Garota, Mulher, Outras e a sonoridade de cada pessoa

Capa do livro Garota, Mulher, Outras. A capa do livro apresenta um desenho de uma mulher negra que veste uma roupa preta e cinza estampada com flores e plantas. A mulher possui olhos pretos e cabelos pretos curtos, e usa ainda um brinco de pérola. O título do livro está no canto inferior direito em branco, e o nome da autora, Bernardine Evaristo, está na cor verde água. O cenário atrás da mulher é uma parede verde com estampa de folhas, e uma moldura de quadro. O selo da editora, Companhia das Letras, está em escritos brancos no canto superior esquerdo.
Garota, Mulher, Outras foi trazido ao Brasil pela Companhia das Letras com a cuidadosa tradução de Camila Von Holdefer (Foto: Reprodução)

Isabella Siqueira

A partir de uma narrativa quase poética e única, Garota, Mulher, Outras já pode (e deve) ser considerado um clássico da literatura britânica. Sua autora, Bernardine Evaristo, traça com cuidado as histórias de 12 protagonistas diferentes, que são ligadas por um fio condutor que compreende todo o século XX no Reino Unido. Indo além da riqueza de referências culturais, políticas e sociais que a obra apresenta, é no âmbito sentimental que a trama floresce.

Continue lendo “Garota, Mulher, Outras e a sonoridade de cada pessoa”

O ódio que você semeia: uma história sobre o preço de ser preto hoje em dia 

Fotografia do livro O ódio que você semeia, em formato brochura e com a capa na cor branca com a atriz Amandla Stenberg na capa, segurando um cartaz com o título do livro. Amanda é uma mulher negra, com cabelos pretos e longos, ela veste um moletom vermelho, uma calça escura e tênis brancos. Ao lado do livro, há uma xícara de café e flores vermelhas ao lado; é possível ver a lombada de outro livro, com o título A Hora da Virada.
Angie Thomas inspirou-se em Oscar Grant para criar o personagem Khalil; ele era um negro de 22 anos, assassinado a tiros no Ano Novo, em 2009, por um policial de trânsito de Oakland (Foto: Reprodução)

Kayane Cavalcante 

Em um mundo que rotula as pessoas, que as faz se sentirem estranhas, mal vistas e menosprezadas por serem quem são, levantar sua voz e usá-la como uma arma é um ato de coragem. Nesse contexto, o livro O ódio que você semeia, da magnífica autora afro-americana Angie Thomas, me deu uma lição que vou levar pelo resto da minha miserável vida de leitora, que é: minha voz é importante e não devo permitir que alguém tente me silenciar, pois quando nos calamos permitimos que um ciclo de injustiças criado pela sociedade elitizada continue e evolua. Assim, quando vamos às ruas em manifestações e escrevemos tweets cobrando pelos nossos direitos como seres humanos,  estamos quebrando esse ciclo preconceituoso que já dura séculos.

Continue lendo “O ódio que você semeia: uma história sobre o preço de ser preto hoje em dia “

Precisamos conversar sobre o polêmico O Duque e Eu, de Julia Quinn

descrição visual: fotografia de 3 versões de capas de O Duque e Eu. No meio, um livro rosa com uma pintura de uma debutante lendo; à direita, outra versão com duas fotografias de uma jovem no estilo de época e de uma casa no campo; e outra no canto direito, atual capa do livro com o casal da adaptação da série, sendo eles um homemnegro de terno preto posicionado de perfil e uma mulher branca, com cabelos ruivos, olhos claros e um vestido granco, com o corpo de perfil e o rosto para frente.
O Duque e Eu foi publicado aqui no Brasil pela Editora Arqueiro com tradução de Cássia Zanon (Foto: Reprodução)

Juliana Dal Ri Galina

Mesmo com o sucesso da série Bridgerton, da Netflix, criada por Chris Van Dusen e produzida por Shonda Rhimes, a autora Julia Quinn já era muito recebida e aclamada por fãs ao redor do mundo. A coleção, contendo nove livros, apresenta romance numa idealizada aristocracia londrina por volta de 1800. Com um extra, cada conto foca em um dos 8 jovens da família. No entanto, hoje vamos levar em pauta o primeiro e mais querido da escritora, O Duque e Eu.

Continue lendo “Precisamos conversar sobre o polêmico O Duque e Eu, de Julia Quinn”

Você tem medo de quê?

Capa do livro Uma lista (quase) definitiva de piores medos. A capa é representada pelo título do livro escrito numa fonte cursiva em caixa alta em branco sob e um fundo lilás. No alto da lateral direita, existe uma lagosta e no lado direito, a mão de um esqueleto entre as letras. O nome da autora está escrito em preto, também numa fonte cursiva em caixa alta, no canto inferior direito da capa.Do lado esquerdo, uma prancheta rosa com estampa de poá colorido, com os dizeres lagostas, mariposas, raios, em preto numa fonte cursiva, em caixa baixa. Acima da prancheta, há uma luminária quadrada, preta, com pequenas luzes em seu interior. No lado direito do livro e embaixo, há flores em tons de rosa, roxo e branco. Os objetos estão posicionados sob um tapete felpudo cinza.
Uma lista (quase) definitiva de piores medos é o segundo livro de Krystal Sutherland, autora de A Química que Há Entre Nós (Foto: Reprodução)

Letícia Paviani

Você, caro leitor, já se sentiu paralisado de medo diante alguma dificuldade ou de algo que te assustou tanto, mas tanto, que você se sentiu fora do controle de sua própria vida? Bem, eu sempre me sinto assim quando vejo uma barata… Mas Esther Solar, bem, Esther Solar vive com medo… 

É possível alguém viver à mercê do próprio medo? Bom, os Solar, centro de Uma lista (quase) definitiva de piores medos, vivem… Todos os Solares. E quando eu digo todos, quero dizer a família inteira. O pai de Esther tem agorafobia. O irmão, medo do escuro. A mãe, medo do azar. O avô, de água. E assim ocorre com toda a árvore genealógica de Esther. Menos ela. Porque Esther tem medo do próprio medo, se é que vocês me entendem.

Continue lendo “Você tem medo de quê?”

Skyward: uma jornada arrebatadora pelas estrelas

Ilustração de capa do livro Skyward. No centro da ilustração vemos uma garota de cabelos soltos, de costas e olhando para o céu. Ao redor, há vários destroços de espaçonave. Mais acima uma nave corta os céus, deixando um rastro branco, rumo a um céu estrelado. Toda a ilustração é composta por tons diferentes de cinza e preto.
“Conquiste as estrelas, Spensa” (Foto: Reprodução)

Beatriz Sabino

Brandon Sanderson, autor da renomada série de livros Mistborn, surpreendeu o público mais uma vez trazendo uma space-opera com protagonismo feminino jovem, muitos alienígenas, frases históricas e guerras no espaço. Skyward é seu livro de estreia nesse subgênero da ficção científica que marcou gerações, tendo como exemplo: Star Wars, Duna (livro de Frank Herbert) e a mãe da fanzine: Star Trek. Geralmente, essas obras possuem batalhas espaciais épicas que ignoram as leis da física, jornadas a inúmeros planetas exóticos, alienígenas parecidos com os seres humanos e, claro, um protagonista invencível. Mesmo fazendo parte desse grupo de histórias, a narrativa de Sanderson tem um pouco menos opera, e mais space.

Continue lendo “Skyward: uma jornada arrebatadora pelas estrelas”

Os 60 anos de Chico Bento e a religiosidade do Brasil profundo

Desenho de um quadro das histórias do Chico Bento. A personagem Chico Bento ajoelha-se, rezando e chorando, enquanto seus pais olham preocupados.
Desolado pela maldade humana, Chico (ch)orou (Foto: Chico Bento, 144ª Edição, Editora Globo, 1992)

Carol Dalla Vecchia e Mateus Conte

A década de 60 no Brasil foi tortuosa. Naquela época, o país vivia uma crise política sem precedentes: a posse e repentina renúncia de Jânio Quadros abalava as bases democráticas da nação. Enquanto isso, a mil quilômetros do centro do planalto vazio, um ex-repórter policial iniciava uma das suas criações mais memoráveis.

Começos raramente são pomposos. Não foi diferente com o interiorano Mauricio Araújo de Sousa, convidado pela conhecida Cooperativa Agrícola de Cotia para desenvolver uma nova obra dos quadrinhos: os caipiras Zezinho e Hiroshi. Hiro, como é conhecido, representava os funcionários e familiares da CooperCotia, formada quase exclusivamente por isseis e nisseis. Dois anos depois, surgia o hoje famoso Chico Bento. Ou seja, ainda que Francisco Antônio Bento tenha surgido apenas em 1963, sua turma nasceu há exatos 60 anos. 

Continue lendo “Os 60 anos de Chico Bento e a religiosidade do Brasil profundo”

Shirley‌ ‌é‌ ‌a‌ ‌angústia‌ ‌de‌ ‌mulheres‌ ‌geniais‌ ‌em‌ ‌um‌ ‌mundo‌ ‌de‌ ‌homens‌ ‌medíocres

Cena do filme Shirley. A esquerda, Elizabeth Moss, uma mulher branca de 38 anos, está de perfil olhando para a direita. Ela usa uma blusa branca de mangas compridas e seu cabelo é loiro e comprido e está solto. Ela segura com a mão direita o rosto de Odessa Young, uma mulher branca de 23 anos. Odessa também está de perfil, seu rosto está levemente levantado. Ela usa uma blusa vermelha. Seu cabelo é castanho claro e está solto. No fundo, há árvores.
Uma cinebiografia de Shirley Jackson não funcionaria sem um pouco de suspense (Foto: Reprodução)

Caroline Campos

Quando a Netflix lançou A Maldição da Residência Hill em 2018, Shirley Jackson voltou aos trendings 53 anos após sua morte por insuficiência cardíaca. A grandiosa série de Mike Flanagan adaptou o romance mais infame da carreira de Jackson, A Assombração da Casa da Colina, escrito em 1959 e, hoje, considerado uma das maiores obras de terror do século XX. Em 2020, foi a vez da própria autora ganhar uma adaptação de sua vida conturbada, dessa vez pelas mãos habilidosas de Josephine Decker e com produção executiva de Martin Scorsese. Shirley, que conta com o protagonismo de Elizabeth Moss, é uma biografia desconfortável de uma mulher assustadora – no melhor dos sentidos. 

Continue lendo “Shirley‌ ‌é‌ ‌a‌ ‌angústia‌ ‌de‌ ‌mulheres‌ ‌geniais‌ ‌em‌ ‌um‌ ‌mundo‌ ‌de‌ ‌homens‌ ‌medíocres”

Uma celebração dos 50 anos de Gillian Flynn e de suas mulheres perturbadoras

Foto em preto e branco da autora Gillian Flynn. Ela é uma mulher de 50 anos branca com cabelos castanhos na altura do ombro, usando um longo vestido branco sem mangas. Gillian Flynn está sentada em uma poltrona de vime, com as mãos entrelaçadas e algumas plantas no fundo. Olha diretamente para a câmera, e está sorrindo sem mostrar os dentes.
“É uma fascinação minha: assassinato, traição, vingança, engano, loucura — todas as minhas coisas favoritas” (Foto: M. Spencer Green)

Carol Dalla Vecchia e Layla de Oliveira 

“Eu estou falando de mulheres violentas, perversas. Mulheres sinistras. Não me diga que você não conhece algumas”. Com dificuldades de se enturmar por conta de sua timidez, a jovem Gillian Flynn encontrou uma fuga na leitura e na escrita, o que a levou a cursar Jornalismo na Universidade do Kansas (KU). Uma vez formada, ela planejava se tornar repórter policial, no entanto, percebeu que era desajeitada para o ramo criminal por querer que toda história tivesse um começo, meio e fim. Assim, começou a trabalhar na Entertainment Weekly, escrevendo críticas de cinema e TV por dez anos.

Continue lendo “Uma celebração dos 50 anos de Gillian Flynn e de suas mulheres perturbadoras”

Solução de Dois Estados: um país onde não existe reconciliação

A imagem contém a capa do livro, e a versão dela sem o título a frente. Baseada na obra Carteira de Identidade (Auto Polegar Direito), do artista Rubens Gerchman, a capa é verde escura, com um rosto estampado em vermelho escuro, e com o nome do livro e do autor em letras brancas grandes, ao lado está a capa sem as palavras, e o rosto possui tom mais alaranjado.
Com o título como referência ao falho projeto de coexistência entre Israel e Palestina, o romance trata de uma relação familiar conturbada sem uma reconciliação eminente (Foto: Reprodução)

Isabella Siqueira

Dispensando sutilezas e panos quentes, Michel Laub escancara o Brasil com maestria em Solução de Dois Estados. Lançado em outubro de 2020, o premiado escritor traça uma narrativa sobre um problema familiar e privado para abranger todo o ódio existente entre dois lados opostos, mas igualmente raivosos e ressentidos. Apesar das primeiras impressões quanto a sinopse carregada, onde o primeiro pensamento é menos é mais, chega-se à conclusão de que seus exageros são carregados de verdades.

Continue lendo “Solução de Dois Estados: um país onde não existe reconciliação”

Daisy Jones & The Six é a banda que queríamos que existisse

A imagem é uma colagem de diversas capas de álbuns rasgadas. No centro, a capa de Daisy Jones & The Six está escrita em letras pretas, e embaixo está o rosto de uma mulher branca com nariz fino e batom vermelho.
Figuras como Janis Joplin amariam ser amigas de Daisy Jones e Billy Dunne (Foto: Caroline Campos)

Caroline Campos

O mundo nunca foi tão caótico e subversivo quanto nas ruas e bares de Los Angeles em plenos anos 70. Se você estivesse procurando um bom lugar para curtir um som, se drogar ou tentar virar uma estrela internacional, era para lá que você se dirigia. E foi na cidade das estrelas que nasceu uma das maiores bandas de rock ‘n roll que o mundo já havia conhecido: Daisy Jones & The Six. Apesar do premiado e polêmico grupo só poder ser encontrado nas 360 páginas escritas por Taylor Jenkins Reid e traduzidas por Alexandre Boide, sua música e trajetória ecoam por um bom tempo na cabeça dos leitores, e passamos a desejar que tudo não fosse apenas ficção.

Continue lendo “Daisy Jones & The Six é a banda que queríamos que existisse”