Oscar.

A Netflix saiu com 7 prêmios entre suas 35 indicações, mas mantém a sombra de nunca ter ganhado Melhor Filme. A Voz Suprema do Blues venceu categorias técnicas, assim como Mank, 2 Oscars para cada. Os curtas Dois Estranhos e Se Algo Acontecer… Te Amo saíram com os louros. Nas categorias de Documentário, Colette surpreendeu, e Professor Polvo triunfou, repetindo uma máxima do ano passado: mais uma vez, o pior dos 5 filmes saiu vencedor.

Lembra da promessa dos produtores de fazer o Oscar 2021 ser um filme? Eles cumpriram-na, para o bem e para o mal. O sorrisão de Riz Ahmed não cabia em seu belo rosto quando leu o envelope de Melhor Som, premiando, adivinhem, O Som do Silêncio, protagonizado pelo próprio. Esse que também triunfou em Montagem, colocando a competição para comer poeira. Soul se enquadrou nas expectativas, recebendo Animação e Trilha Sonora Original. H.E.R., um mês depois de vencer o Grammy de Canção do Ano, ganhou o Oscar de Canção Original. E Tenet, mesmo sem o apoio da Warner, levou a melhor em Efeitos Visuais. 

Durante a cerimônia, 2 prêmios Humanitários Jean Hersholt foram entregues. O primeiro homenageou a Motion Picture & Television Fund. Enquanto o segundo, apresentado por Viola Davis em sua única aparição no palco do Oscar, foi dado à Tyler Perry. Importante apontar as mudanças estruturais da premiação deste ano, que viu seus convidados sem máscara frente às câmeras, dividiu a galera entre os Estados Unidos, Londres e Paris e esbanjou um ar mais descontraído que a habitual sisuda entrega de prêmios no Dolby Theatre. Sem os habituais pares de artistas entregando os Oscars e com as músicas indicadas sendo performadas antes da cerimônia, essa edição ficará marcada na história. Foi uma senhora mudança de ares, que ainda precisa de melhorias no futuro.

Quando foi anunciado que a categoria de Melhor Filme não seria a última da noite, um gosto estranho já nos subiu à boca. Rita Moreno apareceu majestosa, citou Amor, Sublime Amor e relembrou os velhos tempos, onde ela própria venceu um Oscar pelo filme. Assim como a divina aparição de Jane Fonda ano passado para premiar Parasita, Moreno leu o nome de Nomadland no envelope colorido. Chloé Zhao, recebendo o segundo prêmio da noite, agradeceu aos nômades da vida real, acompanhada de Frances McDormand, vencendo o terceiro Oscar da carreira e o primeiro por produção. A veterana uivou no palco, homenageando Michael Wolf Snyder, editor de som de Nomadland falecido em março.

O comercial que sucedeu Melhor Filme pareceu mais anticlimático que o necessário. Começando pela aparição de Zhao em Melhor Direção no meio do nada, Nomadland saiu sem o triunfo que grandes vencedores do passado, como Moonlight e o próprio Parasita, puderam saborear. Melhor Atriz desempatou bolões, premiando Frances McDormand, em seu terceiro Oscar na categoria, quarto na carreira, se aproximando mais do recorde de Katharine Hepburn. 

Então, chegou a hora de Melhor Ator. Depois de um ‘In Memorian’ de qualidade questionável, batida agitada, ausências notáveis e aparição relâmpago dos homenageados, a categoria para honrar Chadwick Boseman acabou sendo entregue para outra pessoa. É claro que a vitória de Anthony Hopkins, por Meu Pai, é mais que merecida e merece ser aplaudida, benzida e santificada. A questão não é mérito, não é cota ou homenagem. 

O Oscar 2021 se rearranjou por completo para que acabasse em nota de sensibilidade e felicidade, para que a esposa de Boseman, Taylor Simone Ledward, agradecesse da maneira que fez no Globo de Ouro, no Critics Choice e no SAG. Era o momento do Oscar, depois de ter capitalizado em cima da morte do jovem talento, finalmente premiar atores negros nas categorias principais, era a hora de marcar na história aquele que já seria eterno de qualquer modo, mas merecia a honraria do troféu.

Joaquin Phoenix leu o nome de Hopkins, a tela cortou para uma foto do ator, que não estava presente e o Oscar acabou. No susto, sem comemoração, sem homenagem, sem ter valido o rearranjo de categorias. Foi dito que Olivia Colman subiria ao palco em caso de vitória do companheiro de tela, mas nada aconteceu. O temido anticlímax do filme. 29 anos depois de sua vitória por O Silêncio dos Inocentes, Anthony Hopkins se tornou o ator mais velho a vencer o Oscar. Chadwick morreu sem nenhum.

Concluindo a extensa cobertura do Oscar 2021, o Persona prepara o texto final da edição. A Editoria se juntou aos colaboradores para discutir, de uma vez por todas, o que rolou na 93ª edição dos prêmios da Academia, os recordes, as loucuras, a Glenn Close rebolando e as esnobadas que ficarão para a história. Seja bem-vindo ao Cineclube Especial dos Vencedores do Oscar 2021.

 

Foto de Chloé Zhao. A mulher asiática lê um papel à sua frente, enquanto discursa no microfone. Ela veste um vestido bege e usa seu cabelo preso em duas tranças. Atrás dela há outra mulher de sua equipe, branca e de cabelos grisalhos, usando um vestido preto. No canto inferior esquerdo é possível ver uma estatueta, e o fundo da imagem é azul.
A trupe de Nomadland encabeçada por Chloé Zhao recebeu o maior prêmio do Oscar 2021, Melhor Filme (Foto: The Academy)

Melhor Filme: Nomadland

A comemoração pelo maior prêmio da noite nas mãos de Zhao e seu Nomadland só não foi melhor por conta da atrocidade organizacional que o Oscar desse ano, idealizado por Steven Soderbergh, cometeu. Quem diabos não deixa por último a categoria mais esperada de uma premiação? Contando com uma vitória que não veio para Chadwick Boseman, Melhor Filme foi anunciado antes de Melhor Ator e Atriz, fazendo com que a revelação pela boca de Rita Moreno perdesse a força. O que antes finalizava a cerimônia com gritos de alegria e discursos emocionantes, acabou ficando perdido em um agradecimento rápido que nem de longe parecia aquele Oscar.

Apesar das falhas e do anticlímax, não há como medir a alegria de assistir Chloé Zhao e Frances McDormand subindo ao palco ao lado de Swankie e Linda May para receberem a honraria suprema da Academia. Batendo outros sete longas – Mank, Judas e o Messias Negro, Os 7 de Chicago, Bela Vingança, Minari, Meu Pai e O Som do Silêncio -, Nomadland fez história ao se tornar o filme menos lucrativo a ganhar Melhor Filme, arrecadando cerca de US$ 2,5 milhões nos EUA até hoje. A obra já estava consagrada como favorita e saiu para casa com 3 homenzinhos dourados, mas não há Oscar sem o medo de injustiças (imagine só, Mank roubando essa estatueta).

“A todos os corações e mãos que se uniram para fazer esse filme (…) Obrigada por nos ensinar o poder da resiliência e esperança. E sobre o que é a gentileza”. O discurso de Zhao foi breve e cheio de agradecimentos a comunidade nômade e aos seus produtores Peter Spears, Mollye Asher, Dan Janvey e a própria McDormand, que logo assumiu o microfone para pedir que a audiência assistisse no cinema todos os filmes representados na noite. Com uma homenagem a Michael Wolf Snyder, editor de som do filme que faleceu neste ano, Frances terminou sua fala uivando no microfone e angariando uma série de aplausos dos convidados. A noite foi delas. – Caroline Campos


Foto de Chloé Zhao. A mulher asiática usa um vestido bege e seus cabelos pretos estão presos em duas tranças. Ela olha para a esquerda enquanto fala no microfone à sua frente. Do seu lado esquerdo, há uma estatueta. O fundo é azul, com uma tela vinho e laranja.
Fazendo história, Chloé Zhao é a primeira mulher de origem asiática a subir ao palco para receber o Oscar por Melhor Direção (Foto: The Academy)

Melhor Direção: Chloé Zhao (Nomadland)

Ninguém acima dela! Chloé Zhao, a maior vencedora da noite do dia 25 de abril, também se consolidou como a primeira mulher não-branca e segunda mulher na história a receber em mãos o prêmio de Melhor Direção. Depois de ter vencido o Globo de Ouro, o BAFTA e o Sindicato dos Diretores por Nomadland, o envelope do Oscar com o nome da chinesa já estava pronto e embalado para ser anunciado por Bong Joon-Ho, vencedor do ano passado pelo imbatível Parasita, primeira produção em língua não-inglesa a levar Melhor Filme. 

Zhao estava acompanhada por Emerald Fennell, de Bela Vingança, na categoria, que, pela primeira vez, possuía duas mulheres na corrida pela estatueta – um histórico infeliz de uma premiação que ignora minorias há quase um século. No fim das contas, não só Fennell, como também David Fincher, de Mank, Lee Isaac Chung, de Minari e Thomas Vinterberg, de Druk – Mais uma Rodada foram deixados para trás pela diretora, que fez sua parte em perpetuar o Oscar de Melhor Direção nas mãos de cineastas não-estadunidenses pelos últimos anos.

“As pessoas, ao nascer, são boas”. Em seu discurso de agradecimento, Chloé relembra que ela e o pai costumavam memorizar poemas clássicos chineses para recitarem juntos e utiliza a frase de Three Character Classic, texto clássico da China. “Esse Oscar é para qualquer pessoa que tem a coragem de se manter boa e ver o que há de bom nos outros”. Apesar do destaque da diretora, a imprensa de sua terra natal se recusou a noticiar a conquista, depois de Zhao ter sido alvo de nacionalistas chineses que encontraram antigas entrevistas em que ela critica o país. Vida longa a Chloé Zhao e sua carreira! Agora, só nos resta esperar mais onze anos para a próxima diretora subir ao palco. – Caroline Campos


Foto de Frances McDormand. A mulher branca, de cabelos grisalhos, olha com entusiasmo para frente, enquanto fala no microfone. Ela veste roupas pretas. Do seu lado esquerdo há a estatueta do Oscar, e o fundo é azul, com uma tela com desenhos coloridos.
Frances McDormand levou o Oscar de Melhor Atriz, por seu papel em Nomadland (Foto: The Academy)

Melhor Atriz: Frances McDormand (Nomadland)

O mistério da corrida para a estatueta de Melhor Atriz finalmente foi desvendado. Pela terceira vez, Frances McDormand venceu o Oscar na categoria, sendo a única atriz viva a atingir esse feito. E ainda teve uma conquista dobrada, logo após Nomadland ter sido anunciado como Melhor Filme, do qual ela é produtora. Com isso, a atriz já soma quatro carecas dourados em sua prateleira, fazendo jus ao seu talento e trajetória, de alguém que começou como uma outsider no Cinema e hoje fornece apoio para projetos de várias mulheres, tanto é que a mesma desencadeou o nascimento da obra dirigida por Zhao. 

A disputa entre as atrizes costuma variar no quesito surpresa ao longo das edições. Ano passado, não se hesitava em dizer que Renée Zellweger ganharia a estatueta, após ter levado a melhor sucessivamente durante toda a temporada de premiações. Diferente de 2019, em que Glenn Close estava destinada a ganhar o seu primeiro Oscar, mas foi pega de surpresa pelo furacão Olivia Colman. Neste ano, o embate foi um pouco diferente. A temporada foi variando suas vencedoras desde o início: Andra Day venceu o Globo de Ouro; Carey Mulligan, o Critics Choice; Viola Davis conquistou o SAG, e, por fim, Frances ficou com o BAFTA e, agora, o Oscar. A única que saiu de mãos abanando nessa caminhada foi Vanessa Kirby.

E essa alternância não se deu à toa, tendo em vista o peso e entrega do papel de cada uma das indicadas, a concorrência não poderia ser mais acirrada. Mas superando todo e qualquer bolão que apostou na vitória de Davis ou Mulligan, Frances McDormand foi a vencedora final, lado a lado de sua companheira de estrada Chloé Zhao. A única lamentação que podemos tirar disso tudo é que, mais uma vez, a Academia perdeu a oportunidade de reconhecer o trabalho de uma mulher negra em sua categoria principal de atuação. – Vitória Silva


Foto de Anthony Hopkins. O homem branco veste uma blusa preta, e olha pra frente com um pequeno sorriso, e a mão esquerda no rosto. O fundo é claro e liso, e a imagem está em preto e branco. No canto inferior da foto há um retângulo roxo, com “Actor in a Leading Role” e “Anthony Hopkins in The Father” escrito de amarelo. No canto esquerdo da imagem, há o logo do oscar em colorido.
Perdendo a última chance de premiar Chadwick Boseman, a Academia escolheu Anthony Hopkins como Melhor Ator (Foto: The Academy)

Melhor Ator: Anthony Hopkins (Meu Pai)

Disputada entre Riz Ahmed, Chadwick Boseman, Anthony Hopkins, Gary Oldman e Steven Yeun, a categoria de Melhor Ator – que pela primeira vez contava com a maioria dos indicados não-brancos – foi escolhida para encerrar a grande noite, e tinha o sabor agridoce de uma homenagem emocionante e mais do que merecida. Após um in memorian que fez com que os os mortos se revirassem no túmulo com a música agitada, parecia certo que o Rei de Wakanda seria premiado encerrando o tapete vermelho com choro coletivo pela precoce partida.

Mas não foi dessa vez que a Academia elegeu seu terceiro ator póstumo. O prêmio ficou nas brilhantes mãos de Anthony Hopkins. É quase cômico se surpreender com a vitória de Anthony, em Meu Pai ele entrega a maior atuação da carreira, interpretando com maestria um personagem homônimo. A atuação de Hopkins é inegável e indiscutível, seu segundo Oscar é esplendoroso e merecido, mas isso não basta para acalmar a revolta do resultado. Esse prêmio tinha dono e seu nome era Chadwick Boseman.

A noite mais aguardada da Sétima Arte foi encerrada sem brilho apesar do merecimento do genial vencedor. Joaquin Phoenix não expressou nenhum sentimento de interesse ao anunciar o ganhador, que por sua vez, não fez o discurso pois o ‘grupo de risco’ não compareceu ao tapete vermelho. A premiação terminou em silêncio e a Academia perdeu a chance de fazer um encerramento memorável, perdeu a chance de agraciar o público com um discurso de Taylor Simone, e o mais grave, perdeu sua última chance de premiar o eterno Chadwick. O que nos resta é aplaudir em pé ambos atores. – Ana Júlia Trevisan


Foto de Yuh-Jung Youn. A mulher Asiatica, de cabelos brancos e curtos, veste um vestido azul escuro, e pulseira prateada. Ela segura a estatueta em suas mãos, com uma expressão séria. O fundo da imagem é azul.
Yuh-Jung Youn venceu o único e merecido Oscar de Minari (Foto: The Academy)

Melhor Atriz Coadjuvante: Yuh-Jung Youn (Minari)

Na categoria que esbanjava recordes, não havia outra maneira de selar a disputa senão premiando a inigualável joia rara Yuh-Jung Youn. Vencendo sua maior competição, uma Maria Bakalova abatida depois das derrotas no Sindicato e no BAFTA, a vovó mais querida de 2021 subiu ao palco daquele jeitinho. Ela agradeceu (e alfinetou) Brad Pitt, ficou perdida por onde começar seu discurso e então desatou a falar. Agradeceu ao primeiro diretor com quem trabalhou, mandou um recado para os filhos, e perdoou todos os americanos por errarem a pronúncia de seu nome.

Veterana na Coreia do Sul, Youn fez sua estreia estadunidense com Minari, e se tornou a segunda atriz asiática, e primeira sul-coreana, a vencer o troféu de atuação. Suas palavras demarcaram a alegria de ser celebrada e celebrar junto. E ela estava em ótima companhia, além da já citada Bakalova, primeira búlgara nomeada e destaque cômico do ano, ainda figuravam na lista Glenn Close (em sua oitava derrota), Olivia Colman (que venceu em 2019) e Amanda Seyfried (indicada pela primeira vez).

Close foi homenageada pela própria Youn, que disse ser impossível ‘vencer Glenn Close’. A veterana saiu mais uma vez com a mão no bolso, mas continua na esperança de um dia ouvir seu nome chamado ao palco. Yuh-Jung Youn venceu o único Oscar de Minari, mas essa vitória não poderia ser mais sensacional. “Eu só ganhei pois sou um pouco mais sortuda que vocês”, declarou sorrindo. Maravilhoso, maravilhoso minari! – Vitor Evangelista


Foto de Daniel Kaluuya. O ator é negreo, de cabelos curtos. Ele veste uma jaqueta preta por cima de uma blusa preta, e um colar prateado. O homem segura a estatueta enquanto fala no microfone a sua frente. O fundo é azul com uma tela laranja.
Daniel Kaluuya venceu o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante por Judas e o Messias Negro (Foto: The Academy)

Melhor Ator Coadjuvante: Daniel Kaluuya (Judas e o Messias Negro)

Não tinha para mais ninguém. Judas e o Messias Negro passou por cima de todos indicados como um rolo compressor. A performance Daniel Kaluuya rendeu a ele os prêmios de Melhor Ator Coadjuvante no BAFTA, Globo de Ouro, SAG, Critics Choice, e na noite do dia 25, no Oscar. O filme, que foi o primeiro na história indicado com equipe de produção totalmente negra, conta a história do revolucionário Fred Hampton, interpretado por Kaluuya. Hampton era um dos líderes do movimento Panteras Negras nos EUA, e foi brutalmente assassinado em uma ação da polícia de Chicago em conjunto com o FBI

Daniel foi o primeiro ator britânico negro a vencer na categoria. Judas e o Messias Negro também quebrou mais um recorde: pela primeira vez na história, dois atores negros de um mesmo filme foram indicados na categoria de Ator Coadjuvante. O outro nomeado foi Lakeith Stanfield, que também teve uma performance espetacular no longa, mas infelizmente não possuía chance suficiente de vitória. Quem também disputava a categoria era Sacha Baron Cohen, por seu papel em Os 7 de Chicago; Leslie Odom, Jr., por Uma Noite em Miami…; e Paul Raci, por O Som do Silêncio. – Jho Brunhara


Foto de Emerald Fennell. Uma mulher branca, gorda e loira, ela veste um vestido verde com detalhes em rosa. A mulher está de pé atrás de um microfone, olhando para frente com um sorriso. O fundo é azul com uma tela laranja, e do seu lado esquerdo há uma estatueta.
Não tem espaço para preconceito sexista na grandiosidade de Emerald Fennell: grávida, a cineasta levou seu primeiro filho para o set de Bela Vingança, e assim também levou o segundo para receber junto dela seu Oscar de Melhor Roteiro Original (Foto: The Academy)

Melhor Roteiro Original: Emerald Fennell (Bela Vingança)

A Vingança veio e foi realmente Bela. Na primeira premiação do histórico Oscar 2021, as mãos da única mulher indicada com destaque na categoria receberam a estatueta de Melhor Roteiro Original. Repetindo o feito do Critics Choice Awards, BAFTA e do valiosíssimo prêmio do Sindicato dos Roteiristas, Emerald Fennell foi imbatível com a perfeição de sua estreia no Cinema e se tornou a oitava roteirista a ser premiada na categoria.

Ela deixou para trás até mesmo um dos roteiristas favoritos de Hollywood, que voltou a aparecer entre os indicados ao Oscar. O texto de Aaron Sorkin é a grande qualidade de Os 7 de Chicago e o único que poderia roubar o mérito de Emerald Fennell na premiação da Academia, mas diferente das avaliações instáveis do drama de tribunal da Netflix, a aclamação do trabalho corajoso e pontiagudo da britânica estava concentrada em seu texto.

Na categoria que premiou o texto de Parasita em 2020 através dos nomes de Bong Joon-ho e Han Jin-won, concorriam também a maravilha da escrita íntima que cultiva o Minari de Lee Isaac Chung, a poderosa e igualmente determinada de Shaka King e Will Berson em Judas e o Messias Negro, e a estreia também primorosa de Darius Mader em O Som do Silêncio. Mas Emerald Fennell estava determinada em sua Bela Vingança e é a dona do Melhor Roteiro Original de 2021. – Raquel Dutra


Foto de Florian Zeller. Homem branco, magro, de cabelos loiros compridos e barba. Ele veste um terno preto com uma camisa branca por baixo, e segura a estatueta do Oscar na mão esquerda. O fundo é escuro mas pode-se ver algumas luzes coloridas.
Por Meu Pai, Florian Zeller venceu seu primeiro Oscar, ao lado de Christopher Hampton, esse que já havia vencido na mesma categoria por Ligações Perigosas (Foto: The Academy)

Melhor Roteiro Adaptado: Florian Zeller e Christopher Hampton (Meu Pai)

O fato mais interessante na categoria de Roteiro Adaptado, à parte da merecida vitória de Meu Pai, é a vasta gama de diferenciações criativas entre os 3 ‘favoritos’. Começando pelo vencedor, a adaptação da peça teatral do próprio Zeller usava das nuances dos palcos para iluminar as melhores qualidades da telona. Ele e seu co-roteirista Hampton se esbaldam naquele apartamento chiquérrimo em que Hopkins dá seus chiliques, transformando o cenário único no coração da narrativa. É louvável, é marcante e merecedor do prêmio que ano passado condecorou a sátira politizada Jojo Rabbit, de Taika Waititi.

Quem disputava com o drama familiar era o campeão Nomadland, mais uma vez representado pela figura mítica, divina e benevolente da artista Chloé Zhao. A diretora adaptou o livro de Jessica Bruder, uma não-ficção jornalística que percorre a América nômade, focando em uma porção de comunidades às escuras, e dando voz para pessoas esquecidas pelo país. Zhao escalou os personagens reais do livro para seu filme, costurando uma narrativa poderosa e íntima, que demonstra a força de seu Cinema.

O vencedor do Sindicato dos Roteiristas, foi Borat: Fita de Cinema Seguinte, onde tanto Meu Pai quanto Nomadland estavam inelegíveis. O filme protagonizado por Sacha Baron Cohen e escrito pelo mesmo e uma equipe de 8 roteiristas, se sustenta pelo improviso para a sedimentação de sua história doida. Sequência de um Roteiro já indicado ao prêmio da Academia, Borat 2 cria esquetes soltas para introduzir uma porção de questões relevantes para os Estados Unidos que, até ano passado, digladiava com o governo Trump e a pandemia do coronavírus em dose máxima. Competiam ainda, Uma Noite em Miami… e O Tigre Branco, mas sem qualquer chance de levar. Depois da vitória de Zeller e Hampton no BAFTA, esse trunfo no Oscar não espanta, ainda mais considerando a qualidade notável do trabalho da dupla. – Vitor Evangelista


Foto de Pippa Ehrlich e James Reed. A mulher branca, de cabelos loiros, está à direita da foto, vestindo um vestido dourado com brilho e pulseiras da mesma cor. Ela fala no microfone enquanto o homem ao seu lado a observa. Ele veste um terno preto, com uma camiseta também preta por baixo. A estatueta do Oscar está no centro da imagem , cujo fundo é azul.
Nos últimos 4 anos, a Netflix venceu o Oscar de Melhor Documentário 3 vezes (Foto: The Academy)

Melhor Documentário: Professor Polvo 

É difícil engolir o que a Academia faz com a categoria que abriga muitas das melhores obras das seleções do Oscar. Nos últimos anos, os votantes da premiação tem se comportado de forma duvidosa e até desrespeitosa com seus indicados a Melhor Documentário. Até as indicações, eles sempre apresentam obras interessantes com técnicas inovadoras e temas relevantes, mas quando é hora de escolher quem vai ficar marcado como o vencedor, todas as instâncias que determinam o valor de um documentário parecem ser deixadas de lado.

Essa era a postura esperada para este ano, e infelizmente, não fomos surpreendidos. Sabemos que independentemente da qualidade técnica do filme, debater política do encarceramento em massa e abolicionismo penal e celebrar a beleza do Cinema latino-americano é demais para a Academia. Mas em 2021, o Oscar sequer se dispôs a apreciar uma história otimista de revolução e inclusão documentada junto do casal Obama, que imerecidamente vencedores na categoria no ano passado, encontrariam uma vitória justa com a produção deste ano. Muito menos reconheceu a qualidade cinematográfica do Cinema europeu fora do núcleo de sempre duplamente indicada. 

Mais uma vez, o documentário de menor valor dentre os cinco indicados de altíssimo nível vence o Oscar. Sem passar pelo circuito da crítica e dos festivais, o grande campeão confiou na Netflix e em suas imagens aquáticas belíssimas do habitat natural do polvo-fêmea (sim, ainda fizeram o favor de traduzir uma informação errada no título em português), que não eram páreo para os outros indicados, mas a Academia acreditou que sim. Encorpando a hegemonia da plataforma de streaming na categoria, Professor Polvo (não) é o Melhor Documentário de 2021. – Raquel Dutra


Foto de Thomas Vinterberg. O homem branco, de cabelo castanho, veste um terno e blusa preta, com um um laço preto. Ele olha para o lado esquerdo, sorrindo. Do seu lado esquerdo há uma estatueta do Oscar. O fundo é azul com uma tela laranja.
O diretor dinamarquês Thomas Vinterberg subiu ao palco para receber o prêmio de Melhor Filme Internacional, o antigo Melhor Filme Estrangeiro, por Druk – Mais uma Rodada (Foto: The Academy)

Melhor Filme Internacional: Druk – Mais uma Rodada [Dinamarca]

Se historicamente os reconhecidos pela categoria mais interessante e heterogênea (e injustiçada) do Oscar estão concentrados na Europa Ocidental – os maiores vencedores são Itália e França, respectivamente -, a tendência de fugir desse eixo repetitivo continua. Mesmo esnobando o íntimo Babenco: Alguém Tem Que Ouvir O Coração e Dizer: Parou, submissão do Brasil, e produções latinas como o guatemalteco La Llorona, reconhecido no Globo de Ouro, o mexicano I’m No Longer Here e o chileno Agente Duplo , que participou em Documentário, os nomeados de 2021 dão visibilidade às mais diversas narrativas, do Leste Europeu, à Ásia e à África.

Dos indicados, a Romênia e a Tunísia aparecem pela primeira vez com Colectiv, documentário duplamente nomeado que expõe as falhas no sistema de saúde romeno, e O Homem que Vendeu Sua Pele, inspirado em uma história impressionantemente real de um homem que vendeu suas costas para serem tatuadas. Com Better Days e seu debate sobre o bullying e suas consequências, Hong Kong garante sua segunda nomeação. A Dinamarca tem em Druk – Mais uma Rodada sua 13ª indicação e a Bósnia e Herzegovina, que já levou o prêmio em 2002, participa com o poderoso Quo Vadis, Aida?. Ainda que todas as produções estejam à altura, acumulando elogios, indicações e vitórias em outras importantes premiações e categorias, o favorito já saia na frente bem antes da noite de entrega do troféu.

E não teve surpresa: o badalado Druk se sobressaiu e garantiu o quarto Oscar da Dinamarca. O longa divertido e reflexivo de Thomas Vinterberg, que já havia sido indicado em 2014 por A Caça, explora os benefícios, os malefícios e as consequências do álcool sem moralismo, como ele mesmo destaca. Reafirmando a proximidade à história, o diretor subiu ao palco para aceitar a estatueta e fez um dos discursos mais emocionantes da noite, em que lembrou da filha falecida que estrelaria no filme: “Se alguém acredita que ela está aqui de alguma forma, vai poder vê-la celebrando e aplaudindo conosco. Acabamos fazendo este filme para ela, como seu monumento. Então, Ida, este é um milagre que aconteceu. E você é parte dele”. Mais um motivo para a vitória do filme, ainda que previsível, ser celebrada. – Vitória Lopes Gomez


Foto de Sergio Lopez-Rivera, Mia Neal e Jamika Wilson. Na direita, Mia Neal fala no microfone a sua frente. A mulher negra está com os cabelos presos e veste um vestido azul, com brilhos nas bordas. Ao seu lado esquerdo, Sergio Lopez-Rivera, vestindo um terno preto e camisa branca, e Jamika Wilson, de vestido vinho com apenas uma manga, estão de mãos dadas. Na frente deles está a estatueta, e o fundo da foto é azul.
As duas primeiras mulheres negras indicadas na categoria venceram Melhor Cabelo e Maquiagem por A Voz Suprema da Blues (Foto: The Academy)

Melhor Cabelo e Maquiagem: A Voz Suprema do Blues

Após muitas reclamações de que a Academia não honrava o trabalho dos maquiadores, foi criada em 1982, a categoria nomeia as melhores maquiagens e cabelos. Até 2019, apenas três filmes, no máximo, concorriam à estatueta, diferentemente da maioria das categorias que nomeiam cinco filmes. Em 2020 isso mudou, com o mesmo número de indicados das outros grupos, O Escândalo levou a melhor. O filme teve a maquiagem assinada por Kazuhiro Tsuji a pedido da própria atriz Charlize Theron.

Em 2021, filmes como Emma. e Pinóquio, que não tiveram fôlego para indicações principais, foram lembrados aqui. Pinóquio aliás, com suas maquiagens em fantoches dirigidas por Mark Coulier, poderia ter sido a zebra do ano e levado essa pra casa. Além deles, Era uma vez um sonho e os super indicados Mank e A Voz Suprema do Blues compunham a seleção de Melhor Cabelo e Maquiagem. Ao total haviam quinze profissionais disputando o prêmio, sendo onze deles mulheres.

O resultado não poderia ser diferente daquele que todos aguardavam. A equipe de A Voz Suprema do Blues venceu o Oscar 2021. Jamika Wilson e Mia Neal subiram ao palco ao lado de Sergio Lopez-Rivera, maquiador pessoal de Viola Davis, para receberem a estatueta. Elas foram as primeiras artistas negras a concorrerem na disputa e Mia Neal utilizou do lugar de fala para reivindicar espaço para mulheres negras, trans e latinas na premiação. “Eu sei que um dia não será incomum ou inovador, será apenas normal.” – Ana Júlia Trevisan


Foto de Jan Pascale. A mulher branca, e cabelos ruivos, veste uma camisa preta com estampas de animais em preto e branco, por cima de uma blusa preta e colar também preto e branco. Ela fala no microfone à sua frente, com as mãos juntas na frente do corpo. Do seu lado esquerdo há a estatueta, e o fundo é azul.
Jan Pascale e Donald Graham Burt dividiram o Oscar de Melhor Design de Produção por Mank (Foto: The Academy)

Melhor Design de Produção: Mank 

Um dos prêmios previstos da noite, virtualmente ninguém se surpreendeu quando a voz de Halle Berry anunciou Mank, com sua recriação meticulosa da Velha Hollywood, como vencedor da estatueta de Melhor Design de Produção. O designer de produção Donald Graham Burt (colaborador frequente de David Fincher) e a decoradora de set Jan Pascale subiram ao palco para dividir o prêmio e agradecer suas equipes e seus familiares pela honra.

Esse já é o segundo Oscar da carreira de Burt, que venceu em 2009 pel’O Curioso Caso de Benjamin Button, e o primeiro da de Pascale. Essa vitória ecoa o favoritismo da Academia por filmes de época e especialmente por aqueles que retratam a própria indústria cinematográfica, como Era Uma Vez em… Hollywood, que levou o mesmo prêmio na cerimônia de 2020 

Apesar de Mank ter sido o filme mais indicado da noite, esse era um dos únicos prêmios que todos esperavam que fosse ganhar. Mesmo depois de A Voz Suprema do Blues ter surgido como um possível concorrente após vencer as categorias de Melhor Figurino e Melhor Maquiagem e Penteado, havia pouco espaço para dúvida, principalmente levando em conta a vitória do longa de David Fincher nessas categorias ao longo da temporada de premiação, conquistando anteriormente o BAFTA de Design de Produção. Mank também se tornou o primeiro filme em preto e branco a ganhar a categoria desde A Lista de Schindler, em 1993. – Gabriel Oliveira F. Arruda


Foto de Ann Roth. A senhora branca, de cabelos brancos curtos, veste uma blusa também branca e óculos de armação prateada. O fundo possui alguns manequins e roupas, parecendo ser um ateliê. No canto inferior da foto, há um quadado azul, onde “Costume Desing”, “ANN ROTH” e “Ma Rainey’s Black Bottom” estão escritos de amarelo. No canto esquerdo do quadrado, há um logo colorido do oscar.
Com vestidos de veludo, Ann Roth se torna a mulher mais velha a ganhar um Oscar (Foto: The Academy)

Melhor Figurino: A Voz Suprema do Blues 

Cabelo e Maquiagem são grandes influenciadores nesta categoria de Melhor Figurino, por esse motivo os concorrentes quase não diferem. Aqui temos Era uma vez um sonho golpeado pela soldada Mulan. A regra para embolsar essa estatueta é recriar com fidelidade a época histórica retratada, o que foi uma passagem garantida para Emma. e garantiu o Oscar de Adoráveis Mulheres no ano anterior. Antes disso, o imbatível figurino de Pantera Negra saiu vencedor. Dentre os cinco indicados, quatro eram mulheres e a vencedora fez história na premiação.

Surpreendendo um total de zero pessoas, a estatueta foi para a conta de A Voz Suprema do Blues, que já havia levado os termômetros do Oscar. Com suas roupas exuberantes, o figurino faz jus a divindade de Viola Davis. Todo o guarda-roupa de Ma Rainey’s Black Bottom é grandioso, assim como sua estilista Ann Roth. Cinco vezes indicada ao Oscar, ela se tornou a mulher mais velha a ganhar o prêmio, conquistando essa que foi sua segunda estatueta, aos 89 anos. O primeiro Oscar de Ann foi em 1997 por O Paciente Inglês. – Ana Júlia Trevisan


Foto de Pete Docter e Dana Murray. O homem branco, vestindo terno preto, sorri enquanto faz o seu discurso na frente do microfone. Ao seu lado direito, a mulher também branca, de cabelos loiros, usa um vestido xadrez de branco e rosa, sem mangas. A Estatueta está na frente deles, e o fundo é azul, com uma tela com desenhos em azul e bege.
Pete Docter subiu ao palco para receber o terceiro Oscar de sua carreira, depois de Up e Divertida Mente (Foto: The Academy)

Melhor Animação: Soul

Não fomos surpreendidos e Soul foi o ganhador da noite como Melhor Animação. O filme que tem o poder de deixar qualquer um reflexivo parece que também mexeu na cabeça dos membros da Academia. Essas reflexões, nas quais a Pixar transforma seus filmes infantis em verdadeiras questões para pessoas adultas, acompanhada de muito jazz, levou a melhor da noite como prevista para muitas pessoas. Soul realmente exalava seu poder e conquistou muito público, transformando o filme em um sucesso absoluto. Porém, a Academia tem essa tradição de premiar os maiores triunfos. 

Dois Irmãos: Uma Jornada Fantástica, outro filho da Pixar, é uma daquelas produções emocionantes que conta sobre as relações familiares. Muito mais tocante que Soul, esse filme foi prejudicado nos cinemas com o início da pandemia. Mesmo sem a sua grande divulgação, Dois Irmãos também pode ter cativado. Já a aposta da Netflix, a rainha das indicações, foi o fofo A Caminho da Lua. A forma que o filme aborda o luto é realmente linda e o longa é uma obra espetacular para as crianças. As músicas e as cores são especiais na construção da obra que não superou as outras produções. 

O lindíssimo Wolfwalkers foi certeiro em expressar suas intenções com sua incrível animação 2D. A fantasia abordada na história não foi seu ponto central muitas vezes, assim mostrando que o longa era muito mais de expectativas. As realidades encontradas nessa obra mereciam um pouco mais de atenção. O último concorrente Shaun, o Carneiro, o Filme: A Fazenda Contra-Ataca aumentou a conta de filmes em stop motion esnobados pelo Oscar. Essa técnica só foi premiada em 2006 com a animação Wallace & Gromit: A Batalha dos Vegetais. Mas a sua história nostálgica não foi nem capaz de chegar ao supremo sucesso do premiado. – Ana Beatriz Rodrigues


Foto de Jon Batiste, Trent Reznor e Atticus Ross. Jon, homem negro de cabelos curtos, está no meio, vestindo um terno preto com uma rosa vermelha pendurada. Ao seu lado esquerdo e direito estão os homens brancos, também de terno preto, o olhando enquanto ele discursa. No centro da imagem há a estatueta do Oscar, e o fundo é azul.
Na categoria de Melhor Trilha Sonora Original, o resultado já era esperado: Jon Batiste, Trent Reznor e Atticus Ross levaram a estatueta por Soul (Foto: The Academy)

Melhor Trilha Sonora Original: Soul

Que Trent Reznor e Atticus Ross subiriam ao palco do Oscar 2021 para receber o prêmio de Melhor Trilha Sonora Original não havia a menor dúvida. Mesmo que Soul já estivesse predestinado à vitória depois de o filme ter varrido as principais premiações, com destaque para o BAFTA e o Critics Choice Awards, os dois compositores ainda tinham uma certa concorrência que era ninguém menos do que eles próprios, pela trilha de Mank. A dupla indicação da dupla desbancou a presença de alguns veteranos queridinhos da academia que estavam na shortlist, como Thomas Newman por Os Pequenos Vestígios e Alexandre Desplat por O Céu da Meia-Noite. Trent Reznor, que também é vocalista e cabeça da banda de rock industrial Nine Inch Nails, já trabalha com Atticus Ross em trilhas sonoras há mais de uma década, já tendo vencido o Oscar da categoria pela música de A Rede Social, o que fez com que a dupla continuasse trabalhando com David Fincher em seus trabalhos seguintes, até Mank no último ano. 

Mas seria injusto falar da Trilha Sonora Original de Soul sem exaltar a fonte de sua verdadeira alma, que são as composições de jazz do compositor, cantor, pianista e bandleader triplamente indicado ao Grammy, Jon Batiste. A música para a animação da Pixar foi o primeiro trabalho de trilha sonora para cinema do músico, que assumiu o microfone para a entrega do prêmio agradecendo a Deus pelas 12 notas musicais, sempre as mesmas 12, utilizadas tanto por Bach, quanto por Duke Ellington e Nina Simone. A colaboração entre Jon Batiste, que deu vida ao jazz no mundo real de Soul, servindo inclusive de referência para a animação do protagonista Joe Gardner tocando piano, e Reznor e Ross, que ficaram responsáveis pela trilha eletrônica onírica do pós vida, cria o balanço perfeito entre as duas realidades, e é um trabalho mais do que merecedor de reconhecimento.

Em meio a um histórico com diversas mudanças em nomenclatura e subdivisões da categoria de Trilha Musical no Oscar, que já foi dividida entre drama e comédia ou musical e já teve um prêmio próprio para trilhas adaptadas, Soul é o nono filme de animação a ser reconhecido pela Academia. Todas os vencedores anteriores foram da Disney: Pinocchio (1940), Dumbo (1941), A Bela e a Fera (1991), Aladdin (1992), O Rei Leão (1994), Pocahontas (1995), e por fim o primeiro e até há pouco único da Pixar, Up – Altas Aventuras (2009). Neste ano, além da concorrência da trilha de Mank, muito inspirada nos trabalhos de Bernard Herrmann, competiam a trilha orquestral com instrumentalização antiga de Relatos do Mundo, por James Newton Howard, a delicadíssima e espirituosa música de Minari por Emile Mosseri, e por fim as solenes composições do ignorado Destacamento Blood, por Terence Blanchard. Mesmo que seja um ano forte para as trilhas sonoras, nada mais justo do que o filme mais movido  pela música em sua narrativa levar o prêmio. – João Batista Signorelli


Foto de Nicolas Becker, Jaime Baksht, Michellee Couttolenc, Carlos Cortés e Phillip Bla. No canto esquerdo estão dois homens barncos e baixos. vestindo terno preto e camisa branca. No centro, outro homem branco, também de terno preto e de gravata da mesma cor, fala na frente do microfone, perto da estatueta. No canto direito, a mulher do grupo veste um vestido florido, bege na parte de cima e azul na saia. O fundo é azul.
Nicolas Becker, Jaime Baksht, Michelle Couttolenc, Carlos Cortés e Phillip Bla subiram ao palco para receber o Oscar de Melhor Som por O Som do Silêncio (Foto: The Academy)

Melhor Som: O Som do Silêncio 

Essa não tinha como fugir ou como errar no bolão, o vencedor estava no título. O Som do Silêncio venceu o Oscar 2021 na categoria de Melhor Som, dã, é claro que venceu. Assim como em anos anteriores, onde filmes riquíssimos e com temas delimitados concorrem em categorias técnicas específicas (Trama Fantasma, um filme sobre vestidos, venceu Figurino; Soul, sobre música, venceu Trilha Sonora), Sound of Metal estava destinado a levar essa.

A categoria, de fato, foi ‘criada’ esse ano, depois da junção de Edição e Mixagem de Som em uma única disputa. Essa distinção entre os dois ramos é datada da era pré-tecnológica, quando era mais simples denotar qual trabalho se sobrepõe a outro. A Edição de Som era responsável pela criação deles, como o toque da bateria, enquanto a Mixagem modelava a Edição com a Trilha, casando diálogos, barulho e música. 

O Som do Silêncio venceu a categoria híbrida, premiando uma equipe muito competente e um filme astuto e merecedor de todo e qualquer louro. Sempre ótimo ressaltar a presença de Michelle Couttolenc, mexicana e única mulher latina concorrendo ao prêmio, numa categoria de predominância masculina. Para melhorar o momento, só mesmo o sorriso de orelha-a-orelha de Riz Ahmed lendo o envelope. – Vitor Evangelista


Foto de Mikkel E. G. Nielsen. O homem branco, com cabelos grisalhos e de jaqueta preta por cima de uma blusa branca, segura um papel enquanto fala no microfone. Do seu lado esquerdo está a sua estatueta, o fundo é azul e possui uma tela bege.
Além do Oscar de Melhor Som, O Som do Silêncio também venceu Melhor Montagem (Foto: The Academy)

Melhor Montagem: O Som do Silêncio 

O nome Mikkel E. G. Nielsen pode soar familiar para você por causa de Dark (2017), mas aqui estamos falando de outro Mikkel Nielsen. O montador de O Som do Silêncio, xará do personagem da Netflix, foi responsável pela vitória do filme na categoria Melhor Montagem na noite do dia 25. O longa, que conta a história do processo de perda de audição de um baterista de heavy metal, interpretado por Riz Ahmed, já havia vencido o BAFTA e o Critics Choice, e sua vitória no Oscar era esperada.

Na categoria também estavam indicados: Chloé Zhao, por Nomadland, o grande vencedor da noite; Yorgos Lamprinos, por Meu Pai; Frédéric Thoraval, por Bela Vingança; e Alan Baumgarten, por Os 7 de Chicago. Montagem costuma ser uma das categorias mais importantes para que um filme vença Melhor Filme, e dois terços dos vencedores na categoria de Filme também venceram Melhor Montagem. A relação não ocorreu esse ano, já que Nomadland saiu vitorioso, mas Zhao perdeu por sua edição. – Jho Brunhara


Foto de Erik Messerschmidt. Homem branco, de óculos e cabelos loiros compridos e barba, ele veste um terno preto por cima de uma camisa branca. Erik discursa no microfone a sua frente, e a estatueta descansa ao seu lado esquerdo. O fundo é azul, com uma tela colorida.
Mank teve sua segunda e última vitória na categoria de Melhor Fotografia (Foto: The Academy)

Melhor Fotografia: Mank 

O superestimado filme de David Fincher não chegou nem perto de levar as categorias principais, mas até que acabou surpreendendo nas técnicas. Logo na sequência em que Jen Pascale subiu ao palco para levar a estatueta de Melhor Design de Produção, Mank foi anunciado por Melhor Fotografia, pelo trabalho de Erik Messerschmidt, rendendo uma das infelizes reviravoltas da noite. 

No ano passado, a Academia se recusou a premiar os tons em preto-e-branco de O Farol para somar mais uma conquista na conta de 1917. Mas, nesta edição, foi a tonalidade sem graça de Mank que conseguiu derrubar a possível vitória das lindas paisagens de Nomadland, que vinha levando todas ao longo da temporada. Além de superar os planos abertos e o trabalho com luzes naturais brilhantemente executados por Joshua James Richards, a fotografia marcante de Judas e o Messias Negro também passou batida. E se Relatos do Mundo tinha como única esperança vencer nas técnicas, acabou ficando para trás, ao lado do derrotado Os 7 de Chicago. – Vitória Silva


Foto de Scott Fisher. O homem branco vestindo terno, calça e camisa preta, olha para baixo, em direção a estatueta, sorrindo, Na sua frente é possível ver o microfone, e atrás o painel do oscar de borda colorida, com o centro rosa com “Tenet” e outras coisas escritas. Atrás há também uma janela, e luzes.
Scott Fisher representou a equipe que trabalhou em Tenet e levou o prêmio de Melhores Efeitos Visuais (Foto: The Academy)

Melhores Efeitos Visuais: Tenet

Em um ano em que a maioria das superproduções da Marvel teve que ser adiada por conta da pandemia do covid-19, o caminho estava aberto para que o desafortunado blockbuster de Christopher Nolan levasse para casa pelo menos uma das estatuetas douradas. Com o resto da equipe de Tenet fora do país, coube à Scott Fisher aceitar o prêmio de Melhores Efeitos Visuais em nome de seus colegas, em um discurso no qual ele agradeceu ao trabalho e o apoio de toda equipe ao longo do projeto e finalizou citando a importância do diretor no processo.

Com Tenet, a preferência de Nolan por efeitos práticos ao invés de computação gráfica prova mais uma vez sua eficácia, produzindo cenas intensas que se tornam ainda mais impressionantes depois que seus bastidores são revelados (eles realmente explodiram um avião comercial em um armazém). E essa preferência parece ter dado certo, pelo menos para os membros da Academia, já que Tenet é o terceiro longa do cineasta a ser premiado nessa categoria, seguido por Interestelar e A Origem. Todos os filmes tiveram seus efeitos produzidos pelo estúdio britânico DNEG, que vem colaborando com o diretor desde a trilogia do Cavaleiro das Trevas.

Os efeitos visuais de Tenet, ora espalhafatosos, ora sutis, formam talvez a parte mais coesa de sua trama desconjuntada, e talvez por isso sejam a parte mais impressionante do longa, que certamente cativou nesse aspecto mais do que as acrobacias de Mulan e o cenário pós-apocalíptico de O Céu da Meia-Noite. Essa vitória marca o fim de uma temporada de premiações decepcionante para a carreira de Nolan, mas que não deixa de ser merecido. – Gabriel Oliveira F. Arruda


Foto de H.E.R. Dernst Emile II e Tiara Thomas. A cantora negra veste um vestido azul com brilho, óculos escuros roxos e o cabelo caído de lado. Ela fala no microfone à sua frente. Atras dela, Dernest, homem negro de terno preto, olha para baixo. Ao seu lado esquerdo está Tiara, mulher também negra, vestindo uma roupa branca e o cabelo preso em tranças, olhando para H.E.R. No centro da imagem há uma estatueta, e o fundo é azul.
H.E.R. mostra novamente que 2021 é seu ano ao ganhar o Prêmio de Melhor Canção Original por Fight For You (Foto: The Academy)

Melhor Canção Original: Fight For You (Judas e o Messias Negro) 

Na parte de sonora da premiação, a categoria de Melhor Canção Original premia os compositores de músicas escritas especialmente para algum filme. Diversos nomes que levaram esse prêmio para casa vieram a se tornar grandes clássicos, como Somewhere Over the Rainbow, que ganhou em 1940, Baby, It’s Cold Outside, vencedora uma década depois e Let It Go, de 2014. Esses hinos atemporais conquistaram a Academia e, em 2021, outras 5 canções tentaram conquistar também.

Husavik (My Hometown), de Molly Sandén, é a única da categoria que não foi indicada também para o Globo de Ouro. A vencedora da premiação vizinha foi Io sì, de Laura Pausini e Diane Warren, para Rosa e Momo. Além delas, Speak Now, de Uma Noite em Miami…, escrita por Leslie Odom, Jr. e Hear My Voice, de um dos filmes mais indicados da noite, Os 7 de Chicago, disputaram a estatueta. 

Mas a vencedora da noite foi H.E.R., que coleciona seu segundo prêmio do ano. Depois de levar uma das categorias principais do Grammy, a cantora recebeu o prêmio de Melhor Canção Original com Fight For You, seu trabalho feito para ambientar o drama Judas e o Messias Negro. A música discute questões sociais e raciais, tema que foi apontado algumas vezes durante a cerimônia. – Mariana Chagas


Foto de dos criadores de Se algo acontecer… te amo. À esquerda temos um homem branco, de cabelo curto e barba castanha. Ele usa um terno preto e na sua frente há a estatueta do Oscar. À direita há um homem branco , de cabelo preto e raspado na lateral. Ele usa um terno preto e em suas mãos há um papel branco. O fundo é azul escuro.
Will McCormack e Michael Govier subiram ao palco para receber o Oscar de Melhor Curta-Metragem de Animação por Se Algo Acontecer… Te Amo (Foto: The Academy)

Melhor Curta-Metragem de Animação: Se Algo Acontecer… Te Amo 

O favorito de grande parte do público levou a estatueta dourada para casa. Se Algo Acontecer… Te Amo foi um sucesso após sua história viralizar no TikTok e o Curta-Metragem de Animação ganhar grande reconhecimento na Netflix, que impulsionou mais ainda, com sua influência no Cinema atual, a vitória de seu representante. A trama, que percorre a dor e o luto, também foi muito sensível ao desenhar seus detalhados traços pretos e brancos, que parecem ainda mais abraçar o dolorido enredo. 

O curta-metragem conseguiu por sua vez desbancar a Pixar, sempre uma das favoritas quando a categoria é de Animação, mas que deixou a desejar em seus 6 minutos de tela de Toca (Burrow), já que explorou, de forma rasa o tema do trabalho em equipe, já abordado em outras produções do estúdio. If Anything Happens… I Love You venceu também sobre o favorito da crítica e das premiações internacionais, Genius Loci; a produção francesa era um ápice de animação, com todas suas cores, traços e sua história pela viagem psicodélica da personagem principal Reine, que talvez tenha soado como muito alternativa para a tradicional Academia. 

Seu outro concorrente, Opera, também era um dos favoritos por parte do público, mas o enredo do dinamismo do funcionamento da máquina-sociedade não foi o suficiente para conquistar o Oscar 2021, já que carregava a sensação de que faltava algo a mais para ficar marcada na premiação. O mesmo aconteceu com a islandês Yes-People, que passava uma mensagem interessante sobre o ser humano, mas dentre o sucesso nos traços e detalhes de todas as animações concorrentes ficava para trás na lista de muitos. – Larissa Vieira


Foto de Travon Free e Martin Desmond Roe. Travon, homem negro e alto, de cabelo descolorido, e Martin, branco e bixo, com cabelo castanho, vestem um terno preto com detalhes em amarelo, e olham para a frente. Do lado esquerdo da imagem descansa a estatueta, O fundo é azul, com uma tela que mostra um desenho colorido.
Martin Desmond Roe e Travon Free levaram para casa a estatueta de Melhor Curta-Metragem em Live Action, com o filme Dois Estranhos (Foto: The Academy)

Melhor Curta-Metragem em Live Action: Dois Estranhos

A categoria de Melhor Curta-Metragem em Live Action já parecia decidida antes mesmo de começar. Sem maiores surpresas, as grandes chances de Dois Estranhos sair vencedor na competição se concretizaram e, com isso, Travon Free e Martin Desmond Roe, diretores do curta, subiram ao palco para receber a tão sonhada estatueta dourada e discursar com o intuito de conscientizar, agradecer e alertar. 

“Hoje um policial matará 3 pessoas, amanhã um policial matará 3 pessoas, depois de amanhã um policial matará 3 pessoas”. Assim se iniciou o discurso de Free, e de forma sucinta o diretor apenas pediu para que não sejamos indiferentes a uma ferida aberta. A dupla não precisaria nem se preocupar com a finada música-que-interrompe-discursos, já que não foi necessário mais do que 2 minutos para Martin citar nome atrás de nome seguido de um “thank you”.

No geral, a categoria compartilhou de temas que não se distanciaram muito – violência policial, preconceito étnico, problemas sociais -, utilizando de minorias até então sub representadas na história da cerimônia para encarar essas realidades da maneira mais singular possível. O resultado não podia ser diferente. Apesar de 5 ótimas produções indicadas, Two Distant Strangers (título original em inglês) já saiu na disputa com alguns passos a frente dada a urgência da situação que retrata, aliada ao importante movimento Black Lives Matter. – Vitor Tenca


Foto de Anthony Giacchino e Alice Doyard. A produtora do curta é uma mulher branca, de cabelos escuros, que usa um vestido vermelho enquanto olha para o seu parceiro. Anthony, homem branco de cabelos pretos curtos, veste uma calça preta de cintura alta junto a um terno da mesma cor, e camiseta branca. Ele fala no microfone, ao mesmo tempo que segura a estatueta ao seu lado. O fundo da imagem é azul.
Surpreendendo a todos, Colette ganhou na categoria de Melhor Documentário em Curta-Metragem (Foto: The Academy)

Melhor Documentário em Curta-Metragem: Colette 

Entre as viradas de jogo da noite, a categoria de Melhor Documentário em Curta-Metragem com certeza foi a mais inesperada. Se já estávamos cantando a bola para Uma Canção para Latasha ganhar, que poderia ser no máximo surpreendida por A Concerto Is a Conversation, foi Colette que acabou passando por cima de todos, mesmo vindo com pouca força ao longo da temporada. 

Mas, de fraca, a produção do The Guardian não tem nada. O breve curta atinge pela emoção de sua história, ao apresentar Colette Marin-Catherine, integrante da resistência francesa durante a Segunda Guerra Mundial, em uma visita ao campo de concentração em que seu irmão foi morto. O impacto do resultado final da obra, é claro, não chega nem perto da lembrança da injusta morte da jovem Latasha, ou do retrato dos ardentes protestos em Hong Kong em Do Not Split. No entanto, fica ao lado do apagado Hunger Ward, no quesito de ser um importante capítulo a se rememorar.

Ao receber o prêmio, o discurso do diretor Anthony Giacchino fez questão de celebrar a importância das narrativas de cada um dos indicados, ressaltando o poder de se produzir documentários. A produtora Alice Doyard ainda acrescentou uma dedicatória essencial: “Esse prêmio e esse filme são uma homenagem às mulheres de todos os lugares do mundo, de todas as idades, que estão dando as mãos e lutando por justiça”. A verdadeira força e representatividade de Colette. – Vitória Silva

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