Jogar a obra prima de Brontë na fogueira foi só o início, a ‘não adaptação’ de Emerald Fennell entrega quase nada além da estética

Aviso: O texto contém spoilers

Cena de “O Morro dos Ventos Uivantes” Heathcliff, um homem branco de roupa preta de época, encosta-se à parede segurando uma bengala e olha para o lado. Ao seu lado, Catherine, uma mulher branca e loira, atravessa a porta usando um vestido volumoso vermelho brilhante com mangas brancas bufantes. O ambiente é o interior de uma casa com portas brancas e paredes brancas.
Em “O Morro dos Ventos Uivantes”, Emerald Fennell se aproveita de parcerias anteriores, tanto em cena, como nos bastidores (Foto: Warner Bros)

Mariana Bezerra

O novo filme de Emerald Fennell, diretora de Saltburn (2023) e Bela Vingança (2020), provocou agitação nas redes sociais desde o primeiro anúncio. Inspirado no homônimo clássico da literatura inglesa de Emily Brontë, publicado em 1847, o nome na direção gerou estranheza, afinal, a diretora é conhecida pela estética e erotismo extravagantes, que pouco conversam – ao menos à primeira vista – com o estilo gótico do livro. No entanto, foi o anúncio do elenco que aqueceu o debate: Jacob Elordi foi escalado para interpretar Heathcliff, um personagem descrito como não branco – cuja etnia é incerta – e a sua cor e origem são motivos de uma série de abusos, que o tornaram um homem cruel e violento.

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Um espelho quebrado por expectativas: A complacência de Taylor Swift em The Life of a Showgirl

Capa de álbum com a cantora Taylor Swift submersa em uma água de cor turquesa. Ela está olhando diretamente para a câmera com uma expressão confiante e usa um traje prateado e brilhante, cravejado de joias, no estilo de uma showgirl. A imagem tem um efeito de colagem ou de espelho quebrado, com pedaços da cena repetidos nas bordas. Sobreposto à imagem, o texto "THE LIFE OF A SHOWGIRL" aparece em uma fonte grande, laranja e com textura de glitter.
O novo trabalho de Taylor Swift retorna com produções pop e colaborações familiares (Foto: Mert Alas & Marcus Piggott)

Arthur Caires

O principal objetivo do marketing pode ser ao mesmo tempo o seu maior erro: as expectativas. Quando o público recebe algo diferente do que imaginava, a frustração se torna a primeira e mais duradoura impressão, exatamente o que ocorreu com The Life of a Showgirl, décimo segundo álbum de estúdio de Taylor Swift. Ao evocar 1989 (2014) e reputation (2017) como referências e complementar a campanha com ensaios fotográficos deslumbrantes, a artista criou a promessa de um retorno grandioso. Ao deixar Jack Antonoff e Aaron Dessner de lado, a reunião com Max Martin e Shellback apenas intensificou essa expectativa. Swift já provou que sabe juntar batidas intensas com letras inteligentes, o que torna ainda mais evidente a sensação de decepção diante da simplicidade e falta de senso do novo disco.

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Em Beautiful Chaos, KATSEYE transforma o caos em beleza pop

As integrantes de KATSEYE posam sobre cinco carros antigos, vistos de cima, em um cenário de ferro-velho ao ar livre. Cada uma está em uma posição diferente: deitadas no capô, sentadas ou reclinadas. O contraste de cores dos carros (verde, amarelo, prata, azul e rosa) e o solo cru transmitem a ideia de desordem estética. “Beautiful Chaos” aparece em amarelo no canto esquerdo, enquanto no direito está também em amarelo o nome do grupo
Beautiful Chaos é o segundo EP do KATSEYE e já nos mostra o porquê do grupo ser uma promessa no pop (Foto: HYBE)

Stephanie Cardoso

Se você esteve online nos últimos meses, com certeza já ouviu alguma música do EP Beautiful Chaos. Com letras viciantes e batidas barulhentas, as canções do projeto vem tomando conta das redes sociais e conquistando cada vez mais espaço no cenário musical. Mostrando que o KATSEYE não quer apenas pertencer ao pop global quer moldá-lo.  Continue lendo “Em Beautiful Chaos, KATSEYE transforma o caos em beleza pop”

Em I quit, HAIM questiona se os relacionamentos ainda fazem sentido na modernidade líquida

 

Fotografia em formato quadrado. No centro, Danielle Haim aparece com um vestido azul de paetês, segurando uma placa eletrônica vermelha com a frase “I quit” em letras minúsculas. Ela está atrás de um vidro, com reflexos de luz e objetos ao redor. Ao fundo, as irmãs Alana e Este observam a cena em segundo plano. O ambiente é uma loja com paredes envidraçadas, diplomas e prêmios expostos em prateleiras.
Em I quit, HAIM troca a superação melodramática por uma rendição consciente (Foto: Polydor Records)

Arthur Caires

Desistir já foi sinônimo de fraqueza. Era o verbo da derrota, da frustração, daquilo que não deu certo. Mas, aos poucos, entendemos que tem coisas que simplesmente não merecem o nosso esforço. Tem causa que é melhor abandonar do que insistir. E tem relações, fases e até versões de nós mesmos que precisam ficar para trás. É nesse espírito que HAIM lança I quit, uma coleção de músicas que se recusa a dramatizar e escolhe simplesmente seguir em frente.

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Há 5 anos, Charli XCX mostrava seus sentimentos mais profundos em how i’m feeling now

 

Foto da capa do álbum how i’m feeling now da Charli XCX. Ela está deitada em uma cama com lençóis brancos, usando roupas íntimas brancas, segurando e olhando para uma câmera de filmagem. No canto esquerdo está escrito o nome do álbum verticalmente.
Em 2024, Charli XCX ganhou seu primeiro Grammy com seu último álbum Brat (Foto: Warner Music UK Limited)

Isabela Nascimento 

Em maio de 2020, no meio da pandemia do coronavírus, a cantora britânica resolveu criar um álbum e documentar o processo criativo inteiro, enquanto relatava sobre a experiência de estar isolada da sociedade. “Como eu estou me sentindo agora“, tradução do título em português, contém 11 faixas que navegam em seus sentimentos mais íntimos. O reacender de uma paixão, a insegurança consigo mesma e com a sua carreira e as aflições de estar sozinha. Esse seria o primeiro disco que a artista abordaria de maneira profunda suas emoções, dando início a uma nova era de produções mais pessoais e cruas da Charli XCX.

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Lorde morre simbolicamente em Virgin só para experimentar a ressurreição

 

A capa do álbum Virgin é uma imagem de raio-X em tons de azul, mostrando uma pelve humana feminina em posição frontal. No centro da imagem, há um zíper e uma fivela metálica sobrepostos digitalmente à imagem anatômica, além da presença de um DIU (dispositivo intrauterino) visível no útero. A composição evoca temas de feminilidade, exposição e controle do próprio corpo, reforçando o caráter visceral e simbólico do álbum.
Corpo como território, imagem como manifesto (Foto: Republic Records)

Arthur Caires

Existe algo desconfortável – e, por isso mesmo, vital – em se olhar no espelho com sinceridade. Não o reflexo rápido do dia a dia, e sim aquele olhar demorado, que tenta entender não só o que mudou, porém o que ainda pulsa por baixo da pele. Às vezes, esse exercício traz mais dúvidas do que respostas. O corpo pesa, a cabeça gira, e o que era certeza vira angústia. Ainda assim, há algo de libertador em se permitir esse mergulho: abandonar o automático, a complacência. O caos, quando acolhido, pode ser mais revelador do que qualquer solução conveniente.

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Overcompensating: quando um millennial tenta sair do armário em 2025 com referências de 2015

Imagem promocional da série Overcompensating. A foto mostra um close-up de um grupo de seis jovens adultos, em um ambiente colorido. A perspectiva é ligeiramente distorcida, como se fosse tirada de baixo para cima, e a cena é vibrante e caótica, com confetes coloridos espalhados sobre eles e no ar. No centro, Benny, um jovem de camiseta esportiva branca olha para cima com uma expressão de surpresa. Ao redor dele, os outros cinco o encaram ou olham para a câmera com expressões variadas: à esquerda, Carmen, uma jovem de cabelo escuro e blusa verde tem um olhar preocupado; acima, Gabe, um jovem de jaqueta amarela olha intensamente para a câmera; à direita de Benny, Miles, um jovem também encara a câmera com seriedade. Na parte inferior da imagem, há Hailee, uma jovem loira com a boca aberta, e outra jovem loira, Grace, com um olhar sério e direto, e um jovem, Peter, com bigode fino e um boné vermelho virado para trás. A iluminação é quente e difusa, com luzes desfocadas ao fundo, reforçando a atmosfera de festa.
O cartaz de Overcompensating é praticamente um ctrl c + ctrl v de Skins. E isso, honestamente, já diz muita coisa sobre a série (Foto: A24/Amazon MGM Studios)

Arthur Caires

A comédia dramática Overcompensating parte de um lugar muito pessoal: nasceu como uma esquete nas redes sociais do comediante Benito Skinner, baseada em sua experiência como um adolescente tentando mascarar sua sexualidade por meio de uma performance hipermasculina. O que começou como piadas sobre gostar de Gossip Girl enquanto fingia adorar futebol americano evoluiu para um show de stand-up e, finalmente, chegou ao streaming pelas mãos da A24 e Amazon MGM Studios. Agora, transformado em uma série de oito episódios com produção executiva de Charli XCX e roteiro comandado por Scott King (Mad TV), a produção tenta se decidir entre ser uma paródia de seriados da década de 2000 ou um coming-of-age tardio em meio à referências do TikTok. Continue lendo “Overcompensating: quando um millennial tenta sair do armário em 2025 com referências de 2015”

Os Melhores Discos de 2024

2024 foi o ano das mulheres, seja no pop, no rap ou no country (Texto de abertura e edição: Guilherme Veiga e Laura Hirata-Vale/Arte: Rafael Gomes)

Por mais impossível que pareça, até que dá para passar um ano inteiro sem ver filmes, ou até mesmo perder a temporada daquela única série que você assiste, mas experimenta ficar esse mesmo período sem Música? É praticamente impensável. E não há como fugir disso, se correr o bicho pega, se ficar o bicho come. Ela está lá, no carro da rua que passa tocando o hit do carnaval; no verão ensolarado é ela quem dá o clima; nos corações partidos, o primeiro ombro amigo vem de seus acordes e nas comemorações; é ela que intensifica a euforia.

Em 2024 não foi diferente, pra onde você olhava, havia Música, e melhor, ela fazia história. No ano marcado pela ‘treta’ de Drake e Kendrick, ponto para o rapper de Compton, que, além de fazer o mundo inteiro trucidar seu oponente, ainda teve as honrarias máximas reconhecidas pela indústria. Em outra briga, dessa vez, menos sanguinária, Taylor Swift e suas várias versões do antológico THE TORTURED POETS DEPARTMENT batia de frente com quem ameaçasse seu pódio nos charts.

Mas não há como negar que foi o ano delas. O mundo foi pintado de verde pela efervescência de Charli xcx. A própria Swift ampliou ainda mais seu império, mas foi outra ‘loirinha’ – mais irônica e com intenção de instigar – que mostrou seu lado curto e doce para os holofotes. Foi o ano das também das voltas; uma veio a galope para reivindicar a música country, enquanto outra saiu do crepúsculo de seu hiato para alvorecer com sua voz de fada e pop de gente grande; enquanto o terror dos primos nos almoços de família, Billie Eilish, chegou como quem não quer nada e nos afogou em suas questões e genialidade.

Como em todo ano e já de praxe nessa Arte, foi a diversidade que dominou. Enquanto POCAH reconta sua história através de todas as suas versões, Twenty One Pilots dava um fim (?) para a sua. Se o The Cure voltou depois de 16 anos para o reino da tristeza com um álbum de inéditas, Rachel Chinouriri estreou abordando a mesma tristeza quase que com uma autopiedade cômica. Tyler, The Creator voltou com o pé na porta, já Gracie Abrams chegou com tudo. Luan Santana cantou amor, enquanto Duda Beat cantou tesão. Linkin Park entoou novamente o gutural típico do nu metal, diferente de Adrianne Lenker, que murmurou sentimentos doloridos.

Mas uma coisa é certa, mais uma vez a já tradicional lista de Melhores Discos retorna do jeito que é. No ano em que perdemos Liam Payne, o Persona segue uma direção: usar da Música e das Artes no geral para lembrar quem somos e discutir quem podemos ser.

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A subversão em camadas de Brat and it’s completely different but also still brat

Capa do álbum de remixes de brat. Imagem quadrada com fundo verde vibrante contendo texto em preto, exibido de forma invertida (espelhada). A frase é: 'Brat and it's completely different but also still Brat', traduzindo-se para 'Brat e é completamente diferente, mas ainda assim Brat'.
Em entrevista à Apple Music, Charli XCX revelou que o motivo da simplicidade da capa de Brat foi para economizar na sessão de fotos (Foto: Atlantic Records)

Henrique Marinhos

Não é novidade que ‘ser brat’ é sobre quebrar regras. Charli XCX não só entende isso como vive essa filosofia há um bom tempo. Brat and it’s completely different but also still brat é paradoxal e só poderia ser assim. A coletânea de remixes – se é que podemos definir assim – não se trata da adição de versos ou uma versão estendida; é uma desconstrução completa do álbum original, completamente diferente e, ainda assim, brat.

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BRAT não reinventa a roda, ele queima pneu

Capa do álbum brat, da cantora Charli xcx. A capa é totalmente verde neon com o escrito “brat” em letras minúsculas, em preto e pixeladas.
Uma jogada de marketing e tanto: qualquer um pode fazer o que quiser com o conceito de BRAT em bratgenerator.com (Foto: Atlantic Records)

Henrique Marinhos

Provando por ‘A+B’ que opera nas margens do mainstream, não por falta de talento ou oportunidade, mas porque simplesmente quis assim, Charli XCX tornou-se uma força motriz na Arte contemporânea. Um álbum. Um movimento. Um estilo de vida. BRAT é quase inadjetivável e não tem espaço para introspecções ou profundidades poéticas excessivas. É o agora.

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