A Hora do Mal constrói sua força ao instigar curiosidade como uma lenda urbana

Em uma imagem escura, aparece a silhueta de um garoto de costas no centro do cenário, abrindo as cortinas de uma janela que podem ser vistas em ambas as extremidades da foto. Ao lado de fora da janela de vidro, é possível enxergar grama, moitas e árvores que cobrem o céu, e a própria criança, em um tom verde azulado.
Cary Christopher, que interpreta Alex, único aluno que não desaparece, foi indicado ao Critics Choice Awards (2026) de Melhor Jovem Ator (Foto: Warner Bros)

Lara Fagundes

Um desaparecimento em massa assombra uma vizinhança fictícia na Pensilvânia: 17 crianças da mesma sala de aula saem de suas próprias casas no meio da madrugada, todas no mesmo horário, e não voltam mais. Uma voz infantil, como uma menina contando uma história em volta da fogueira, é o que inicia a trama. Com uma ambientação comparável a It: A coisa (2017), inspirado na obra de Stephen King, ou Telefone Preto (2021), do diretor Scott Derrickson, em uma típica cidade pequena do interior, A Hora do Mal, dirigido por Zach Cregger, traz uma narrativa mais próxima dos contos de King, com visões fragmentadas de um único mistério que os entrelaça.

A estética de lenda urbana sustenta o ar de suspense na maior parte do tempo, sem assustar tanto, apenas criando uma atmosfera tensa baseada na violência entre moradores e pelo elemento sobrenatural que envolve o município. Nesse contexto, o nome original do longa, Weapons, traduzido de forma literal para ‘armas’, funciona como metáfora para abordar os personagens sendo usados como ferramenta para machucar uns aos outros. Porém, a tradução A Hora do Mal também é certeira, trazendo um formato parecido com títulos de conto, onde os alunos, que somem exatamente às 2:17 da manhã, são o estopim do enredo e, por isso, são o foco desde o nome.

As duas interpretações de título expressam a criatividade por trás de Zach Cregger, um diretor que iniciou sua carreira no cinema da comédia, sendo um dos criadores da série de comediantes The Whitest Kids U’ Know (2007), além de ter estrelado obras do gênero antes de se encontrar no horror. Esse seu histórico com o humor traz um toque especial para seus novos filmes desde Noites Brutais (2022), conseguindo criar atmosferas únicas e histórias muito originais com uma suavidade que contrasta com as mortes mais grotescas.

Imagem de uma mulher branca de cabelos curtos loiros enrolados e olhos azuis, usando brincos dourados e um casaco escuro. Ela olha para frente com uma expressão de assombro. Atrás dela, desfocado, está um carro e, mais atrás, árvores.
O roteiro da produção foi disputado por vários estúdios, até ser comprado pela Warner Bros por U$38 milhões (Foto: Warner Bros)

Inspirado em Magnólia (1999), drama de Paul Thomas Anderson, Cregger dividiu o suspense em atos, desvendando os acontecimentos por meio da repetição de um dia por perspectivas diferentes. Ou seja, seis pessoas, com funções distintas, ajudam a formular o terror em passos lentos. Indo devagar, apenas com jumpscares pontuais, o filme não gera tanto medo, mas instiga uma curiosidade inquietante, e a escolha pelos cortes brutos e alguns momentos cômicos nas entrelinhas, escondem o verdadeiro mal por trás do desaparecimento e flertam com um humor que beira o absurdo, não permitindo trazer o horror absoluto até o último minuto. Assim, temos uma obra que traz uma sensação de estranheza até te levar a um ponto mais violento.

Além disso, os pontos de vista, apesar de tornarem a investigação mais lenta, expandem os personagens em ritmo de episódios, o que alavancou o elenco. A professora Gandy (Julia Garner) e o pai de um dos desaparecidos, Archer (Josh Brolin), são atores que se sobressaem, presentes como lados opostos da situação, na qual apresenta-se uma pessoa que se martiriza e outra que tenta encontrar um culpado o mais rápido possível. Porém, quem chamou mais atenção foi Amy Madigan; mesmo com pouco tempo de tela, foi reconhecida pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas e indicada ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante com sua interpretação de Gladys, tia de Alex, o único menino que não desapareceu.

Frame de uma mulher branca de cabelos vermelhos curtos e franja curta sorrindo, como se estivesse no meio de uma risada. Ela usa óculos grandes, quadrados e armação na cor azul, um batom vermelho borrado nos cantos e um casaco listrado lilás, vermelho e azul escuro com uma blusa lilás de gola alta por baixo, sentada em uma sofá cinza. Ao fundo, vemos uma parede bege, lisa, com a parte de baixo revestida em madeira.
Grande parte da equipe de Noite Brutais, primeiro terror do diretor, também esteve presente em A Hora do Mal (Foto: Warner Bros)

A vilã, introduzida apenas próxima ao fim do segredo, chega com uma atuação que desempenha um misto de emoções a cada aparição, usando do desconforto para trazer a dose de estranheza que o filme pedia. Porém, o impacto que ela causa com sua performance, não apaga que o desenvolvimento de sua personagem deixa a desejar, o que é amplificado por um final aberto, que responde perguntas enquanto outras surgem, esperando por mais detalhes sobre Gladys. Apenas o arquétipo de bruxa, mesmo que a torne enigmática, não é suficiente para explicar ao espectador o motivo dos desaparecimentos, gerando uma desfecho um pouco apressado.

Contudo, com o retorno da voz infantil; a menina que iniciou a lenda; a fecha dentro do mesmo aspecto e uma história que fica entre o real e a imaginação – uma assombração que permanece na cidade –, essa névoa gerada pelo tom simples da narração, justifica o encerramento, mas resume um incômodo, como se algo estivesse faltando. As mesmas crianças que iniciaram tudo, voltam ao foco para fecharem com a cena mais violenta, onde o mal se vira contra si mesmo e entrega uma finalização cheia de sequelas com a última frase: “Algumas [crianças] até começaram a falar de novo este ano”.

Apoiada em um mistério bem estabelecido e uma narrativa envolvente, A Hora do Mal se baseia na curiosidade típica de crianças narrando contos de terror umas para as outras. Zach Cregger soube usar o conceito de lenda para explorar sua criatividade e, apesar de não conseguir assustar tanto quanto poderia, compensou com uma tensão contínua e, como última pincelada, teve Amy Madigan roubando a cena. Assim, a união de um humor visceral com a violência de um horror sombrio, resulta em um filme de bruxaria que poderia ter contado mais, mas se manteve na segurança do imaginário de uma vizinhança perturbada.

Quarteto Fantástico: Primeiros Passos é familiar, fantasioso, divertido e, de fato, fantástico

Aviso: O texto contém alguns spoilers

A imagem mostra os quatro integrantes do Quarteto Fantástico — Reed Richards, Sue Storm, Johnny Storm e Ben Grimm — em uma rua da cidade, ao lado de um veículo futurista azul. Distribuídos em diferentes pontos da cena, os heróis exibem poses de alerta e nervosismo, encarando um novo desafio. A atmosfera é fria e dramática, reforçada pelo cenário de cidade grande em pleno inverno. Usam uniformes azul-claro com variações de branco e o número 4 em destaque no peito, reforçando a identidade do grupo. Reed, esguio e sério, veste um traje inteiramente azul; Sue, de postura atlética e serena, tem gola branca no uniforme e aparência etérea; Johnny, jovem e confiante, exibe braços e gola brancos, com chamas vivas nas mãos; Ben, corpulento e coberto por pele rochosa alaranjada, usa faixas brancas até os cotovelos e roupas de estilo retrô. O fundo é urbano, com tonalidade azulada, e a iluminação clara e uniforme destaca os detalhes dos trajes e os efeitos visuais, criando uma atmosfera neutra e moderna centrada na apresentação dos heróis.
O filme marca o retorno do Quarteto Fantástico ao MCU, após a aquisição da Fox pela Disney em 2019 (Foto: Marvel Studios)

Marcela Jardim

Quase vinte anos depois da versão morna de 2005 e do desastre completo de 2015, Quarteto Fantástico: Primeiros Passos (2025) chega como a reinvenção mais ambiciosa da equipe que, por tanto tempo, parecia amaldiçoada no cinema. Sob uma Marvel Studios mais madura, o filme surpreende ao deslocar o foco da ação pela ação e propor uma narrativa centrada na ideia de família como núcleo emocional e político, sem abandonar o tom aventureiro típico do gênero. A aposta é clara: em vez de heróis distantes e inatingíveis, o longa apresenta figuras profundamente humanas, cujos poderes servem mais como extensão de seus vínculos do que como ferramentas de ego. Em conjunto com Superman (2025), o longa veio para aquecer os corações – nerds ou não –, trazendo uma boa adaptação e com mensagens sensíveis.

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O pesadelo feminino toma forma em The Royal Hotel

Cena do filme The Royal Hotel. Da esquerda para direita, Liv (Jessica Henwick) abraça por trás Hanna (Julia Garner) e descansa a cabeça em seu ombro. As amigas estão em uma sacada, olhando para o lado de fora.
Kitty Green colabora novamente com Julia Garner, estrela do seu filme anterior, A Assistente (Foto: Universal Pictures)

Giovanna Freisinger

Um bar fuleiro, na fronteira de uma remota cidade mineradora no deserto australiano, com a população majoritariamente masculina. Essa é a ambientação de The Royal Hotel. Não tem espíritos possessivos nem psicopatas mascarados, mas é um cenário para um filme de terror tão assustador quanto, senão mais. Pergunte a qualquer mulher. A diretora Kitty Green aperfeiçoa o pesadelo feminino, comunicando eficientemente a sensação de ser observada como um pedaço de carne fresca, em meio a predadores famintos. O suspense se constrói sobre aquilo que é desconfortável, sinistro e, assustadoramente, familiar. 

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Inventando Anna é tão inacreditável que parece completamente ficcional

Cena da série Inventando Anna. Na cena, há 4 mulheres uma ao lado da outra em uma rua movimentada de Nova Iorque. A primeira, no canto direito, é uma mulher negra de cabelos castanhos que veste calça marrom, blusa preta sobreposta por um sobretudo preto e bolsa bege com alça preta e vermelha. Ao seu lado, há uma mulher branca com vestido preto e sobretudo cinza, olhando com expressão admirada para o alto. A terceira mulher é branca com cabelos castanhos claros, ela veste um sobretudo preto com estampas floridas em vermelho e segura uma bolsa preta. A quarta mulher, no canto esquerdo, é negra, possui cabelos pretos cacheados e olha para o alto com um sorriso, enquanto veste uma saia bege, uma blusa laranja com estampas pretas e um sobretudo preto.
Em múltiplas camadas, o quarteto liderado por Anna Delvey entregou diversos momentos catárticos durante a trama (Foto: Netflix)

Felipe Nunes

Como uma jovem golpista adentra os eventos e círculos sociais da mais alta elite nova-iorquina sem ter um sobrenome conhecido e nem mesmo um dólar no bolso? E como ela ainda consegue desembolsar empréstimos com quantias inimagináveis das instituições bancárias mais conservadoras dos Estados Unidos? São as respostas dessas indagações que a produção Inventando Anna traz. E embora pareçam casos irreais, essas situações estão longe de serem apenas um enredo ficcional. Esses acontecimentos realmente ocorreram e serviram como base para a minissérie jornalística, que traz situações tão surpreendentes que, de fato, parecem inventadas.

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A Assistente: os verdadeiros bastidores de Hollywood

 A imagem é uma cena do filme A Assistente. Nela, está a atriz Julia Garner, que interpreta a personagem Jane. Jane é uma mulher branca, de olhos azuis, cabelos loiros e amarrados em um coque, ela veste uma blusa rosa de gola alta e mangas compridas e usa um relógio preto em seu pulso esquerdo. Na cena, Jane está no escritório do trabalho sentada em uma cadeira, é possível ver da sua cintura para cima. Ela está falando a um telefone branco com fio, segurando-o com sua mão direita, e está com o que parece ser um passaporte em sua mão esquerda. Ela olha fixamente para o lado direito, com um olhar de preocupação.
Lançado em 2019, o filme se inspira em uma das denúncias que desatou os protestos do #MeToo (Foto: Reprodução)

Vitória Silva

Em 2017, o mundo hollywoodiano virou do avesso. Denúncias de assédio sexual por parte de funcionários e funcionárias do meio artístico começaram a vir à tona para o grande público. A avalanche se desencadeou com as acusações sobre o magnata Harvey Weinstein, dono da grande produtora Miramax, e hoje condenado a 23 anos de prisão. Com isso, outros escândalos emergiram para a superfície na crescente onda do movimento #MeToo, que acumula queixas de superiores até fora do meio cinematográfico.

Não ia demorar muito para que esses protestos tomassem forma nas telonas. O Escândalo, lançado em 2019, foi um dos primeiros a cumprir a tarefa, ao tratar sobre casos de assédio causados por Roger Ailes, diretor da Fox News. Apesar de parecer promissor, o resultado acabou por ser uma prova nítida de que boas intenções não fazem um bom filme, muito menos justiça, se as pessoas erradas estiverem por trás das câmeras. Nesse caso, A Assistente merece muito mais levar os créditos do pioneirismo. 

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Ozark mata os clichês na paulada

O terceiro ano de Ozark é o mais tenso e carregado até agora (Foto: Netflix)

Vitor Evangelista

Bandidos não têm senso de moralidade. Ou, pelo menos, era assim que a banda tocava vinte anos atrás. A TV sempre pintou seus antagonistas como figuras cinzentas e sem remorsos. Tudo mudou quando Tony Soprano procurou terapia em 1999, na estreia de Família Soprano. Depois do mafioso desatar a discutir sentimentos e motivações, outras célebres figuras ‘malvadas’, como Walter White e Ragnar Lothbrok, se tornaram o centro psicológico de grandiosas produções. Em Ozark (2017), a história não é diferente. 

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