Entre o melhor da Música em 2021, tivemos os discos de Linn da Quebrada; Tyler, The Creator; e Olivia Rodrigo (GIF: Reprodução/Arte: Ana Clara Abbate/Texto de Abertura: Raquel Dutra)
É um clichê introduzir uma lista de melhores do ano dizendo que o tal período foi “muito rico” ou “memorável” ou “maravilhoso” para a determinada área que a seleção em questão se propõe a registrar. Mas ao fim de 2021, não resta outra conclusão: o ano foi realmente muito especial. É uma série de motivos que sustentam a afirmação para além de uma expressão comum, e o Persona, que acompanhou cada Nota Musical dos referidos 12 meses, não só pode como deve te explicar o porquê o ano que passou ficará marcado na História da Música. Então, para fazer valer o clichê é que estamos aqui com Os Melhores Discos de 2021.
Na arte oficial do álbum, Arca desmonta e reconstrói a sua essência, com uma referência estética e conceitual à capa de seu single @@@@@ (Foto: Frederik Heyman e Alejandra Ghersi Rodriguez)
Bruno Alvarenga
Alejandra Ghersi Rodriguez moldou sua carreira como Arca de forma selvagem e extrema. Seu estilo característico envolve texturas eletrônicas distorcidas projetadas para engolir e incomodar, além de visuais igualmente extravagantes, cuja temática mistura tecnologia e androginia de forma majestosa. Mesmo antes de dar à luz ao seu primeiro trabalho de estúdio, o disforme Xen (2014), a cantora, compositora e produtora de Caracas já vinha dominando seu território com outras composições autorais, além de parcerias com grandes nomes da indústria musical, como Kanye West, FKA twigs, Björk e Kelela.
No entanto, de maneira surpreendente, após o lançamento de KiCk i (XL Recordings, 2020), álbum que contou com as parcerias de SOPHIE, Shygirl, ROSALÍA e novamente Björk, Arca revelou o lançamento de outros quatro álbuns, completando o grandioso Kick. O projeto completo foi concebido como uma quebra explosiva contra a categorização e uma formulação artística da existência não-binária. Em KICK ii (XL, 2021), segundo capítulo da série, Arca segue o caminho a partir do seu álbum anterior.
Uma das fotos do ensaio feito para a capa do álbum (Foto: Tom Ham)
Gabriel Leite
IDLES, para alguns, pode parecer intragável de início. Eu não julgo, foi assim comigo e demorou uns bons meses até eu realmente me interessar em escutar. Começou como uma banda que eu pulava as músicas quando tocava na playlist aleatória, depois evoluiu para um guilty pleasure(“prazer com culpa”, em tradução livre)e agora eu estou aqui escrevendo sobre ela. Sua sonoridade é algo que ou te pega de primeira ou insiste até você gostar. Não vence pelo cansaço, mas sim pela força arrebatadora de uma roda punk saindo dos fones direto para seu ouvido até você prestar atenção.
Então meu objetivo aqui hoje é, não só escrever uma simples crítica, review, análise ou seja lá o que for de CRAWLER,o 4ºálbum de estúdio, como também apresentar brevemente a banda e seus trabalhos para que, de alguma maneira, possa lhe trazer um maior aproveitamento quando você for escutar seu lançamento mais recente (e quem sabe fazer você dar um ponta pé inicial para se tornar fã da banda).
O responsável pelas fotos do álbum é Rory Kramer, amigo e fotógrafo de Justin, o qual dirigiu o clipe de “I’ll Show You”, na era Purpose (Foto: Def Jam)
Giovana Guarizo
“A injustiça em qualquer lugar é uma ameaça à justiça em todo lugar”. É com as palavras poderosas de Martin Luther King Jr. que Justin Bieber dá início ao seu álbum mais recente. Um disco que transmite paz, mas também desabafa sobre tudo o que está entalado na garganta do canadense. O álbum é exatamente aquilo que você precisa ouvir em um banho quente, com meia luz e depois de um dia difícil. Ele fala de amor, fé, ansiedade e inseguranças reconfortantes, as quais você consegue se identificar. Justice é um respiro em meio a momentos caóticos.
A Semana de Arte Moderna terminou ontem, mas as perguntas que o movimento cultural brasileiro deixou são para mais de 100 anos
“Que esperem o centenário. Se no ano de 2022 ainda se lembrarem disso, então sim.”, respondeu Manuel Bandeira quando questionado sobre a necessidade de relembrar a Semana de Arte Moderna em 1952 (Foto: Reprodução)
Raquel Dutra
18 de fevereiro de 1922. As cortinas do salão de concertos já se fecharam, as luzes do saguão de exposições já se apagaram, e as portas do Theatro Municipal de São Paulo já se trancaram. Lá fora, pelas ruas da cidade, corre uma promessa de novos ares, criada pelos artistas que estiveram reunidos durante os últimos cinco dias no centro cultural mais tradicional da capital paulista. A ideia é transformar a Arte nacional através do que existe no nosso próprio país, buscando, assim, uma expressão artística 100% brasileira. “Genial e revolucionário!” exclama quem cruza com essa energia pelo caminho, porque ali, alguém testemunhou o início do modernismo no Brasil. É o primeiro dia pós-Semana de Arte Moderna, e sua força tem o potencial de influenciar todo o resto do país a procurar pelas suas raízes e colocá-las para fora, sem depender nunca mais de referências externas. Pelo menos, é o que eles dizem.
Destaques de Janeiro de 2022: The Weeknd, Urias, Pitty e Elza Soares (Foto: Reprodução/Arte: Vitória Vulcano)
Começando 2022 assim como seu irmão Cineclube, o Nota Musical aproveitou a onda das resoluções de Ano Novo para colocar em prática as mudanças dos 365 dias que seguirão. Em 2021, o mensal do Persona reuniu cerca de 600 novidades musicais em suas 12 edições, trazendo textos individuais da Editoria e dos Colaboradores sobre cada uma delas. Esse ano, o propósito seguirá o mesmo: reunir os melhores – e os piores – lançamentos da Música em um só lugar. Mas em meio à imensidão das listas de lançamentos mensais, o Persona seguiu o exemplo de Ariana Grande e ampliou ainda mais a coletividade em nossas produções.
Agora, ao invés de cada colaborador dedicar longos parágrafos sobre cada canção disponibilizada, os personers, em conjunto, serão os responsáveis por coletar as novidades mais importantes e interessantes do primeiro ao último dia do mês na indústria musical. Do pop ao R&B à MPB, dos grandes lançamentos de divas pop às descobertas escondidas no Album of The Year, os membros da Editoria desenvolverão as pautas com as quais têm mais afinidade, e uma dupla será a encarregada de colocar a mão na massa e compilar tudo de mais atual e relevante em um post só.
Destaques femininos do Modernismo, da esquerda para a direita: Patrícia Galvão (Pagu), Guiomar Novaes, Regina Gomide Graz, Tarsila do Amaral, Zina Aita e Anita Malfatti (Foto: Reprodução/Arte: Ana Júlia Trevisan)
Ana Júlia Trevisan e Vitória Silva
Quando falamos na Semana de Arte Moderna de 1922, há um retrato muito nítido na memória brasileira sobre quem eram as figuras envolvidas nesse importante capítulo de nossa história. Nele estão presentes nomes como Oswald de Andrade, Manuel Bandeira, Mário de Andrade, e mais uma porção de personalidades masculinas. Ao se tratar da parcela feminina, o primeiro nome que deve surgir com certeza é a popular Tarsila do Amaral, mas ela sequer esteve presente no evento. Durante os dias 13 e 17 de fevereiro de 1922, a pintora se encontrava do outro lado do oceano, na cidade de Paris.
Mas esse apagamento não se justifica pela ausência completa de mulheres entre as artistas, longe disso. Na década de 20, as mulheres brasileiras ainda não tinham conquistado o direito de votar, trabalhar sem a autorização do marido, ter conta bancária ou até mesmo a guarda dos filhos. Direitos esses que viriam, pelo menos, dez anos depois (e contando). Com um papel meramente restringindo a ser bela, recatada e do lar, quem imaginaria participar de um movimento artístico que impactaria não somente em esferas culturais como também políticas? Foram poucas que tiveram não somente a audácia, mas uma condição social e econômica para tal.
Na Semana de 1922, o maestro já demonstrava seu esforço em trazer elementos do folclore brasileiro à Música Clássica
Tido como o principal musicista da Semana de Arte Moderna, Heitor Villa-Lobos teve repercussão internacional, marcando-o como o maior maestro e compositor clássico brasileiro (Foto: Acervo Museu Villa-Lobos)
Bruno Andrade
No dia 17 de fevereiro de 1922, no Theatro Municipal de São Paulo, o público acomodou-se de forma lenta e espaçada, aguardando a apresentação de um músico carioca, tido como o mais conceituado da Semana de Arte Moderna e um dos maestros brasileiros mais promissores já à época do evento. O musicista fazia parte de três dias da programação da Semana, e, ao ser convidado para integrá-la, estava às vésperas de completar 35 anos. Para sua estreia no palco paulistano, ele selecionou o que de mais representativo havia produzido em música de câmara nos anos anteriores. Não demorou para que o compositor, vestindo casaca e calçando, em um pé, sapato, e, no outro, chinelo, surgisse no palco, seguido por vaias e urros de negação. A plateia havia interpretado o uso do chinelo como puro desrespeito; aparentemente, era apenas um machucado no dedão – mas pode bem ser que não fosse. De qualquer forma, o espetáculo pôde enfim começar: Heitor Villa-Lobos chegou.
Vulture Prince, o terceiro álbum da carreira de Aftab, a vê retornar a suas raízes e lidar com a dor da perda de pessoas importantes (Foto: New Amsterdam Records)
Frederico Tapia
Nascida em 1985 na cidade de Riyadh, na Arábia Saudita, mas criada em Lahore, no atual Paquistão, e atualmente radicada em Nova York, nos Estados Unidos, Arooj Aftab começou a ser conhecida durante os anos 2000 com rendições de músicas de outros artistas, como por exemploHallelujah, de Leonard Cohen. Ela se formou no Berklee College of Music em Produção Musical, Engenharia de Som e Composição de Jazz após se mudar para os EUA em 2005. Em 2021, ela lançou seu terceiro álbum de estúdio, Vulture Prince, e conquistou duas indicações ao Grammy 2022, tornando-se a primeira mulher paquistanesa a ser indicada à premiação estadunidense. Uma das indicações é como Artista Revelação, uma das principais categorias do prêmio, e a outra como Melhor Performance de Música Global por Mohabbat.
Viciado em surpreender o público com as artes de seus álbuns, a versão envelhecida de The Weeknd estampa a capa do Dawn FM (Foto: Matilda Finn)
Nathalia Tetzner
Depois de uma noite muito louca em Las Vegas, onde arrebentou o rosto e apareceu enfaixado após cirurgias plásticas que o desfiguraram, The Weeknd está de volta com uma nova face. De narrativas fictícias elaboradas para os seus projetos, ele já mostrou que entende. Mais uma vez, não foi só a sua caracterização que sofreu uma grande mudança, mas a sua sonoridade também. O seu quinto álbum de estúdio, Dawn FM (2022), transmite uma estação de rádio EDM no purgatório.