Théodore Pellerin, interpretando Nino, imerso no labirinto de confusões e no isolamento emocional de Paris (Foto: Filmes do Estação)
Arthur Caires
Sair de um consultório com um diagnóstico de câncer é o tipo de clichê que o cinema costuma transformar em um melodrama piegas. Em Nino de Sexta a Segunda, a diretora Pauline Loquès prefere focar na reação, e não na resolução. Nino (Théodore Pellerin) tem três dias para processar que seu corpo virou uma bomba-relógio antes que a quimioterapia comece na segunda-feira.
O contraste entre o cotidiano da favela e a maquinaria de guerra (Descoloniza Filmes)
Arthur Caires
Cheiro de Diesel parte de um modelo que, à primeira vista, poderia se limitar ao registro: organizar depoimentos, contextualizar a Garantia da Lei e da Ordem (GLO) e reconstituir um período recente da história do Rio de Janeiro. No entanto, o filme rapidamente desloca esse eixo. As operações funcionam como plano de fundo para um objetivo maior: tensionar a própria ideia de ‘ordem’ que as sustenta. Ao devolver a palavra aos moradores, o documentário desmonta a narrativa oficial que legitima a presença militar como solução, revelando-a como parte de uma violência já estrutural.
O longa aborda, às vezes de forma irônica, o uso da capacidade médium de uma criança para obtenção de dinheiro (Foto: Filmes do Estação)
Mariana Gomes e Arthur Caires
O cinema latino-americano possui uma longa tradição em buscar o fantástico nas frestas do cotidiano. Obras como Suçuarana(2024), de Clarissa Campolina e Sérgio Borges, exemplificam como o insólito – ali manifestado pela relação de comunidade que ronda o pragmatismo da paisagem industrial – pode aprofundar o peso da realidade. Em A Mensageira (2025), o diretor argentino Iván Fund tenta capturar essa mesma força ao nos apresentar Anika (Anika Bootz), uma jovem do interior com o dom de traduzir os pensamentos da fauna local, do luto de um ouriço à jornada solitária de uma capivara.
Três décadas depois, o Ghostface ressurge em 2026 com um novo alvo, a filha da final girl original (Foto: Paramount Pictures)
Guilherme Machado Leal e Arthur Caires
Três décadas após a primeira aventura de Sidney Prescott (Neve Campbell), a franquia Pânicochega ao seu sétimo capítulo. Entre requels (obras que são sequência e reinício) – como o quinto filme –, novos personagens e tramas, o mundo criado por Wes Craven em 1996 se adaptou pelas décadas. Dessa vez, o icônico vilão Ghostface, dirigido pelas lentes de Kevin Williamson (roteirista do primeiro, segundo e quarto longas), tem como objetivo atacar a filha da final girl, Tatum Evans (Isabel May).
Capa de Bossa Sempre Nova busca evocar a sofisticação e o imaginário cosmopolita do gênero (Foto: Pam Martins)
Arthur Caires
A Bossa Nova sempre foi mais do que um gênero musical. É um ideal de sofisticação e elegância que remonta os primórdios da música e do nosso contexto social. Desde que surgiu, carrega consigo a promessa de um Brasil cosmopolita, delicado e exportável – um imaginário que atravessou décadas e segue sendo sinônimo de credibilidade artística. É a partir desse desejo que Bossa Sempre Nova se apresenta. Para além de um disco, o álbum se impõe como uma estratégia: a de uma cantora pop contemporânea que decide vestir essa herança, buscando nela um repertório e, principalmente, um reposicionamento. A pergunta que paira, então, não é apenas se Luísa Sonza canta bem bossa nova, porém o que significa, hoje, querer caber dentro dela.
O ator reflete sobre o estranhamento e os desafios físicos de filmar na região amazônica (Foto: Filmes do Estação)
Arthur Caires
Há trajetórias de atores que se constroem menos por mudanças bruscas e mais por deslocamentos sucessivos, entre linguagens, territórios e modos de estar em cena. A de Philipp Lavra é atravessada por esse movimento constante: do teatro ao cinema, da televisão a produções independentes, sempre em busca de experiências que o tirem do lugar confortável da repetição. Mais do que acumular papéis, sua carreira parece se organizar a partir do encontro com contextos específicos e da escuta atenta ao espaço em que cada história se inscreve.
A trama parte da sobrevivência de Rebecca aos destroços de um acidente aéreo (Foto: Filmes do Estação)
Arthur Caires
A Amazônia, no cinema internacional, costuma surgir como superfície de projeção: um espaço onde fantasias espirituais, dilemas morais e impasses civilizatórios são encenados a partir de um olhar estrangeiro. Transamazônia, quarto longa-metragem da diretora sul-africana Pia Marais, se insere diretamente nessa tradição. Estreado no Festival de Locarno em 2024 e apresentado no Brasil no Festival do Rio – onde integrou a Mostra COP 30 em 2025 –, o filme carrega consigo o peso simbólico de falar sobre fé, meio ambiente e povos indígenas a partir de uma coprodução intercontinental (França, Alemanha, Suíça, Tailândia e Brasil). Desde a gênese do projeto, inspirada livremente na história real de Juliane Koepcke – a única sobrevivente de um acidente aéreo na Amazônia peruana em 1971 –, a obra se constrói sobre deslocamentos: culturais, geográficos e narrativos.
O filme observa o cotidiano do abrigo em Liège, onde o cuidado profissional e as políticas públicas oferecem suporte à realidade complexa (Foto: Vitrine Filmes)
Arthur Caires
A câmera dos irmãos Dardenne se aproxima com discrição em Jovens Mães. O objetivo não é espetacularizar a maternidade precoce, mas acompanhá-la. O filme observa adolescentes que ainda estão aprendendo a existir enquanto já assumem a responsabilidade de cuidar de outra vida. O cotidiano do abrigo, os choros, os silêncios e os olhares cansados constroem uma história que prefere escutar do que impactar. Não há esforço em emocionar o espectador; há a escolha de permanecer próximo dessas jovens.
Bel, o eixo emocional que tenta manter a família unida, segura um retrato que evoca a presença da matriarca ausente (Foto: Filmes do Estação)
Arthur Caires
Em todo 24 de dezembro, existe uma coreografia que se repete na maioria dos lares brasileiros: pratos empilhados na mesa; cadeiras puxadas às pressas e pessoas que não se veem há meses comprimidas numa mesma foto anual. É um ritual feito de afeto e atrito, tão nosso quanto a farofa que nunca falta ou o parente inconveniente que sempre chega atrasado. Curiosamente, essa experiência coletiva quase nunca encontra espaço no audiovisual nacional – e, quando encontra, raramente tem a cor, o sotaque e a geografia do país que de fato celebra essa data.
Ayrton Montarroyos carrega o ar de quem já está na estrada há tempos e que sabe exatamente o que quer (Foto: Luan Cardoso; Arte: Arthur Caires)
Arthur Caires
Entre reflexões sobre o ofício e pequenas ironias sobre o tempo, Ayrton Montarroyos fala como quem compõe: entre pausas, silêncios e lampejos de lucidez. Na coletiva de imprensa realizada com os alunos do curso de Jornalismo Musical: da Arte da Entrevista à Construção do Texto, ministrado pela jornalista Adriana Del Ré, o cantor pernambucano transformou o encontro em algo além de uma entrevista – um diálogo sobre coerência, criação e permanência.