A estranha fábula de Lamb

A imagem retangular é uma cena do filme Lamb. Ao centro vemos duas pessoas andando de costas para a câmera. Centralizado e à esquerda há um homem adulto e branco, visto do pescoço para baixo. Ele usa um casaco verde escuro e uma calça jeans azul, enquanto carrega um rifle em sua mão esquerda e segura uma criança com a mão direita. Centralizado à direita e mais embaixo há uma criança com cabeça e mãos/patas de um cordeiro. Ela usa um casaco azul escuro e uma calça jeans azul claro. Ao fundo vemos uma paisagem cheia de verde das gramas e montanhas que cortam o céu cinza.
Novo Terror da produtora A24, Lamb chega à Mostra SP pela seção Competição Novos Diretores (Foto: A24)

Caroline Campos e Vitor Tenca

Um casal inerte e enlutado é agraciado, milagrosamente, com a bênção de uma filha. A criança enche a casa de alegria e traz a vida de volta para aquele relacionamento decrépito. E eles viveram felizes para sempre. Não, Lamb não é assim – mas quase. Saindo das geladas montanhas islandesas, um dos filmes mais comentados da última edição do Festival de Cannes aterrissa na 45ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo para destilar toda a sua fantástica estranheza familiar.

Continue lendo “A estranha fábula de Lamb”

Eu Era um Homem Comum: morrer é tão difícil quanto viver

Cena do filme Eu Era um Homem Comum. A imagem mostra um homem idoso descendente de japoneses deitado em uma cama, de olhos abertos. Ele tem cabelos grisalhos na altura dos ombros. Ele tem bigode. Há uma mulher do seu lado direito, sussurrando em seu ouvido. Ela é descendente de chineses. Ela tem cabelos pretos e usa uma flor como adereço no cabelo.
Exibido no Festival de Sundance, Eu Era um Homem Comum está presente na seleção da 45ª Mostra de São Paulo (Foto: Flies Collective/Island Film Group)

Jho Brunhara

Em uma pequena casa simples no Havaí, somos introduzidos à uma vida de memórias, recheadas de significados familiares e culturais. Eu Era um Homem Comum repete diversas vezes ao longo de seus cem minutos a frase “morrer não é simples, não é?”, e enquanto faz uma conexão direta com o título original (I Was a Simple Man) e o principal tema do filme – a morte –, também se conecta indiretamente com os eventos realmente relevantes para a obra: as lembranças complexas de uma vida. O segundo longa de Christopher Makoto Yogi foi exibido na seção Competição Novos Diretores da 45ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo. 

Continue lendo “Eu Era um Homem Comum: morrer é tão difícil quanto viver”

Transversais planta sementes

Cena do documentário Transversais mostra uma mulher loira sorrindo na praia.
Acompanhando 5 histórias no Ceará, o documentário Transversais brilha na 45ª Mostra de São Paulo (Foto: Deberton Filmes)

Vitor Evangelista

Dividido entre a Competição Novos Diretores e a Mostra Brasil, o documentário Transversais é um dos filmes imperdíveis da frutífera seleção da 45ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo. Coletando depoimentos e a vivência de 5 pessoas residentes do Ceará que tem contato com as vivências trans, a produção escrita e dirigida por Émerson Maranhão dá protagonismo à comunidade que é constantemente ignorada pela Arte.

Continue lendo “Transversais planta sementes”

Irmandade poda todos os laços

Cena do filme Irmandade, mostra uma garota branca e jovem de olhos claros e cabelos compridos olhando para a frente.
Parte da Competição Novos Diretores da Mostra de SP, Irmandade é o primeiro trabalho em longas da diretora Dina Duma (Foto: Cercamon)

Vitor Evangelista

Não há nada mais atual que o avanço das redes sociais e seu domínio completo por sobre a percepção humana e a opinião individual. Irmandade (Sestri) realoca a equação de juventude mais Instagram para o contexto muito específico da Macedônia do Norte, mostrando à 45ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo a força a que laços de amor podem ser submetidos antes de se estraçalharem.

Continue lendo “Irmandade poda todos os laços”

Os Donos da Casa perde de 7×1

Cena do documentário Os Donos da Casa. Ao centro vemos duas pessoas de costas caminhando apoiadas uma na outra. À esquerda está um homem branco. Ele veste camiseta amarela, calça cinza e sapato fechado. Seu cabelo é curto e grisalho. À direita está uma criança. Ele veste camisa vermelha de gola branca, bermuda vermelha e chinelo. Seu cabelo é preto, liso e um pouco abaixo da orelha. Sua mão esquerda está passada na cintura do outro homem, apoiando ele a andar. Eles estão sob um trilho de trem e a segundo plano vemos um céu claro e à direita o brilho do sol.
Exibido na 45ª Mostra internacional de Cinema em São Paulo, Os Donos da Casa faz parte da Mostra Brasil e da Competição Novos Diretores (Forward – Imagens que Movem)

Ana Júlia Trevisan

60 segundos. Esse é o tempo definido pela FIFA para a execução do hino nacional, mas, naquele 12/06/2014, a torcida brasileira parecia não ligar para as determinações. A emoção transbordava na Arena Corinthians, palco de Brasil x Croácia, jogo que abriu a Copa do Mundo de 2014, e a plenos pulmões a arquibancada gritou os versos mandando apoio aos jogadores de nossa seleção. Apesar de todo espírito da Copa transmitido na televisão, os bastidores eram muito diferentes para inúmeros brasileiros afetados diretamente pelo megaevento. Os Donos da Casa, exibido na 45ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, traz a história de quatro deles, impactados positiva e negativamente pela FIFA World Cup

Continue lendo “Os Donos da Casa perde de 7×1”

Assim Como no Céu é assim como na Terra

Cena do filme Assim Como no Céu. A imagem mostra num plano amplo um campo e uma menina ao centro, de costas, olhando para o céu. Ela é branca, tem cabelos loiros, e usa um vestido azul. Uma plantação cresce até os seus joelhos, e uma chuva de sangue cai do céu.
A estreia da cineasta Tea Lindeburg é parte da Competição Novos Diretores da 45ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo (Foto: LevelK)

Raquel Dutra

A história de uma jovem que muda de rumo a partir de uma tragédia dentro de um contexto familiar do século 19. Isso é tudo o que Tea Lindeburg precisa para revelar a metafísica do patriarcado e a epistemologia da religião em Assim Como no Céu. Celebrado no Festival Internacional de Cinema de Toronto e premiado no Festival Internacional de Cinema de San Sebastián, o filme de estreia da diretora dinamarquesa chega ao Brasil pela 45ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, numa manifestação crítica e estética tão implacável quanto as determinações sociais e religiosas que são o cerne de sua criação.

Continue lendo “Assim Como no Céu é assim como na Terra”

Em Colmeia, as mulheres de Kosovo tem voz

Cena do filme Colmeia. Na imagem, em um quintal ao ar livre e com árvores ao fundo, vemos as mulheres do filme preparando um alimento. Da esquerda para a direita, vemos, de pé e inclinada sobre uma panela, uma mulher branca, de cabelos castanhos longos presos em um lenço, aparentando cerca de 40 anos, vestindo uma camiseta cinza. Ao centro, em um primeiro plano, vemos uma mesa com panelas e pimentas amassadas, no processo de preparo do alimento. Atrás da mesa, vemos duas mulheres brancas de cabelos castanhos, uma sentada e outra de pé, ambas preparando o alimentando. À esquerda, vemos uma mulher branca, de cabelos castanhos longos e lisos presos em um rabo de cavalo, vestindo uma camiseta rosa, sentada preparando o alimento.
Exibido presencialmente, Colmeia integra a Competição Novos Diretores da 45ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo (Foto: LevelK)

Vitória Lopes Gomez

Se a responsabilidade de revisitar conflitos históricos e humanitários é grande e deve ser levada a sério, fazê-lo sob a perspectiva feminina em um país extremamente conservador exige ainda mais cuidado. Quando exibe as palavras ‘baseado em fatos reais‘, então. Em Colmeia, coprodução de Kosovo, Suíça, Macedônia do Norte e Albânia, exibida na 45ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, a diretora Blerta Basholli reivindica essa responsabilidade para dar voz às mulheres do país, em coro na figura e na vida de Fahrije Hoti.

Continue lendo “Em Colmeia, as mulheres de Kosovo tem voz”

O punk é pop em Bob Cuspe – Nós Não Gostamos de Gente

Cena do filme Bob Cuspe - Nós Não Gostamos de Gente. A imagem da animação em stop-motion mostra Bob Cuspe, um homem de pele verde, nariz gigante, óculos escuro e roupas pretas de couro, em um elevador diante de Angeli, um homem branco de meia idade, cabelo curto branco, e camiseta roxa, que está de braços abertos estendidos. Eles estão em um elevador, e o espelho atrás de Angeli, com o vidro quebrado, reflete a imagem dos dois.
Bob Cuspe – Nós Não Gostamos de Gente teve exibições presenciais na 45ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, incluindo uma gratuita no vão livre do Masp (Foto: Vitrine Filmes)

João Batista Signorelli

Estrela da revista underground Chiclete com Banana, que reunia o trabalho de cartunistas como Laerte e Glauco, Bob Cuspe é um dos mais icônicos personagens de Angeli, que também povoou o imaginário dos quadrinhos brasileiros com Rê Bordosa, Wood & Stock, Mara Tara, e tantos outras. Ácido e subversivo, Bob, que estrela a animação de grande destaque na 45ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, representava nos anos 80 a anarquia subversiva da geração punk, ao mesmo tempo que era uma espécie de alter ego exagerado do próprio autor. 

Continue lendo “O punk é pop em Bob Cuspe – Nós Não Gostamos de Gente”

Compartment Nº 6 desliza nos trilhos da desesperança

Cena do filme Compartment Nº 6. Nela vemos um homem e uma mulher, ambos brancos, sentados em um banco de trem, se olhando. Ele é careca e usa blusa azul, enquanto ela tem cabelos castanhos claros na altura dos ombros e usa uma blusa verde.
Depois de vencer o Grande Prêmio do Júri em Cannes (em um empate com Um Herói), o longa finlandês chega à Mostra de SP pela Competição Novos Diretores [Foto: Sony]
Vitor Evangelista

Bem recebido e premiado com o Grand Prix em Cannes, o finlandês Compartment Nº 6 passa pela 45ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo provando que, às vezes, a jornada é mais importante que o destino. De fato, o filme de Juho Kuosmanen, parte da Competição Novos Diretores, esbanja um nível técnico invejável para um cineasta “iniciante”, repleto de discussões interessantes e do clássico trunfo de não dizer, e sim mostrar.

Continue lendo “Compartment Nº 6 desliza nos trilhos da desesperança”

Meu Tio José lembra que nunca é tarde para dizer “Ditadura Nunca Mais”

Cena da animação Meu tio José. Na ilustração em preto e branco, vemos o personagem José entrando em uma farmácia, com prateleiras e caixas brancas em seu entorno. Ele é um homem branco, possui cabelos e bigode de cor preta, veste uma camiseta de cor cinza e uma calça e sapatos de cor preta.
Exibido na seção Mostra Brasil da 45ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, Meu Tio José retrata a Ditadura Militar brasileira sob o olhar de uma criança (Foto: Fênix Filmes)

Bruno Andrade

“Tem dias que a gente se sente como quem partiu ou morreu”, escreve Chico Buarque na canção Roda Viva. Das diversas interpretações possíveis, a mais cruel e — infelizmente — presente diz respeito à vivência na Ditadura Militar brasileira, em especial durante o endurecimento do regime com o AI-5, período também conhecido como os Anos de Chumbo. Dentre as histórias manchadas pela repressão política, encontramos José Sebastião Rios de Moura, personagem fundamental em Meu Tio José, animação dirigida, roteirizada e ilustrada por Ducca Rios, e que integra a 45ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo.

Continue lendo “Meu Tio José lembra que nunca é tarde para dizer “Ditadura Nunca Mais””