Deixa o menino brincar: Kane Parsons e o seu Backrooms: Um Não-Lugar

Aviso: O texto contém alguns spoilers

Cena do filme Backrooms: Um Não-LugarNa imagem, a personagem Mary está centralizada, de frente para uma parede branca com o desenho de uma porta em azul. O ambiente é iluminado por uma luz amarelada, provocando a sombra de Mary no canto direito. Mary é uma mulher branca, na faixa dos 40 anos, de cabelos escuros na altura dos ombros. Ela veste uma camisa florida de manga curta e uma calça marrom. Ela está olhando para trás com expressão de preocupação.
O Youtuber de apenas 20 anos traz sua websérie para as telonas (Foto: A24)

Davi Marcelgo

É o sonho de muitos cinéfilos estrear o primeiro longa-metragem aos 20 anos e fazer bem feito. É ainda mais tentador entrar para a história com 21 anos ao lançar Evil Dead (1981), como Sam Raimi fez. Kane Parsons conseguiu a proeza de ser contratado pela A24 aos 19 anos para levar aos cinemas a sua websérie Backrooms, disponível no YouTube. Ainda é cedo para cravar que seu found footage, Backrooms: Um Não-Lugar, entrou para a história ao lado de A Bruxa de Blair (1999) e REC (2007), mas enquanto o rolo gira, nota-se a competência do novato em causar medo e dominar a linguagem do Cinema. 

Os ‘quartos dos fundos’ são labirintos surrealistas onde cadeiras estão empilhadas, escadas dão para escotilhas e habitações sociais inteiras podem ser encontradas ali. Entrar nessa estrutura poderia ser uma atividade curiosa, se ela não fosse frequentada por uma criatura voraz: uma atualização do mito de Teseu e o Minotauro. Quem descobre um Backroom em seu estabelecimento comercial é Clark (Chiwetel Ejiofor), isto enquanto lida com boletos atrasados e um divórcio que o retirou da própria casa. O roteiro de Will Soodik utiliza as questões do protagonista para construir uma metáfora que é a cara do estúdio, sendo aquelas salas um símbolo dos traumas e dos não-lugares que colecionamos, como humanidade, em vida. As salas encontradas pelo personagem principal são espelhos distorcidos de seu comércio, onde placas, peças de roupa dos funcionários e objetos semelhantes da realidade estão ali. 

Portanto, Clark agora habita sua loja de móveis, dormindo em um quarto improvisado no meio do salão de vendas. Ele, um arquiteto frustrado que não exerce seus estudos, é um paralelo de Dédalo, símbolo da arquitetura da mitologia grega, responsável pela construção do labirinto que aprisiona a criatura metade homem, metade touro. Já Mary (Renate Reinsve), a terapeuta do comerciante, revive a experiência traumática de ter crescido sob a supervisão de sua mãe, que sofria com neurose. De um lado, um lar que não dá segurança, de outro, um ambiente cheio de móveis que não cumprem suas funções. 

Cena do filme Backrooms: Um Não-LugarNa imagem, Clark está de costas para a câmera enquanto caminha em um corredor de paredes amarelas e luzes fracas. À sua frente há um trecho escuro com uma silhueta parada. Clark é um homem negro, na faixa dos 50 anos, de cabelos crespos, curtos e escuros. Ele veste uma camisa social rosa, calça preta e sapatos de couro.
Backrooms: Um Não-Lugar é o filme mais lucrativo da produtora (Foto: A24)

Enquanto o texto faz o pedido pelos executivos – um Terror frontal não basta para a A24 – Parsons dobra a linguagem do Cinema ao seu favor. Não é apenas a presença de um ser dentro daquele labirinto que apavora, mas a ideia isolada de um lugar que não respeita as leis da física é assustadora. O jovem cineasta compreende essa natureza ao conduzir por meio do extracampo (o que está fora da câmera) o medo produzido pela imaginação do público. Ele vai utilizar os chavões do gênero para isso, seja a limitação de enxergar o que está nas bifurcações e nos cantos sem iluminação ou pela câmera subjetiva, que não se contém apenas aos trechos em found footage, posicionando quem assiste na mesma situação que as personagens: dentro do Backrooms.  

A narrativa de Kane Parsons vai ser apropriada pelo visual para compor história e personagens. A passagem do tempo será demarcada por impostos acumulados na porta da frente, a falta de uma infância sadia pelo foco em mãe e filha brincando; a descoberta de que Clark agora dorme onde trabalha pela oscilação das luzes que já havia sido apresentada anteriormente. Diante de uma realidade em que as produções americanas são incentivadas a vomitar explicações ou expor ações em diálogos, observar tanto talento em apenas deixar o audiovisual ser a Arte que é vindo de alguém tão jovem é nobre. 

Quando Clark, Kat (Lukita Maxwell) e Bob (Finn Bennett) adentram o novo mundo, a câmera os acompanha, sempre com eles, nunca à frente. Espectador descobre o que tem além daquelas paredes junto ao trio que comanda o caminho. Parsons vai alterar o plano no momento em que Mary descobre o espaço; agora as lentes já estão no cômodo e a terapeuta vem até nós. Todo o medo construído pelo desconhecido é descartado. Afinal, ela já conhece aquele espaço (o inconsciente de seu paciente) e não tem nada a temer. 

Cena do filme Backrooms: Um Não-LugarNa imagem de qualidade baixa, móveis estão empilhados no canto esquerdo da imagem. O local tem várias salas vazias de iluminação amarelada. Clark está em uma entrada segurando uma mochila, ele anda em direção a uma parte com menos iluminação. Ele veste calça e camisa longa, porém pela baixa qualidade da câmera é difícil determinar quais as cores.
James Wan e Osgood Perkins assinam a produção (Foto: A24)

Por fim, a criatura que habita aquele labirinto é uma versão monstruosa do Capitão Clark, interpretada por Robert Bobroczkyi, de Alien: Romulus (2024), um duplo do mascote publicitário que Clark se sujeita a dar vida em uma peça comercial gravada de forma amadora. A encenação do vídeo termina de maneira desastrosa e ridícula. A materialização dessa figura em um ser devorador de carne humana é a personificação da vergonha do protagonista a respeito de seu trabalho e de sua constatação: “eu destruo tudo que toco”. 

A partir daí, o medo do desconhecido deixa de ser algo presente, no entanto, não significa que Backrooms: Um Não-Lugar perca força, visto que Mary não só superou seu trauma (ao usar a única lembrança física da sua antiga casa como arma) como não tem medo de Clark ou dos salões. É comum que alguns filmes caiam no desgosto do público quando revelam o visual de seus algozes, mas nesse caso tudo se amarra e faz sentido. Continuar filmando os planos da mesma forma que a metade do filme seria uma decisão contraditória. 

Kane Parsons estreia um Terror interessante que fraqueja numa sequência de muito diálogo expositivo – o que cheira a James Wan, mas não dá para confirmar – que se opõe a tudo apresentado anteriormente. O pior é que nada dito ali é uma informação ou algo que o público não entendeu: “este lugar é a cópia de tudo que já existiu”, diz Clark. Ora, isso foi mostrado na última uma hora e meia com as semelhanças à loja dele. Pode parecer que este texto soa contraditório por dizer antes que Backrooms: Um Não-Lugar usa, sobretudo, do visual para discursar, porém um conjunto de cenas fora de eixo não representa o filme todo. E diante de tanta destreza que os found footage pontuais deste filme têm, imagine o que Parsons não faria com 120 minutos de Terror frontal. Esse backrooms eu pago para entrar. 

 

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