Mr. Scorsese e a arte de amar os pecadores

Retrato em preto e branco de Martin Scorsese, visto de perfil, já mais velho, usando chapéu e sobretudo escuro. Ao fundo, uma rua iluminada com paredes texturizadas, sugerindo um ambiente urbano.
Aplaudida de pé no Festival de Cinema de Nova York, série revisita o lendário trabalho de um dos diretores mais aclamados da história. (Foto: AppleTV)

Gabriel Quesada  

Na seção Apresentação Especial da 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, a série documental de cinco episódios da Apple TV+, com direção de Rebecca Miller, abre com uma colagem de cenas dirigidas por Martin Scorsese ao som de Sympathy For The Devil (ou “empatia pelo diabo”) dos Rolling Stones, afinal, estamos falando de um diretor com fascínio pela violência (tema que, por vezes, lhe rendeu algumas polêmicas na carreira). Além disso, a obra viaja para a infância do cineasta para entender de onde aquele rapazinho asmático de apenas um metro e sessenta tirava tanta braveza. 

Continue lendo “Mr. Scorsese e a arte de amar os pecadores”

No aniversário de 80 anos, Laura, de Otto Preminger, mostra o poder da imagem

Cena de Laura. O filme é em preto e branco. O cenário é o interior de uma casa. À direita está o detetive McPherson, ele usa um sobretudo claro e um chapéu escuro. Ele está olhando para o quadro na esquerda da tela, pendurado na parede, com o rosto impassível. O quadro é uma pintura da personagem Laura. Ela está usando um vestido preto até a altura do peito, deixando seus ombros e braços expostos. Sua cabeça está um pouco inclinada para o ombro esquerdo. O fundo da imagem é um degradê preto e branco, com o preto ao fundo e o branco contornando Laura, dando um aspecto dramático.
Laura foi lançado em 1944, porém chegou ao Brasil em Janeiro de 1945 (Foto: 20th Century Studios)

Guilherme Moraes

O assassinato de uma moça acontece; um detetive escava a vida dela, a fim de descobrir quem é o culpado. Nessa investigação, o policial acaba por perceber que a maioria dos homens na vida dela a amava. Sem se dar conta, ele se apaixona também, apenas pelos resquícios da existência de Laura Hunt (Gene Tierney). Laura (1944), de Otto Preminger, é mais um dos grandes filmes da história que, apesar de ser inevitavelmente uma representação de seu tempo, se torna mais atual a cada revisão.

Continue lendo “No aniversário de 80 anos, Laura, de Otto Preminger, mostra o poder da imagem”

O Mal não dorme no aniversário de 70 anos de O Mensageiro do Diabo

Cena de O Mensageiro do Diabo. O cenário é de um quintal. No centro da imagem está Harry Powell, com seu chapéu preto, uma camisa branca por baixo do terno preto. Ele está com as mãos em um corrimão de madeira. A esquerda está na parte inclinada e a direita na divida entre a parte inclinada e reta. Na sua mão direita está escrito LOVE, com uma letra em cada dedo, e na esquerda está escrito HATE, também com uma letra em cada dedo.
O Mensageiro do Diabo foi o único filme de Charles Laughton como diretor (Foto: United Artists)

Guilherme Moraes

O Mensageiro do Diabo (1955) de Charles Laughton é uma obra estranha dentro da Era de Ouro de Hollywood. Criado na transição para o Cinema Moderno, o filme preserva certos elementos que podem caracterizá-lo como Cinema Clássico, mas também conserva particularidades capazes de colocar isso em questão. Há fortes inspirações no Expressionismo Alemão, além de não conseguir se eternizar como seus pares de Hollywood – muito provavelmente porque o diretor não seguiu carreira atrás das câmeras após o fracasso de público e crítica. Em um mar tomado por John Ford, Orson Welles e Howard Hawks, não houve espaço para Charles Laughton. Entretanto, 70 anos depois, é preciso reconhecer a obra-prima única do inglês sobre dois orfãos, uma boneca, um padre e dez mil dólares. Continue lendo “O Mal não dorme no aniversário de 70 anos de O Mensageiro do Diabo”

Tron: Ares comete o mesmo erro da franquia e entrega uma trama mediana

Cena do filme “Tron: Ares”. Na imagem vemos uma pessoa vestida com uma espécie de macacão e capacete ambos pretos. Ela encontra-se ao centro da foto, em cima de uma moto também na cor preta com rodas avermelhadas. Em sua mão carrega um triângulo preto e vermelho, ao fundo é possível ver grandes prédios representando uma cidade.
Tron: Ares brilha em vermelho neon com sua estética futurista (Foto: Disney)

Vitória Borges

Tron: Ares é o terceiro filme da franquia de ficção científica iniciada nos anos oitenta pelo cineasta Steven Lisberger, que revolucionou e introduziu a tecnologia e o universo digital para as telas do cinema. Agora em 2025, a nova produção do diretor norueguês Joachim Rønning marca uma nova fase da trama, abordando a interação entre o ser humano e a Inteligência Artificial nos dias de hoje.

Continue lendo “Tron: Ares comete o mesmo erro da franquia e entrega uma trama mediana”

Mountainhead: um filme mais interessado em parecer inteligente do que em o ser, assim como os bilionários

Corte da capa do filme “Mountainhead”, dirigido pelo diretor Jesse Armstrong. Na foto, quatro homens estão em frente a uma grande janela panorâmica que revela uma montanha coberta de neve. Eles usam roupas modernas e são iluminados pelo fogo da lareira atrás deles. As expressões sérias passam uma atmosfera de suspense.
Após o final da aclamada série Succession, Jesse Armstrong se aprofunda na sátira verossímil do longa Mountainhead (Foto: HBO)

Gabriel Diaz

Tal qual uma festividade caseira entre amigos num final de semana comum, quatro bilionários se reúnem em uma mansão isolada nas montanhas para jogar pôquer, beber uísque caro e compartilhar trivialidades. Só que, neste caso, as trivialidades envolvem desestabilizar economias nacionais, incitar guerras civis com deepfakes e debater a aquisição de países inteiros como se fossem startups promissoras. 

Continue lendo “Mountainhead: um filme mais interessado em parecer inteligente do que em o ser, assim como os bilionários”

A 4ª temporada de Abbott Elementary nos ensina para além das salas de aula

Na imagem, da esquerda para a direita, há uma mulher negra de cabelo longo e liso, vestindo uma blusa marrom, uma calça de tom escuro e um crachá no pescoço. Ao seu lado, há uma mulher negra de cabelo curto e liso, vestindo uma camisa amarela, um colar de pérolas e calças azul-escura. Em seguida, há um homem negro de cabelo curto vestindo um suéter e casaco marrom, com um crachá no pescoço, uma calça social azul e um cinto de couro. Próximo a ele, há uma mulher negra sorrindo com cabelos longos e cacheados, vestindo um vestido colorido, brincos dourados e um crachá no pescoço. Ao fim da imagem, há um homem branco de cabelo cacheado, suéter listrado colorido e crachá no pescoço, e, ao seu lado, uma mulher branca de cabelo ruivo e longo, usando um casaco preto, uma blusa verde e calça preta.
A série da ABC já recebeu mais de 30 indicações ao Emmy Awards desde seu lançamento oficial em 2021. (Foto: ABC)

Victor Hugo Aguila

Não é novidade que Abbott Elementary é excelência em fazer comédia. Ao longo de quatro temporadas, os excêntricos funcionários da escola pública na Filadélfia – com menção honrosa aos icônicos alunos – nos mostram como o humor é uma arma poderosa contra a precarização e a desigualdade. Seja através do roteiro original ou das atuações marcantes, a obra nos reafirma seu impacto e influência na televisão norte-americana. 

Continue lendo “A 4ª temporada de Abbott Elementary nos ensina para além das salas de aula”

Com planos longos e feridas abertas, Adolescência retrata o caos que é crescer

Aviso: este texto contém spoilers

Cena da série Adolescência. Duas personagens aparecem em destaque, o fundo é escuro e neutro, como um ambiente fechado. Na frente, um pouco desfocado, há um homem adulto de perfil, usando uma camisa vermelha, o detetive Luke Bascombe. Seu rosto está parcialmente cortado pela borda direita da imagem. Atrás, de forma mais nítida, está a personagem Jamie Miller, um garoto com expressão séria e olhar fixo, olhando para frente, mas de cabeça baixa. Ele tem cabelo escuro e curto, e veste uma blusa cinza clara.
Adolescência é uma minissérie britânica criada por Jack Thorne e dirigida por Philip Barantini (Foto: Netflix)

Lara Fagundes

Um garoto de 13 anos é acusado de assassinato. A pergunta que fica é: como alguém tão novo poderia cometer algo tão cruel? É com essa premissa que Adolescência, da Netflix, traz à tona temas como masculinidade tóxica, rejeição e sentimentos reprimidos. A série prende a atenção, não apenas pelo mistério, mas pela forma como o desenvolve. Intensa e desconfortável, a trama lembra o drama Defending Jacob (2020), da Apple Tv, porém com um diferencial: em vez de manter um final aberto, possui um desfecho com a confissão, que tira qualquer um da zona de conforto.

Continue lendo “Com planos longos e feridas abertas, Adolescência retrata o caos que é crescer”

Amores Materialistas é fútil e previsível, mas, ainda sim, realista

Aviso: este texto contém spoilers

Cena do filme Amores Materialistas. A cena retrata um casal, Pedro Pascal e Dakota Johnson, em um ambiente urbano, com estilo casual e foco nas expressões e interações sutis entre eles. O homem, mais alto, tem cabelos castanho-escuros, bigode e veste casaco bege com camisa castanho-alaranjada, exibindo expressão neutra. A mulher, de cabelos castanho-escuros em camadas com franja, veste um casaco de couro preto e apresenta semblante levemente sério. O enquadramento é próximo, destacando o casal contra um fundo urbano desfocado, criando profundidade e realce visual. A iluminação natural e difusa indica uma cena ao ar livre durante o dia, com tons neutros e abordagem realista, sem efeitos estilísticos marcantes.
Os três protagonistas do filme já participaram da Marvel (Foto: Killer Films)

Marcela Jardim

Vendido como uma comédia romântica charmosa e leve, Amores Materialistas chega aos cinemas embalado por cartazes luminosos, diálogos espirituosos e a promessa de um romance improvável. No entanto, sob a direção de Celine Song, a obra se revela muito mais próxima de um estudo sociológico do que de um escapismo açucarado. Ao centro da trama está Lucy (Dakota Johnson), cuja construção é deliberadamente marcada por uma frieza controlada e uma beleza comum. Ela é a síntese da protagonista superficial: elegante, discreta, previsível e incapaz de se despir da persona que criou para si. A personagem atua como casamenteira em uma agência que trata encontros como transações de mercado — uma espécie de ‘Tinder humano’ em que o amor é reduzido a compatibilidades de status, aparência e renda.

Continue lendo “Amores Materialistas é fútil e previsível, mas, ainda sim, realista”

Quarteto Fantástico: Primeiros Passos é familiar, fantasioso, divertido e, de fato, fantástico

Aviso: O texto contém alguns spoilers

A imagem mostra os quatro integrantes do Quarteto Fantástico — Reed Richards, Sue Storm, Johnny Storm e Ben Grimm — em uma rua da cidade, ao lado de um veículo futurista azul. Distribuídos em diferentes pontos da cena, os heróis exibem poses de alerta e nervosismo, encarando um novo desafio. A atmosfera é fria e dramática, reforçada pelo cenário de cidade grande em pleno inverno. Usam uniformes azul-claro com variações de branco e o número 4 em destaque no peito, reforçando a identidade do grupo. Reed, esguio e sério, veste um traje inteiramente azul; Sue, de postura atlética e serena, tem gola branca no uniforme e aparência etérea; Johnny, jovem e confiante, exibe braços e gola brancos, com chamas vivas nas mãos; Ben, corpulento e coberto por pele rochosa alaranjada, usa faixas brancas até os cotovelos e roupas de estilo retrô. O fundo é urbano, com tonalidade azulada, e a iluminação clara e uniforme destaca os detalhes dos trajes e os efeitos visuais, criando uma atmosfera neutra e moderna centrada na apresentação dos heróis.
O filme marca o retorno do Quarteto Fantástico ao MCU, após a aquisição da Fox pela Disney em 2019 (Foto: Marvel Studios)

Marcela Jardim

Quase vinte anos depois da versão morna de 2005 e do desastre completo de 2015, Quarteto Fantástico: Primeiros Passos (2025) chega como a reinvenção mais ambiciosa da equipe que, por tanto tempo, parecia amaldiçoada no cinema. Sob uma Marvel Studios mais madura, o filme surpreende ao deslocar o foco da ação pela ação e propor uma narrativa centrada na ideia de família como núcleo emocional e político, sem abandonar o tom aventureiro típico do gênero. A aposta é clara: em vez de heróis distantes e inatingíveis, o longa apresenta figuras profundamente humanas, cujos poderes servem mais como extensão de seus vínculos do que como ferramentas de ego. Em conjunto com Superman (2025), o longa veio para aquecer os corações – nerds ou não –, trazendo uma boa adaptação e com mensagens sensíveis.

Continue lendo “Quarteto Fantástico: Primeiros Passos é familiar, fantasioso, divertido e, de fato, fantástico”

F1 surpreende com adrenalina e megaprodução mas grita sexismo

Aviso: O texto contém alguns spoilers

Fotografia dos atores Damson Idris, homem negro de olhos e cabelo pretos e bigode, e Brad Pitt, homem branco e loiro dos olhos azuis, vestindo macacões de corrida brancos com laterais pretas e patrocinadores por toda sua extensão, no set de filmagem ao lado de um dos produtores, homem de boné verde e preto, e o diretor Joseph Kosinski, homem de boné cinza com ‘Bell’ escrito em vermelho.
Antes de iniciarem as filmagens, Brad Pitt e Damson Idris passaram por um período de testes e treinos com carros de Fórmula 2 e Fórmula 3 (Foto: Apple Original Films)

Livia Queiroz 

No final de junho, F1: O filme estreou nos cinemas com o objetivo de ser aclamado pelos fãs do esporte, mas teve uma surpresa: a imensa adesão de curiosos da narrativa extremamente eletrizante mostrada no trailer. Prometendo e cumprindo uma história completamente focada no automobilismo, o diretor Joseph Kosinski conseguiu alcançar um grande público para a estreia, atingindo um recorde de audiência de 293,6 milhões de dólares na bilheteria mundial. Estrelando Brad Pitt como piloto veterano, o desenvolvimento baseia-se em sua falta de vínculo com as competições das quais participa depois de ter sofrido um grave acidente nas pistas. 

Continue lendo “F1 surpreende com adrenalina e megaprodução mas grita sexismo”