Supergirl: entre o brilhantismo de Kara Zor- El e as fórmulas hiper palatáveis de Hollywood

Aviso: Este texto contém spoilers

Cena do Filme. Kara, uma jovem mulher vestida com o uniforme de Supergirl, que é azul de manga longa com o símbolo vermelho e amarelo com
Milly Alcock entrega carisma e uma performance dedicada a nova versão de Supergirl (Foto: DC Studios)

Mariana Bezerra
A nova versão de Supergirl (2026) chegou aos cinemas como parte dos blockbusters do verão estadunidense, assim como Superman (2025) no ano anterior. A nova versão se baseia na minissérie de quadrinhos Supergirl: A Mulher do Amanhã (2021-2022) escrito por Tom King e ilustrado pela brasileira Evelyn Bilquis, a qual dá nome a um dos planetas apresentados no filme. O que vemos agora é uma Kara Zor-el muito diferente: mais impulsiva e nonchalante – mas não menos heroica — daquela conhecida pelos fãs das séries da DC, produzidas pela CW.


No longa, Milly Alcok (A Casa do Dragão) mergulha na personalidade forte da personagem e nas cenas intensas de ação, que, em parte, foram realizadas pela própria atriz. Parte da primazia da performance de Alcok está em sua habilidade de transparecer a dor e melancolia da personagem – convertidas em um comportamento apático e em uma vivência isolada. Nesse sentido, o roteiro de Ana Nogueira acerta em trazer a história do fim de Krypton, o planeta dos primos Kara e Kael, e da morte dos pais da Supergirl.

 Kara, uma jovem mulher vestida com o uniforme de Supergirl, que é azul de manga longa com o símbolo vermelho e amarelo com
Milly Alcock entrega carisma e uma performance dedicada a nova versão de Supergirl (Foto: DC Studios)

Como a própria personagem diz: “Krypton não morreu em um dia”, o que significa que a jovem Kara carrega consigo as memórias da morte lenta e gradual dos sobreviventes da explosão do planeta e da separação de seu pai, quando é enviada a terra para viver com Kael (David Corenswet). Esse enredo é apresentado por meio de flashbacks, mas se dá de forma tão imersiva e envolvente, que a volta para o presente gera uma sensação estranha de deslocamento temporal – em um bom sentido, afinal, os sentimentos de Kara são a continuação simbólica desses acontecimentos.

O caráter desesperançoso da mulher esbarra na sede por justiça e vingança da jovem Ruthye (Eve Ridley), cuja família foi assassinada pelo vilão: Krem das Colinas Amarelas, líder de um grupo de mercenários espaciais. Quando o homem envenena Krypto, o querido cachorro de Kara, ela decide se juntar a menina órfã com um outro propósito: conseguir o antídoto para a enfermidade do animal. A partir desse momento, há um desenrolar de uma sequência marcada por diversas batalhas e encontros e desencontros entre as protagonistas e o vilão.

Cena do filme. Aparece Ruthye, uma jovem com expressão séria. Ela tem cabelos escuros presos para trás, pele ligeiramente suja de poeira e veste uma jaqueta escura sobre uma camiseta laranja. O plano de fundo é composto por uma atmosfera em tons de marrom e dourado, onde aparecem silhuetas desfocadas de duas figuras masculinas, uma de cada lado.
Ruthye, carregada de um espírito de vingança e justiça, acompanha Kara em uma jornada mutuamente transformadora (Foto: DC Studios)

As cenas de lutas são interessantes, especialmente uma apresentada em câmera lenta, mas a pouca relevância do antagonista fica no caminho das possibilidades de momentos de fato marcantes e memoráveis. O grupo de vilões, inclusive, lembra, a todo momento, os personagens de Guardiões da Galáxia (James Gunn) pelo estilo de piratas espaciais e a estética descolada. Nesse processo, outro aspecto um tanto cansativo é a tentativa de uma atmosfera Marley e Eu (2008), marcada pela sensibilidade e arco emocional construído em relação ao animal, em meio a uma espécie de O Conto da Aia (1985) interplanetário. Isso porque é dada pouca importância ao projeto maligno de Krem de raptar garotas para que servissem de escravas sexuais para procriar para o seu clã de homens apenas. Enquanto isso, apesar de ajudar na salvação das garotas, a grande preocupação não apenas da Supergirl, mas do próprio filme, é a saúde de Krypton.

O cachorro cumpre sim um papel muito importante na história da mulher e é amado por todos. No entanto, a decisão de deixar uma narrativa tão perturbadora como plano de fundo parece uma tentativa de transformar o segundo filme do novo universo da DC e o primeiro da personagem em algo mais simples e palatável do que deveria. Afinal, filmes gênero sempre carregaram mais profundidade do que o que muitos desejam enxergar, e o próprio Superman (2025), de James Gunn, traz reflexões nesse sentido.

Cena do filme. À direita, um pequeno cachorro branco de pelos bagunçados, com uma das orelhas levantada. À esquerda, está Kara, jovem de cabelos loiros, usando óculos de sol grandes e redondos e fones de ouvido laranja. Ela tem uma expressão séria e assume o controle de uma cabine. O ambiente ao fundo é o interior de uma nave espacial.
Tanto os flashbacks quanto as cenas no presente são fundamentais para construir a dinâmica e a evolução da relação entre Kara e Krypto (Foto: DC Studios)

Apesar dos problemas de roteiro e a direção (Craig Gillespie) pouco inventiva, a nova Kara Zor-el é apresentada através de uma narrativa sem estereótipos pejorativos e ultrapassados; a figura feminina é respeitada e naturalizada. É importante ressaltar que o distanciamento e aspecto introspectivo da mulher não a tornam uma pessoa fria, muito pelo contrário, Kara é uma pessoa boa; não meiga, ou sorridente, ou inteiramente agradável, mas boa. A personagem se compromete, inclusive – à sua maneira – a preservar a inocência e pureza da jovem Ruthye. Há sim a construção de uma clássica jornada do herói que propicia o desenvolvimento de uma perspectiva mais esperançosa e otimista na mulher sem a necessidade de invalidar o estilo de ser da personagem no início do longa.

O longa também conta com o humor e sequência de eventos clichês de um filme de super herói – o que é uma pena se tratando de uma história com muito potencial. Nesse sentido, há a presença de Jason Momoa como Lobo, um mercenário independente. Embora a atuação de Momoa traga um carisma inegável e momentos genuinamente divertidos, é notável, mais uma vez, a escolha de seguir por um caminho caricato e previsível. Ainda assim, para o espectador que busca apenas um entretenimento descompromissado e cheio de ação e um momento de conexão com a protagonista, o longa provavelmente será uma experiência agradável.
SUPERGIRL | Trailer Oficial Dublado

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