
Davi Marcelgo
Natal Amargo (2026) e Socorro! (2026), de Pedro Almodóvar e Sam Raimi, respectivamente, representam fases diferentes desses autores. Enquanto o espanhol demonstra uma nova direção há pelo menos uma década, começando por Julieta (2016), se distanciando do humor histérico e das cores vibrantes, o entusiasta do Terror fez um filme sóbrio sem as características que o definem. Ambos os cineastas já possuem uma carreira extensa e essas produções dialogam com a atual etapa da vida em que estão. Almodóvar pensa os limites da autoria e os dilemas do século XXI, da morte à crise climática, e Raimi elimina a autoria em prol de uma história. Steven Spielberg, descontente com os Estados Unidos, abandona, até certo ponto, as marcas de seus longas para construir Dia D.
O pai dos blockbusters já se aventurou por vários gêneros, e suas duas últimas obras, Amor, Sublime Amor (2021), uma releitura do clássico musical, e Os Fabelmans (2022), drama semiautobiográfico, apontavam para uma diferente e intimista fase do cineasta, o que não muda com seu novo filme, que regressa à familiar temática de alienígenas em nosso planeta, já vista anteriormente, mas de uma forma diferente quando comparada com Contatos Imediatos do Terceiro Grau (1977) e E.T. O Extraterrestre (1982). Na trama, Daniel Kellner (Josh O’Connor) foge de uma organização secreta enquanto tenta revelar a verdade sobre aliens para a população mundial.
Para contar a narrativa, Spielberg se apoia na linguagem do Cinema de ação e, por vezes, Dia D parece uma sequência de Missão: Impossível ou de um filme da Marvel, onde John Williams está possuído por Alan Silvestri em Vingadores: Guerra Infinita ao utilizar trompas e percussão nas composições. Alinhada a isso, a abertura de paletas azuladas compostas por reflexos de lente da câmera, filmada à noite, com uma história iniciada pela metade, se assemelha ao confronto de Thanos e Hulk em 2018. Assim, há um distanciamento entre o encenado aqui e o feito no século passado, quando a relação entre humanidade e ‘homens de marte’ era mais simples, uma fábula urbana protagonizada por crianças e ambientada em pequenos lares norte-americanos.

Spielberg opta por uma abordagem diferente, pois sua história – e seus personagens – ainda não haviam alcançado a fé necessária para crer no que está para ser revelado. Isto é percebido quando aqueles que não acreditam, ou são esquecidos pelo filme, como Jackson (Wyatt Russell), ou se resignam, como Jane (Eve Hewson) e Noah (Colin Firth) e, a partir disso, o diretor desabrocha a fantasia. Nesse momento, há uma emulação ao fazer Cinema de Shyamalan, da fabulação que envolve animais, de A Dama na Água (2006), aos agroglifos de Sinais (2002) – algo encantador, visto que Shy foi comparado ao veterano no início da carreira.
Regressar aos contos de fadas é a forma como o cineasta retoma a crença infantil e tece seus comentários sobre o cenário da política estadunidense. Dia D não é o único a ser influenciado por essas narrativas, Contatos Imediatos do Terceiro Grau e A.I. – Inteligência Artificial (2001), por exemplo, executam intertextualidade com Pinóquio. O clássico escolhido aqui é O Mágico de Oz, porém mais alinhado com o longa de 1939 do que propriamente ao romance de L. Frank Baum, pela localidade escolhida: Kansas City. Se Kansas representava uma âncora para Dorothy (Judy Garland) em meio à Grande Depressão, no texto de David Koepp, o lugar surge como Têmis, onde a verdade deve prevalecer e ser divulgada. Dorothy atravessa a estrada de tijolinhos amarelos para regressar a Kansas, enquanto Margaret (Emily Blunt) e Kellner enfrentam seus próprios percalços na tentativa de voltar para lá.

Os dois personagens funcionam como panteões da verdade e da esperança. Kellner, desde o início, tem como plano divulgar para o mundo os dados obtidos. Em meio aos arquivos do Caso Epstein e a tentativa de abafar o escândalo pelo governo de Donald Trump, ao divulgar material sobre OVNI, o abandono das marcas de autoria de Spielberg e seu retorno a partir do surgimento de uma verdade que expõe crimes cometidos pelos Estados Unidos, é um manifesto da visão do diretor sobre seu país. Inclusive, um jornal televisivo ser o epicentro da difusão dessas informações se opõe ao tratamento que a imprensa recebe pela gestão Trump e aos ataques que adjetivam os profissionais do jornalismo como “mentirosos”.
Assim, o diretor de fotografia Janusz Kamiński enquadra os protagonistas em volta de luzes ou com elas acima de suas cabeças, como as pinturas de iconografias cristãs, afinal a luz deles removerá a humanidade de uma escuridão de mentiras. Alguns elementos da narrativa são eficientes para tatear a temática de crença que envolve o filme. Sejam as freiras e a presença de cruzes ou a profissão de Margaret, meteorologista, que apesar de trabalhar com previsões por meio da coleta de dados para adivinhar o clima, ainda se baseia no acreditar. É acreditar que a previsão está correta, que hoje vai chover.
O que Steven Spielberg tem em comum com Almodóvar? Além de um filme semiautobiográfico no currículo, a necessidade de discutir questões de nosso tempo. Com Sam Raimi? A noção de que uma história às vezes pede o assassinato de suas marcas. Com Shyamalan? A inocência das crianças. Dia D é uma exploração das temáticas familiares para o diretor e para os americanos, mas vista de uma maneira diferente, imprimindo as dores do século XXI em um filme que não pode ser igual aos de outrora. Os tempos mudaram.
