Aviso: Este texto contém spoilers

Guilherme Moraes
Há poucas semanas, Christopher Nolan fazia sucesso com A Odisseia (2026), uma adaptação da obra de Homero focada na culpa de Odisseu. Anos atrás, o próprio diretor lançou Oppenheimer (2023), uma história também de remorso, dessa vez pela criação da bomba atômica. Apesar das diferentes abordagens, A Morte do Robin Hood de Michael Sarnoski também percorre o caminho da culpa, porém, neste caso, focando em uma escala individual.
Se nas obras de Nolan o sentimento de culpa recai muito na ótica política de uma social-democracia, que foi permissiva com o ressurgimento da extrema direita – faz 10 anos desde que Donald Trump foi eleito pela primeira vez –, Sarnoski parece ir por um lado mais individual em um mundo de violência. Robin Hood (Hugh Jackman), diferente do herói grego e do físico estadunidense, não mudou o mundo e nem é culpado pela crueldade dele, mas, ainda assim, é responsável pelas inúmeras vidas que modificou. O longa, então, mal se apega à violência. As cenas de luta e morte acontecem apenas no começo da obra. O que se segue são quase duas horas de Hugh Jackman observando discretamente uma realidade assolada por seus crimes.
Não se trata de um conto épico. Pelo contrário, é bem anticlimático, sem grandes lutas, jornada do herói ou redenção. Como o próprio título antecipa, Robin Hood irá morrer, e sua morte será em um monastério em busca de remissão. Sarnoski e Pat Scola filmam a cena como um quadro barroco, a partir de planos abertos, contrastes entre o fundo escuro e uma iluminação no ponto de interesse. A contradição do personagem também alimenta a própria ideia barroquista, com a diferença da ausência de qualquer teor sexual. Seu protagonista não consegue desejar nada pois encontra seu legado sangrento em tudo o que vê.

A imagem de Robin Hood parece uma mistura de Amador (Nelson Xavier) de Comeback (2016) e Ethan Edwards (John Wayne) de Rastros de Ódio (1956). Amador é um ex-assassino que deixou de ser útil quando seu entorno foi se tornando menos violento. No entanto, ele ainda permanece livre, sem ser punido por seus crimes. Ethan é um personagem abertamente racista, mas é necessário em uma realidade marcada pela barbaridade. Sua jornada é épica, porém, seu final mostra que a sociedade ideal não pode aceitar pessoas assim. Para figuras como eles, o caminho para se livrar da culpa ou até mesmo receber o perdão é a remissão. Contudo, de qualquer forma, eles não se adequam ao mundo que buscamos criar, a sociedade ideal que queremos. Portanto, seu final não poderia ser outro senão a morte. Robin Hood, não pode perambular pelo mundo como Amador esperando sua volta, deve aceitar a dura verdade, ele é danoso para o futuro.
Os últimos atos do lendário fora da lei vagueiam entre a tentativa de redenção e a de mudança. Sua relação com Margaret (Faith Delaney) mostra um pouco de como ele tenta protegê-la e criar certa relação paternal. Entretanto, no fim, percebe que sua própria presença é mais perigosa. Os momentos com Brigid (Jodie Comer) também denotam esta mudança, ao revelar quem ele é de fato e o que fez a ela. A Morte do Robin Hood, no fim das contas, é sim uma jornada, mas até a morte. Para que ela faça sentido, o ladrão precisa confrontar a si mesmo.
Esses últimos lançamentos de Hollywood apontam para um certo pessimismo em relação ao mundo. Até mesmo as obras de super heróis que estão buscando serem mais coloridas e cartunescas, não parecem sinceras ao fazerem de fato. Filmes como Homem-Aranha: Um Novo Dia (2026) e Superman (2025), ainda parecem carregar um dose de cinismo ou de estranheza em seu otimismo. Pelo bem ou pelo mal, esses longas e os que estão por vir dizem algo sobre a nossa realidade. Que estejamos dispostos a ouvir.
