Zona de Interesse: o mal mora ao lado

Cena de Zona de Interesse.
Além da indicação à Palma de Ouro, Zona de Interesse saiu vencedor do Grande Prêmio no Festival de Cannes (Foto: Diamond Films)

Vitória Gomez

Uma tela preta com um som grave ao fundo inicia e encerra Zona de Interesse. A introdução subversiva dá o tom provocante da obra de Jonathan Glazer, que, ao invés de filmar os horrores dos campos de concentração da Segunda Guerra Mundial, aposta no senso ético dos espectadores para interpretar a dissonância entre o que se vê e o que se escuta. Curiosamente, a melhor aposta para o longa-metragem no Oscar, no qual foi indicado em cinco categorias, não é Melhor Som.

Nesse ponto, a aparição de The Zone of Interest escancara algo ainda mais perturbador. Junto de outras produções nomeadas este ano, como o iminente vencedor Oppenheimer (também sobre a Segunda Guerra) e o merecedor Assassinos da Lua das Flores, a premiação parece ter uma predileção por passar a limpo tragédias movidas pelo dedo humano (coincidentemente, em que o dedo é estadunidense). No entanto, a preferência é seletiva: enquanto homenageia documentários propagandísticos, como aconteceu no ano passado com Navalny e pode se repetir esse ano com o manipulador 20 Dias em Mariupol (sobre a guerra na Ucrânia), o país berço do Oscar não só nega um genocídio em andamento, como o financia.

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O terror em La Llorona são os traumas da América Latina

 Cena do filme La Llorona. Maria Mercedes Coroy, que interpreta a personagem Alma, é uma mulher indígena jovem de pele clara e cabelos pretos e longos. Ela usa um vestido branco e encara a câmera de longe com um olhar profundo, enquanto está rodeada de manifestantes e policiais. Em frente a ela há dois policiais com escudos e capacetes pretos. A borda da imagem está desfocada.
No Brasil, a lenda da Chorona é conhecida como a história da Mulher da Meia-Noite (Foto: Reprodução)

Caroline Campos

Há uma piada entre latinoamericanos que afirma que “se seu país sofreu um golpe de Estado apoiado pelos Estados Unidos, parabéns! Você pode se considerar latino”. A brincadeira apenas satiriza o que a gente já conhece. Argentina, Chile, Bolívia, Brasil – são poucos os países da região que não passaram por ditaduras militares instauradas com a ajuda do Tio Sam. Na Guatemala não foi diferente – em 1954, Jacobo Árbenz foi destituído da presidência de seu país em um golpe orquestrado pela CIA. A guerra civil decorrente durou até 1996 e a ditadura do país foi uma das mais violentas da América Latina, especialmente quando comandada pelo general Efraín Ríos Montt – julgado pelo massacre de mais de 1700 indígenas maias-ixiles nos anos 80.

Não é necessário dizer que as feridas de um genocídio nunca cicatrizam. La Llorona, coprodução entre Guatemala e França escrita e dirigida por Jayro Bustamante, bebe da fonte da história real de seu país. O ditador, no entanto, apenas muda de nome: Enrique Monteverde, interpretado por Julio Diaz, é responsável pela mesma brutalidade que sua versão fora das telas. 30 anos depois, já velho e doente, o general é finalmente condenado por genocídio, mas sua sentença é anulada após pressão de instituições privadas envolvidas no jogo de poder da justiça. O longa é, acima de tudo, político. Bustamante encharca seu filme com as lágrimas de um povo que testemunhou o verdadeiro terror e um dos mais graves crimes contra a humanidade.

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