Toy Story 5, 6, 7, 8… até a gente cansar de brincar

Cena do filme Toy Story 5 Na imagem da animação, o personagem Woody está de costas, revelando a ausência de tinta no topo da cabeça, como se fosse uma calvície. Ele está vestindo um poncho vermelho, amarrado no pescoço, com algumas figuras em branco. Woody está apoiando seu chapéu de caubói em alguma superfície. Ele possui a aparência de um caubói, de pele clara e cabelos curtos e lisos na cor castanha.
Tom Hanks e Tim Allen retornam como as vozes originais de Woody e Buzz (Foto: Pixar)

Davi Marcelgo

Precisava?”, é dito por algum internauta quando é anunciada a quarta ou quinta sequência de uma franquia. Parece ser difícil compreender que esse é o modus operandi de Hollywood, mesmo que os trailers antes de Toy Story 5 começar revelem a situação da cidade dos grandes estúdios: live action de Moana, o próximo Homem-Aranha do Tom Holland e o terceiro capítulo da saga dos Minions. Diante disso, aceitamos amargamente a realidade em que filmes são às vezes mais mercadoria do que Arte e assim, talvez a gente consiga se divertir. Pode ser com A Era do Gelo: Mundo de Lava ou Street Fighter, dificilmente com a nova história dos brinquedos animados. 

Apesar de muitos fãs torcerem o nariz para Toy Story 4 por continuar uma trama que já havia recebido seu lindo fim no terceiro longa, ele ainda possui o propósito de encerrar a trajetória de Woody (Tom Hanks), fazer um estudo de personagem com uma bela alegoria sobre paternidade ao mesmo tempo que trazia a Betty (Annie Potts) de volta. Porém, não dá para dizer o mesmo do enredo comandado por Andrew Stanton, que deixa claro: é hora de parar. Lembra a cena em que os bonecos dão as mãos e aceitam o fim iminente? Então, dá para tirar boas lições disso. 

O longa seminal do 3D, perdão a Cassiopéia (1996), já discutia as implicações da tecnologia sob os artigos convencionais. O xerife era o velho e Buzz Lightyear (Tim Allen) o moderno, aquele que toda criança ia amar ter na coleção. O segundo filme trata do sufocamento das séries western da televisão após a ida do homem ao espaço e o ‘boom’ da ficção científica. No seguinte, Lotso (Ned Beatty) faz a turma perceber que são plásticos descartáveis só esperando a hora de ir para a lixeira, o que culmina na ciência que Woody adquire ao compreender que a vida pode ser muito maior do que pertencer a uma criança e reviver o mesmo destino para sempre. Toy Story 5 retoma essa amálgama para repetir o que público e personagens já entenderam; um tablet é a ameaça da vez, ora o boneco que voa um dia já foi também. 

Cena do filme Toy Story 5Na imagem de animação, a personagem Jessie está cavalgando em seu cavalo de pano na cor marrom, o Bala no Alvo. Em um cenário de crepúsculo, Jessie olha para trás com ternura. Ela é um brinquedo de pano com o rosto de plástico. De cabelos vermelhos e olhos verdes, ele veste uma roupa de vaqueira. Camisa branca e jeans claro com desenho de vaca malhada na parte da frente.
Jessie assume o protagonismo da franquia (Foto: Pixar)

É irônico como a animação é autoconsciente de sua natureza em alguns momentos, seja o Woody calvo e velho ou quando Amigo Rolinho (Conan O’Brien) diz que Jessie (Joan Cusack) é inútil. São adjetivos que representam muito bem esse capítulo. Não que esteja acontecendo aqui uma defesa por uma ideia de utilidade e propósito da Arte, mas será que devemos nos apoiar tanto nesse argumento quando falamos de uma empresa bilionária (se não mais do que isso) como a Disney? É reduzir o debate sobre liberdade criativa, esgotamento de ideias e a presença do público das salas de cinema em defesa de uma história nem tão boa assim e que não traz frescor algum. Não é um total desperdício e realmente tem cenas bem tocantes – como a Jessie encontrando as recordações de Emily –, afinal, ainda é Pixar e ainda é Toy Story

Entretanto, se Toy Story 4 pelo menos disfarça a sua existência promovida pelo capital, o roteiro de Andrew Stanton e Kenna Harris apenas confirma como não tem mais o que fazer com essa franquia enquanto ela estiver presa nas temáticas que começaram em 1995 e o quão covarde é trazer Woody de volta como se não houvesse dificuldades para o reencontro. A dupla de escritores faz um segundo núcleo, protagonizado por vários Buzzs perdidos em busca do Comando Estelar para serem usados meramente como ex-machina na história. Portanto, se o próprio filme propaga a ideia de propósito com seus personagens, por que a gente, como público, também não deveria? 

O tablet e toda a discussão sobre o isolamento das crianças nesse cenário de redução das brincadeiras no mundo real… dá um tempo, às vezes soa igual um filme publicitário e a Disney chegou tarde demais na conversa. Como tudo nessa vida, essa crítica tem prazo de validade e a opinião do sujeito que escreve pode mudar conforme o tempo e as vivências intercedem na formação de uma pessoa, mas o futuro de Jessie, Woody e todos os outros bonecos depende, claro, de seu sucesso nas bilheterias – afinal, falamos de um produto –, porém preso ao presente (ou passado) não dá para ter um veredito quanto a isso. No X (antigo Twitter), um usuário disse que o caminho para a franquia é se entregar às histórias paralelas que esse universo oferece. A solução apenas reproduz o comportamento atual: derivados de apostas seguras para o mercado. 

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