Aviso: Este texto contém spoilers

Davi Marcelgo
O primeiro filme da franquia, Evil Dead (1981), recebeu, no Brasil, o título de Uma Noite Alucinante: A Morte do Demônio propriamente, pois não só o protagonista Ash Williams (Bruce Campbell) foi levado ao limite – de covarde para bad ass na mesma madrugada – como as produções sucessoras dobraram a aposta, enriquecendo a mitologia dos deadites. Em Army of Darkness (1992), o terceiro capítulo da saga, a cabana deixa de ser o cenário e é substituída pela paisagem medieval; Williams é sugado por um portal e enviado para o período do aço e das espadas. Já a série Ash vs. Evil Dead (2015-2018) aproveitou o terreno construído por Sam Raimi nos três longas para extrapolar tanto a lore quanto os temas abordados. Twist and Shout, sétimo episódio do terceiro ano, tateia os massacres em escolas americanas, por exemplo. Enquanto a trajetória da franquia é marcada por inovação, A Morte do Demônio: Em Chamas se contenta em apenas ser uma faísca.
Dirigido por Sébastien Vaniček, o novo filme narra o processo de luto de Alice (Souheila Yacoub) após seu marido falecer em um acidente. Além disso, ela precisa enfrentar as opressões da família do cônjuge, esta que encara questões como abandono paterno e a função de cuidadora que sobressai às mulheres. Esses três tópicos podem ser encontrados nas duas últimas obras da franquia que foram para o cinema, no remake de 2013 e em A Morte do Demônio: A Ascensão (2023), já indicando que, tematicamente, Em Chamas não tem frescor. Porém, não significa que o cineasta não consiga criar discursos de forma criativa, ainda que sejam breves os momentos em que essa capacidade aparece.
Dois planos chamam atenção nesse sentido, o mais marcante já havia sido revelado no primeiro teaser. Nele, Vaniček faz um plano sequência inspirado em filmes de guerra. Em destaque, Alice rasteja em fuga, como um soldado apoiado pelos cotovelos e antebraços, enquanto ao fundo, a família briga, trocando agressões um ao outro. Uma explosão acontece, fumaça e poeira sobem, um corpo caído no chão. Há vários elementos postos em cena que remetem ao gênero e o diretor não faz à toa. Alice é uma pessoa de fora daquela família, mas que precisa lidar com os problemas que a constituem, assim o diretor compara essa experiência à de um jovem convocado para lutar uma batalha que não é sua.

Para comentar papéis de gênero e ausência, um outro momento traz vigor à alegoria dos demônios que castigam uma família. Polly (Maude Davey), a matriarca que convive com demência, após ser possuída por um deadite, chama sua filha, Susan (Tandi Wright), pelo nome. Ambas fazem um pacto e a cena termina com Edgar (Erroll Shand), também com o corpo danificado pela invasão, beijando Susan, sua esposa. Ela diz: “há anos você não me beija dessa maneira”, transformando a cena em um comentário sobre os afetos entre homens e mulheres em um casamento heteronormativo. Enquanto todo o longa é acinzentado, o plano do beijo é bem iluminado, romântico e possui um mau gosto que é a cara de Evil Dead. Entretanto, as boas execuções são sufocadas por um pastiche de características da franquia, o que decepciona, pois sem essas cenas interessantes, A Morte do Demônio: Em Chamas apenas repetiria o que os outros dois filmes já haviam feito.
É compreensível a guinada das produções contemporâneas, que se aproximam de pautas atuais e dialogam com o público que torce pelas final girls, porém é desestimulante perceber que a obra se tornou apenas um espaço para famílias lavarem a roupa suja em uma espiral temática. Há possibilidade de discutir questões do nosso tempo, mas que seja longe de uma casa isolada, algo que já foi realizado em outras ocasiões. Diante de uma reprise, que pelo menos a forma seja diferente. Não é o caso daqui.
Os deadites não são simples mortos-vivos e já assumiram formas para além do antropomorfo, como demonstraram domínio de fenômenos da natureza. O longa de 1981 possui uma cena de agressão sexual envolvendo árvores, por exemplo. Isto até poderia ser um detalhe que Vaniček está negando, no entanto, a abertura de Em Chamas traz uma entidade que controla varas de pesca e ferve rios. Depois dessa sequência, toda a fita afunda-se em criaturas que apenas batem ou mordem. Zumbis quaisquer.

A falta de criatividade não se abstém apenas no roteiro ou na direção dos planos, mas também em uma precarização da aparência dos antagonistas. Se a conjuntura da obra já entregou visuais impressionantes, de grotescos a estilizados, como o de Henrietta Knowby (Lou Hancock), em Uma Noite Alucinante 2 (1987), com seu largo pescoço e dentes afiados, a maquiagem comandada por Jane O’Kane se baseia em pele escurecida ou acinzentada e olhos amarelados. Um sangue ali, um machucado aqui. Seria passível de considerar que o visual básico para as personagens é proposital para evidenciar a aparência do final boss Will (George Pullar), anunciado durante todo o enredo como alguém que está chegando – e que deve ser temido. Só que Will pouco aparece e nunca de corpo inteiro, sendo impossível ver em totalidade sua podridão. E ainda bem: ele é apenas um esqueleto defumado.
A Morte do Demônio: Em Chamas é o filme mais preso aos dogmas da franquia ao mesmo tempo que a descaracteriza no sentido negativo, de um esvaziamento da criatividade. Um filme cinza que contenta aqueles que acham que histórias tristes precisam ser escuras. Um longa que esbanja CGI numa série que sempre se dedicou ao artesanal. Para quem traz fogo no título, Vaniček se esforça pouco para, de fato, fazer com que o público arda nas poltronas. Se o ato de queimar fosse um desmonte da saga, ainda que por birra, seria muito mais interessante que o genérico, algo que Evil Dead nunca foi.
