The Doom Generation é uma ode queer ao colapso juvenil

Três jovens estão lado a lado ao ar livre. No centro, uma mulher usa óculos de sol brancos, vestido rosa e uma capa transparente. À esquerda, um rapaz usa chapéu de cowboy e camisa aberta. À direita, outro rapaz veste uma camiseta listrada. Os três usam acessórios e roupas que remetem à moda alternativa dos anos 1990. Desenhado por Cathy Cooper, o figurino é um recorte primordial da história narrada (Foto: Strand Releasing/Trimark Pictures)

Victor Hugo Aguila

Poucas obras dos anos 1990 captam tão bem o sentimento de perturbação juvenil quanto The Doom Generation, de Gregg Araki. Lançado em 1995 e sendo o segundo filme da chamada Trilogia do Apocalipse Adolescente, o longa acompanha Amy (Rose McGowan), Jordan (James Duval) e Xavier (Johnathon Schaech) em uma viagem sem rumo por um Estados Unidos coberto por violência, consumo e moralmente falido.

Para além de uma narrativa de estrada, o filme funciona como um envoltório da quase parafilia cultural da década de 1990. Araki transforma ambientações comuns e ordinárias em cenários pop-distópicos, onde tudo é excessivamente colorido, sexual e artificial. A estética subversiva, os enquadramentos marcantes e a trilha sonora alternativa fazem com que o filme pareça a progênie perfeita entre um videoclipe da MTV e uma alucinação pós-apocalíptica. 

Uma das maiores forças da obra está na forma como ele dialoga com a cultura jovem da época. Se Tarantino brincou com a banalização do crime através da ironia com Pulp Fiction (1994), The Doom Generation eleva essa lógica ao absurdo da maneira mais divertida e deliciosa possível. A violência surge de maneira repentina e quase de forma caricata, evidenciando a típica geração do fim do século 20: anestesiada pelo excesso de imagens, notícias e consumo.

Três jovens estão em um carro durante o dia. Uma mulher dirige usando óculos de sol brancos, enquanto dois rapazes estão sentados ao seu lado. O painel do carro está cheio de objetos, embalagens e enfeites espalhados. A luz do sol entra pelo para-brisa e ilumina os personagens dentro do veículo.
A personalidade de Jordan se destoa do último personagem interpretado por Duval, o adolescente Andy de Totally Fuc**d Up (1993) (Foto: Strand Releasing/Trimark Pictures)

Um dos pontos essenciais no que tange a análise do filme parte da provocação nada eufemista do subtítulo: “A Heterosexual Movie by Gregg Araki”. Embora a trama apresente um triângulo amoroso aparentemente heterossexual, a tensão homoerótica entre Jordan e Xavier atravessa todo o roteiro. Destrinchando esse arco narrativo, é possível observar tal aspecto – apenas pelo viés da curiosidade – através das lentes da teoria de Eve Kosofsky Sedgwick, crítica norte-americana. Em seu livro Between Men (1985), Sedgwick nos mostra que muitas relações entre homens são estruturadas por uma continuidade entre amizade, rivalidade, admiração e desejo. Segundo ela, a sociedade ocidental tende a separar a heterossexualidade da homossexualidade de maneira rígida, mas, na prática, essas fronteiras são muito mais instáveis.

Em The Doom Generation, essa ideia se materializa na relação entre os personagens de Duval e Schaech. Inicialmente, o vínculo entre os dois pode ser interpretado como uma cumplicidade construída a partir das experiências na estrada. Entretanto, à medida que a narrativa avança, a intimidade emocional e física entre eles torna-se cada vez mais evidente, o que dificulta distinguir onde termina a amizade e começa o desejo. Gregg Araki, um dos principais nomes do movimento conhecido como New Queer Cinema, utiliza dessa mesma ideia de ambiguidade para questionar categorias rígidas de sexualidade e identidade.

Dois jovens estão sentados em um sofá em um ambiente iluminado por luzes vermelhas e roxas. Um deles está deitado de cabeça para baixo sobre o colo do outro, enquanto o rapaz sentado segura uma garrafa e olha para ele. A cena tem uma atmosfera tranquila e íntima, com iluminação suave e cores fortes.
A escolha das cores e texturas nas cenas corroboram a tensão sexual crescente da narrativa (Foto: Strand Releasing/Trimark Pictures)

Além disso, a cultura e os aspectos sociohistóricos não fogem dos detalhes. Os nomes dos protagonistas – Amy Blue, Jordan White e Xavier Red – remetem a cores da bandeira estadunidense, transformando os personagens em símbolos antagonistas ao ‘sonho de vida americano’. Ainda, a obsessão do filme por fast food, slogans e publicidades, por exemplo, funciona como uma crítica ao capitalismo tardio típico do pós-Guerra Fria. Essa sátira é algo presente também na obra Psicopata Americano (2000).

Apesar das referências e do ótimo roteiro, The Doom Generation não é para todos. Seu humor ácido e violência estilizada podem soar gratuitos ou até banais para determinados públicos. Há momentos em que o interesse de Araki recai na provocação do espectador, e não tanto em desenvolver seus personagens. Ainda assim, é justamente esse excesso que garante identidade à obra. Através do exagero e do caos, é como mergulhar na inquietação sob a estética e as cores vivas de um video game

Mais de trinta anos depois, o filme ‘heterossexual’ de Gregg Araki continua com uma visão surpreendentemente atual. Em uma era marcada por crises econômicas e políticas constantes, excesso de informação e sentimentos de alienação, os protagonistas transmitem a ideia niilista e atemporal presente na sociedade capitalista: estar conectados a tudo e não pertencer a lugar algum.

Deixe uma resposta