Thunderbolts* busca a morte do cinema de herói, mas a Marvel não aceita

Aviso: O texto contém alguns spoilers

O cenário é um elevador, com cinco personagens enquadrados. À esquerda está o Guardião Vermelho, ele está usando o uniforme e o capacete vermelho. Logo atrás dele está Fantasma usando roupas pretas, e com o rosto descoberto. Seu cabelo está caindo na altura dos ombros. Ao seu lado direito está o Soldado Invernal com um rosto sério, cabelo repartido e usando roupas pretas. Ao seu lado está o Agente Americano, ele está com seu uniforme azul, com partes em branco e vermelho em referência à bandeira dos Estados Unidos. Ele usa uma máscara, também azul. A sua frente, do lado direito da tela está Yelena, com seu cabelo loiro repartido e seu uniforme acinzentado.
Os Thunderbolts são os novos Vingadores (Foto: Marvel)

Guilherme Moraes

Próximo ao novo filme dos Vingadores, o grupo de anti-heróis, liderados por Yelena (Florence Pugh), chega para suprir a ausência de figuras marcantes do UCM (Universo Cinematográfico Marvel), como a Viúva Negra, o Homem de Ferro, o Capitão América, entre outros. Contudo, surpreendentemente, o longa não se conforma em ser apenas uma peça que alimenta a cultura do hype, ele, ao menos, busca ser uma obra audiovisual, com ideias e que pensa em sua forma. Nesse sentido, Thunderbolts* intriga ao propor a morte do cinema de heróis, porém, é boicotado pela própria Marvel.

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20 anos atrás Star Wars: Episódio III – A Vingança dos Sith aceitava a inevitabilidade da tragédia

O cenário é de uma sala futurista. Anakin está ao centro, ele está de lado, mas olhando para a câmera. Ele usa um capuz marrom escuro que cobre parte de seu rosto. Seus olhos estão amarelos e demonstram ódio.
Star Wars: Episódio III – A Vingança dos Sith voltou aos cinemas em comemoração ao seu aniversário de 20 anos (Foto: LucasFilm)

Guilherme Moraes

Depois da trilogia original, a volta de Star Wars nos anos 2000 causou grande alvoroço. Eram muitas expectativas para a história de origem de Darth Vader, que, na época, não foram atendidas (ainda que o último capítulo tenha sido poupado). A mudança de tom pode explicar tal aversão a trilogia prequel. Se a original conservava um espírito aventuresco, esta foi tomada por uma dramaticidade muito teatral. Contudo, 20 anos depois, a trajetória de Anakin Skywalker (Hayden Christensen) e, principalmente, Star Wars: Episódio III – A Vingança dos Sith está sendo revisitada e entendida como é: um grande conto sobre destino e tragédia greco-romana.

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15 anos de Alice no País das Maravilhas: a adaptação que firma beleza dentro da loucura

Fotografia de Chapeleiro Maluco, em seu blazer turquesa, blusa engravatada em estampa de bolinhas e seus chapéu desgastado marrom com uma grande faixa rosa, ao lado de Alice, mulher branca, com feições delicadas e cabelo louro cacheado, em sua armadura prata e com os cabelos cacheados soltos, enquanto Capturandam, uma espécie de buldogue com urso, e soldados brancos estão em segundo plano.
Alice no País das Maravilhas venceu o Oscar de 2011 por Melhor Direção de Arte e Melhor Figurino (Foto: Walt Disney Studios Motion Pictures)

Livia Queiroz 

Você está maluca, pirada, mas vou te contar um segredo: as melhores pessoas são assim”. Esta é a última frase transmitida pelo pai de Alice (Mia Wasikowska) antes do corte temporal para mencionar sua morte na narrativa, uma referência a mesma fala dita pelo Chapeleiro Maluco à menina no livro de Lewis Caroll. Em  paralelo com a vida não-ficcional, quantas vezes você já se viu como diferente da maioria por pensar demais ou por sonhar além do que os outros dizem que é possível? Quantas vezes desejou viver em histórias que viu em livros e filmes ao invés da sua realidade? Há 15 anos atrás, Alice no País das Maravilhas, dirigido por Tim Burton, o cineasta antagônico de Hollywood, nos apresentava por meio de um mundo extraordinário e imaginário o recorrente sentimento de estranheza com a realidade.

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Há 85 anos, John Ford antecipava Portinari com As Vinhas da Ira e criava uma versão norte-americana de Os Retirantes

Na imagem está Tom Joad do lado esquerdo. Ele usa uma boina, uma camisa de botão por baixo e um sobretudo preto e sujo por cima. Ele está olhando para a esquerda, para algo fora do plano. Ao seu lado está Ma Joad, ela olha para Tom com uma expressão preocupada. Ela usa uma blusa velha.
As Vinhas da Ira é uma adaptação do livro de John Steinbeck (Foto: 20th Century Studios)

Guilherme Moraes

Após a Depressão de 1929, os Estados Unidos entraram em uma crise profunda que afetou diversas áreas, dentre elas, a agrária. Nesse contexto entra As Vinhas da Ira (1939), livro de John Steinbeck que foi adaptado aos cinemas por John Ford em 1940. Ainda que seja um pouco ofuscado pela outras obras-primas do diretor, The Grapes of Wrath, no original, se consolidou na história do Cinema como uma grande análise sociopolítica, feita a partir da destruição de uma família em meio a instabilidade econômica que, de certa forma, dialoga com o quadro Os Retirantes (1944) de Candido Portinari.

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A noite é negra e dos Pecadores

Cena do filme Pecadores. Na imagem, os personagens Fumaça (à esquerda) e Fuligem (à direita) estão de costas enquanto observam o pôr do sol no horizonte. O céu está escuro, com muitas nuvens e o sol ao fundo, laranja, perdendo sua luz. Os dois personagens são irmãos gêmeos e interpretados pelo ator Michael B. Jordan. Fumaça veste um terno e usa uma boina. Fuligem também veste terno, mas usa um chapéu de abas retas. Não é possível identificar as cores das roupas, pois não há luz nos personagens.
Pecadores é o quinto filme de Ryan Coogler com Michael B. Jordan no elenco (Foto: Warner Bros.)

Davi Marcelgo

Há mais de um século, no coração da Europa, F. W. Murnau dirigia o clímax de Nosferatu (1922), ocasião em que o vampiro, tomado pelo desejo, esquece o perigo de existir sob a luz do sol, falecendo ao amanhecer. O terror expressionista tem um quê de LGBT+, pois as vivências da comunidade, quanto mais em 1922, eram consumadas à noite – essa interpretação existe sobretudo porque o diretor tinha relações homoafetivas. E que pavor seria ao dia descobrirem o Drácula dentro de você. 

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Antônio Bandeira – O Poeta das Cores não faz jus ao artista

Cena do filme Antônio Bandeira - O Poeta das CoresNa imagem, o pintor Antônio Bandeiras está pintando um quadro abstrato com o fundo azul claro e linhas pretas da obra. Ele é um homem negro, na faixa dos 40 anos, de cabelos curtos e grisalhos. Usa um cavanhaque e bigode que está brancos. Nas mãos ele segura um pote e um pincel da cor vermelha. Está vestindo uma blusa de manga comprida, que está arregaçada nos cotovelos, da cor vermelha e uma calça marrom. O cenário é um quarto, do lado esquerdo há uma porta com quadros em branco dentro e outros desenhos que estão pendurados em uma parede. No canto direito, há uma mesa com potes e pinceis.
O pintor viveu anos na Europa e retornou para o Brasil no final dos anos 1950 (Foto: Sereia Filmes)

Davi Marcelgo

A execução de um filme é guiada, por muitas vezes, pela noção de unidade entre forma e conteúdo, ou seja, de que maneira o diretor e demais artistas transpõem história ou roteiro através da linguagem do Cinema. O documentário Antônio Bandeira – O Poeta das Cores é um exemplo de insucesso quando pensamos nessa ideia. Dirigido por Joe Pimentel e apoiado pelo sobrinho do biografado, o longa não consegue transmitir por suas imagens a grandiosidade de Bandeira – e às vezes nem pelo conteúdo. 

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Os Melhores Filmes de 2024

Sexualidade, Terror e protagonismo feminino foram os destaques do ano (Texto de Abertura: Davi Marcelgo e Guilherme Leal/Arte de capa: Nicole Tiemi Kussunoki)

Qual imagem te lembra o Cinema em 2024? A Zendaya com os seus twinks do tênis ou da ficção científica? O discurso poderoso da Demi Moore no body horror de Coralie Fargeat? Ou você se lembra da marcante cena de Eunice Paiva e seus cinco filhos na sorveteria? O fato é que as mulheres dominaram as telonas e foram reconhecidas pelo público e crítica com histórias memoráveis. Ao todo, 33 obras foram mencionadas na lista de Melhores Filmes do Ano do Persona. De profissionais do sexo a vampiros sugadores de casadas, os longas-metragens citados possuem uma caractéristica que os une: o êxito em provocar sentimentos que ultrapassam a pupila e acessam outras partes do corpo para te fazer sentir.

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Red Velvet Happiness Diary: My Dear, ReVe1uv celebra 10 anos de uma explosão de cores inesquecível

Cena do filme Red Velvet Happiness Diary: My Dear, ReVe1uv. A composição da cena mostra Seulgi, Yeri, Irene, Wendy e Joy em poses relaxadas e sorridentes, posicionadas em uma formação aproximada, mas não exatamente alinhada. As mulheres parecem envolvidas em uma interação amigável, provavelmente em um show ou performance, de acordo com a presença de luzes de fã nas mãos. A imagem captura um momento específico durante o espetáculo, que é o de interação entre as integrantes. A iluminação e a composição sugerem um ambiente de palco, ou outro local com cenário específico para entretenimento.
O longa foi filmado durante a turnê 2024 Red Velvet FANCON TOUR <HAPPINESS : My Dear, ReVe1uv> (Foto: Sato Company)

Nathalia Tetzner

Não há algo tão agridoce quanto relembrar os tempos da adolescência e, definitivamente, nada é intenso e suave quanto Red Velvet – não estamos falando de sabores de bolo, mas sim de cinco meninas que definiram a terceira geração do K-pop. Irene, Seulgi, Wendy, Joy e Yeri dividem uma trajetória marcada por hits e visuais impecáveis, porém, também muita incerteza; fator comum de uma indústria musical que busca renovação a todo momento, conhecida por levar seus idols à exaustão.

Completando dez anos desde o debut com Happiness, as garotas, agora mulheres independentes que se consagraram em suas próprias carreiras solo, abrem as portas para as memórias de um passado recente, que já deixam muita saudade. Red Velvet Happiness Diary: My Dear, ReVe1uv utiliza gravações da turnê mais recente do grupo para montar um documentário que prova: “Se você precisa de paz em seu coração e quer sentir alegria, volte quando quiser. Estamos sempre aqui”.

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Mickey 17 ilustra descartabilidade da classe trabalhadora, mas não alcança a profundidade que acredita ter

Na imagem estão dois personagens de lado para câmera, ambos interpretados por Robert Pattinson. Ambos usam uma camisa com uma cor cinzenta e se encaram estupefatos. O cenário é de um quarto.
Mickey 17 é o primeiro filme de Bong Joon-Ho depois de vencer o Oscar (Foto: Warner Bros. Pictures)

Guilherme Moraes

Devido à greve dos atores e roteiristas, e da tentativa do estúdio de levar para o IMAX, Mickey 17 mudou a data de estreia várias vezes, inicialmente planejado para Janeiro, depois mudando para Abril e sendo lançado, antecipadamente, em Março. O longa finalmente chegou às telonas como o primeiro filme de Bong Joon-Ho após a histórica vitória de Parasita no Oscar de 2020. Assim como seu antecessor, o coreano manteve sua veia política, mas, desta vez, focado na eleição norte-americana entre Donald Trump e Kamala Harris. Contudo, em oposição à sua obra mais celebrada, este não consegue criticar o capitalismo de maneira produtiva, além de não sustentar a diversidade de temas, principalmente pela sua abordagem.

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Artificial e sincero, Better Man – A História de Robbie Williams atira bananas em cinebiografias

Cena do filme Better Man - A História de Robbie WilliamsNa imagem, o personagem Robbie está cantando de forma feroz para a câmera. Robbie é um chimpanzé, com olhos verdes, pelos pretos e dentes pontudos e amarelados. Ele veste uma roupa de mangas longas na cor preta. Ele canta segurando um microfone. O cenário é de um show, em desfoque, há luzes e muitas pessoas na plateia.
Robbie Williams fez sucesso no Brasil ao fazer parte da trilha sonora da novela Mulheres Apaixonadas em 2003 (Foto: Diamond Films)

Davi Marcelgo

A estreia de Rocketman (2019) trouxe frescor ao ‘mundinho’ de cinebiografias de Hollywood, lançado com poucos meses de diferença do trivial Bohemian Rhapsody (2018), o filme sobre Elton John apostou no lúdico dos musicais, em novos arranjos para músicas de sucesso e, sobretudo, deixou as canções invadirem os quadros para além dos palcos. Porém, a roda continuou a girar da mesma forma, já que a grande maioria do gênero ainda segue o roteiro sobre ascensão e queda dos artistas, assim como a fórmula dos hits serem cantados apenas em apresentações ou como música de fundo. Mas em Better Man – A História de Robbie Williams, um ‘macaquinho’ decidiu balançar o galho e os melhores frutos caíram dessa empreitada.

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