Maldição e luto se encontram em Dois Irmãos

A narrativa simples não implica que esta animação não tem nada a dizer (Foto: Reprodução)

Fellipe Gualberto

Dois Irmãos foi um dos poucos filmes que conseguiu furar a quarentena mundial e ainda desbancar Sonic. O novo feito da Pixar, estúdio responsável por obras que revolucionaram a animação mundial, como Toy Story (1996), chegou aos cinemas carregando altas expectativas. O longa tem a direção de Dan Scalon, de Toy Story 4 (2019) e Universidade Monstros (2013) e é parte do processo do artista para superar seu luto pessoal.

É seguro dizer que um dos pontos altos do filme é o design dos dois personagens principais, Ian e Barley Lightfoot. Os dois irmãos são dublados por Tom Holland e Chris Pratt. Desde as feições, assim como o corpo e a expressão física dos personagens se baseiam nos atores e nos remetem a eles, é como se, ao assistir a animação, fosse possível ver os dois atuando na tela.

A associação entre os personagens e seus dubladores deixa claro o cuidado da equipe na produção do filme (Foto: Reprodução)

Partindo da premissa de se passar em uma sociedade de seres mágicos, como elfos e centauros, o filme tinha uma grande potencial de exibir cenários exuberantes. Era esperado, também, que a animação explorasse ambientes mágicos e vibrantes, cheios de cores. Mas não foi o que aconteceu. 

Os cenários de Dois Irmãos são simples, não chamam atenção e nem se destacam quando comparados aos de outros filmes da Pixar. A timidez faz com que a animação não sobressaia no roll de trabalhos de seu estúdio, mas também garante que ela não seja esquecida.

O universo do filme, assim como a sua narrativa, podem ser entendidos como uma grande metáfora para a vida na pós-modernidade. Logo no início somos apresentados a um mundo cheio de magia, sendo que a mesma era extremamente necessária e útil para os habitantes deste universo. Com o tempo avanços tecnológicos fazem essas magias cair em desuso, sendo substituídas por aparatos como fogões e carros.

O universo mítico de Dois Irmãos é também a nossa realidade, e uma história  sobre a ligação básica com a natureza que o ser humano vem perdendo. O filme representa como a humanidade foi artificializando cada um dos pequenos detalhes de sua vida e perdendo a relação com o planeta e seus os ciclos biológicos, em outras palavras, com a magia.

A magia, no filme, pode ser na verdade uma reflexão sobre nossa ligação com a natureza, e a forma como usávamos o que a Terra nos dava para nos curarmos, encontrar significado, medir tempo. Dois Irmãos deixa claro como a modernidade apaga tudo isso nos tornando dependentes de processos artificiais.

Talvez o ápice desta abstração esteja na personagem Mantícora (Octavia Spencer), que em tempos passados era gloriosa, voava pelos céus enviando guerreiros em missões e tinha uma espada forjada com os mais raros dos metais. Mas afora, ela transformou sua taverna em uma lanchonete para pagar as contas e penhorou sua espada para pagar impostos atrasados.

Você tem um potencial físico e mental enorme, que era explorado pelos seus antepassados, será que você também não penhorou sua “espada mágica de metais raros” para pagar impostos atrasados? (Foto: Reprodução)

A jornada do herói de Dois Irmãos é simples e não foge do roteiro clássico que estamos acostumados. Divida em dois núcleos, um masculino com Ian e Barley, e outro feminino com a mãe Laurel (Julia Louis-Dreyfus) e a Manticora, as narrativas  fatalmente se encontram no final para pôr fim a uma maldição e ao luto (não seriam os dois a mesma coisa?). Na conclusão o filme prega uma velha máxima: a alegria está no caminho, e não no fim.

Em subtexto a obra também apresenta a jornada espiritual de Wilden Lightfoot (Kyle Bornheimer), pai da família. Quando estava doente e próximo de sua morte, ele teve um súbito interesse pela magia, talvez como esperança depois que toda a medicina moderna falhou. Utilizando desse artifício separado da ciência para dar aos seus filhos um último dia na sua companhia.

Apesar de incompleta, a relação dos irmãos com seu pai não deixa de ser muito bonita (Foto: Reprodução)

A história de dois irmãos que cresceram com a ausência paterna em busca de suprir esse sentimento consegue arrancar lágrimas da audiência desavisada no final, o que a esse ponto já é clássico da Pixar. A real beleza do filme, na verdade, pode ser encontrada na delicadeza, na beleza de suas metáforas e na lição que prega. Dois Irmãos pode não chamar tanta atenção, mas será sempre uma das obras mais profundas da Pixar.

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