Them: uma impactante e polêmica série de horror

Cena da série Them. A imagem mostra a personagem Lucky Emory, interpretada por Deborah Ayorinde. Ela é uma mulher negra de cabelos castanhos e alisados na altura do ombro. Lucky está vestindo um roupão mostarda, com uma expressão de espanto. Atrás dela, há uma porta branca, uma parede com um papel de parede florido, com flores alaranjadas e um fundo azul. Também atrás dela há um móvel de madeira como um armário encostado na parede e acima dele um rádio, alguns livros e um abajur desligado. O ambiente é escurecido, como se fosse iluminado lateralmente pela luz do sol.
Debora Ayorinde é Lucky Emory, uma mãe aterrorizada por seus vizinhos e uma entidade demoníaca em Them (Foto: Amazon Prime Video)

Ma Ferreira

Em 1953, os Emory se mudam da Carolina do Norte para um bairro em Los Angeles. A mudança que prometia ser uma renovação na vida da família, logo se torna um grande e aterrorizante pesadelo. Cercados por uma vizinhança extremamente violenta e racista, eles não conseguem paz nem dentro de seu próprio lar, uma vez que este é amaldiçoado por um demônio que pretende enlouquecer seus moradores.

Desde a estreia, Them tem sido alvo de críticas controversas e bem polêmicas. A atmosfera inicial da série é bem semelhante às produções do diretor Jordan Peele, particularmente o suspense e terror racial, muito parecido com a construção de Nós. Entretanto, no segundo capítulo, já podemos perceber que as agressões psicológicas e físicas sofridas pelas personagens são bem menos sutis e horrorosamente intensas.

Eles, como ficou a tradução do nome da série, não deve ser assistida por qualquer pessoa. Há avisos nos episódios mais gráficos e de maior atrocidade, pois as cenas são grandes facilitadores de gatilhos nos espectadores. Cada um dos capítulos conta com material extra no site da série com comentários dos diretores e roteiristas, mas que na maior parte das vezes não justifica as hostilidades apresentadas.

Cena da série Them. A imagem mostra a personagem Betty Wendell, interpretada por Allison Pill. Ela é uma mulher branca de cabelos loiros lisos na altura do ombro, está com um vestido azul e acena com a mão. Sua expressão facial é de um sorriso forçado, na mão levantada encontra-se um anel de casamento. Atrás dela estão duas mulheres, uma vestida de amarelo com uma expressão brava e outra vestida de branco, mas sua face está tapada pela mão de Betty. Atrás de todas está uma parede de tom claro e uma janela de vidro.
Alison Pill é Betty Wendell, a desprezível e manipuladora vizinha da frente dos Emory (Foto: Amazon Prime Video)

A série, escrita e produzida por Little Marvin, pretende ser uma antologia de terror semelhante a American Horror Story. Em sua primeira temporada, ela conta a história da família Emory, que após um terrível acontecimento, sai da Carolina do Norte e é seduzida a morar em Compton. O período ainda é assolado pelas Leis Jim Crow que estão em seu fim, mas estão constantes nas vivências dos protagonistas. Racismo, violência física, abuso psicológico e sexual estão presentes em todos os episódios da série.

Henry Emory (Ashley Thomas) é um engenheiro atormentado por lembranças da guerra, a culpa pela morte de seu filho, os assédios que sofre na empresa e pela materialização da figura do Jim Crow. Lucky, sua esposa, carrega consigo os traumas de um abuso e o assassinato de seu caçula e é torturada por seus vizinhos preconceituosos. Os demônios tentam de todas as formas fazer com que eles se configurem na imagem que os racistas possuem deles (’a mulher louca’ e ‘o homem violento’).  

Ruby, Shahadi Wright Joseph, é a filha mais velha do casal. Ela é uma jovem inteligente  que sofre com a falta de diálogo materno, pressões com os padrões de beleza, a paixão por sua colega e a não aceitação de sua cor. Gracy, Melody Hurd, é a filha mais nova. Ela é atormentada, machucada física e psicologicamente pela figura da Srta. Vera, uma professora de um livro de ficção que a garota gosta e que é materializada pelo demônio que os persegue. A família não entende, mas é assombrada por uma entidade, o Homem do Chapéu Preto, que os aterroriza por meio de seus maiores medos e desejos.

Cena da série Them. A imagem mostra a personagem de Ruby Emory, interpretada por Shahadi Wright Joseph. Ela é uma jovem negra de cabelos presos e olha espantada e fixamente para sua mão que está repleta de tinta branca. Ao fundo, o ambiente onde ela se encontra aparece desfocado. Ela veste uma roupa de gola alta com tons laranjas e amarelos.
O racismo torturante de Them faz com que as personagens sofram violências que não se justificam na trama (Foto: Amazon Prime Video)

A narrativa acompanha e conta dez dias vivenciados pela família desde a sua chegada no Compton até o enfrentamento da força sobrenatural. Destaca-se o episódio 5, Exigência 1, no qual descobrimos qual a tragédia sofrida pelos Emory. As cenas apresentadas são de extrema crueldade e não se justificam ao longo da narrativa, bem como outras atrocidades sofridas pelas personagens ao longo da trama. É necessário pensar sobre essas cenas e como elas colaboram ou não para que haja empatia e conscientização dos telespectadores acerca do racismo.

É um thriller psicológico que vale a pena, mas que pesa em cenas de pessoas negras sendo torturadas e violentadas. Fala de um tema necessário, trazendo várias nuances que o abarcam como o mercado imobiliário, a influência da religiosidade, sexualidade e outras questões sociais que se fazem presentes na personagem da vizinha Betty (como o relacionamento paterno e seu sequestro).

O sobrenatural é apresentado em segundo plano e nas partes finais da produção e está ligado a um acontecimento de intolerância racial, tendo um episódio só para o seu entendimento. Them seria uma ótima série, analisando-se somente o quesito das atuações e sua apresentação estética, mas deve ser vista de maneira crítica quanto ao seu roteiro, como as selvagerias que são apresentadas.

A violência da série é o grande ponto polêmico e que deve se ter cuidado ao assistir. Primeiro, essas cenas não são sutis como as apresentadas em obras como Corra! de Jordan Peele. A agressão às pessoas negras não deve ser vista como entretenimento. Elas são extremamente gráficas e na maior parte de forma gratuitas, ficando o questionamento sobre qual mensagem real estas cenas querem passar? A quem querem chocar? E se conseguem seu objetivo ao usar o ódio desta forma?

Segundo, a produção tem uma maioria de pessoas brancas em seu trabalho de roteiro e direção, o que faz repensar se houve realmente um cuidado com a abordagem das cenas. Mesmo a equipe de atores principais sendo assistida psicologicamente, algumas escolhas de situações que as personagens passaram poderiam ter sido amenizadas ou apenas sugeridas e outras nem eram realmente necessárias ao desenvolvimento narrativo.

Existem várias formas de chocar, causar empatia, reflexão e conscientização e  diversas obras audiovisuais conseguem fazer com maestria. O grande questionamento de qualquer obra deste tipo é pensar no que ela entrega, o que os idealizadores querem que o público pense. Them seria uma excelente série se soubesse usar o extremo de forma contida, sugestiva e focar naquilo que ela não quer que se propague, o racismo. 

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