Quando a carapuça serve: Watchmen (1986) e a adaptação de Zack Snyder

Arte do quadrinho Watchmen Na imagem, cinco heróis estão reunidos, quatros estão um ao lado do outro e o Dr. Manhattan está atrás, no meio. Da esquerda para a direita, está Ozymandias, um homem branco e de cabelos loiros. Ele veste uma túnica roxa com um ornamento egipcício no pescoço e peito com o desenho de um olho no centro. Na testa, há uma argola encaixada que contorna a cabeça. Espectral é uma mulher branca de cabelos castanhos. Ela veste uma roupa amarela com detalhes em preto. Nas orelhas, um brinco em forma de “S”. O Dr. Manhattan, um ser com aparência humana, mas de pele em tom azul e sem vestimentas vem logo em seguida, ao fundo. Ele possui uma mira desenhada na testa. Coruja vem logo depois, o personagem veste um uniforme que lembra o animal: capuz no formato das orelhas e bico, uma capa que se estende para os lados do corpo e deixa o peito aberto, como um pássaro. A roupa é na cor marrom. Ele é um homem branco e usa óculos redondos e amarelos de lentes escuras. Por último, no canto direito, está Rorschach, vestindo um chapéu marrom com uma faixa roxa. Ele usa um sobretudo também no marrom e cachecol branco. Sua máscara remete aos desenhos abstratos do teste Rorschach, daí vem seu nome. Ao fundo, há uma parede azul com um círculo amarelo.
Encontrar uma imagem que não ovacione os heróis de Watchmen é uma tarefa difícil (Foto: DC Comics)

Davi Marcelgo

Este texto contém um vídeo que amplia a discussão sobre o papel político dos heróis, assista aqui: https://www.instagram.com/p/Dd9zR8LhU6p/

A primeira edição de Watchmen, de Alan Moore e Dave Gibbons, chegou às bancas em 1986 e a adaptação cinematográfica, dirigida por Zack Snyder, veio às telonas em 2009. O cineasta já era grandinho à época da revista, tinha 20 anos. Ele teve, pelo menos, 23 anos para compreender a obra original até ser capaz de adaptá-la. O problema é que o americano é um fã de quadrinhos – como ele mesmo diz em uma entrevista para o Direto de Hollywood à época da produção – adaptando uma obra que rejeita tanto os fãs quanto a mídia de HQs. Zack Snyder é o tipo de pessoa que Alan Moore critica: o homem branco devoto à violência. Continue lendo “Quando a carapuça serve: Watchmen (1986) e a adaptação de Zack Snyder”

O controle de Resident Evil pertence a Zach Cregger

Aviso: Este texto contém spoilers

Cena do filme Resident EvilNa imagem, o personagem Bryan, de costas, corre por uma rua com carros abandonados e cobertos de neve enquanto pessoas se atiram do prédio, explodindo em sangue no chão e nos automóveis. O cenário é noturno, há edifícios e iluminação oriunda dos postes. Há neve por toda parte e Bryan veste calça e jaqueta escura.
O último live action da franquia foi em 2021 com Resident Evil: Bem-vindo a Raccoon City
(Foto: Sony Pictures)

Davi Marcelgo

Temer e rir são sentimentos conflitantes, mas Zach Cregger, que despontou no Terror com o excelente Noites Brutais (2022) e fundou, antes disso, o grupo comediante The Whitest Kids U’ (2007-2011), consegue tirar do público ambas sensações em Resident Evil, a mais nova tentativa de levar para o Cinema a adaptação do jogo homônimo. A franquia não é a única que ousou transpor para outra linguagem, mas esta pode ser uma das melhores experiências – não somente pelo sarrafo baixo – porque o cineasta reproduz elementos dos games sem esquecer que isto se trata da Sétima Arte.  Continue lendo “O controle de Resident Evil pertence a Zach Cregger”

A 2ª temporada de X-Men ’97 escreve seu próprio apocalipse

Aviso: Este texto contém spoilers

Cena da série X-Men ‘97Na imagem, o personagem Noturno, de pele azul escura e olhos amarelos, está com uma expressão de preocupação. Ele veste um uniforme preto com linhas amarelas nos braços e ombros por cima de uma roupa de padre, com o colarinho aparente. Noturno tem cabelo em topete na cor preta.
Nove episódios, lançados semanalmente, compõem o segundo ano da série (Foto: Disney+)

Davi Marcelgo

Em 2024, o showrunner de X-Men ‘97, Beau DeMayo, foi demitido da Marvel Studios, acusado de má conduta sexual. Ao mesmo tempo, ele fez algumas alegações de que a Disney havia pedido ao funcionário que deixasse a série “menos gay”. A segunda temporada estreou em 2026, com oito episódios assinados por DeMayo, em coautoria com outros roteiristas, inclusive de Brian Ford Sullivan, responsável pelo último sem o comando do principal nome por trás do primeiro ano. O resultado disso é um enredo picotado e acelerado, que parece fugir do plot principal. Continue lendo “A 2ª temporada de X-Men ’97 escreve seu próprio apocalipse”

A Morte do Demônio: Em Chamas é fogo que não arde e nem se vê

Aviso: Este texto contém spoilers

Cena do filme A Morte do Demônio: Em Chamas Na imagem, vista de cima, Alice encara o teto. Na bochecha esquerda, há gotas de sangue escorrendo. Ela está com expressão de medo e veste uma camiseta cinza escuro com marcas de suor. Seu cabelo está desarrumado e possui mechas rosa. Alice é uma mulher na faixa dos 30 anos, de origem tunisiana e europeia.
Souheila Yacoub, de Clímax (2018), protagoniza o sexto filme da franquia (Foto: Ghost House Pictures)

Davi Marcelgo

O primeiro filme da franquia, Evil Dead (1981), recebeu, no Brasil, o título de Uma Noite Alucinante: A Morte do Demônio propriamente, pois não só o protagonista Ash Williams (Bruce Campbell) foi levado ao limite – de covarde para bad ass na mesma madrugada – como as produções sucessoras dobraram a aposta, enriquecendo a mitologia dos deadites. Em Army of Darkness (1992), o terceiro capítulo da saga, a cabana deixa de ser o cenário e é substituída pela paisagem medieval; Williams é sugado por um portal e enviado para o período do aço e das espadas. Já a série Ash vs. Evil Dead (2015-2018) aproveitou o terreno construído por Sam Raimi nos três longas para extrapolar tanto a lore quanto os temas abordados. Twist and Shout, sétimo episódio do terceiro ano, tateia os massacres em escolas americanas, por exemplo. Enquanto a trajetória da franquia é marcada por inovação, A Morte do Demônio: Em Chamas se contenta em apenas ser uma faísca.  Continue lendo “A Morte do Demônio: Em Chamas é fogo que não arde e nem se vê”

Deixa o menino brincar: Kane Parsons e o seu Backrooms: Um Não-Lugar

Aviso: O texto contém alguns spoilers

Cena do filme Backrooms: Um Não-LugarNa imagem, a personagem Mary está centralizada, de frente para uma parede branca com o desenho de uma porta em azul. O ambiente é iluminado por uma luz amarelada, provocando a sombra de Mary no canto direito. Mary é uma mulher branca, na faixa dos 40 anos, de cabelos escuros na altura dos ombros. Ela veste uma camisa florida de manga curta e uma calça marrom. Ela está olhando para trás com expressão de preocupação.
O Youtuber de apenas 20 anos traz sua websérie para as telonas (Foto: A24)

Davi Marcelgo

É o sonho de muitos cinéfilos estrear o primeiro longa-metragem aos 20 anos e fazer bem feito. É ainda mais tentador entrar para a história com 21 anos ao lançar Evil Dead (1981), como Sam Raimi fez. Kane Parsons conseguiu a proeza de ser contratado pela A24 aos 19 anos para levar aos cinemas a sua websérie Backrooms, disponível no YouTube. Ainda é cedo para cravar que seu found footage, Backrooms: Um Não-Lugar, entrou para a história ao lado de A Bruxa de Blair (1999) e REC (2007), mas enquanto o rolo gira, nota-se a competência do novato em causar medo e dominar a linguagem do Cinema.  Continue lendo “Deixa o menino brincar: Kane Parsons e o seu Backrooms: Um Não-Lugar”

Toy Story 5, 6, 7, 8… até a gente cansar de brincar

Cena do filme Toy Story 5 Na imagem da animação, o personagem Woody está de costas, revelando a ausência de tinta no topo da cabeça, como se fosse uma calvície. Ele está vestindo um poncho vermelho, amarrado no pescoço, com algumas figuras em branco. Woody está apoiando seu chapéu de caubói em alguma superfície. Ele possui a aparência de um caubói, de pele clara e cabelos curtos e lisos na cor castanha.
Tom Hanks e Tim Allen retornam como as vozes originais de Woody e Buzz (Foto: Pixar)

Davi Marcelgo

“Precisava?”, é dito por algum internauta quando é anunciada a quarta ou quinta sequência de uma franquia. Parece ser difícil compreender que esse é o modus operandi de Hollywood, mesmo que os trailers antes de Toy Story 5 começar revelem a situação da cidade dos grandes estúdios: live action de Moana, o próximo Homem-Aranha do Tom Holland e o terceiro capítulo da saga dos Minions. Diante disso, aceitamos amargamente a realidade em que filmes são às vezes mais mercadoria do que Arte e assim, talvez a gente consiga se divertir. Pode ser com A Era do Gelo: Mundo de Lava ou Street Fighter, dificilmente com a nova história dos brinquedos animados.  Continue lendo “Toy Story 5, 6, 7, 8… até a gente cansar de brincar”

Steven Spielberg olha para o passado em Dia D e decide abandoná-lo

Cena do filme Dia DNa imagem, um campo de trigo é visto de cima. Nele, há agroglifos, marcações que OVNIS fazem em plantações. No centro da imagem, está o personagem Daniel vestindo uma jaqueta cinza e mochila nas costas.
Disclosure Day, no original, marca o retorno de Spielberg aos cinemas desde Os Fabelmans em 2022 (Foto: Universal)

Davi Marcelgo 

Natal Amargo (2026) e Socorro! (2026), de Pedro Almodóvar e Sam Raimi, respectivamente, representam fases diferentes desses autores. Enquanto o espanhol demonstra uma nova direção há pelo menos uma década, começando por Julieta (2016), se distanciando do humor histérico e das cores vibrantes, o entusiasta do Terror fez um filme sóbrio sem as características que o definem. Ambos os cineastas já possuem uma carreira extensa e essas produções dialogam com a atual etapa da vida em que estão. Almodóvar pensa os limites da autoria e os dilemas do século XXI, da morte à crise climática, e Raimi elimina a autoria em prol de uma história. Steven Spielberg, descontente com os Estados Unidos, abandona, até certo ponto, as marcas de seus longas para construir Dia D.  Continue lendo “Steven Spielberg olha para o passado em Dia D e decide abandoná-lo”

Maldição da Múmia…quem é ela?

Cena do filme Maldição da Múmia Na imagem, a personagem Katie encara sua frente com um olhar penetrante. Ela é uma garota na faixa dos 17 anos, de pele clara, com textura seca e cicatrizada. Seus cabelos são claros, longos e finos. A mão direita segura uma corda. O fundo é seu quarto, de paredes vermelhas.
Lee Cronin retorna ao lar da família disfuncional após três anos de A Morte do Demônio: A Ascensão (Foto: New Line Cinema)

Davi Marcelgo 

O romeno Radu Jude, em 2025, com seu Drácula, teceu críticas a Hollywood por retirar a aura da lenda particular da Romênia, Vlad, o Empalador, e transformá-la em versões deturpadas. Desse movimento, há experiências interessantes, de A Hora do Espanto (1985) a Crepúsculo (2008), algumas obras se distanciaram do mito original e criaram algo próprio: ícones e personalidade. Essa afirmação não se aplica à Múmia, que desde a virada do século não recebe uma versão de louros. O que significa que Maldição da Múmia, de Lee Cronin, traça o mesmo caminho. Continue lendo “Maldição da Múmia…quem é ela?”

Avatar: Fogo e Cinzas não precisa de permissão para existir

Cena do filme Avatar: Fogo e Cinzas. Na imagem, Neytiri está furiosa, apontando um arco e flecha para um adversário. Ela possui pele azul escuro, mas está utilizando maquiagem de guerra, que consiste em faixas uniformes nas cores branca, amarela e verde. Neytiri usa tranças escuras na cabeça e alargadores nas orelhas. A iluminação é noturna com luminosidade laranja, causada pela presença de fogo no ambiente. O fundo está desfocado.
Este é o terceiro capítulo da longa história arquitetada por James Cameron (Foto: Disney)

Davi Marcelgo

Se James Cameron fosse ao médico, o profissional indicaria que ele não fizesse ego search no Google ou em redes sociais, pois ele esbarraria com duas possibilidades: as publicações que fazem a ingrata equivalência de roteiro versus visual e aquelas que especulam se o longa vai se pagar. Poucos críticos e entusiastas de Cinema querem comentar sobre o filme fora destes escopos. O cineasta não tem que provar para ninguém, exceto aos acionistas da Disney, o porquê de precisar filmar o próximo conto de Pandora. Para além disso, qual é a de Avatar: Fogo e Cinzas?  Continue lendo “Avatar: Fogo e Cinzas não precisa de permissão para existir”

Sepideh Farsi comprova a existência de um filme antiguerra em Guarde o Coração na Palma da Mão e Caminhe

Cena do filme Guarde o Coração na Palma da Mão e Caminhe.Na imagem, há um celular em chamada de vídeo com Fatima Hassouna. O celular está apoiado em uma mesa de madeira e atrás dele há uma outra tela, logada em um e-mail. Hassouna é uma mulher palestina, na faixa dos 25 anos. Ela usa óculos arredondados, o lenço de sua cultura chamado de hijab, na cor verde, e uma roupa estampada. Ela está sorrindo.
O documentário foi exibido no Festival do Rio (Foto: Filmes do Estação)

Davi Marcelgo

Em uma aula no segundo ano da graduação, minha professora de Jornalismo Textual disse que os materiais utilizados durante uma entrevista são fundamentais para o afastamento ou a aproximação entre repórter e personagem. Uma câmera, um notebook ou qualquer outro aparelho distante da realidade documentada pode ser um instrumento de poder. Em Guarde o Coração na Palma da Mão e Caminhe, a diretora iraniana Sepideh Farsi constrói afinidade com Fatima Hassouna, fotojornalista da Palestina, para saber seu ponto de vista sobre os ataques de Israel na Faixa de Gaza.  Continue lendo “Sepideh Farsi comprova a existência de um filme antiguerra em Guarde o Coração na Palma da Mão e Caminhe”